Messi e a pressão nossa de cada dia

Messi

texto originalmente publicado no LinkedIn

A surpresa da Copa América aconteceu depois de mais uma derrota nos pênaltis da Argentina para o Chile: Messi renunciou à seleção alviceleste.

À primeira vista, sua decisão está exclusivamente vinculada a mais uma derrota. Não concordo com essa tese e, embora acredite que o craque irá mudar de ideia, acho que vale a pena identificar as causas que o levaram a essa escolha.

Como se sabe, Messi sempre foi visto como o cara que resolveria a abstinência de títulos da seleção argentina, há 23 anos sem erguer uma taça. Mais do que isso, os argentinos, incluídos aí imprensa e torcida, exigiram dele que não só liderasse, mas carregasse o time para essas conquistas.

Depois de tudo que fez pelo Barcelona, é até compreensível que os argentinos vissem nele a salvação. Messi, o predestinado. Mas ao que parece, foi aí que se criou um novo problema.

Na mitologia grega, Atlas carrega as abóbodas celestes em suas costas não como prêmio, mas como castigo imposto por Zeus. Na Argentina, Messi também foi incumbido de carregar tudo em suas costas.

Na mitologia grega, o titã Atlas carrega as abóbodas celestes em suas costas não como prêmio, mas como castigo imposto por Zeus. Na Argentina, Messi também foi incumbido de carregar tudo em suas costas. Como se fosse sua obrigação resolver tudo sozinho. Não funcionou.

A federação de futebol da argentina é tão amadora e desorganizada quanto a nossa CBF e o time da argentina também possui suas carências. Mas a conclusão de que a seleção argentina não é o Barcelona, apesar de óbvia, não impediu que o senso comum pleiteasse, na seleção, o Messi do Barcelona. Para muitos só o alto salário que ganha um craque como ele já justifica a responsabilidade compulsória que recebeu. Há também o componente Maradona que, por si, rende também teses e análises.

Ainda que o próprio Messi tenha se colocado sob essa mesma carga pesada, a última decisão da Copa América mostrou, mais uma vez, que só pressão e cobrança somadas ao talento do jogador são insuficientes para resolver todos os problemas da Argentina ou, ao menos, o principal deles: um título.

O mais curioso é que, depois do anúncio em que abre mão da camisa argentina, os próprios argentinos parecem ter notado o equívoco. A segunda derrota para o Chile parece ter ficado em segundo plano. O objetivo, agora, é evitar um novo desastre: a saída do craque.

O jornal Olé publicou uma capa em que implora a permanência de Messi e até o presidente da Argentina ligou para o jogadorpedindo que ele não saia.

Enfim, parece que caiu a ficha. Embora seja um dos maiores jogadores da história, Messi é humano e não suportou o nível de pressão e exigência que lhe foi imposto. E isso é muito bom.

Como apontaram analistas, talvez essa humanização seja o primeiro passo para que a Argentina mude sua relação com o craque. Eles perceberam que, mais do que ninguém, Messi é argentino, se preocupa com a seleção do país e se incomoda em não vencer. Porém, não é capaz de solucionar tudo como eles imaginavam. No futebol e na vida, ninguém faz nada sozinho.

Quanto a nós, podemos aprender que pressão é bom, ajuda a motivar. Mas quando extrapola certos níveis do que é suportável não há salário alto ou talento capaz de trazer os resultados esperados.

Em tempos em que somos cada vez mais exigidos e nos impomos metas cada vez mais agressivas é bom lembrar que somos humanos. É bom respeitar nossas limitações porque, afinal, até o Messi tem as suas.

Falta filosofia ao futebol brasileiro

A primeira vez que, em uma roda de amigos meio embriagados, lancei a ideia de que ao futebol brasileiro falta filosofia, fui meio ridicularizado. Naquele dia, entendi que, em se tratando de futebol, é difícil defender uma linha lógica de raciocínio quando resultados, que não seguem lógica alguma, podem contrariar seus argumentos. Mas não desisti de formular um pensamento sobre isso.

À época, critiquei a substituição de Mano Menezes por Felipão. Não por gostar mais de um do que de outro. Minha tese era de que a troca seguia critérios puramente políticos. Nada tinha a ver com esporte. Era o recibo de que não tínhamos sequer um esboço de planejamento para ganhar a Copa em casa.

Naquele momento, escrevi um texto sobre isso dizendo que a administração da seleção brasileira era tão cheia de contradições que, mesmo fazendo tudo errado, corríamos o risco de dar certo e sermos campeões do mundo. Não seria a primeira vez. E apesar de o tempo todo torcer para o errado dar certo (o que também é paradoxal, admito), o que sobrou da Copa foi um grande vazio existencial.

Quando me refiro à falta de filosofia, obviamente não pretendo insinuar que a Alemanha ganhou a Copa do Mundo porque possui em sua história de pensamento um Nietzsche, um Schopenhauer ou um Kant, embora isso indique que o hábito de pensar por lá é valorizado. Ao bater na tecla de que nos falta uma filosofia, quero dizer que é preciso refletir mais sobre nossa própria existência, nossos valores e a nossa estética futebolística.

