Cruzeiro e Atlético, Mata-Mata e Pontos Corridos

O primeiro jogo da final mineira na Copa do Brasil, além de um grande jogo, foi uma metáfora didática sobre algumas diferenças entre mata-mata e pontos corridos.

Não me refiro à infindável discussão que opõe as fórmulas e aponta que uma é mais legal ou dá mais audiência que a outra. Acredito que ambas oferecem emoção com mecânicas distintas.

Acho que desfrutar das duas fórmulas é mais legal do que ficar competindo se uma é melhor que a outra ou ter só um tipo de competição para todos os campeonatos.

O que a partida de ontem definitivamente mostrou é como alguns times reagem diferente de acordo com a fórmula que disputam.

O Cruzeiro é afinado, ajustado e eficiente. Dificilmente perde para times inferiores. Tem um padrão de jogo definido e elenco superior a quase todas as equipes do futebol brasileiro. Não lidera por acaso o campeonato de pontos corridos com certa folga por toda a temporada.

Já o Atlético não tem um padrão de jogo tão perfeito, mas em contrapartida apresenta uma capacidade de se superar, vibrar e se motivar muito acima da média nas partidas decisivas.

O Cruzeiro é constante. O Atlético é mutante.

Tanto que os alvinegros parecem ter assimilado os desfalques enquanto o Cruzeiro sofre mais quando uma situação sai do roteiro que está acostumado.

O Cruzeiro  é estúdio. O Atlético é ao vivo.

Claro que no futebol isso não é certeza de que o Galo já ganhou e que está fora de cogitação experimentar do mesmo veneno que inoculou em sequência contra Corinthians e Flamengo. Mas eu não apostaria nisso.

Assim como o Cruzeiro não se perderá nas linhas que correm ao seu feitio no campeonato de pontos corridos.

Agora, se a Raposa quer pensar em ganhar Libertadores ano que vem ou mesmo reverter essa desvatagem na Copa do Brasil, vai precisar aprender a lição de reagir como seus rivais.

Libertadores ou Mundial? Qual vale mais?

Para alguns, a derrota do Atlético-MG no Mundial foi vexatória.

Para outros, apenas a confirmação de que a distância entre o futebol praticado na América do Sul e o do Marrocos é de apenas um estreito de Gibraltar.

Ao Galo, há motivos justos para salientar a importância da vitória continental na Libertadores. Assim como já fizeram Palmeiras, Cruzeiro e Vasco da Gama.

Já aos corinthianos, são-paulinos, colorados, flamenguistas, gremistas e santistas uma dúvida fica quicando na cabeça: qual taça vale mais, Mundial ou Libertadores?

Esta discussão não se resume à lógica de Fernando Pessoa que compara o rio de sua aldeia ao Tejo. Essa só mostra que, entre milhares de reflexões mais profundas do poeta, ficou mais famosa uma de suas mais óbvias. Não basta dizer se minha Libertadores foi melhor do que a do meu rival, mas se decidir entre os dois rios da sua própria aldeia. Escolher um filho preferido. Preferir Mundial à Libertadores! Ou o oposto.

Nota: esta é uma discussão exclusiva à identidade sulamericana. Aos europeus, que olham de cima o futebol local,  a prioridade sempre será a Liga dos Campeões. O que também garante desculpa convincente para eventuais perdedores.

De bate-pronto, a mim a Libertadores pareceria mais importante.

Por sua história. E também pela motivação de torcidas e clubes, tempo de competição e, infelizmente, a nada orgulhosa evidência de que em sua reputação contam-se os percalços e armadilhas não encontradas em quase nenhuma outra disputa.

Nesse quesito poucos podem celebrar a superação do estado de barbárie sul-americano quanto o Flamengo. Em 1981, até soco com pedrada visto com complacência pela arbitragem foi necessário enfrentar contra o Cobreloa do Chile, na final.

É certo que os 3 a 0 sobre o Liverpool em Tóquio não foram bobagem. Mas se fosse flamenguista, provavelmente meu coração balançaria pelo caráter épico da Libertadores.

