Messi e a pressão nossa de cada dia

Messi

texto originalmente publicado no LinkedIn

A surpresa da Copa América aconteceu depois de mais uma derrota nos pênaltis da Argentina para o Chile: Messi renunciou à seleção alviceleste.

À primeira vista, sua decisão está exclusivamente vinculada a mais uma derrota. Não concordo com essa tese e, embora acredite que o craque irá mudar de ideia, acho que vale a pena identificar as causas que o levaram a essa escolha.

Como se sabe, Messi sempre foi visto como o cara que resolveria a abstinência de títulos da seleção argentina, há 23 anos sem erguer uma taça. Mais do que isso, os argentinos, incluídos aí imprensa e torcida, exigiram dele que não só liderasse, mas carregasse o time para essas conquistas.

Depois de tudo que fez pelo Barcelona, é até compreensível que os argentinos vissem nele a salvação. Messi, o predestinado. Mas ao que parece, foi aí que se criou um novo problema.

Na mitologia grega, Atlas carrega as abóbodas celestes em suas costas não como prêmio, mas como castigo imposto por Zeus. Na Argentina, Messi também foi incumbido de carregar tudo em suas costas.

Na mitologia grega, o titã Atlas carrega as abóbodas celestes em suas costas não como prêmio, mas como castigo imposto por Zeus. Na Argentina, Messi também foi incumbido de carregar tudo em suas costas. Como se fosse sua obrigação resolver tudo sozinho. Não funcionou.

A federação de futebol da argentina é tão amadora e desorganizada quanto a nossa CBF e o time da argentina também possui suas carências. Mas a conclusão de que a seleção argentina não é o Barcelona, apesar de óbvia, não impediu que o senso comum pleiteasse, na seleção, o Messi do Barcelona. Para muitos só o alto salário que ganha um craque como ele já justifica a responsabilidade compulsória que recebeu. Há também o componente Maradona que, por si, rende também teses e análises.

Ainda que o próprio Messi tenha se colocado sob essa mesma carga pesada, a última decisão da Copa América mostrou, mais uma vez, que só pressão e cobrança somadas ao talento do jogador são insuficientes para resolver todos os problemas da Argentina ou, ao menos, o principal deles: um título.

O mais curioso é que, depois do anúncio em que abre mão da camisa argentina, os próprios argentinos parecem ter notado o equívoco. A segunda derrota para o Chile parece ter ficado em segundo plano. O objetivo, agora, é evitar um novo desastre: a saída do craque.

O jornal Olé publicou uma capa em que implora a permanência de Messi e até o presidente da Argentina ligou para o jogadorpedindo que ele não saia.

Enfim, parece que caiu a ficha. Embora seja um dos maiores jogadores da história, Messi é humano e não suportou o nível de pressão e exigência que lhe foi imposto. E isso é muito bom.

Como apontaram analistas, talvez essa humanização seja o primeiro passo para que a Argentina mude sua relação com o craque. Eles perceberam que, mais do que ninguém, Messi é argentino, se preocupa com a seleção do país e se incomoda em não vencer. Porém, não é capaz de solucionar tudo como eles imaginavam. No futebol e na vida, ninguém faz nada sozinho.

Quanto a nós, podemos aprender que pressão é bom, ajuda a motivar. Mas quando extrapola certos níveis do que é suportável não há salário alto ou talento capaz de trazer os resultados esperados.

Em tempos em que somos cada vez mais exigidos e nos impomos metas cada vez mais agressivas é bom lembrar que somos humanos. É bom respeitar nossas limitações porque, afinal, até o Messi tem as suas.

E se craques de hoje jogassem nos “tempos de antigamente”?

As comparações entre diferentes épocas do futebol são, na maioria das vezes, inúteis.

Com jeito de firula que não vai em direção ao gol, levantam questões repetitivas as já tradicionais “Queria ver o Pelé jogando com a marcação de hoje”  ou  “Neymar precisaria brigar por posição na seleção de 70”.

Mas o site Paladar Negro criou uma forma original de unir craques do presente ao passado, transformando os visuais dos boleiros de hoje em figurinhas com o charme e o fahion way das décadas primevas do futebol profissional.

 

 

Cristiano Ronaldo está aí!

Cristiano Ronaldo levará o prêmio de melhor jogador da temporada.

Repito o comentarista Lédio Carmona: é barbada.

A contusão do argentino ajudou, mas não foi  decisiva.

O momento é do português e acho possível que ganhasse mesmo com Messi jogando como vinha nos últimos meses.

Além do mais, arejar o prêmio depois de uma sequência de vitórias de Lionel é saudável.

Logo ao fazer o segundo gol, como se dissesse para os suecos: “eu estou aqui!”, apontando para o gramado com os dois indicadores, vejo como se o português vibrasse além daquele momento,  botando para fora um sentimento que reside ali há algum tempo.

Como se pedisse, em um desabafo com seu toque de vaidade, para todos enxergarem, e se lembrarem, de tudo que ele é capaz de aprontar.

Pode ser que pela onipresença de Messi, seja necessário olhar com mais atenção ao futebol do português.

O segundo gol de Cristiano contra a Suécia também evidencia um resumo de seu repertório extenso.

Explosão, velocidade, controle de bola e frieza na frente do goleiro.

Incrível.

Ver Messi (e o time do Barcelona junto) jogar concentra tanto os olhares  que às vezes perco a noção da quantidade de bola que joga o português. E faz tudo em um time abaixo da intensidade do jogo do Barça.

Há quantas temporadas seguidas marca gols tanto quanto dá olhadas no telão?