Todos falam da organização, da disciplina, da tecnologia e de tantos fatores que levaram os alemães a ganhar a Copa no Brasil, mas pouco se fala do exercício de pensamento que os alemães encararam depois de perder a Copa em 2002 para o Brasil.

Que tipo de jogadores queremos formar? Qual é o estilo de jogo que vamos praticar? Qual perfil de treinador procuramos? De que forma vamos atuar para alcançar aquilo que traçamos como ideal? Qual preparação é mais adequada para esse tipo de campeonato? Concentração longe das mulheres e da família ainda faz sentido no século XXI?

Essas e, provavelmente, muitas outras questões foram pensadas e repensadas nos detalhes, não só para que a Alemanha ganhasse uma Copa, mas para que permanecesse no topo do futebol por um longo período. Um campeonato nacional fortíssimo, título na Liga dos Campeões e uma seleção que, no mínimo, chega às semifinais nos últimos quatro mundiais confirmaram isso.

A filosofia estabelecida pelos dirigentes alemães não foi feita para ganhar o próximo torneio, mas para se firmar como potência nas próximas décadas. É isso que temos visto desde então. Um pensamento claro, com valores morais e estéticos permanentes que não se abalaram quando veio a primeira derrota, justamente na Copa de 2006, sediada pelos próprios germânicos.

Aliás, é importante ressaltar: uma filosofia no esporte não serve para vencer todas as competições. Nem quero dizer que qualquer filosofia não necessite de ajustes e mudanças ao longo do tempo. Se até a teoria da relatividade de Einstein (outro alemão!) pode passar por revisões, o que dizer de um conjunto de pensamentos sobre o futebol?

Mas uma filosofia no esporte, com preceitos bem definidos, serve para estabelecer metas claras daquilo que se pretende nessa vida e facilita a pavimentação do caminho para alcançar esse objetivo. O vôlei brasileiro é um exemplo. Não ganhamos todos os títulos que disputamos, mas há quanto tempo conseguimos nos manter entre os melhores?

Quando Bernardinho ou Zé Roberto passam por uma turbulência, como quando precisam renovar a equipe, não deixam que se abalem certas convicções adquiridas durante um longo e sério trabalho. Calma, não estou dizendo que um ou outro deva treinar um time de futebol, mas que seus exemplos podem servir de inspiração.

No Brasil, cultua-se muito o valor do improviso. E não há dúvidas de que dessa característica é possível se tirar proveitos. Mas sem uma estratégia, com metas claras a serem perseguidas, a tal capacidade de improviso se torna apenas um remendo mal feito. Aliás, se tivéssemos gente preparada e atenta ao que acontece no futebol mundial, veríamos que tanto a capacidade de improviso quanto a miscigenação de uma equipe que permite contar com os mais variados tipos de atleta, deixaram de ser uma exclusividade nossa e pesar apenas a nosso favor.

Há tempos, o Brasil monta times que em nada representam sua história de jogar bola. Abdicamos do passe, de um meio de campo criativo e da formação de jogadores talentosos. No lugar, colocamos volantes e zagueiros fisicamente privilegiados e um time simplesmente combativo. Não há filosofia tática e abandonamos nossa filosofia técnica. Falo isso com a segurança de um fã do catenaccio italiano, como alguém que sempre valoriza a importância de uma defesa consistente e também a garra e a disposição típica dos argentinos e uruguaios. Porém, esses componentes devem somar aos nossos valores tradicionais, nunca substituí-los.

No entanto, com as cabeças fracas que temos no comando do esporte é muito difícil acreditar que uma filosofia surja dali para nortear o futebol nas próximas décadas. Com gente da estirpe de José Maria Marín e Marco Polo Del Nero, o máximo que alcançamos é o pensamento pueril de tentar ganhar o próximo campeonato, desde que até lá seja possível lucrar ao máximo. Uma mentalidade tacanha, sustentada por um pragmatismo que pode nos levar a um poço ainda mais fundo.

A última coletiva de imprensa da CBF, para anunciar o “ex-empresário” Gilmar Rinaldi como coordenador da seleção, é a prova de que por ali ninguém tem ideia do que precisa ser feito, exceto quando o objetivo em questão é tirar proveito próprio de alguma situação. Essa, sim, uma filosofia tradicionalmente brasileira.

Dizer que essa é a pior crise do futebol brasileiro pode até ser exagero. Mas não há dúvida que se não houver uma reformulação na cúpula do futebol brasileiro, o eterno 7×1 nos servirá apenas como uma lembrança amarga de uma época que nunca ficará para trás. Aí, a única filosofia que acabará vingando é a de que a seleção brasileira merece o nosso desprezo.

ATUALIZAÇÃO: amanhã, Dunga promete ser anunciado como novo técnico. E isso pouco importa, simplesmente porque não teremos uma renovação estrutural. A pressa em anunciar o treinador é uma estratégia de Marín e Del Nero para desviar o foco.

