Você acredita na morte do livro?

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“Se você quer ver Deus rir, fale a Ele sobre seus planos”. A frase atribuída a Woody Allen brinca com a nossa incapacidade de controlar o futuro e de não conseguir antecipar os eventos, ainda que o exercício de fazer previsões sobre o que ainda vai acontecer seja inerente ao ser humano desde o momento em que desenvolvemos a capacidade de pensar.

Tirésias, o profeta grego que anteviu a tragédia de Édipo ou os oráculos da Mitologia são antigas evidências de quanto o desejo de enxergar o futuro antes apaixona a humanidade. Os sucessos da ficção científica não me deixam mentir.

Na literatura do século XX, a arte  de imaginar tempos vindouros criou grandes clássicos.  Distopias como Admirável Mundo Novo, Laranja Mecânica e 1984, escritas por célebres nomes da literatura inglesa como Aldous Huxley, Anthony Burgess e George Orwell conceberam realidades ficcionais de um mundo décadas a frente do tempo em que as histórias foram escritas e, é verdade, conseguiram se aproximar de conceitos como o avanço da biotecnologia, da proliferação de câmeras e até da música eletrônica. No entanto, nenhuma dessas obras conseguiu, por exemplo, imaginar o telefone celular.

Todos os exemplos acima podem ser encontrados em livros e, mais do que coincidência, a intenção ao citá-los é a de provocar. Sim, porque o livro, onde muitas vezes os homens registraram suas impressões futurísticas, também é alvo de previsões acerca do seu futuro há muito tempo.

Trabalho com Internet há mais de dez anos e, embora tenha contato diário com a tecnologia, nunca abri mão dos livros em papel que, para mim, suprem uma necessidade não apenas técnica, mas também afetiva. Por isso, sempre acompanhei a discussão (e também as previsões) sobre o mercado editorial e o destino do livro impresso.

Desde o surgimento da web 2.0 – aquela que nos trouxe as redes sociais – leio e vejo os formatos digitais engolirem jornais e revistas no papel e, por consequência, muitos apostaram que o mesmo se daria com os livros físicos.

Em 2011, Silvio Meira, professor emérito da Universidade Federal de Pernambuco deu 15 anos de sobrevida ao livro impresso. Argumentou que esse era tempo suficiente para que fossem substituídos pelo livro digital. Um ano antes, Jean Paul Jacob, pesquisador emérito da IBM na Califórnia, afirmou algo parecido, cravando que, em um futuro próximo, livros digitais e eletrônicos não dividiriam o mesmo tempo e espaço no planeta Terra.

Apesar desses argumentos, anos depois dessas previsões, mais precisamente em 2016, um estudo a da Pew Research Center nos Estados Unidos parece contrariar essa tendência. Segundo a pesquisa, apesar de tantas parafernálias tecnológicas à disposição, os americanos não estão lendo menos livros impressos. 65% dos adultos no país afirmaram ter lido um livro impresso no último ano, mesmo número apontado em 2012. É verdade que 28% disseram ter optado por ebooks, mas esse dado permaneceu estável nos últimos dois anos.

Enquanto isso, 6% das pessoas afirmaram ler exclusivamente livros enquanto 38% ainda dizem preferir apenas a leitura em papel. Além dos números, há também especialistas que descartam a aposentadoria dos livros impressos. O historiador Robert Darnton, que foi Diretor da Biblioteca de Harvard, é um deles. Embora reconheça que esta transformação tecnológica é a mais sensível na longa vida dos livros, ele acredita que livros digitais e impressos coexistirão por muito tempo ainda. Ele relembra: “existem várias profecias de que o livro impresso iria acabar. Todas falharam”.

De fato, para quem em 2011 previu o fim do livro nos 15 anos seguintes, é preciso uma transformação muito mais rápida do que aquela que já vem ocorrendo para que a profecia se concretize ainda na próxima década.

Se levarmos o dilema dos livros para outras mídias, lembraremos que o vinil foi “morto” pelo CD, que por sua vez sucumbiu ao MP3 que, recentemente, cedeu seu lugar ao streaming. Mas o vinil, o mais antigo dessa cadeia, continua vivo. Não como o mais popular formato, mas como uma experiência diferente aos ouvidos de muitos apaixonados por música.

Como consumidor tanto do livro digital quanto do impresso, mas longe de me colocar no papel de pitonisa para garantir o que virá daqui pra frente, apenas destaco que entre um formato e outro é preciso se levar em conta que existem diferentes experiências. No livro digital há uma incrível facilidade de se traduzir palavras de um texto, marcar (e consultar posteriormente) e, claro, carregar várias obras em um mesmo lugar quando se viaja.

Mas quando é para se debruçar na literatura e nas obras de arte escritas através dos séculos, ainda acho que o livro é um esporte de contato físico. Para ler boas histórias ainda não encontrei nenhuma tecnologia melhor do que a definição de livro inventada lá no século XV.

E você? Quanto tempo acha que o livro impresso ainda tem?

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