Por outro lado, é impossível não reconhecer a projeção de um Mundial e o sabor de superar uma equipe do Velho Continente. São autênticos combustíveis  de exultação clubística.

São-paulinos orgulham-se por bater times da estirpe de Barcelona e Milan; gremistas, por sua vez, não podem reclamar do emocionante título frente ao Hamburgo da Alemanha, com gol na prorrogação do ídolo Renato; santistas são os únicos que podem se gabar por terem vencido Milan e Benfica em jogos de ida e volta.

Bastam alguns exemplos e repenso minha decisão. É mais simples concluir que não há uma fórmula capaz de definir importância dos títulos. Não é a marca da competição, mas os desígnios do futebol e o próprio torcedor os responsáveis em atribuir o valor de uma taça.

Um titulo é como uma viagem em que se mede o prazer não exclusivamente pela fama do destino final, na chegada, mas pelo caminho percorrido até ele e, claro,  o contexto e as emoções que envolvem o viajante.

Por falar em questões territoriais, um corinthiano pode se orgulhar mais de um título regional como o paulista como o de 77, que detonou 22 anos de jejum,  do que o Brasileiro de 2005 conquistado em meio à penumbra da Màfia do apito e dos jogos com pontos redisputados. Mesma lógica para festas mundiais e continentais.

Colorados são únicos por experimentar a doçura de vencer o Barcelona de Ronaldinho e digerir o amargo Mazembe,  que adicionou ao futebol brasileiro sinônimo a uma palavra representado pela, também africana, zebra. Pode-se variar a preferência com sentimentos opostos: uns nutrem gosto pelo Mundial por ser um momento único. Outros ficam com a Libertadores, competição que não tem colada ao imaginário a dança do goleiro Kidiaba batendo o traseiro ao chão. Aí o problema é indicar qual das duas taças continentais foi melhor.

No final, todos os torcedores podem se fazer a mesma pergunta, se são mais sensíveis a este ou aquele título, mas cada um terá sua própria resposta. Sem contar que o episódio pode estar ligado à promessas ou outras resoluções pessoais. Ou, ainda, remeter a memórias e lembranças, intensificando o sentimento da conquista.

Por isso, ao pesar tantos fatores envolvidos, entre Mundial e Libertadores, concluo, enfim, que escolho ambos. Por um simples motivo: recuso-me a apontar predileção entre filhos.

Tite e o merecimento

Escrevo antes de Corinthians e Grêmio pela Copa do Brasil, jogo que pode dar um respiro ao trôpego segundo semestre  do time ou, mais provável, colocar fim à esperança mais próxima de alcançar a Libertadores.

Se os gaúchos, favoritos do momento, avançarem, muito mais gente clamará pela saída do também gaúcho Tite. Mesmo depois que a diretoria e o treinador garantiram a permanência até o fim do contrato, em dezembro de 2013.

Embora seja qual for o resultado dessa e das próximas partidas,  a situação do Adenor será discutida quanto mais perto estivermos do fim da temporada. Aliás, mesmo que o assunto já esteja resolvido entre técnico e diretoria, muito ainda vai se falar de Tite. Inclusive, se nada acontecer, muito se falará do técnico do Corinthians porque muito se fala de técnico no Brasil. Por isso, vou falar de Tite.

A partir da desmontagem do time campeão em 2012 e a reconstrução da equipe,  o coro pela demissão do treinador sobe o tom a cada atuação fraca.

Normal. Não é absurdo que após 3 anos – durabilidade rara para os padrões nacionais – venha a constatação de que um ciclo se encerrou e chegou a hora de partir para “outro desafio” – como manda o jargão dos que trocam de emprego. Tite sempre disse ao longo de sua passagem que três anos é um período limite.

Corriqueiro também é que alguns peçam a cabeça do professor como forma de elegê-lo único responsável pelo declínio do time. No fundo, seguem a tradição no país que determina demitir técnico sempre quando a receita começa desandar. Solução não muito eficaz, mas bem rápida para quem prefere não perder tempo em entender as situações.

