Tim Maia – O Filme

Babu-Santana-como-Tim-Maia-para-o-filme-de-Mauro-Lima-size-598Parece que Globo Filmes esgotou todas as possibilidades das comédias familiares sem graça e a bola da vez são as cinebiografias, o que não é necessariamente ruim.

O filme de Tim Maia cumpre perfeitamente seu papel de entreter, principalmente pela figura humana que foi o artista, pela interpretação dos atores que o representam e, claro, pela trilha sonora absolutamente contagiante.

Para quem anda meio de bode com Roberto Carlos como eu, o filme tira um pouco o Rei do pedestal da perfeição e coloca um lado meio pernóstico de sua personalidade (aguardando se vai rolar um processo…). 

No mais, o filme não foge dos exageros e das maluquices – como a viagem racional – de Tim e, talvez, até se concentre demais nisso em comparação a sua arte, o que dá um tom por vezes caricato demais à personalidade do cantor.

Também acho ruim, como disse um crítico da Folha, que filmes brasileiros ainda precisem sempre usar o artifício da narração em off espertinha como muleta pra contextualizar a história.

Mas nada disso atrapalha muito a diversão

REALEZA

Um piano no quarto de hotel e a entrada na plateia de 20 deficientes visuais com acompanhantes foram algumas das exigências do vegetariano Paul McCartney para seu show no Espírito Santo. Enquanto isso, um ilustre filho dessa mesma terra, que já foi, deixou de ser ou continua sendo vegetariano, é notícia novamente por causa da Justiça.

Depois do bafafá com a proibição das biografias, o capixaba Roberto Carlos agora briga com a Friboi pelo rompimento não muito pacífico de um contrato de R$ 45 milhões.
Curioso que ninguém chame o ex-beatle de Rei. Nem aqui, nem no país dele onde há Monarquia. No máximo, é Sir.

Por uma semana com mais música, menos carne.
Mais Erasmo e menos Roberto.

Futebol e suas biografias (não) autorizadas

A bola dividida em que se transformou a discussão sobre biografias expõe sintomas e também deverá trazer consequências para nossa cultura. Inclusive à futebolística.

Um desses sintomas é que um debate centrado na liberdade de expressão e informação, evidencia que o nível da democracia no país ainda não faz parte da primeira divisão no mundo. Mas pelo menos existe um debate.

O resultado é pior porque a obstrução ao direito de contar a História não parte de políticos perebas, mas de artistas que em suas biografias já somaram pontos por brigar pelo fim da censura. Não é o caso de Roberto Carlos.

É até concebível que no país do futebol, onde o rei do esporte nega um resultado de DNA para não reconhecer uma filha, que outros membros da realeza também queiram perpetuar só a parte que lhes agrada. É possível que o desejo da imortalidade, traga uma vontade doida de perfeição, ainda que por canetada. Como alguém já disse em alguns destes muitos textos sobre as biografias, às vezes figuras públicas se esquecem de que são admirados justamente por serem de carne e osso e, apesar disso, também providos de talentos únicos. E não por serem deuses infalíveis.

Agora, saindo pela lateral nessa discussão com turno e returno, imaginem como seria se alguns jogadores de futebol encampassem a ideia de prevalecer apenas sua própria biografia autorizada. Como seriam recontados ou omitidos os fatos de suas súmulas biográficas? Os goleiros poderiam sublimar seus frangos, os atacantes ignorar seus gols perdidos, os zagueiros jamais teriam falhado no momento decisivo e os técnicos nunca teriam feito aquela substituição que deu errado.

Eis alguns possíveis trechos das biografias autorizadas de alguns dos maiores craques de todos os tempos.

Pelé (Autobiografia em terceira pessoa)

Em 17 de junho de 1970, Pelé marcou seu gol mais bonito. Ao receber um lançamento, o camisa 10 da Seleção deixou a bola passar sem tocá-la, iludindo o goleiro uruguaio Mazurkiewicz, para em seguida fazê-la dormir no fundo do gol. Placar final: Brasil 4×1 Uruguai.

Maradona

Em 22 de junho de 1986, Diego sobe o mais alto que pode de seu um metro e oitenta e cinco de altura, muito mais alto do que o goleiro inglês, e com uma testada firme faz 1 a 0 para a Argentina na Copa do México. Depois, o gênio do futebol também  faria o segundo ao driblar o English team inteiro – inclusive goleiro. A essa altura ninguém mais duvidava de Sua superioridade sobre o brasileiro Pelé.