Armin Van Buuren: Figurinha da Holanda

armin van buurenEle é um dos DJs mais conhecidos de todo mundo e sua música é tocada em grandes festas. Não por acaso, Armin Van Buuren foi convidado para tocar durante a Eurocopa de 2012, quando ela foi sediada pela dupla de países do leste europeu, na Polônia e Ucrânia.

Até aí nenhuma surpresa. O que chama atenção é outra festa comandada pelo DJ, quando em 2010 a seleção laranja, segunda colocada na Copa do Mundo, aterrissou em solo holandês.

O que para alguns países seria motivo de tristeza da torcida ou para os jogadores chegarem cabisbaixos ou, quem sabe, até serem tachados perdedores, na Holanda foi razão para uma grande festa. Com sua música eletrônica, Armin Van Buuren comandou uma recepção calorosa aos vice-campeões mundias. Ou melhor, os tri-vices campeões mundiais.

Além de 2010, a Holanda, com a memorável geração liderada por Johan Cruyff, também havia perdido as finais de 74 e 78 para Alemanha e Argentina, respectivamente. O que de certa forma só comprova como é respeitável alcançar uma final de Copa. E eles entendem o valor disso.

Veja o vídeo com a balada ao ar livre dos jogadores com as medalhas no peito:

Luxemburgo e o efeito Eike

Se a postulação “futebol é negócio” ficou batida,  vamos inverter e partir da premissa de que “negócio é futebol”. Principalmente para alguns para os quais ganhar dinheiro é esporte.

Daí, começa a teoria do “efeito Eike Batista” que gostaria de aplicar ao futebol. Ou apenas “efeito Eike”.

Craque dos cifrões, Eike Batista primeiro se destacou no campo de exploração do ouro. Com a chave do sucesso na mão, abriu muitas portas, inclusive no exterior, e foi parar na área do petróleo.

Como técnico vaidoso, Eike montou uma equipe a sua feição: milionária e que, no papel, prometia grandes conquistas. Como um dirigente sagaz, atraiu toda atenção para o seu time. Não esqueceu do marketing – tão aplaudido hoje no futebol brasileiro quanto um bom centroavante. Como se produzisse DVDs com os melhores momentos que ainda não aconteceram, incentivou a valorização do seu passe. Muita gente comprou. Sua fama de vencedor ajudava.

Até que, como se sabe,  os esquemas táticos de Eike deixaram de funcionar. Do seu projeto de conquistar o mundo como o homem mais rico, sobrou-lhe o rebaixamento a um calote bilionário.

Como a bola no chutão do zagueiro, o mundo dos negócios mostrou que a subida rápida é o primeiro passo para a queda vertiginosa.

Como no futebol, os negócios de Eike foram festejados pela crônica. Eram comum os incentivos ao megaempresário em várias partes da mídia. Havia até gente disposta a fazer coreografias, caso solicitado.

Até no futebol Eike  arriscou sua fezinha para se apropriar do novo Maracanã.

Ele também nunca abandonou outro componente comum ao jogo de bola: a superstição. No caso do ex-bilionário, é notória a fissura pela letra X, presente em todos os seus empreendimentos.

Até que vieram os consecutivos revezes. As promessas não vingaram, a má fase tomou conta e Eike passou de bestial para besta em pouco tempo.

É o “efeito Eike” que atribuo a Vanderlei Luxemburgo. Ainda que o fenômeno do técnico seja anterior, o batismo segue as leis do mercado e fica com quem perdeu mais dinheiro.

Treinador que há vinte anos saiu do Bragantino com um título paulista para, rapidamente, ser aclamado como melhor técnico do Brasil.

Que prometia chegar à Seleção e lá deixar sua marca com uma equipe vencedora, fazedora de gols e com futebol ofensivo.

Mas que alcançou resultados infinitamente menores do que as projeções e ainda foi para o chuveiro sob os refletores de uma CPI.

Luxemburgo vê seu desempenho despencar a cada clube que insiste investir nele.

Hoje, Luxa não é sombra daquele que prometia ser o “maior treinador brasileiro” e sua valorização está interrompida faz tempo. Difícil acreditar que hoje ele se encontre como primeira opção de qualquer clube grande do Brasil. Pelos torcedores, Luxemburgo é quase sempre lembrado como quem mistura negócios com futebol.

No momento, seu projeto mais ambicioso é não cair para a Série B com o Fluminense.

Sem entrar em méritos técnicos, faço uma avaliação mística.

Talvez seu maior erro tenha sido uma substituição: quando trocou o “W” de Wanderlei para o “V” e esqueceu de mexer, ou melhor, chacoalhar, o mais importante.

Sua credibilidade.

Assim como Eike, Luxemburgo quer a volta por cima, mas enfrenta o enorme desafio de retomar a boa fé no seu trabalho.

Enquanto isso, também lhe sobram problemas e  letras X sem valor, não é “PofeXô”?