Vejam, por exemplo, o caso do São Paulo.

Muricy, tricampeão brasileiro seguido, foi demitido porque não conseguia ganhar Libertadores. Torcida e dirigentes diziam que não era “técnico de mata-mata”.  Pouco tempo depois ganhou a perseguida com o Santos. Também levou um Brasileiro pelo Fluminense. Enquanto isso, o Tricolor paulista patinava em busca de um técnico que lhe trouxesse de volta as alegrias. Nada dava certo até que o São Paulo, atendendo novamente exigência da torcida (!), foi buscar… Muricy. E a coisa aos poucos parece voltar aos eixos.

Sob outro aspecto, Guardiola fez o oposto, mas também não permaneceu no Barcelona quando precisou reformular o timaço que vencia e dava espetáculo. Para não se desgastar, mesmo sabendo que precisava fazer, optou por não mexer em algumas peças do elenco e sair em busca de oxigênio. Tite não. Ele já mexeu bastante sacando medalhões, trocando esquemas, fazendo experiências e, claro, errando. Talvez isso atenha acelerado seu prazo de validade.

Por essas e outras, não me surpreenderia se Tite saísse por decisão pessoal.

Incompreensível, no entanto, é a maneira que outra parte – uma minoria da torcida, quem sabe – fala de Tite. E é uma parte que “fala muito, fala  muito”. Parece concentrar boa parte de cornetas que já pedia a demissão do treinador em 2011, que execrava jogadores como Danilo e que é constituída por tipos que só falam de futebol na base da agressividade. Se o pecado deles fosse apenas entender pouco do esporte não seria tão ruim.

Mas no que diz respeito ao treinador, cometem vários erros. Maior deles, a ingratidão.

“Esquecem” que Tite fez pelo clube o que nenhum outro pode.  Se hoje você, corinthiano, pode sair à rua e não ouvir gracinha sobre Libertadores é muito por causa dele. Alguns justificam que o técnico é muito bem pago e, por isso, precisa ser cobrado. Argumento que nem considera técnico como pessoa, mas como um produto com preço, garantia e, pior, descartável. E ainda que Tite fosse uma máquina – às vezes ele parece um robô falando -, no mercado não há similares que façam o mesmo que ele  e que cobrem baratinho.

Claro que qualquer trabalhador assalariado precisa ser cobrado. O que não se pode é confundir cobrança com ignorância. Jogar Tite para fora do clube como bagaço da cana moída que já deu pinga é uma cretinice com a história do Corinthians e tratemento que nenhum torcedor, no seu trabalho, gostaria de receber do seu empregador.

Um clube que eternamente convive com a mancha do arrependimento de ter escorraçado Rivellino, o maior craque que já passou pelo Parque São Jorge, não se pode dar ao luxo de destruir outros ídolos.

Gostem ou não da filosofia do treinador, do seu jeito, do seu vocabulário, do seu esquema tático e até do seu apreço incondicional por uma boa defesa às vezes demasiado,  não dá para negar que funcionou. E mais. Apesar de não ser o que em mais jogos dirigiu o Corinthians (é o segundo!), é difícil não concordar com a sentença: Tite é o treinador mais vencedor da história do Corinthians.

Caso a solução encontrada pela diretoria, pelos jogadores ou até mesmo pelo próprio Tite seja encerrar sua passagem pelo clube no fim do ano, o mínimo que se espera é uma despedida digna,  de quem ganhou tudo que podia pelo clube: homenagens, discurso, plaquinha, dicionário comemorativo com as palavras que Tite inventou ou qualquer coisa que celebre sua dedicação ao clube.

Não se pode esquecer que a escola da “titebilidade” deixou heranças. A maior delas, presente em todas as conquistas, é quando ele fala sobre o “me-re-ci-men-to”.

Tite merece uma saída honrosa, de portas abertas para o futuro, tão incerto como os resultados de futebol. Ainda que, intimamente, haja um coração aqui que não esconde torcer para uma dinastia Tite, coisa jamais vista em nosso futebol, como um Alex Ferguson do bando, talvez nem tão longa, mas ao menos tão vitoriosa.