Cristiano Ronaldo é narcisista, usa meias altas de gosto duvidoso, mas tem capacidade de finalização comparável a Romário e Ronaldo. É uma mala sem alça, mas cheia de munição. É quase sempre letal.

Messi é gênio e continua o melhor do mundo.

Mas esse ano serve para mostrar que C. Ronaldo está bem acima dos outros de sua época e que, na verdade, somos agraciados em ver dois caras tão bons brotarem quase ao mesmo tempo.

Olhando as listas anteriores dos prêmios da Fifa  da para dizer que se esses dois jogassem desde que a premiação passou a vigorar, seriam indicados e até mesmo vitoriosos em edições passadas.

Torço para que Messi se recupere realmente para a Copa do Mundo, como torci para que Cristiano Ronaldo se classificasse e viesse ao Brasil para registrar a presença de dois dos maiores craques da história do futebol.

Balotelli, amado louco

Preto e titular da seleção da Itália, um dos países mais racistas do mundo, é motivo suficiente para reverenciá-lo. Em um lugar onde até a ministra da integração, primeira negra no cargo, foi chamada de orangotango pelo presidente do senado ser astro do esporte mais popular dá a dimensão das dificuldades que um cara deve enfrentar por lá. Por si só, Balotelli é um manifesto contra o racismo.

Mas é impossível retratá-lo apenas por essa lente.

Se por um lado simboliza uma Europa moderna, disposta a crescer e ficar mais forte pela mistura com os imigrantes que ali se estabeleceram, também carrega os fortes traços de um continente que sofreu com a colonização. Nasceu em Gana e seus pais biológicos, sem condições de criá-lo, o deixaram para adoção. Depois de um grave problema de saúde,  foi recebido pela família Balotelli, de Brescia. Seu irmão de criação foi o empresário que o ajuda com o futebol. E deve ter muito trabalho.

Definitivamente, Mario Balotelli não é um típico exemplo de atleta profissional do futebol moderno.

No início de carreira, acabou flagrado com uma camisa do Milan, quando era um dos astros da rival Inter de Milão. Foi protagonista de um sem número de feitos, alguns até invejáveis. Basta dizer que em todo mundo, a quarta pesquisa mais recorrente no Google sobre o jogador tem a ver com suas namoradas. Saiu com atrizes pornôs, brigou com treinador, destruiu uma Ferrari em sua pista de kart particular e, para alegria dos palmeirenses, até dá mostras de ternura ao criar um porquinho como animal de estimação (esperamos que cuide dele realmente).

Balotelli parece saber bem o quanto é impossível ser normal em um mundo  tão estranho.

Se é obrigatório estar em sintonia com o politicamente correto e, mais ainda, desviar da constante vigilância da mídia, Balotelli parece não se abalar e bate de frente com as convenções.

Porém, mesmo com tantas proezas fora do campo, foram suas qualidades como jogador que o levaram à seleção italiana. É forte, tem visão de jogo e é bom finalizador, sendo que jamais desperdiçou uma penalidade máxima (isso mesmo, 100% de aproveitamento em 24 tentativas). Claro, está longe de ser um craque como Messi ou Cristiano Ronaldo. Talvez esteja entre um balanço (físico e futebolístico) de Imperador Adriano, com quem já jogou, e um Jô. Mas quem se importa?

Sua cara invocada se alterna a uma expressão blasé e a sorrisos marotos que cativam inclusive crianças. Até chorar já chorou.

Balotelli transpira carisma. Faz marketing às avessas quando vai de encontro ao bom mocismo com seu jeitão antipático. Mas cativa com suas constantes brincadeira. É o rei das trolagens.  E tudo isso funciona. Cada vez estrela mais campanhas de publicidade. Não por acaso, é a mais recente capa da festejada publicação Sports Illustraded que o aclama como o “homem mais interessante do mundo”. É fonte inesgotável de notícias que saciam a imprensa esportiva. Dá a impressão até de que conta com um setorista exclusivo só para seguir suas peripécias. E parece não se abalar. Acho até que gosta desse jogo.

Mais do que qualquer coisa, Balotelli faz bem em alimentar o folclore do futebol, esporte cada vez mais movido por cifras, planejamento, estatísticas, entre tantos sintomas do pragmatismo e da falta de imaginação que tanto nos ameaçam.

É um anti-heroi que carrega a esperança de um esporte mais engraçado, mais divertido. Um futebol que precisa ser de mais apaixonados e menos dos fanáticos.

Que Balotelli, ainda aos 23 anos, siga em sua trajetória sem enveredar por caminhos sem volta como fizeram tantas peças raras do mundo bola. Porque sabemos que em uma tentação ou outra, Balotelli sucumbirá. Afinal, ele é ser humano. Com suas diferentes faces e cheio de conflitos, erros, acertos, mas principalmente com uma enorme capacidade em esnobar o tradicional e o lugar comum.

Acho que é por isso que  gostarmos tanto dele.

Bravo, Balotelli!

TOP TEN VIDEOS BALOTELLI

1- Brincando de tiro ao alvo com um carrinho de golfe

2- Aloprando jovem jogador do Milan

3- Tocando o hino da Itália no piano (!)

4- Enchendo o saco da fotógrafa do Manchester City

5- Lutando para colocar um colete

6- Vergonhosamente desperdiçando um gol de calcanhar

7- Divertindo-se com uma bandeirinha de escanteio

8- Derrubando seu colega de equipe com ajuda de Cassano

9- Tomando um rapa-monstro de Totti

10- Marca o gol e pergunta: por que sempre eu?