Marighella, protagonista de uma história que ainda ecoa

marighella - PCA contar dos últimos dois anos, nunca li tantas biografias. É verdade que nesse período muito contribuiu a onda incessante de histórias pessoais de roqueiros. Seja como for, esse é um gênero que sempre gostei. Então, posso afirmar com alguma segurança que nas melhores biografias o personagem principal morre no fim.

Escrever sobre gente viva parece  que é uma tendência relativamente nova, da biografia de entretenimento. Nada contra. Mas biografias de personagens vivos contém mais interferências e menos distanciamento. Isso se o biografado não for um Roberto Carlos, capaz até de vetar uma publicação não autorizada.

Então, se é para falar de gente que participou ativamente da História e, principalmente, de um personagem controverso, penso que o tempo é a senha para se chegar a versão mais fiel possível dos fatos.

No caso da biografia “Marighella, o guerrilheiro que incendiou o mundo”, escrita por Mário Magalhães e lançada pela Companhia das Letras, o tempo foi útil na busca, por exemplo, de fontes e documentos capazes de esclarecer alguns fatos e derrubar alguns mitos. Muitos destes consagrados por distorções involuntárias, outros por mentiras conscientes.

Além disso, mesmo que o protagonista tenha morrido há mais de 50 anos, muitos temas que perpassam a obra estão mais vivos do que nunca. Alguns, talvez, nunca morrerão. E aí está um dos méritos de uma boa biografia. Nesse caso, há ainda um toque pessoal de coincidência em uma obra que mergulha na militância política nacional e que acabei lendo justamente quando no Brasil pipocaram manifestações depois de um longo período de dormência.

Por isso, listei alguns desses assuntos recorrentes (uns mais sérios, outros nem tanto). Com mais ou menos spoilers (fica o aviso!), tento mostrar a relevância atual das quase 600 páginas que prezam pelo detalhe e acuracidade das informações, atravessando trechos dos mais conturbados da História recente do Brasil: o Estado Novo e o  início do Regime Militar.

Brasil e Argentina: A projeção de Ernesto Che Guevara é mundial e incontestavelmente maior. Tanto que até os brasileiros conhecem bem mais o argentino. Mas Carlos Marighella é, em muitos aspectos, comparável a Che. Além da oposição ferrenha ao capitalismo, é impossível negar o carisma, coragem e determinação como características comuns. Entre as diferenças, uma delas é que Marighella sempre teve como campo de atuação o seu país.

Seleção e Política: muita gente torceu contra a seleção brasileira na Copa das Confederações sob o discurso de protesto à CBF e/ou ao “governo”. Em 1970, mesmo com o uso que a ditadura fez do escrete Canarinho, Marighella torceu pela Seleção. Até porque o time de feras foi arquitetado por um treinador que era seu camarada, o comunista João Saldanha. Isso antes de Zagallo assumir com a anuência dos militares.

Fla-Flu político: a discussão política do país hoje, muitas vezes, fica restrita ao duelo PSDB-PT, como se a essência e os interesses de ambos fossem opostos. Durante a Guerra Fria, há também o erro em se reduzir a disputa apenas em capitalistas e comunistas, sem se levar em conta as inúmeras diferenças que existiam dentro de cada um desses blocos. Longe disso, o livro detalha muitos abismos ideológicos da esquerda brasileira, alguns estratégicos no combate ao inimigo comum. Também mostra quando as contradições e discrepâncias dentro das próprias militâncias emperram a engrenagem de um movimento de oposição, como foi com a Ditadura Vargas e pós-golpe de 64.

Culto a personalidade: Em “Marighella”, ficam claros certos vícios dos militantes políticos como o culto excessivo à personalidade. O exemplo mais evidente é o do Cavaleiro da Esperança, Luis Carlos Prestes, sempre impermeabilizado pelos comunistas quanto aos seus erros e defeitos. Ainda nesse tema, um dos pontos altos do livro é quando Marighella descobre que Stalin não era bem o ser humano que ele pensava ser. Atualmente, essa adoração à personalidade é visível na fúria de alguns partidários quando se crítica o ex-presidente Lula ou, na outra margem do rio, o também ex, FHC.

Espionagem americana:obviamente não é de hoje que os EUA praticam sua arte da vigilância. Em plena Guerra Fria, o monitoramento tinha como discurso o “perigo comunista” e, como hoje, a “ameaça terrorista”. No fundo, a balela de vigiar pela “segurança pública” persiste como um meio que se encontra para exercer e preservar um controle. O livro relata episódios de agentes infiltrados nos grupos armados e há até alguns momentos sublimes em que a CIA se mostra muito mais bem informada sobre a situação dos grupos guerrilheiros do que o governo brasileiro. Mesmo que os militares sempre estivessem ao dispor em cumprir as vontades dos norte-americanos.

Igreja e política: a má fama da Igreja Católica como consequência de suas posições em relação as diferenças de gêneros, a sexualidade e aos crimes cometidos dentro da instituição contribuem para uma generalização moral dos religiosos. Mas a história da militância no Brasil lembra que, apesar de muitos padres e bispos católicos estarem ao lado dos milicos, muitos deles, como os dominicanos, enfrentaram com coragem os desmandos da ditadura. Inclusive, sofreram como poucos nas horríveis salas de torturas que, por sua vez, nunca pouparam mulheres, nem homens de batina.