Corinthians Campeão da Libertadores: Ano Um

         Soneto da Redenção

Sonho feito de bravura e furor.
Bem debaixo das barbas do Doutor.
Das mãos de Cássio, firmes no caminho
até o gol na cabeça de Paulinho!

Por dois batismos passou esse Escolhido
que por São Jorge um dia foi ungido.
Ele é Emerson! Imensa Nação grita!
Com seus dois gols fulminou antiga escrita.

Vai Fiel, nosso tão temido ataque.
Romarinho, ousadia sem temores.
Tantas batalhas, nenhuma esquecida.

Da equipe Tite fez seu maior craque.
Achas duro ganhar Libertadores?
mais duro é não perder uma partida.

Apêndice

O soneto é uma forma poética que possui 14 versos, o mesmo número de jogos de uma campanha da Libertadores. É feito de uma introdução, o desenvolvimento e, na última estrofe (terceto), o desfecho, também chamado de “chave de ouro” e que tem como objetivo resumir o conceito da obra. No caso: Corinthians: campeão invicto da Libertadores.

Os versos deste soneto são decassílabos, ou seja, possuem dez sílabas. Essa forma foi a mais consagrada em língua portuguesa, como por exemplo na obra de Vinicius de Moraes. Curiosamente, o Corinthians jogou toda a fase de mata-mata sem um camisa 10 no time, já que esse seria Adriano. Mas ele acabou dispensado antes e substituído pelo zagueiro Marquinhos. Alex e Danilo que poderiam usar esse número vestiam a 12 e a 20, respectivamente.

Como o futebol, um soneto também não é muito justo. Como o espaço é limitado, algumas omissões são inevitáveis como Danilo,  Ralf ou mesmo a exemplar zaga corinthiana.

Aprendendo com os erros

É difícil identificar que alguma coisa pode dar errado.

Mais difícil é bancar que alguma coisa que pode dar errado, vai dar errado.

Agora, o pior mesmo é não aprender com o que já deu errado.

Dias antes do primeiro jogo entre Corinthians e Boca Juniors, tentei estabelecer um diagnóstico, com doses de psicologia fuleira, ainda que com o nobre objetivo de levantar por que, dessa vez, meu faro de cachorro desconfiado apontava que o Corinthians precisaria ir muito além do que fizera ano passado para conquistar o bicampeonato da Libertadores.

Hoje, após a lição, não tiraria uma linha sequer exceto a última em que apostava: “o Corinthians passa pelo Boca”. Fato semelhante como quando se preenche – entre coluna 1, 2 ou coluna do meio – corretamente toda a loteria esportiva e na hora de levar o prêmio, perde-se tudo justamente pelo time do coração.

Identifiquei que o caldo poderia azedar, mas custei a acreditar.

Coisa que já havia feito várias vezes. Mas não posso dizer que aprendi e que farei diferente da próxima vez. A única coisa que sei  é que ao colocar razão e emoção lado a lado, a última acaba por prevalecer.

São as lições nunca aprendidas que incomodam mais.

Quantas vezes deixamos de acreditar naquilo que deveríamos? Quanto insistimos crer naquilo que não vale à pena?

Desdenhei o ano todo do Campeonato Paulista e foi justamente ele quem devolveu o moral para o corinthiano. Desejei que o Paulista não atrapalhasse a Libertadores e foi ele que apaziguou o azedume da eliminação. O futebol sempre ensina.

Só não aposto que a Federação Paulista tenha aprendido dessa vez que é desgastante e desnecessário um campeonato tão longo, com uma fórmula que gera desinteresse na maior parte da competição e que, em última instância, contribui para minguar ainda mais o estadual.

Como é difícil aprender com erros.

Até hoje ninguém aprendeu, mas a Libertadores ensinou mais uma vez  que a América do Sul ainda está longe, em qualquer aspecto, de outros lugares do mundo. Escudos policiais para se bater escanteio, objetos atirados ao campo, catimba, violência, cusparadas. A Libertadores continua um torneio norteado por posturas cafajestes.