Roberto Baggio

Era 17 de julho de 1994, Baggio, mesmo com dores que quase o tiraram da partida, corre para  a marca fatal e, com sua reconhecida calma budista, desloca Taffarel para o canto direito e empurra a bola ao lado contrário. Ele diminui a diferença, mas não evita que o título vá para o Brasil porque um jovem e desconhecido Berluschini chutaria para o alto a cobrança decisiva.

Zidane

Naquele 9 de julho de 2006, mesmo não alcançando sua segunda Taça Copa do Mundo, o gênio francês entra para a história do Fair-Play mundial. Mesmo com chances de dar sequência a uma jogada no meio de campo, Zizu interrompeu o jogo para acudir o zagueiro italiano Materazzi que, estendido no gramado, estrebuchava com falta de ar. Zidane fez até respiração boca a boca no adversário que gentilmente agradeceu: “nem sua nobre irmã, por mais prestimosa que seja, faria uma respiração melhor do que essa”.

Platini

Sobre o convite de Blatter, o craque francês e da Juventus de Turim, preferiu nunca se envolver na política e, por isso, não assumiu cargo na UEFA. A decisão impediu que ele se envolvesse com gente da pior espécie da cartolagem mundial.

Ronaldo

Depois de ser o melhor jogador do mundo por três vezes e se machucar e dar a volta por cima em outras três, todas as coincidências com três acabam aqui. O craque foi o grande embaixador da Copa de 2014 no Brasil. Como legado, Ronaldo não só se destacou pela luta na melhoria de infraestrutura do esporte de base, pela adequação do calendário esportivo e até na construção de hospitais que ele sempre considerou mais importante do que arenas. Resumindo, o craque jamais se curvou mesmo diante de grandes empresas e dos poderosos dirigentes do futebol brasileiro.

Romário

No dia 20 de maio de 2007, Romário conseguiria igualar um dos feitos de Pelé ao atingir a marca de 1000 gols. O milésimo tento foi marcado de pênalti, assim como o Rei, contra o Sport. (OH Wait…)

Marighella, protagonista de uma história que ainda ecoa

marighella - PCA contar dos últimos dois anos, nunca li tantas biografias. É verdade que nesse período muito contribuiu a onda incessante de histórias pessoais de roqueiros. Seja como for, esse é um gênero que sempre gostei. Então, posso afirmar com alguma segurança que nas melhores biografias o personagem principal morre no fim.

Escrever sobre gente viva parece  que é uma tendência relativamente nova, da biografia de entretenimento. Nada contra. Mas biografias de personagens vivos contém mais interferências e menos distanciamento. Isso se o biografado não for um Roberto Carlos, capaz até de vetar uma publicação não autorizada.

Então, se é para falar de gente que participou ativamente da História e, principalmente, de um personagem controverso, penso que o tempo é a senha para se chegar a versão mais fiel possível dos fatos.

No caso da biografia “Marighella, o guerrilheiro que incendiou o mundo”, escrita por Mário Magalhães e lançada pela Companhia das Letras, o tempo foi útil na busca, por exemplo, de fontes e documentos capazes de esclarecer alguns fatos e derrubar alguns mitos. Muitos destes consagrados por distorções involuntárias, outros por mentiras conscientes.

Além disso, mesmo que o protagonista tenha morrido há mais de 50 anos, muitos temas que perpassam a obra estão mais vivos do que nunca. Alguns, talvez, nunca morrerão. E aí está um dos méritos de uma boa biografia. Nesse caso, há ainda um toque pessoal de coincidência em uma obra que mergulha na militância política nacional e que acabei lendo justamente quando no Brasil pipocaram manifestações depois de um longo período de dormência.

Por isso, listei alguns desses assuntos recorrentes (uns mais sérios, outros nem tanto). Com mais ou menos spoilers (fica o aviso!), tento mostrar a relevância atual das quase 600 páginas que prezam pelo detalhe e acuracidade das informações, atravessando trechos dos mais conturbados da História recente do Brasil: o Estado Novo e o  início do Regime Militar.

Brasil e Argentina: A projeção de Ernesto Che Guevara é mundial e incontestavelmente maior. Tanto que até os brasileiros conhecem bem mais o argentino. Mas Carlos Marighella é, em muitos aspectos, comparável a Che. Além da oposição ferrenha ao capitalismo, é impossível negar o carisma, coragem e determinação como características comuns. Entre as diferenças, uma delas é que Marighella sempre teve como campo de atuação o seu país.

