Tom Zé: figurinha do Brasil

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Tom Ze

Não há juiz mais rigoroso que a opinião pública digital.

Em tantos bites gastos na produção implacável de julgamentos, um deslize basta para alguém colocar sua biografia a perder.

Por falar nelas, Caetano Veloso e Roberto Carlos, por exemplo, não sem alguma justiça, foram condenados a chibatadas virtuais contra suas posições antidemocráticas sobre a legislação das histórias pessoais. Infelizmente, seguindo a linha de qualquer sistema penal brasileiro, nas redes sociais também é difícil controlar excessos e há quem tenha usado a polêmica para diminuir obras extensas de dois grandes artistas da música.

Recentemente, coisa parecida se deu com Tom Zé por conta de outro tema. Como muitos artistas fazem, o cantor baiano assinou contrato e cedeu sua voz para um comercial da Coca-Cola. Mas o refrigerante desceu torto. O gesto foi suficiente para uma saraivada de cacetadas digitais vindas não só dos que o penalizavam por supostamente ter se vendido e algumas viúvas de Stalin que o acusaram de se curvar ao deus capitalista. Há os oportunistas que,  embora não vissem problema caso outro artista fizesse o mesmo, aproveitaram a onda para tentar reduzir a grandeza de Tom Zé.

Mas a história do músico é dessas coisas impossíveis de se apagar. É bom lembrar seu lugar cativo no time da Tropicália que mudou os rumos da música brasileira e interferiu na política durante a Ditadura Militar (Tom Zé sempre fez questão de propagar suas ideais políticas e jamais se omitiu mesmo quando o adversário era poderoso). Depois do sucesso, viveu no ostracismo, até cair no gosto de David Byrne, líder do Talking Heads e pesquisador das sonoridades dos trópicos, que impulsionou o músico brasileiro a uma carreira nos festivais europeus voltados para ouvidos mais exigentes.

De volta à polêmica nas redes sociais, frente ao pelotão de fuzilamento de teclados e celulares, Tom Zé mostrou serenidade. Lançou um álbum independente e o batizou Tribunal do Feicebuque. Em vez de alimentar agressividade e rancor, fez um disco especial para o assunto, com apenas 500 cópias e disponível para download gratuito em sua própria página da web. Guardadas as distâncias do tempo, da forma e da causa, as letras são um pouco como a carta deixada pelo filósofo Sócrates, antes de sua execução por envenenamento na Grécia antiga: uma legítima defesa ante a insensatez de quem o julga.

Afinal, Tom Zé não é figura que se dá ao luxo de fugir da polêmica. Basta rememorar a clássica imagem da capa de um de seus álbuns, o “Todos os olhos”.

Além disso, ao que tudo indica, e ao contrário de muitos artistas brasileiros, o tempo não parece indicar mudança no caráter de Tom Zé. Logo após o desencadeamento da polêmica com a Coca-Cola, questionado por um jornalista se também assinaria um contrato para a Copa do Mundo com a Fifa, respondeu:  “Aí, eu não me meto. A Fifa é um negócio de trapaceiros. O futebol é um esporte lindo, administrado por bandidos.”

Em tempo: Tom Zé era fã do Botafogo, mas acabou se apaixonando pelo Corinthians e até já fez música para homenagear o clube na ocasião do segundo título mundial.