Televisão: o que esperar depois da aposentadoria do controle remoto

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A declaração de Susan Wojcicki, diretora-presidente do YouTube de que “A TV do futuro será sob demanda, móvel e para vários dispositivos” pode soar como previsão conveniente para uma pessoa em sua posição, mas é inegável que ela reflete o contexto de transformação da TV que assistismos.

Na frase da executiva do YouTube, mais do que uma previsão, está uma constatação. Em vez de esperarmos e, quase que aleatoriamente, procurarmos um programa que nos interesse, estamos nos programando para assistir o que queremos, quando queremos. O que não significa, é claro, que o novo modelo de TV já se consolidou.

O controle remoto está cada vez mais deixado de lado e esse fenômeno é tema de um livro útil para qualquer profissional de comunicação:  “Adeus, controle remoto”, do crítico de televisão Maurício Stycer. O livro mostra sob diversos pontos de vistas como a Revolução Digital chacoalha como nunca as bases em que o modelo de TV está erguido. Em vez de profecias para o futuro, o mérito do livro está em explicar o presente, traçando paralelos entre a indústria dos EUA e a brasileira para indicar algumas direções que a TV poderá seguir. Com base nesses textos, tentei elencar o que mais me chamou atenção nesse panorama de mudança da TV.

“os executivos sempre dizem desejar programas inéditos, mas de fato eles só querem o novo depois que o novo já está no ar e provou ser capaz de atrair audiência”.

  1. Evento social: cada vez menos, as pessoas se reúnem para assistir TV. Houve tempo em que a vizinhança se reunia para rodear o único aparelho de TV disponível na rua. Atualmente, assistir televisão está se tornando um hábito individual, exatamente pela facilidade com que cada um pode “criar” sua própria programação e facilidade de ver TV em diferentes dispositivos. O carregamento de temporadas inteiras das séries de TV também colaboram para essa “individualização” da audiência da TV e, ao que parece, precisaremos continuar atentos para desviar de spoilers nas redes sociais por um bom tempo.
  2. O modelo de venda dos pacotes de TV a cabo parece o primeiro a sucumbir frente aos estilhaços dessa Revolução Digital. (quase) Ninguém quer pagar por um monte de canais que não assiste. Há meses deixei de pagar TV fechada e não tenho vontade de tê-la novamente. As mais recentes opções para assistir TV como a Netflix, AppleTV e o próprio YouTube facilitaram a vida de quem deseja montar sua própria grade. Entretanto, é bom ressaltar, a TV aberta no Brasil ainda consegue alcançar o maior número de pessoas e os anunciantes continuam apostando nela como o principal meio para suas campanhas. Em 2015, a TV aberta concentrou 60% da verba publicitária.
  3. Conservadorismo:. Stycer cita a frase de um produtor dos EUA: “os executivos sempre dizem desejar programas inéditos, mas de fato eles só querem o novo depois que o novo já está no ar e provou ser capaz de atrair audiência”. O autor também conta como a Netflix, indo na corrente dos canais tradicionais de televisão,  planejou sua primeira série original, House of Cards, cruzando dados dos gostos dos seus assinantes. Eles perceberam que pessoas que gostavam dos filmes de David Fincher também curtiam os filmes de Kevin Space. A lógica disse que unir os dois era uma receita infalível. O resultado é conhecido de todos. O problema é essa lógica se tornar dominante a ponto de executivos evitarem se arriscar em novos formatos ou temas que não sejam defendidos por números prévios e, assim, criar-se uma barreira criativa nesse novo modelo.
  4. A Era de Ouro da televisão americana produziu séries tão boas que, entre outros efeitos, está mexendo com a estrutura de um dos principais produtos da televisão brasileira: as telenovelas. O lado positivo é que essa pressão pode levar a uma reformulação do modelo de novelas que nascemos e crescemos assistindo, tanto na duração (com menos capítulos) quanto em formatos mais ágeis, capazes de “segurar” o telespectador. Embora pareça consenso de que o Brasil ainda está bem atrás do mercado americano nesse quesito, há um movimento de produtores no caminho para melhorar a qualidade das séries e da teledramaturgia no Brasil (OK, talvez esse seja mais um desejo do que uma previsão).
  5. Baixaria deve continuar. Mais difícil do que romper os paradigmas do mercado de televisão parece ser alterar a concepção da TV que algumas pessoas têm e sobre como devem fazer para conseguir audiência. Por isso, é muito difícil acreditar que modelos batidos e ultrapassados de programas que apostam no sensacionalismo e na apelação sairão do ar tão cedo. A necessidade de provar a todo custo que a TV aberta ainda gera bons números de audiência ainda depositará muitas fichas na baixa qualidade como sinônimo de bons resultados. E, claro, nada parece impedir que essa velha visão se alastre para as novas mídias. É só trocar a obsessão pelos números do Ibope pelo número de visualizações.
  6. A medição de audiência será – ou já está sendo – revista. Cada vez mais os canais da TV aberta disponibilizam seus programas sob demanda em seus sites. Algumas emissoras até transmitem sua programação em tempo real. Muitas vezes, vejo os capítulos da novela em horários alternativos, quando tenho tempo. Parece óbvio que o Ibope, no modelo que sempre conhecemos para medir a audiência da televisão em tempo real, precisa se adequar a esse novo comportamento do usuário. Inclusive, quem sabe, não se prender ao tradicional Ibope pode ser um estímulo para as emissoras se dedicarem a novidades e formatos que ainda não foram testados. A transformação dos modelos de medir a audiência também pode impactar como o mercado publicitário distribui seus investimentos.

