Pearl Jam

Acabo de ler no blog do Lucio Ribeiro que a banda fará shows no Brasil em novembro.

Há dez anos fui vê-los tocar no Pacaembu quando o prefeito da cidade era o atual senador José Serra.

Era a primeira vez que os caras tocavam no Brasil e foram obrigados a terminar tudo antes das 22h para não atrapalhar a vizinhança rabugenta do bairro que reclamava do barulho para o prefeito (coisa que Eddie Vedder fez questão de ironizar).

Além de começar (e acabar) cedo, acho que esse foi o único show de rock em que estive e era proibido vender cerveja ou qualquer bebida alcoólica, embora uns caras tenham camuflado e entrado com aqueles sachês coloridos (e horríveis!) de pinga com mel pra vender, deixar a molecada insana e provar como certas proibições simplesmente não funcionam.

Juro que não tomei.

Com tudo isso e também por tudo isso, esse foi um dos melhores shows da minha vida.

Pearl Jam ao vivo? Recomendo sempre.

Lollapalooza, Copa do Mundo e os eventos à brasileira

LollapaloozaNo último sábado fui ao Lollapalooza.

Confesso que não havia comprado ingresso por causa do preço e só compareci porque, na última hora, acabei presenteado com um convite.

A chegada foi tranquila de transporte público. Segui a orientação dos organizadores e a experiência de quem já havia ido a dois shows de rock em Interlagos.

Definitivamente, o autódromo não é uma boa escolha para eventos dessa natureza ( aliás, já ouvi mais de uma vez que nem para corridas ele é o melhor exemplo).

Porém, a tranquilidade acabou rápido. Ao entrar, minha grande dúvida era como funcionaria (ou não) a estrutura megalomaníaca com 4 palcos, os mais distantes separados por 2,5 quilômetros de distância.

Além dos palcos, haviam banheiros, quiosques para comprar fichas, barracas de comes e bebes, grandes espaços para os patrocinadores e muita, muita gente.

Em pouco mais de uma hora zanzando lá dentro, não tive sucesso em praticamente nada do que tentei fazer. A fila das fichas era enorme e demorada e as barracas de comida estavam superlotadas. Os únicos shows que rolavam estavam longe.

Assim que uma apresentação acabava, uma quantidade enorme de pessoas tentava se locomover para comer, beber e usar os banheiros, mas a geografia do autódromo, cheia de afunilamentos, criava enormes gargalos que formavam enormes congestionamentos de pessoas.

Grandes concentrações de gente, muito mais do que a infra suportava, e o evento se tornou uma representação perfeita da cidade de São Paulo: um fracasso em mobilidade.

Quem não conseguia comprar ficha, tentava pagar os ambulantes “por fora”. Por sua vez, os vendedores que viram uma oportunidade de levar um a mais cobravam em dinheiro, alguns se negavam a vender com ficha e quem já havia comprado as fichas começava a ter dificuldades em consumir uma pipoca, como foi o meu caso.

Não houve uma pessoa que conversei depois do evento que não reclamasse da dificuldade de acesso aos serviços do festival.

A intenção de se fazer um grande evento de rock é louvável e espero que aconteçam outros. No entanto, se pudesse dar apenas um conselho aos organizadores, diria: menos.

Menos palcos, menos preço nos ingressos, menos de nove reais em uma cerveja.

A tentativa de se fazer um evento gigantesco, de proporções muito maiores que aguentava o local e a organização provocou uma overdose na estrutura.

Penso se a vontade de lucrar não tirou a vontade de se satisfazer os fãs de música e, talvez, valesse uma reflexão com um pouquinho da filosofia de Woodstock: menos dinheiro, menos ostentação e mais música, por favor.

________________________________________________________________

Ao voltar do show, demorei vários minutos para entrar na estação de trem e a Copa do Mundo me veio a cabeça, junto com a frase “a Copa das Copas” que retumbava ao fundo.

O Mundial padrão FIFA poderia ser feito com menos sedes e com menos estádios novos, construídos de última hora.

Poderíamos fazer uma Copa do Mundo no Brasil da maneira que o país é capaz de suportar, mas optou-se por algo grandioso, com porte e garbo  do tamanho da ambição de se ganhar dinheiro dos organizadores.

O atraso dana conclusão nos estádios e a menos que mínima execução das obras de infraestrutura comprovam que essa mania de grandeza já atrapalhou.

Como no Lollapalooza, na Copa do Mundo será preciso torcer para que a capacidade de improviso acima da média do brasileiro e a tolerância do povo com os péssimos serviços oferecidos sejam capazes de dar conta para que tudo aconteça sem grandes enroscos ou até mesmo em tragédia.

