SONHO DE UMA NOITE DE CALORÃO

Essa noite sonhei que ia a pé ao trabalho como sempre faço e no caminho me deparei com um cabeludo, meio hippie, sentado no ponto de ônibus. Ele cutucava o celular e balançava a cabeça em reprovação a alguma coisa. Sei lá por quê, perguntei se ele tava bem.

Quando o cara se virou, notei que o rosto era idêntico ao das clássicas representações de Jesus Cristo. Olhos azuis, barba e tudo mais. Ele me disse, sem o sotaque charlatânico de um Inri Cristo, enquanto apontava a tela do seu aparelho que, pasmem, estava no seu perfil do Facebook:

– Olhe isso! Eles falam o tempo todo em meu nome, dão check in nas missas e nos cultos à minha imagem, falam que no mundo falta fé, falta amor a Deus…

Mas veja quantos desses aceitam e até acham boa a pena de morte! Botam fé no mesmo processo penal que levou Jesus injustamente à crucificação.

Tão pálido quanto poderia estar alguém que vê o milagre da ressurreição em um ponto de ônibus da Faria Lima, respondi:

– Cara… acho que você tinha razão. Eles não tem ideia do que fazem.

Saí correndo. E acordei.

Que lugar assustador é o mundo.