Texto publicado originalmente no LinkedIn.

Ryszard Kapuscinsky

KapuscinskiAinda que a cidade de Pinks, onde nasceu, hoje faça parte da Bielorrússia, Kapuscinski sempre se referiu a si mesmo como polonês. Inclusive, entre as décadas de 60 e 80, trabalhando para a agência de notícias estatal da Polônia, ele teve a oportunidade de cobrir uma infinidade de conflitos, golpes de estado e revoluções na África e na América Latina que resultaram em muitos de seus livros.

Um deles, dos últimos a serem lançados antes de sua morte em 2007, chama-se A Guerra do Futebol. Apesar do nome, com referência ao embate armado entre El Salvador e Honduras no ano de 1969, a obra é uma reunião de impressionantes relatos sobre importantes acontecimentos em dezenas de países africanos e latinos entre os anos 60 e 70.

No que se refere ao título, Kapuscinsky traz a cobertura de uma guerra na América Latina entre os vizinhos Honduras e El Salvador que teve como estopim uma disputa entre os países por uma vaga para a Copa do Mundo do México em 1970. Uma rivalidade que explodiu do campo de jogo para o de batalha.

Com direito a imagens fortes do front de uma guerra furiosa e ao mesmo tempo inútil, o jornalista explica como a tensão por uma disputa de terras entre Honduras e El Salvador desaguou nas eliminatórias da Copa e acabou em um conflito armado sangrento.

Tudo começou quando agressões entre as torcidas tomaram conta dos jogos de ida, em que Honduras venceu por um a zero, e tomaram maiores proporções na partida volta, quando El Salvador fez três a zero e os jogadores hondurenhos escaparam de severas agressões  da torcida local. O terceiro jogo, o do desempate, só aconteceria na Cidade do México (El Salvador venceu por 3 a 2 e se classificou).guerra do futebol

Na realidade, o futebol foi um pretexto para um conflito que já se anunciava bem antes, quando El Salvador cobiçava as terras da vizinha Honduras que, por sua vez, exigia a retirada dos imigrantes salvadorenhos de seus territórios. No fim, a guerra terminou sem vencedor, mas com muitos mortos e dezenas de milhares de feridos. Uma atrocidade capitaneada pela irracionalidade do esporte mais popular do mundo, mas com profundas raízes socioeconômicas.

Consegui minha edição da Companhia das Letras em uma feira de livros pela metade do preço e precisei de poucos dias para atravessar todas as histórias que o autor conta com admirável profundidade histórica e domínio da narrativa. Depois de ler, é impossível não se espantar com o fato de conhecermos tão pouco os países africanos e muitos de nossos vizinhos na América Latina.

 

A ilha – Fernando Morais

ilhaCuba não está rodeada apenas pelo esplendoroso Mar do Caribe.

Desde a Revolução, em 1959, a ilha também se viu cercada por uma polarizada (e improfícua) discussão política.

Gente que acredita que o país é um inferno na Terra porque não seguiu o capitalismo liberal é munida por uma mídia, na maioria das vezes, pautada pela posição diplomática dos EUA e que nunca fez muito esforço de ir além dos imigrantes tentando escapar do mundo socialista.

Na margem oposta estão aqueles que enxergam em Cuba um paraíso de igualdade e justiça social. Um exemplo irretocável a ser seguido pelo resto do mundo.

O livro A Ilha, de Fernando Morais, foi escrito em 1976 em uma longa viagem que o jornalista fez por lá. Resgatei meu exemplar por R$ 10,00, em um sebo no centro de São Paulo, no momento em que Barack Obama resgata os laços dos EUA com a ilha.

A despeito do tempo desde quando foi escrito até os dias de hoje, muitas questões abordadas no livro permanecem atuais e são didáticas para compreender Cuba sem o maniqueísmo que esconde as verdades e dissemina as fantasias maliciosas sobre o país.

Sem especulação, mas com depoimentos de funcionários públicos o livro mostra que é praticamente impossível negar como as liberdades individuais básicas foram tolhidas por um sistema autoritário.