Também gostaria de crer que Carlos Amarilla aprendesse com seus erros ao assistir o VT do jogo entre Corinthians e Boca. Isso se eu tivesse absoluta convicção de que foram realmente erros. Mas ainda ninguém aprendeu que a escolha da arbitragem precisa ter critérios mais transparentes e a tecnologia pode ajudar a acabar com sintomas de amadorismo no futebol. E também com impedimentos mal marcados. E como gostaria de acreditar que as ameaças de punições da Conmebol não são mais um ato teatral no interminável jogo de cena dessa instituição.

Por último, gostaria muito de dizer que a torcida organizada, a polícia, os dirigentes e todos os demais envolvidos, aprenderam com o triste caso do menino Kevin, morto por um sinalizador. Mas, ontem, minutos antes do fim do jogo entre Corinthians e Santos, as luzes e a fumaça vindas da  mesma torcida corinthiana eram o claro sinal de que a lição não foi aprendida.

Mais uma vez.

Corinthians no divã: balanço psicológico antes do mata-mata

A fase mais legal da Libertadores vai começar.

O mata-mata é a parte mais divertida porque é justamente aquela que oferece as maiores emoções. É o momento da competição em que a pressão psicológica atinge o ápice para jogadores, treinadores, juízes e, claro, o torcedor. E nós gostamos da emoção porque ela mexe com nossas cabeças. Então, tentei entender justamente o que passa pela cabeça do torcedor corinthiano nesse momento que, certamente, vai proporcionar fortes emoções.

Essa é a primeira vez que o Corinthians vai para o mata-mata sem o peso de não possuir um título da competição. Se antes era preciso controlar o nervosismo e a pressão por uma taça, o desafio agora é evitar o relaxamento, o comodismo e, principalmente, aquilo que o jornal de hoje destaca como uma das preocupações do treinador Tite: a soberba.

Tem gente que talvez nem questione essa condição. A mim me parece bastante curioso. Resolvi colocar o Corinthians no divã, já que não é a primeira vez que vejo um paciente do futebol superar o complexo de vira-lata e, rapidamente, enfrentar o risco de cair em outra patologia: a síndrome da superioridade, batizada também por estudiosos de “mal de Ceni”.

Histórico

A seleção brasileira foi um dos primeiros pacientes, ou melhor, times a serem diagnosticados com complexo de vira-lata. A conclusão se deu após a clamorosa derrota para o Uruguai em 1950. Porém, depois de conhecer o fundo do poço, vieram 3 títulos em 4 Copas (de 58 a 70) e a Seleção mergulhou em seu “complexo de superioridade” que a levou um estado letárgico profundo. Neste estado, acreditou que só a camisa amarela era capaz de jogar sozinha. Só voltou do coma em 94 ao assumir uma postura bem menos pretensiosa e ganhar a Copa nos EUA.  Nos pênaltis e com três volantes.

Corinthians

O Corinthians também passou por um evento traumático. Aliás, trauma na Libertadores nunca faltou. Dupla-eliminação para o Palmeiras, para o River, a maldição dos laterais e o vexame do Tolima. Todas essas altas doses de “inferiorismo” foram contra-golpeadas com o título invicto da competição, seguido por um Mundial no Japão e um time que se mantém no auge. E é justamente essa alternância de emoções que pode trilhar o caminho ao perigoso penhasco da soberba.

Os elevadores, corredores, ônibus, ruas e portarias de prédio são os divãs onde os corinthianos expõem suas preocupações. E o parecer geral é: no papel, o time melhorou em relação ao ano passado. Perdemos Leandro Castán, mas ganhamos Paulo André e Gil (grande surpresa). Saíram Liédson e Alex, mas trouxemos Guerrero – herói do Mundial e Alexandre Pato que, se ainda não mostrou tudo que se espera dele, tem estrela suficiente para fazer seus gols com constância de artilheiro. Melhor ainda. A exceção do goleiro, parece que o time possui um reserva confiável para cada posição. Mesmo assim, paira uma sensação comum: não há a mesma pegada do ano passado.