Black Sabbath eterno

Foto: AP/Jonathan Short - G1
Foto: AP/Jonathan Short – G1

Apesar de ter nascido pouco tempo depois de Ozzy ser dispensado do Black Sabbath, foi à formação original do grupo e aos seus primeiros álbuns que me voltei durante a adolescência e que me abriram as portas do rock. Entre elas algumas que me levaram à insensatez de entrar em discussões com outros fanáticos por achar que Tony Iommi montou excelentes bandas com Dio e Ian Gillan, por exemplo, mas Black Sabbath só existia de verdade com Ozzy no microfone.

Aos 11 anos, comprei o CD Sabbath Bloody Sabbath, quinto álbum de estúdio da banda e até hoje aquele que ouço com mais carinho. Quase sempre de cabo a rabo.

Depois, compraria o Volume 4, outra preciosidade, até chegar à gênese do heavy metal que foram os dois primeiros: Black Sabbath, título de estreia, e o clássico seguinte, Paranoid.

Porém, confesso:  ao ler pela primeira vez a notícia sobre um novo disco com a formação original (ou ao menos 75% dela, sem o baterista Bill Ward) minha reação foi de pura desconfiança.

Aquela altura já tinha aprendido que a decadência é inevitável  até para meus heróis do rock and roll, portanto não gostaria que o Black Sabbath, minha banda do coração, a registrasse em estúdio como tantas outras clássicas e decadentes bandas fizeram ao lançar novos trabalhos.

Quando saíram as primeiras resenhas, fiz questão de não ler. Fugi da competição – que premia ninguém – para saber quem tem a opinião mais rápida sobre um novo disco liberado na rede. Às vezes, acho que já há “críticos” escrevendo sobre discos que nem serão lançados. Na era digital leva-se muito em conta a velocidade.

Felizmente, o Black Sabbath faz parte de outra época. Tony Iommi consegue ser um dos maiores nomes da guitarra mundial sem precisar tocar milhares de notas por segundo. Basta a nota certa no tempo exato. Isso faz diferença.

Inclusive, revelam as notas da imprensa, uma dos acertos do experiente produtor Rick Rubin foi deixar os tiozões à vontade no estúdio para tocar sem pressa e deixar que as músicas cumprissem seus ciclos de 5, 6 ou até mais minutos de duração.  Depois, fiz minha parte e ouvi o disco novo com calma mais de uma vez. Sensação de ótima surpresa. Diria até que “13”, como Ozzy batizou o álbum novo, chega a ser melhor do que alguns trabalhos pré-separação da banda no fim dos anos 70.

Tudo isso encerrava uma questão. Sim, eles ainda são capazes de fazer novas músicas boas! Só faltava vê-los ao vivo.

Ozzy no mesmo palco que  Tony Iommi. Sinceramente achei que nunca teria oportunidade de ver essa cena. No entanto, assistir a isso com o guitarrista passando por um tratamento de câncer e Ozzy voltando à rotina do que foi toda a sua vida – uma  reabilitação sem fim – já parecia roteiro de filme. E não é que foi mesmo?

Se não há mais a mesma energia natural de quem tem 20 ou 30 e poucos anos, nem com o gás proporcionado por otras cositas, alguns sinais nem o tempo apaga. Ao contrário, os tornam ainda mais marcantes.

A velhice deixou Ozzy com mais jeito de bruxo-alucinado. Seu carisma está intacto e ele até aprendeu a lidar melhor com a voz para não desafinar tanto durante seus berros.  Tony Iommi, em seu sobretudo preto e sem as duas pontas dos seus dedos da mão esquerda que o fizeram se reinventar enquanto  músico, mantém a pegada monstruosamente pesada em sua guitarra. É o pai da banda e tudo começou por ele. Geezer Butler, baixista e letrista, é quem dá o ritmo tranquilo,  seguro e, claro, com todo o arsenal de graves que as músicas mais sombrias da história do rock exigem. Durante as duas horas de apresentação permanece praticamente estático em um dos cantos do palco. É a cama perfeita para Iommi deitar com potentes solos.

Não há telão de alta definição, não há coreografias, não há efeitos especiais, nem pirotécnicos.  Este um luxo reservado somente para mestres capazes de reter a atenção de 70 mil pessoas apenas com música e presença de palco enquanto o espetáculo prossegue entre delírios do público extasiado e os sorrisos dos velhos roqueiros.

Definitivamente, o Black Sabbath trilhou nas sombras do rock seu caminho para a eternidade na música. E eu que cheguei por décadas atrasado pude vê-los e ouvi-los de perto.

PS.: Mais uma vez a organização de um grande evento em São Paulo foi horrorosa e indigna da apresentação de uma banda histórica como o Sabbath e completamente desrespeitosa para com um público que pagou um dos ingressos mais caros da turnê mundial da banda. Mas sobre isso prefiro não me estender por já não ter mais esperança de que alguma coisa mude para melhor ainda neste século. 

Volta do Faith no More

Você, torcedor de algum time, já deve ter imaginado num simples exercício de prazer, como seria bom ver aquela equipe que marcou época jogando novamente.

