A arte de se reinventar

“Quando a gente não pode imitar os grandes homens, imite ao menos as grandes ficções”. Essa frase de Machado de Assis, publicada em uma crônica sua, resume com maestria como deveria ser nossa busca por bons exemplos.

No caso de Eduardo Gonçalves de Andrade, muito mais conhecido como Tostão, sem dúvida temos um grande homem para imitar. E mais: se considerarmos que a seleção brasileira de futebol da Copa de 70 não era deste mundo, pode-se dizer que Tostão é parte ainda de uma fantástica obra de ficção.

Lançado no fim do ano passado, o livro “Tempos Vividos, Sonhados e Perdidos” escrito pelo craque brasileiro traz, além de suas memórias e experiências, uma belíssima história de reinvenção, palavra hoje repetida exaustivamente em qualquer atividade profissional.

Entretanto, ouvimos muito que “é preciso se reinventar” mas pouco sobre o que é preciso para se reinventar.

Tostão começou no futebol profissional ainda adolescente. Com 16 anos já atuava pela equipe principal do Cruzeiro. Aos 20 e poucos, conseguiu espaço no time titular daquele que é para muitos o maior esquadrão de futebol de todos os tempos: a seleção brasileira de 1970.

Ao senso comum, ser campeão de uma Copa do Mundo ao lado de Pelé e tantos craques seria suficiente para qualquer jogador ter uma carreira mais do que promissora e segura.

Porém, os desígnios da bola e da vida obrigaram Tostão a mudar, a se reinventar em decorrência de uma necessidade. Um problema na retina o retirou dos gramados quando tinha apenas 26 anos. Em uma época em que jogadores não assinavam contratos multimilionários, Tostão se viu aposentado precocemente e sem perspectiva na profissão que fora seu ganha-pão nos últimos dez anos.

Sem poder escolher largar tudo e fazer um mochilão pela Ásia, Tostão se viu impelido a tomar outro rumo profissional. A seu favor, ele podia contar com inteligência, sensibilidade e cultura acima da média, atributos que nunca desprezou mesmo em seu auge nos campos. Fez cursinho, prestou vestibular e passou em medicina. Os próximos anos ele veria futebol pela TV, clinicando e dando aulas para futuros doutores.

Anos mais tarde, nova transferência. Dessa vez por sua própria vontade. Sairia da medicina e voltaria para o futebol na posição de comentarista. Com o repertório literário que acumulou, a cultura e a didática de quem foi professor, Tostão se tornou um dos melhores analistas – nos diferentes sentidos da palavra – de futebol do país e, novamente, se reinventou com sucesso.

Esse não me parece o objetivo de seu livro, mas Tostão ensina que estudar e saber mais nunca é um desperdício. Não importa se você é atleta, cozinheiro, gerente da repartição ou concursado. Às vezes, é impossível prever quando vamos precisar do conhecimento e das experiências que acumulamos em nossas trajetórias. Além da vontade de se reinventar, é preciso ter humildade para valorizar cada chance de aprendizado.  Se houvesse se confortado apenas com sua imensa capacidade de jogar bola, talvez Tostão estivesse hoje entre tantos ex-grandes-jogadores com dificuldades financeiras e problemas emocionais.

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As melhores notícias sobre livros #agosto

Leio muita coisa sobre livros todos os meses. Por isso, resolvi compartilhar todos os meses uma compilação de informações, curiosidades e novidades que achei mais importantes ou divertidas nesse período.

Uma ou outra notícia não estão em português, portanto, se preferir, fiz um vídeo sobre isso no meu canal de livros detalhando as notícias.

  1. Pokémon Go inspirou jogo de incentivo à leitura.
  2. Bienal do Livro de São Paulo.
  3. Best Sellers dos últimos 40 anos.
  4. Livros selecionados por Barack Obama.
  5. Novos textos achados de Lima Barreto.
  6. A disputa pelos manuscritos de Kafka.

O que a (falta de) leitura diz sobre o Brasil

Leitura

Nas últimas semanas, entre viagens de elevador e conversas da hora do almoço, não foram poucos os comentários elogiosos que ouvi sobre o português “bem falado” do presidente interino Michel Temer. Não me atrevo a uma análise política, mas entre tantas interpretações possíveis, esses comentários soaram como se o domínio da língua ainda seja coisa tão distante quanto eram os espelhos para os habitantes nativos do Brasil quando os colonizadores os apresentaram pela primeira vez.

Os números da pesquisa do Ibope, Retratos da Leitura mostram que, se tomarmos a leitura como ponto de partida para o domínio da própria língua, não há dúvidas de que o brasileiro ainda está longe do aceitável. Segundo essa pesquisa, 30% dos brasileiros nunca compraram um livro e 54% não consomem literatura por vontade própria.  Portanto, não devemos nos espantar que um português empolado, à parnasiana, ainda provoque admiração e até submissão.

Embora indicadores de faixa social pesem para explicar a parte da população não leitora, eles não parecem suficientes pra dizer que no Brasil basta ser rico ou ter escolaridade formal para ter afinidade com as letras ou, ao menos, ser bem informado. Apenas 17% da população lê jornais todos os dias e 50% dos não leitores estão na região sul do Brasil, a parte mais rica.

O principal argumento para não ler é a falta do tempo. Ora, não ter tempo significa que, entre as prioridades de vida, ler não é uma delas. O dado é ainda mais alarmante se pensarmos que, com a tecnologia, podemos ler em qualquer lugar. Porém, a absoluta maioria dos brasileiros também não conhece o livro digital.

A leitura, mais do que um problema de escolaridade e grana, é comportamental. Enquanto, em média, o brasileiro não chega a cinco livros lidos por pessoa durante um ano (sendo que apenas metade desse número é de livros terminados), a Espanha passa de dez. Nossos vizinhos argentinos e chilenos também costumam ter números melhores que os nossos.

Saber ler, por si só, não significa capacidade de dominar uma língua, assim como reconhecer um português bem falado ao ouvido não significa, necessariamente, compreender o que está sendo dito.

A leitura é uma forma de aprendermos sobre aquilo que nos é mais importante, saber o que está acontecendo em nosso mundo e também um exercício da nossa capacidade de concentração, de se comunicar e de formar opinião sobre as coisas. Não me parece coincidência que em um país onde se lê tão pouco, compartilhe-se cada vez mais informações falsas nas redes sociais.

Com tantos estímulos ao redor, a leitura é pra muitos quase um ato de heroísmo em um mundo exigente com a dedicação para muitas atividades simultâneas. Mas achar que as respostas e as perguntas que precisamos fazer estão apenas nos memes, nas imagens e nos vídeos de 30 segundos, embora tentador, – spoiler! – não é a solução.

É até contraditório que a palavra “foco” seja repetida como mantra e ao mesmo tempo seja tão difícil nos mantermos atentos por mais tempo em uma atividade como a leitura. Também não é de hoje que empresários e especialistas alertam que o Brasil carece de mão de obra qualificada. Mas como qualificar uma mão de obra que não é capaz de ler e nem é incentivada por seus líderes? Recentemente, Bill Gates fez um artigo recomendando livros. Prova de que, qualquer um (mesmo!) pode arrumar tempo pra ler.

Em tempos de conhecimentos superficiais, a leitura parece uma saída e tanto para aumentar níveis de atenção e de retenção da informação. Já a falta de leitura do brasileiro precisa ser encarada com questão social. Minha sugestão é que o incentivo à leitura deve ser pensado não apenas pelos poderes públicos, mas também por empresas e instituições. Não compartilhe um texto do qual você leu só o título podia até ser um mote para campanha.