Seleção e Política: muita gente torceu contra a seleção brasileira na Copa das Confederações sob o discurso de protesto à CBF e/ou ao “governo”. Em 1970, mesmo com o uso que a ditadura fez do escrete Canarinho, Marighella torceu pela Seleção. Até porque o time de feras foi arquitetado por um treinador que era seu camarada, o comunista João Saldanha. Isso antes de Zagallo assumir com a anuência dos militares.

Fla-Flu político: a discussão política do país hoje, muitas vezes, fica restrita ao duelo PSDB-PT, como se a essência e os interesses de ambos fossem opostos. Durante a Guerra Fria, há também o erro em se reduzir a disputa apenas em capitalistas e comunistas, sem se levar em conta as inúmeras diferenças que existiam dentro de cada um desses blocos. Longe disso, o livro detalha muitos abismos ideológicos da esquerda brasileira, alguns estratégicos no combate ao inimigo comum. Também mostra quando as contradições e discrepâncias dentro das próprias militâncias emperram a engrenagem de um movimento de oposição, como foi com a Ditadura Vargas e pós-golpe de 64.

Culto a personalidade: Em “Marighella”, ficam claros certos vícios dos militantes políticos como o culto excessivo à personalidade. O exemplo mais evidente é o do Cavaleiro da Esperança, Luis Carlos Prestes, sempre impermeabilizado pelos comunistas quanto aos seus erros e defeitos. Ainda nesse tema, um dos pontos altos do livro é quando Marighella descobre que Stalin não era bem o ser humano que ele pensava ser. Atualmente, essa adoração à personalidade é visível na fúria de alguns partidários quando se crítica o ex-presidente Lula ou, na outra margem do rio, o também ex, FHC.

Espionagem americana:obviamente não é de hoje que os EUA praticam sua arte da vigilância. Em plena Guerra Fria, o monitoramento tinha como discurso o “perigo comunista” e, como hoje, a “ameaça terrorista”. No fundo, a balela de vigiar pela “segurança pública” persiste como um meio que se encontra para exercer e preservar um controle. O livro relata episódios de agentes infiltrados nos grupos armados e há até alguns momentos sublimes em que a CIA se mostra muito mais bem informada sobre a situação dos grupos guerrilheiros do que o governo brasileiro. Mesmo que os militares sempre estivessem ao dispor em cumprir as vontades dos norte-americanos.

Igreja e política: a má fama da Igreja Católica como consequência de suas posições em relação as diferenças de gêneros, a sexualidade e aos crimes cometidos dentro da instituição contribuem para uma generalização moral dos religiosos. Mas a história da militância no Brasil lembra que, apesar de muitos padres e bispos católicos estarem ao lado dos milicos, muitos deles, como os dominicanos, enfrentaram com coragem os desmandos da ditadura. Inclusive, sofreram como poucos nas horríveis salas de torturas que, por sua vez, nunca pouparam mulheres, nem homens de batina.

Policia: em meio aos estouros de manifestações em vários locais do país,  graças às redes sociais e a imprensa ninja, algumas armações da Polícia Militar  se tornaram públicas. No livro, o autor esmiúça diversos procedimentos ilegais  dos tiras, inclusive com respaldo de órgãos da imprensa. O principal deles é a barbárie da tortura. Mas a Ditadura também foi exímia na manipulação de fatos com a falsificação de documentos, alteração da cena do crime, adulteração de depoimentos, ameaça às testemunhas, entre outros estratagemas. Os episódios de abusos da PM que acompanhamos nas últimas manifestações em diversos estados do País comprovam a influência das mais de duas décadas de regime militar no procedimento policial, ainda muito mais repressor do que protetor da sociedade. O destaque evidente do livro é a demonstração de como a polícia política do facínora  Delegado Fleury fraudou escandalosamente a cena da execução (e não de combate) de Carlos Marighella.

Volta da Ditadura Militar: algumas ideias que o atual momento de eferverscência política trouxe à tona já deveriam estar enterradas. Mas isso talvez faça parte do processo. A mais perigosa é a que prega a falácia sobre “a volta da Ditadura”. Para alguns, um regime ditatorial seria melhor do que a democracia que vivemos. Bobagem colossal. A diferença é que a corrupção existia na proporção de um país que ainda contava 90 milhões de habitantes. Basta lembrar o escândalo que foi uma Transamazônica. Só que em um regime totalitário, se alguém vai à rua se manifestar ou se um grupo se reúne para se opor às atrocidades do governo corre o risco de apanhar e ser preso. Ou pior: ser torturado e morto.

PS.: por último, é impossível, no meu caso, deixar de mencionar que Carlos Marighella era baiano, mas no estado paulista seu coração batia pelo Corinthians.