Algo mais ou menos como se o corinthiano pudesse trazer o time de 99 no lugar daquele horroroso que caiu ou o palmeirense, na mesma situação, fosse capaz de resgatar a equipe de 94 (ou ainda mais longe, o timaço da Academia).
Ou ainda, se o torcedor brasileiro conseguisse levar para a Copa de 90 o time de 82 (sem o Lazaroni também, óbvio).
Claro que as barreiras físicas e do tempo impedem que delírios como esse se tornem reais. Ao menos no futebol.
Porém, acredite, na música isso é possível. Mais especificamente, no Rock, foi exatamente isso que ocorreu.
Claro que o leitor vai dizer que não há novidade nenhuma nos dias de hoje em se assistir o retorno de medalhões com suas velhas guitarras e companheiros de palco.
Seja por oportunismo, por necessidade de fazer uma graninha ou mesmo só por prazer, uma enxurrada de grandes nomes andaram se reecontrando com a sua torcida, ou melhor, seu público. E não são poucos para torcer o nariz, fazer bico e dizer que essas reuniões são pura jogada comercial (e o que é não é em nossos tempos modernos?). De qualquer forma, isso mais parece uma evidência de que em todo lugar há sempre uma turma do amendoim para cornetar.
Desfeito no ano de 1998, o Faith no More voltou em 2009 para dar espetáculo. E conseguiu.
Um timaço de músicos que mais de uma década depois de se separar, repetiu aquilo que faziam de melhor: um som moderno, um concerto autêntico e com muito mais disposição do que a grande parte das “novidades” sonoras do My Space.
No último sábado, o capitão Mike Patton e sua trupe (desfalcada do guitarrista original, mas nem por isso menos afinada) detonaram uma apresentação impecável na Chácara do Jockey em São Paulo (Festival Maquinária). Com chuva e tudo, fizeram os fãs esquecerem as intepéries do tempo (e aqui não me refiro ao clima, mas ao passar dos anos).
O Faith no more fez com que os fãs da música pudessem reviver uma belíssima amostra do que melhor se fez no rock nos anos 80 e 90 e, talvez, mostrar para os novatos algo que eles ainda não puderam ver em bandas hypes da internet: carisma, autenticidade, conhecimento musical e, por que não dizer, geográfico. A banda cantou em português, trocou o “ela é carioca” por “ela é paulista” e ainda preteriu o tradicional “fuck” pelos bem mais sonoros palavrões em português: “porra, caralho”.
Sem se colocar no pedestal de quem sempre precisa ser levado a sério, Mike Patton e cia não renegaram nem a veia brega que se mistura às influências de metal, funk e rap nas músicas do grupo.
Formação clássica é isso aí.

Anos desperdiçados

Há mais de dez anos, durante o show do Kiss, o blogueiro ainda adolescente constatou que Interlagos poderia sediar GPs de Fórmula 1 (há quem pense diferente). Entretanto, não possuía condições para receber uma apresentação musical com um público de final de campeonato.

Ontem (último domingo), dez anos mais velho, aprendi outra vez que uma década não é tempo suficiente para que as coisas mudem em meu país.
Junto a mais de sessenta mil pessoas, passei pelos mesmos terríveis problemas de 1999 e ainda com agravantes.
Em São Paulo, os fanáticos pelo Iron Maiden, fãs de Heavy Metal que são quase uma torcida de futebol, porém com a fúria mais direcionada aos acordes pesados, além de pagar o alto preço dos ingressos, pagaram custosas penitências para assistir ao espetáculo de seus ídolos. Extamente igual ou pior como passam os torcedores nos estádios do Brasil (e ainda pretende sediar uma Copa do Mundo…).
Filas para entrar com inúmeras voltas (quilômetros de gente atrás da outra!) e sem qualquer controle: muitos só conseguiram entrar no Autódromo quando a terceira faixa era executada.
Portões de acesso insuficientes. Na maior parte do tempo, houve apenas um disponível.
Na saída, muitos demoraram mais de uma hora para dar com a cara na rua. O trajeto era espremido em corredores completamente incapazes de absorver a massa. Duvido que milhares de pessoas, no momento da travessia, não pensaram estar diante de uma possível tragédia.
Para dar um ar mais épico como pedem as canções da banda, os fiéis tiveram que assistir a apresentação pisando sobre uma lama movediça. Afinal, é difícil supor (e os organizadores provavelmente nunca ouviram a música de Tom Jobim dizer: “em março as chuvas são recorrentes”) que água mais terra igual a lama.
Um cenário digno de trazer a mente de qualquer roqueiro o lendário festival Woodstock, realizado numa fazenda. Só que em Interlagos, apesar do tratamento de estrume dado aos fãs, não havia nenhum idealismo. Apenas mais um casual destrato com o público no Brasil.
Quanto ao show, muito bom.
Foi como sempre. Sejam eles brasileiros ou não. Sejam das chuteiras ou das guitarras. Lamentável é que haja tanto brucutu com poder no Brasil para roubar o brilho dos craques.