Seleção brasileira: uma marca que agoniza

163607165_e703277faf_o (1)

(texto originalmente publicado no LinkedIn)

Há anos ouvimos como o marketing se tornou inevitável ao futebol e aos esportes. Não só entre as fabricantes de materiais esportivos, mas clubes, seleções, treinadores e atletas utilizam todas ferramentas disponíveis para construir suas reputações.

Paralelamente à difusão desse discurso, poucas marcas esportivas no mundo definham e agonizam  tanto quanto a da seleção brasileira.

Comandada há décadas por homens que pouco entendem de futebol, mas que conhecem como poucos as jogadas do submundo dos negócios e da política, a seleção brasileira vive uma longa crise de gestão

Comandada há décadas por homens que pouco entendem de futebol, mas que conhecem como poucos as jogadas do submundo dos negócios e da política, a seleção brasileira vive uma longa crise de gestão. Nesse tempo, trocaram-se algumas peças, mas a visão nebulosa dos gestores nunca passou perto de se alterar.

Para piorar, seu principal produto, o futebol, nunca foi tão desvalorizado. O 7 a 1 foi um desastre. Mas se passarmos um pente fino na história recente, ele não foi o único vexame a contribuir  para a má reputação do que deveria ser entendido como o principal produto da nossa seleção. Quem viaja e conversa com estrangeiros entende como mudou o papo sobre futebol quando a gente se declara brasileiro.

A camisa da seleção, que deveria ser o principal símbolo de identificação com o que sempre tivemos de melhor (nosso futebol), hoje remete mais à situação política do país do que ao futebol. Qualquer grande empresa que visse sua logomarca associada a qualquer outra coisa que não fosse seu negócio, ficaria preocupada. Mas a seleção não é administrada com a atenção que sua própria grandeza merece. Enquanto isso, com tantas opções de times a seleções estrangeiras mais carismáticos, as crianças cada vez menos arriscam a se vestir com a camisa amarela.

Agora, a seleção parece viver uma nova etapa desse processo de derrocada: a indiferença. Certa vez me ensinaram como a expectativa do consumidor é importante para o valor de uma marca. A expectativa que desenvolvemos por uma marca ou um produto é capaz de criar laços emocionais com ela. É por causa da expectativa que um consumidor reclama nas redes sociais e na área de atendimento de uma empresa quando se sente decepcionado. É quando uma marca frustra sua expectativa.

Infelizmente, a seleção foi eliminada na primeira fase da Copa América e nunca vi tão poucas pessoas decepcionadas, reclamando. Ao que parece, nenhum consumidor, ou melhor, torcedor, se dá mais ao luxo de se decepcionar com os resultados da seleção porque, afinal, ninguém tem mais expectativa sobre ela.

No meu caminho para o trabalho o porteiro do prédio não reclamou, o dono da banca também não. Os colegas do escritório mal sabiam do resultado do jogo. Sinal de que pouca gente espera alguma coisa da seleção.

E poucas derrotas parecem tão doloridas como essa.

Sócrates

Sócrates
Imagem do meu celular

Entre os métodos de Sócrates na Grécia Antiga, está o famoso questionamento que incentivava seus alunos a pensar e refletir sobre um tema, estimulando a busca pelo conhecimento, ou a virtude, para usar o léxico do filósofo.

Quando seu Raimundo, leitor dos Diálogos de Platão e de muitas outras obras gregas, batizou seu primogênito com um do seus nomes mais marcantes não imaginava que ele seria o jogador de futebol mais original – e por que não dizer o mais filosófico – do Brasil. Sócrates desenvolveu seu próprio método para questionar todas as estâncias do mundo do futebol.

Seu legado é de uma riqueza espantosa e o livro Sócrates, do jornalista Tom Cardoso passa pela vida do craque contando (e recontando) histórias e diálogos que ajudam a entender sua personalidade pouco convencional para os padrões sociais. Ainda mais do futebol.

Como se vivesse uma missão intuitiva de ensinar, Sócrates, incentivou o questionamento dentro e fora do campo. Questionava convenções quando pedia o fim da concentração dos jogadores, questionava modelos comportamentais quando expunha livremente seus pensamentos e questionava até a lógica do esporte quando bebia sem limites e, mesmo assim, era capaz de exibir um jogo plástico, exuberante e também de resultados.

Sócrates também criou seus paradoxos, bem particulares. Um deles era capaz de colocar à frente todos times em que jogou usando a parte de trás do pé.