A repressão do regime, o controle da mídia e a burocratização tornam alguns direitos fundamentais como mudar de emprego, viajar ou adquirir bens de consumo uma missão por vezes impossível.

No entanto, há também exemplos de realizações que deveriam deixar o povo de um gigante capitalista como o Brasil, no mínimo, curioso. O sistema de ensino e a saúde pública são lição até para os americanos.

A consciência coletiva que demonstram os médicos de Cuba quando vem ajudar o Brasil, atendendo no interior do país, ou quando vão à África tratar pacientes do Ebola, é um dos motivos de orgulho de Fidel Castro e foi cuidadosamente trabalhada desde os tempos de guerrilha na Sierra Maestra.

A gestão do esporte – principalmente enquanto Cuba recebia um generoso aporte da URSS pelo seu açúcar – também serviria como caso de estudo a cada membro do governo brasileiro responsável pelas Olimpíadas.

Destaco uma breve história sobre o boxeador Teófilo Stevenson. Campeão olímpico em Munique, recebeu oferta milionária para deixar Cuba e morar em Los Angeles. Recusou. Preferiu continuar sua vida como operário e boxeador amador.

Difícil saber o quanto o governo cubano “influenciou” uma decisão como essa, ainda mais hoje quando é possível se lembrar dos boxeadores que o governo Lula irresponsavelmente devolveu ao regime castrista.

Mas o livro também mostra que não são poucos os contentes com a situação de suas vidas em Cuba. Principalmente as pessoas que conheceram o regime anterior, quando Cuba era governada por um ditador subserviente aos desejos imperialistas dos EUA.

Certeza, saí com apenas três.

Um: quanto mais profundamente se conhece, mais difícil fica tomar posições radicais sobre as questões que envolvem Cuba.

Dois: nenhum governo que toma conta de um país por mais de cinquenta anos é digno de reverência.

Três: o embargo imposto pelo governo dos EUA é tão ou mais covarde e criminoso quanto as sanções que o governo de Fidel Castro impõe sobre seus próprios cidadãos. Para corroborar esse ponto de vista, compartilho esse artigo do ex-presidente norte-americano, Jimmy Carter, presidente na época em que Fernando Morais escreveu seu livro e que, aquela altura, já tentava sinalizar uma abordagem diferente quanto ao embargo que, é bom dizer, ainda continua, mesmo com o reatamento das relações entre os países.

Vídeo: Morte e Vida Severina (Auto de Natal Pernambucano)

Sem entrar na posição religiosa de cada um, o natal e o fim de ano podem ser uma boa hora para celebrar a vida e a renovação dela.

E não há melhor resposta
que o espetáculo da vida:
vê-la desfiar seu fio,
que também se chama vida,
ver a fábrica que ela mesma,
teimosamente, se fabrica,
vê-la brotar como há pouco
em nova vida explodida;
mesmo quando é assim pequena
a explosão, como a ocorrida;
mesmo quando é uma explosão
como a de há pouco, franzina;
mesmo quando é a explosão
de uma vida severina.

 

Sócrates

Sócrates
Imagem do meu celular

Entre os métodos de Sócrates na Grécia Antiga, está o famoso questionamento que incentivava seus alunos a pensar e refletir sobre um tema, estimulando a busca pelo conhecimento, ou a virtude, para usar o léxico do filósofo.

Quando seu Raimundo, leitor dos Diálogos de Platão e de muitas outras obras gregas, batizou seu primogênito com um do seus nomes mais marcantes não imaginava que ele seria o jogador de futebol mais original – e por que não dizer o mais filosófico – do Brasil. Sócrates desenvolveu seu próprio método para questionar todas as estâncias do mundo do futebol.

Seu legado é de uma riqueza espantosa e o livro Sócrates, do jornalista Tom Cardoso passa pela vida do craque contando (e recontando) histórias e diálogos que ajudam a entender sua personalidade pouco convencional para os padrões sociais. Ainda mais do futebol.

Como se vivesse uma missão intuitiva de ensinar, Sócrates, incentivou o questionamento dentro e fora do campo. Questionava convenções quando pedia o fim da concentração dos jogadores, questionava modelos comportamentais quando expunha livremente seus pensamentos e questionava até a lógica do esporte quando bebia sem limites e, mesmo assim, era capaz de exibir um jogo plástico, exuberante e também de resultados.

Sócrates também criou seus paradoxos, bem particulares. Um deles era capaz de colocar à frente todos times em que jogou usando a parte de trás do pé.

Sobre seu calcanhar o livro esclarece o que para mim era um mistério: Sócrates calçava 41, um pé diminuto para sua altura (1,95 m), mas um pouco maior do que algumas lendas que li e ouvi sobre sua chuteira estar numerada na casa dos trinta.