Policia: em meio aos estouros de manifestações em vários locais do país,  graças às redes sociais e a imprensa ninja, algumas armações da Polícia Militar  se tornaram públicas. No livro, o autor esmiúça diversos procedimentos ilegais  dos tiras, inclusive com respaldo de órgãos da imprensa. O principal deles é a barbárie da tortura. Mas a Ditadura também foi exímia na manipulação de fatos com a falsificação de documentos, alteração da cena do crime, adulteração de depoimentos, ameaça às testemunhas, entre outros estratagemas. Os episódios de abusos da PM que acompanhamos nas últimas manifestações em diversos estados do País comprovam a influência das mais de duas décadas de regime militar no procedimento policial, ainda muito mais repressor do que protetor da sociedade. O destaque evidente do livro é a demonstração de como a polícia política do facínora  Delegado Fleury fraudou escandalosamente a cena da execução (e não de combate) de Carlos Marighella.

Volta da Ditadura Militar: algumas ideias que o atual momento de eferverscência política trouxe à tona já deveriam estar enterradas. Mas isso talvez faça parte do processo. A mais perigosa é a que prega a falácia sobre “a volta da Ditadura”. Para alguns, um regime ditatorial seria melhor do que a democracia que vivemos. Bobagem colossal. A diferença é que a corrupção existia na proporção de um país que ainda contava 90 milhões de habitantes. Basta lembrar o escândalo que foi uma Transamazônica. Só que em um regime totalitário, se alguém vai à rua se manifestar ou se um grupo se reúne para se opor às atrocidades do governo corre o risco de apanhar e ser preso. Ou pior: ser torturado e morto.

PS.: por último, é impossível, no meu caso, deixar de mencionar que Carlos Marighella era baiano, mas no estado paulista seu coração batia pelo Corinthians.

Sem rodeios, o fim das touradas veio com um baile

Há uma teoria de que Mike Tyson nocauteou muitos de seus adversários antes mesmo da luta começar. O primeiro e decisivo golpe vinha quando os lutadores eram postos frente a frente e, na encarada, seu olhar fulminante já desnorteava o outro lutador.

Ontem, em um Maracanã lotado, os perfilados times de Brasil e Espanha não puderam se encarar enquanto escutavam um coro vibrante a cantar o hino nacional brasileiro. No entanto, a energia que fluía no maior templo do futebol nacional naquele momento impressionou olhos, ouvidos e certamente mexeu com o jogo de pernas dos espanhóis. Fortaleceu o desafiante da hora a levar a melhor seleção do mundo à lona, sem que o primeiro apito soasse dando início ao combate.

A Espanha impôs durante cinco anos um jogo de expressões geométricas. Como mestre Picasso, pintam triângulos e polígonos milimetricamente desenhados em trocas de passes ao longo do campo. De forma inteligente, fizeram metáfora a estupidez de suas touradas: cansam o adversário fazendo-o se mover entre uma estocada e outra até que não haja forças para reagir.

Com a conquista de uma Copa do Mundo, os espanhóis já haviam ido mais longe do que a Hungria de 54 e a Holanda de 74, equipes históricas capazes de derrubar o quase sempre favorito futebol brasileiro. Aliás, era só essa conquista que faltava à Fúria.

Mas neste domingo, graças a uma marcação cinematográfica do Brasil, essa arte espanhola acabou enclausurada na sala de jantar, como a família burguesa da obra de Luis Buñuel. La Roja caiu em sua própria trampa. A Seleção também usava como metáfora a estupidez que pratica com seus touros, apertando de tal forma o time espanhol que a posse de bola, base da estratégia vencedora, se sublimou ao calor da correria de um time com mais fôlego e melhor pontaria.

O resultado, que contraria a ideia e a vontade daqueles que acham que perder um jogo de futebol pode resolver problemas  fora das quatro linhas,  é maior do que o título da Copa das Confederações. É a formação de um time e o retorno de uma identificação com sua torcida depois de um longo período de distanciamento físico e emocional.

Vitórias em campo em sintonia com as lutas fora dele que não podem e não deverão parar com a chegada da taça.  Porque a ousadia e alegria inspiraram até um protesto criativo e quase de improviso – pela “anulação da privatização do Maracanã” – durante a cerimônia de encerramento do torneio.

E se a Copa das Confederações ainda não é a Copa do Mundo, uma pena. Porque eu mesmo poucas vezes me diverti com a Seleção como desta vez. Que o melhor esteja guardado para o fim.

A Copa das Confederações não é a Copa do Mundo, mas…

Campeão: a essa altura você já deve estar cansado de saber. Nunca o campeão da Copa das Confederações se repetiu na Copa do Mundo seguinte: O Brasil, por exemplo, papou as edições de 97, 2005 e 2009 e depois perdeu para França em 98, França, outra vez em 2006 e Holanda em 2010.

