Se eu fosse você, não mediria sua produtividade em horas

chaplin

Imagine um personagem fictício (ou nem tão fictício assim). Ele passa 14 horas no escritório, sempre envolvido nas mesmas tarefas, nas mesmas mensagens de e-mail, nos mesmos sites de notícias e nos mesmos círculos das redes sociais. Todo dia ele cobra de seus funcionários uma ideia diferente ou para usar o clichê (que cabe muito bem para esse personagem), que “pensem fora da caixa”. Mas esse personagem, ele mesmo, entrega cada vez menos resultados e nunca consegue pensar fora da caixa, justamente porque não sai de dentro dela. No caso, sua caixa é o escritório e a rotina massacrante.

Acredito que medir a produtividade por horas é tão eficaz quanto medir altura por quilos

A simplória fábula corporativa serve apenas para introduzir aquilo que vejo como um erro bastante comum entre as pessoas com quem converso sobre trabalho: estabelecer a produtividade por horas de trabalho. Acredito que medir a produtividade por horas é tão eficaz quanto medir altura por quilos. Afinal, você pode pensar que quanto mais alta uma pessoa, maior será seu peso e, às vezes, esse raciocínio até funciona, mas a quantidade de erros que essa premissa vai provocar é gigantesca. Portanto, seguir com ela é, para dizer o mínimo, contraproducente. No caso do personagem citado acima, certamente as 14 horas no escritório não farão jus ao seu nível de produção.

Desconheço quando começou essa história de se medir a produtividade apenas por horas trabalhadas, mas creio que ela era muito forte na primeira metade do século XIX. No período da Revolução Industrial, operários muitas vezes passavam até 18 horas em uma fábrica. A quantidade de horas também era muito apreciada no sistema de produção agrícola de plantation, existente em países como o Brasil. Nele não havia sequer funcionários. Os trabalhadores eram escravos. Felizmente, esses modelos foram extintos da prática legal.

O problema é que o vício de se medir produtividade por horas trabalhadas atravessou os séculos e, parece, estacionou em alguns lugares. Nem é preciso ir tão longe para mostrar como as pessoas ainda acreditam que nesse assunto quantidade é sinônimo de qualidade. Meses atrás, empresários se reuniram com o presidente Michel Temerpedindo uma flexibilidade no aumento de horas da jornada. A proposta (ainda) não foi para frente, mas com certeza a lógica de muitos desses grandes empresários permanece a mesma.

Uma jornada de 12 horas para quem vive em cidade grande – ou até em algumas médias onde o transporte público é ruim – é praticamente impossível se considerarmos aqueles em que ir e voltar do trabalho consome até 4 horas. Mas o leitor atento dirá que quem propõe aumento da jornada tem outros motivos e não está pensando em produtividade. Sim, e o problema é exatamente esse. Muita gente no mercado de trabalho ainda se pauta sob modelos ultrapassados nos quais nem se cogitam esse conceito de produtividade que a gente tanto ouve falar, exatamente como o gestor do início do texto que vive para “trabalhar” muito, mas produzir pouco.

Uma pesquisa publicada em agosto pelo YouGov, um instituto do Reino Unido, mostra que para os britânicos, que trabalham em média 8 horas e meia diárias, uma jornada ideal de trabalho do ponto de vista da produtividade teria 7 horas ou menos.

O estudo vai além. Dividindo o valor do PIB pelo número de horas trabalhadas, eles montaram um ranking com 10 países e descobriram que 7 dos campeões em produtividade possuem as menores jornadas de trabalho (Luxemburgo, Noruega, Suíça, Holanda, Alemanha, Dinamarca e Suécia). Desses países, aquele que apresenta o menor número de horas trabalhadas em um ano é a Alemanha, símbolo de eficiência até para nações como os Estados Unidos, conhecidos como os primeiros a cultuar o perfilworkaholic e que figura em oitavo na lista, duas posições atrás dos germânicos. Só que os EUA entram nessa lista bem menos pela jornada reduzida do que pelo seu PIB, que é o maior do mundo.

“Se homens e mulheres pudessem trabalhar quatro horas por dia em algo útil, o trabalho produziria o suficiente para obter todas as necessidades e confortos da vida”, diria Benjamin Franklin.

Obviamente, não é permitido concluir a partir deste texto que quanto menor o número de horas trabalhadas maior a produtividade. Não quero provar que a inversão da premissa errada seja verdadeira,  mas que o conceito de produtividade é mais complexo do que se pressupõe a lógica primitiva do “produzo mais quanto mais horas trabalho”. Há muitas variáveis para aumentar a produtividade. Inclusive, creio que elas sejam diferentes para cada pessoa.

Mas isso é assunto para outro post.

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