Sobre seu calcanhar o livro esclarece o que para mim era um mistério: Sócrates calçava 41, um pé diminuto para sua altura (1,95 m), mas um pouco maior do que algumas lendas que li e ouvi sobre sua chuteira estar numerada na casa dos trinta.

O paradoxo socrático no futebol também se estendia quando tomava decisões desprovido da razão sem, contudo, abandonar a lógica que movia seu caráter.

Sócrates, o filósofo, dizia que o conhecimento leva a virtude.

Conhecer a história desse jogador é tão importante para o pensamento do futebol brasileiro como os gregos são para a filosofia.

Em uma era dominada por técnicos retranqueiros, jogadores limitados, administrações incompetentes e viciadas em beneficiar a poucos, a história deixada por Sócrates é um testamento de princípios e idealismos que precisam ser resgatados para que o futebol brasileiro recupere o que sempre teve de melhor: a alegria de jogar bola.

ALEX

Foto Arquivo Lance!: Felipe Gabriel
Foto Arquivo Lance!: Felipe Gabriel

Correr atrás da bola como se fosse um prato de comida.

A frase antiga vale para a maioria dos jogadores e não deixa de ter significado para o meia Alex, que se aposentou neste domingo e, como tantos, começou a carreira quando menino pobre.

Se o futebol realmente fosse gastronomia, poderia-se dizer que poucos chefs conseguiram unir tão bem ingredientes básicos com o refinamento da execução como fez Alex.

Alex foi o gourmet sem fricote, sem exageros, sem a manipulação marqueteira. Em toda sua carreira, Alex produziu um futebol cheio de sabor e textura, com consistência admirável.

Sua aposentadoria deixa famintos todos aqueles que olham desesperadamente no cardápio do futebol brasileiro e não encontram uma cabeça pensante. Tampouco se vê no menu um camisa 10 que saiba usar, como Alex, o filé do futebol, aquela região de dar água na boca do torcedor, situada entre o meio de campo e a entrada da área.

Quem reclamar, faz de barriga cheia. Nesses anos de bola, Alex deixou todos satisfeitos.

Sonho de uma convocação do Felipão

Esta noite sonhei com a convocação da seleção brasileira.

Enquanto dormia, assistia Felipão pronunciando, nome por nome, os eleitos para disputar a Copa do Mundo em casa.

Menos influenciado pela convocação em si, é possível que esse sonho tenha me arrebatado por certa ansiedade que começa a bater conforme o início do Mundial se aproxima.

Também é provável que eu nem me lembrasse desse sonho, não fosse pelo último nome que saiu de boca do treinador:

– Walter!

Antes mesmo do som da letra r, à gaúcha, sair entre os bigodes de Scolari, já se escutava um longo e duradouro “Oh!” da plateia de jornalistas. Murtosa, impávido escudeiro, se mantinha firme com um sorrisinho que dizia a todos: “eu já sabia”.

Mais surpreendente ainda, foi o fato que naquele momento confirmou que eu estava em meio a devaneios: a reação dos jornalistas. Ao contrário do que esperava, em vez de críticas duras ou uma penca de perguntas sobre o que teria levado o treinador a essa decisão (certamente a atitude mais transloucada do técnico), ouviram-se apenas aplausos. Não poucos.

Era possível identificar o clamor popular pela presença do gordinho na lista. Nos botecos, nas padarias, nas portarias dos prédios não se falava de outra coisa.

Pela primeira vez, parecia que o tal espírito da Copa havia contagiado a todos. Graças a tal “surpresa” que Felipão prometera, mas que praticamente ninguém botava fé que viria.

Até que à noite, o jornal da TV anunciava que Walter, para estar em perfeitas condições de disputar a Copa do Mundo, entraria para um célebre reality show em que os participantes se esforçam para perder peso.

Logo, o que parecia ousadia para garantir os gols da seleção ou uma atitude para dar mais autenticidade a um time cada vez mais desgastado por contratos de patrocínio, jogos sem importância e a distância do torcedor, era uma jogada para garantir pontos no ibope de uma emissora de TV.

Claro, a verdade veio com um discurso mais ou menos lapidado por uma equipe de especialistas. A intenção era envolver mais a torcida com o time rumo ao objetivo nobre de derrubar barreiras para conquistar a hexa.

Inventaram até a hashtag #WalterNaCopa.

Acordei.

Fiquei sem saber, no meu sonho, como as pessoas reagiriam à armação midiática.

Ri com o tom surreal tão comum em sonhos. Afinal, Felipão não é dado a surpresas.

Mas é bom deixar claro: surreal seria a convocação de Wálter.

O enredo nem é tão inverossímil.

Esse é o pesadelo.