Peso: O peso da Copa das Confederações é maior. Loucura? Não. A taça da Copa do Mundo pesa 5,5kg enquanto a da Copa dos confederações tem 2kg a mais.Mas a diferença no peso para por aí, claro.

Tamanho: A Copa das Confederações conta com um quarto de equipes da Copa do Mundo. Além disso, o menor time desta edição, o Taiti, possui uma população de 178.133, menor do que Belo Horizonte, onde estão hospedados, que possui uma população de 2,475 milhões.

Os times mudam, mas…
Um ano se passa entre uma competição e outra, portanto os times mudam. Em 97, o Brasil chegou a ter uma dupla de ataque que poderia ter feito história como um dos mais potentes e ativos, se é que me entendem, ataques do Brasil: Romário e Ronaldo. Juntos eles marcaram 8 gols só nos dois jogos finais contra República Tcheca e Austrália (goleada por 6 a 0). No entanto, o Baixinho que até hoje é o maior artilheiro da Copa das Confederações, acabou cortado daquela que seria sua última Copa do Mundo em 98.

Já em 2009, do time que ganhou a final de virada dos EUA por 3 a 2 até a equipe de Dunga que entrou em campo na derrota para a Holanda na Copa do Mundo apenas 3 jogadores foram diferentes. Luisão, André Santos e Ramires começaram o jogo derradeiro da Copa dos Confederações e foram substituídos por Juan, Michel Bastos e Daniel Alves nas quartas do Mundial. O lateral do Barcelona foi escalado no meio campo depois da contusão de Elano no jogo anterior contra Costa do Marfim.

Estrutura
Além das equipes, o evento serve também como teste para a (des)organização brasileira. A seleção italiana já experimentou problemas ao chegar para treinar no Engenhão e descobrir que o estádio estava interditado. O Uruguai enfrentou atraso em voos na conexão em Manaus e o que era para ser uma parada de 40 minutos foi de 3 horas. Espanha e Uruguai tiveram problemas com a chuva para treinar.  O técnico da Celeste reclamou que já é sabido da aguaceira nessa época do ano no Nordeste. A conferir.

Seleção brasileira e os oxímoros

Antes de qualquer coisa, é saudável esclarecer. Oxímoro não é uma doença que pode dar coceira na bunda dos jogadores e impedi-los de correr atrás da bola. Tampouco é uma substância química passível de punição no exame antidoping.

Atualmente, oxímoro tem a ver com algo bem menos compreendido do que patologias e substâncias químicas: a língua portuguesa. É aquilo que aprendemos no Ensino Médio como figura de linguagem – a metáfora, a hipérbole e o eufemismo também são.

É como se o oxímoro fosse um parente próximo da antítese e do paradoxo. Bem próximo deste último, o oxímoro permite que duas ideias, por mais opostas e excludentes que possam ser, coexistam. Por mais absurdo que pareça, o oxímoro autoriza dois elementos contraditórios conviverem, ainda que não de uma forma muito lógica, mas explicável. Camões era um craque nisso.

Mas há algum tempo, tenho notado que a despeito da falta de coerência, da lógica, da organização, da transparência e até mesmo de craques, em nossa seleção brasileira sobram oxímoros.

A começar por sua administração.

Enquanto a agenda política brasileira acompanha as apurações da Comissão Nacional da Verdade, que tem como nobre objetivo passar a limpo o obscuro período do regime militar no Brasil, o futebol, tão usado pela propaganda fardada, é presidido em sua instituição máxima – a CBF – por José Maria Marín, antigo fantoche biônico da ditadura.

Aliás, ele é o próprio oxímoro ambulante. No futebol, o atual presidente da CBF se tornou conhecido, não por algum trabalho em favor do esporte mas, principalmente, por um episódio em que predomina a total falta de mérito esportivo, quando flagrado embolsando uma medalha durante premiação da Copa São Paulo de Juniores em 2012.

Marin  recebeu de bom grado a atual posição para substituir o chefe anterior da entidade, Ricardo Teixeira, porque o ex-refugiado de Boca Ratón e ex-genro de João Havelange (no parentesco parece que vemos alguma consonância), se viu pressionado por alguns escândalos a tal ponto de pedir para sair após mais de duas décadas. E a substituição em si só seria um oxímoro se fosse com intenção de moralizar a administração da entidade. Contudo, isso é mais ou menos como colocar o Felipe Melo para evitar perder um volante porque o titular está pendurado com um cartão amarelo. A troca é só mais uma cena do paradoxo político que se encontra o país onde um político acusado de improbidades administrativas assume a Presidência do Senado. Eis que a frase “Brasil, um país sério” seria um bom exemplo de oxímoro, se não fosse também uma ironia. Ou um epitáfio.

E para não cansar o leitor com exemplos da política, não vamos sequer tocar no tema “estádios da Copa”, fingindo que eles não existem. Ainda que, a rigor, a maioria deles não exista de fato.