O paradoxo socrático no futebol também se estendia quando tomava decisões desprovido da razão sem, contudo, abandonar a lógica que movia seu caráter.

Sócrates, o filósofo, dizia que o conhecimento leva a virtude.

Conhecer a história desse jogador é tão importante para o pensamento do futebol brasileiro como os gregos são para a filosofia.

Em uma era dominada por técnicos retranqueiros, jogadores limitados, administrações incompetentes e viciadas em beneficiar a poucos, a história deixada por Sócrates é um testamento de princípios e idealismos que precisam ser resgatados para que o futebol brasileiro recupere o que sempre teve de melhor: a alegria de jogar bola.

Eduardo Galeano: Figurinha do Uruguai

Eduardo Galeano figurinhaO jornalista e escritor Eduardo Galeano não só é uma importante figura do Uruguai como de toda América Latina.

Seu livro mais conhecido, “As veias abertas da América Latina” se tornou um clássico para aqueles que, no campo do pensamento político, gostam de se posicionar ao lado esquerdo e para aqueles que buscam entender as raízes que prendem o continente ao atraso.

Em se tratando do jogo de bola, seu livro fundamental chama-se “Futebol ao Sol e à Sombra”.

Com ele, Galeano conta a evolução do esporte mais popular do planeta, desde sua pré-história, dos jogos com o pé em bolas ainda rudimentares nas civilizações antigas, passando pelo surgimento das regras modernas na Inglaterra do século XIX e o desenvolvimento do esporte na América no início do século XX.

Futebol ao sol e a sombra capa

Quando chega à era do profissionalismo, o autor faz um apanhado abrangente do futebol usando como linha mestra as Copas do Mundo até a edição dos Estados Unidos, última antes do lançamento do livro, em 1995 (no Brasil, é possível encontrar a mesma edição da imagem, da L&PM Pocket, atualizada até o Mundial de 2010).

Em um dos capítulos iniciais, com tom mais filosófico, Galeano rechaça o axioma “futebol é o ópio do povo”, como se essa fosse uma obrigação pessoal com sua consciência, já que muitos intelectuais de sua estima, como o admirável  Jorge Luis Borges, nutriam desprezo pelo esporte das massas.

O autor não só apresenta bons argumentos de que é possível ser um torcedor assíduo sem cair no fosso da alienação, como também narra com senso crítico aguçado diversos episódios em que o futebol é utilizado perversivamente para enriquecer corporações e dirigentes, ou também como instrumento de propaganda política dos mais nefastos governos, inclusive o Regime Militar brasileiro.

Como promete o título, Galeano não se esquece do futebol e suas sombras. Já quando fala do sol, é uma explosão de craques históricos, folclores e histórias reais contadas em uma linguagem objetiva e ao mesmo tempo com certa poesia.

Livro – A Luta, de Norman Mailer

Muhammad Ali - the fightNão seria exagero dizer que este é o livro de esporte mais bem escrito de todos os tempos. Não só pelo talento de Norman Mailer, expoente do jornalismo literário de sua geração (que, entre outros, contava com Truman Capote), mas também porque Muhammad Ali é um personagem por demais fascinante.

Politicamente falando, talvez seja ele das figuras esportivas mais influentes de todos os tempos, a ponto de me fazer arriscar até uma provocação: se Pelé tivesse metade do punch de Ali, talvez a situação do racismo no futebol hoje fosse outra.  Infelizmente, o gênio do futebol lutou sempre do lado mais poderoso. Mas essa é uma outra história.

A “luta” do título não parece apenas uma maneira de se referir ao combate entre Ali e George Foreman em 1974, no Zaire. Mais do que confrontar dois dos maiores pugilistas de todos os tempos, se opunham implicitamente  naquele momento outras forças, como o domínio branco e a autonomia dos negros.

Havia também o pacifismo que se colocava ante à Guerra do Vietnã. Muhammad Ali perdera seu título mundial quando recusou a convocação para o exército enquanto Mailer foi preso depois de protestar contra ela. As “lutas” daquele período ferviam sob fogo alto e, de alguma forma, tanto o boxeador quanto o escritor estavam lá para recuperar algo que haviam perdido.

Não bastasse o contexto político, Norman Mailer tem precisão invejável e, com punhos firmes, descreve um Ali que transcende o gênio esportivo, sem jamais ignorar os fatores decisivos do boxe: treinamento físico, preparação psicológica e a estratégia pensada e desenvolvida para que Ali pudesse lutar em igualdade contra um “Big George” 7 anos mais jovem que ele, no auge da forma física e favorito nas bolsas de apostas.

A primeira vez que me debrucei em “A Luta” foi em uma edição nacional da Companhia das Letras. Gostei tanto que adquiri um exemplar no idioma original para ler novamente (imagem).