Falemos, então, de futebol. Até agora, Marin tem como principal realização em seu cargo de chefe da entidade demitir o treinador Mano Menezes enquanto este passava seu melhor momento na Seleção e chamar, para dar continuidade a um processo de “renovação”, o técnico que comandou o time campeão há 11 anos  e como coordenador e mentor dessa retomada, outro que fora vitorioso há mais de duas décadas.

Ambos reconhecidos pela escola de um futebol pouco vistoso e talvez até ultrapassados, contrapõem-se a tendência atual, na qual o clube do momento, o espetacular Barcelona, coleciona títulos com um futebol brilhante e cheio de magia. Entre as seleções, a Espanha e Alemanha são duas que também buscam a vitória por um futebol mais “à brasileira”. Aliás, até a Itália, e isso é um baita oxímoro, tem remado contra sua tradição em busca de um jogo mais aberto e, vejam só, já há até uma real possibilidade de jogarem com dois atacantes contra a, tempos atrás, temida seleção brasileira.

Mas contradição é coisa para amadores e seleção brasileira é coisa para profissional. Até agora presenciamos um elenco reformulado principalmente por jogadores que o antigo treinador convocava. Inclusive, alguns nomes muito contestados como Hulk que, particularmente, acho um nome útil para o elenco.

Só que nessa profusão de oxímoros, a soma de tantas ideais opostas e contraditórias só poderia acabar na mais perfeita coerência e, mesmo fazendo tudo sem planejamento, de alguma forma o Brasil honra sua tradição e, claro, pode ganhar a Copa de 2014.

Agora, se isso vai ser bom mesmo para o país ou só mais um oxímoro, juro que não sei.

Dois Escobares: ópio do povo está além do futebol

O filme não é novo.

Dois Escobares (Two Escobars), documentário dirigido pelos irmãos Jeff e Michael Zimbalist, chegou a ser exibido na 34ª Mostra de cinema em 2010 embora, atualmente, esteja sendo mostrado também na TV aberta pela ESPN, dentro de uma série de documentários esportivos.

Mas a sustentação da narrativa usando o tripé futebol, política e sociedade é just in time quando tanto se fala em Copa do Mundo no Brasil.

O filme mostra com primor como futebol e política se misturam ao longo da História como afluentes de um grande rio e como seus desdobramentos desembocam na sociedade. No caso do filme, uma sociedade tomada pelo narcotráfico.

Não que o uso político do futebol seja novidade. Basta dizer que a Seleção de 70 não é só um clássico pela bola que jogou, mas também pelo exemplo, muitas vezes já discutido, da exploração política que o Regime Militar fez daquela imagem de sucesso. Mas como já dito, em tempos que se discute Copa do Mundo por aqui não é necessário lembrar dos encontros e desencontros entre política e futebol.

Porque no caso colombiano, a seleção da país era passada de pé em pé por dois lados de uma mesma guerra: o governo tentando vender uma imagem de prosperidade e de controle da situação frente ao narcotráfico que, para usar do linguajar futebolístico, ocupava os espaços deixados pelo Estado, ganhando legitimidade e popularidade junto ao povo colombiano e, pior, quando da ausência desse Estado, dividindo o poder da força bruta e, muitas vezes, até das leis.

Nesse cenário, o roteiro tem o mérito de conectar todas esses componentes unindo duas pontas que, aparentemente, possuem apenas um sobrenome em comum: Escobar.

Um deles é o famigerado traficante Pablo Escobar que iniciou a construção de seu império nos anos 70, comandando o Cartel de Medelin que no seu auge, chegou a dominar 80% do mercado ilegal da região. Assim como o futebol colombiano em sua plenitude chegou a engasgar campeões como a Argentina, derrotada em casa por 5 a 0, Pablo Escobar aquela altura já se tornava quase um mito para uma parcela da população e seu domínio territorial do comércio de drogas certamente incomodava muitos figurões, a ponto dos EUA entrarem no jogo.

O outro Escobar – que não possui grau de parentesco com Pablo – é o zagueiro e capitão da seleção colombiana na Copa do Mundo de 1994. Um time famoso pelas figuras excêntricas como o meia Valderrama e o goleiro Higuita, mas também reconhecido por ser a equipe que jogava o melhor futebol antes do Mundial dos Estados Unidos. Fato que fez até Pelé afirmar, em um de seus palpites mais trágicos, que a Colômbia era uma das favoritas ao título naquele Mundial.

Só que  a tragédia não se deteve ao campo de jogo. Pior do que a desclassificação prematura, ainda na primeira fase, a Colômbia viu o zagueiro Andres Escobar, autor de um gol contra que acabou selando a eliminação da equipe contra os EUA, ser assassinado duas semanas depois de voltar para o seu país. Na ocasião, um território praticamente sitiado pela disputa entre as Forças Armadas, Agentes dos EUA e gangues.

Mesmo com tantos ingredientes misturados, a história só desenrola fácil porque o documentário é rico em depoimentos e imagens de jogadores, técnicos, familiares do zagueiro assassinado, políticos e até de capangas de Pablo Escobar que mostram como a instabilidade política se estendeu ao dia a dia dos jogadores e acabou se tornando o principal adversário daquela que foi a melhor equipe da história do país.

Dunga, o chefe da seleção

Prezado Capitão,

É ruim ter que começar um texto repetindo algo. Mas é preciso dizer, antes de qualquer coisa, que concordo com a sua convocação.

Em 90%.

Lamento apenas o fato de não abrirmos mão de (pelo menos!) um volante para a entrada de um meia de criação ou outro atacante. Não cito nenhum nome para não desviar o assunto.

Ressalto também que não sou um entusiasta de corpo e alma do futebol arte, do futebol ultraofensivo com cinco atacantes ou qualquer outro sistema para quem espera ver seis gols numa mesma partida. Não concordo com os saudosistas que pretendem ainda ver o time de 1970, ou pior, a de 58 em ação novamente (talvez por isso comparem tanto a convocação de Neymar com a de Pelé).

Admiro uma defesa técnica, com senso de cobertura, com os atacantes voltando para marcar e com saída de jogo de qualidade.

Também concordo com o cara que diz que bons ataques ganham jogos, mas boas defesas, campeonatos. E, com certeza, nunca vi em resultados uma preparação tão boa da Seleção.

Enfim, tudo isso para esclarecer que nas pesquisas de opinião sobre o trabalho do treinador da Seleção eu engordaria a minoria ao seu favor, professor.

Mas não consigo gostar da maneira pessoal (e não profissional) como o Dunga comanda a amarelinha.

E só faço essa crítica por admirar o Dunga, o capitão do tetra. O jogador raçudo que berrava e compensava a técnica com garra, mas que também sabia dar seus toques precisos e lançamentos longos de três dedos.

Uma crítica não, calma professor.

Um toque, já que torço para o Brasil ganhar como torci quando vi pela primeira vez uma taça erguida pelo Brasil por suas mãos.

Símbolo de uma liderança, que o levou ao comando da Seleção,  e que é tão indiscutível como a certeza de que a preparação  (?) da Copa de 2006 não poderia se repetir.

Mas, Dunga, você parece ter mergulhado fundo na imagem de capitão.

Quem lê, ou melhor, quem não lê por que não há notícias da Seleção, tem a sensação de que parecemos estar tentando alcançar o extremo da “preparação ideal”.

Jogadores intocáveis como soldados num bunker. Tudo hermeticamente vedado contra a possível contaminação da imprensa e dos torcedores.

Aliás, a higienização parece já ter sido iniciada na escolha dos soldados. Apenas os aria…, ou melhor, apenas aqueles que se enquadram no mais rigoroso grau de seleção jamais realizado na história das nossas seleções.

Há que se dormir cedo e escovar os dentes, pelo menos, quatro vezes ao dia.

Tudo muito certinho e sempre rodeado de discursos de auto-ajuda. Não raros, vazios de significado.

Seu mau humor ao lidar com a imprensa é tão caricato que, às vezes, parece tencioná-lo a dizer bobagens como a de que para saber se a ditadura ou a escravidão foram ruins é preciso tê-las vivido – meu Deus, vou lá tomar umas chibatadas para saber que não é legal ser escravo.

A atuação da assessoria de imprensa também demonstra a blindagem verbal. Ou seja, perguntar pode, mas só aquilo que queremos responder.

Em outras palavras, na Seleção, Dunga, você é um professor que vai muito bem em matemática, mas precisar estudar um pouco mais de humanas.

Não tem problema. Isso é coisa da inexperiência. Afinal, também é novato como comandante de um time de futebol.

Tudo muito planejado, muito sincronizado, muito marcado.

Mas que pode parecer previsível e ultrapassado, às vezes.

Com essa postura exagerada, dá até para pensar que o professor Dunga é um general diante de uma nova Guerra Fria e deseja construir um novo time científico e imbatível.

Talvez como aquele da URSS que levou um baile de Garrincha em 58 (viva os saudosistas!).

Digo tudo isso, pois tanto pelo estilo de jogo que, ao que parece, teremos na Copa, quanto pela frieza que a Seleção transmite com o isolamento e tão poucos jogadores carismáticos, cada vez mais aumenta o fosso entre a Seleção e os torcedores.

Como se já não bastasse tantos jogadores estrangeiros, nem no Brasil o torcedor consegue ficar mais perto deles.

Se futebol é tão sério quanto uma Copa faz parecer ser, diria a você, capitão, que muitas de suas atitudes como técnico contrariam traços marcantes e autênticos do futebol e do povo brasileiro. E que antes de ser um time, a Seleção é um patrimônio da humanidade (e do brasileiro) e você pode estar prestes a cometer um atentado histórico ao descaracterizar ainda mais a Seleção.

Tornar as coisas um pouco menos chatas para a torcida não quer dizer cair na esculhambação. É só uma questão de aproximar duas forças que devem estar juntas.

Devagar, comandante.

A pressão para quem está fora da Seleção, torcendo, também é grande.