Os mais otimistas dirão que é uma acomodação natural de quem sabe a hora de acionar as turbinas ao máximo quando necessário. O mais desconfiado, por sua vez, pode pensar que os apagões podem aparecer em algum momento inoportuno e colocar tudo a perder. Tite, escaldado psicólogo da bola, trabalha para evitar a segunda hipótese.

Mas como toda questão psicológica, há sempre os fatores externos que desencadeiam o processo.
Então, saindo um pouco de olhar o próprio umbigo, vamos a eles:

1) O nível técnico dos outros times não é intimidador. Estava muito empolgado para assistir Atlético-MG e São Paulo, mas acabei decepcionado com o número de passes errados. A partida valeu mais pela emoção e correria. Tecnicamente, ficou devendo. O Galo é, sem dúvida, o melhor time da primeira fase, mas pode sofrer com a pressão de não chegar tinindo na hora decisiva, além do peso da “obrigação” de quem nunca venceu uma competição dessa. Por experiência própria, sabemos que o equilíbrio psicológico – ele outra vez – será fundamental. Esse não é um ponto forte do treinador Cuca.

Aliás, fala-se muito dos times brasileiros, mas tirante o Galo nenhum apresentou grande futebol. Arrisco a dizer que até agora o Fluminense é decepção pelo tanto que se badalou. O Corinthians fez o seu melhor jogo do ano contra o Tijuana no Pacaembu. Nos outros, entre alguns completamente atípicos como na Bolívia e México, levou em banho maria, com o regulamento debaixo do bigode. Tudo isso leva a crer que, entre os brasileiros, o Corinthians é um time arrumadinho como nenhum outro.

E como o costume da imprensa e, consequentemente, da torcida brasileira é ignorar a maioria dos times de fora, estar a frente de nossos compatriotas pode levar o imaginário do torcedor a uma condição mental de “consciência do favoritismo”, fenômeno pelo qual o Barcelona tem passado e, por que não dizer, sofrendo nos últimos anos. Ressalva: não faço aqui uma comparação futebolística direta entre os times de Corinthians e Barcelona, apenas de situações. Enquanto Barça e Real se roíam para um eventual confronto direto, acabaram vítimas de um Bllitzkrieg sem precedentes por parte dos alemães.

2)  Muito ajuda quem não atrapalha. E o Paulistão, definitivamente não ajuda. Se não bastasse expor os principais jogadores ao desgaste antes de uma partida decisiva em La Bombonera, o campeonato paulista colocou Corinthians e Ponte Preta frente a frente outra vez. E a Macaca, que outrora, foi o portadora da mensagem salvadora que dizia: “troquem o goleiro!”, agora foi atropelada e ignorada como se não houvesse mais qualquer lição a ser tirada.

3) Como terceiro fator, elenco aqui a questão que talvez esteja um pouco além de nossas cabeças: a parapsicologia. Antes do mata-mata, fiz diversas projeções para tentar prever o adversário do Corinthians nas oitavas. Emelec era favorito e até o Palmeiras poderia aparacer mas, rigorosamente, em  nenhuma delas surgia o Boca Juniors. Jamais contei que o limitadíssimo time do Tigre passasse. Ao saber que o vice-campeão do ano passado cruzaria nosso caminho logo de cara bateu uma ansiedade diferente. Para quem acredita em coincidências, a explicação é fácil embora o evento em questão possa conter, na verdade, um aviso cifrado dos deuses de que o futebol continua sendo o esporte do inesperado. Dito isso, reservo-me inclusive ao direito de não levar em consideração a atual fase do Boca.

Porque o fantasma do inesperado pode estar em um cruzamento desses. Ou no quique de um gramado sintético que colocou fim a 16 jogos de invencibilidade na competição. O inesperado é até capaz de tirar Messi de suas plenas condições na reta final de uma Liga das Campeões e fazer o favoritismo pender totalmente para o outro lado. O inesperado também pode contrariar a certeza de que um sistema de jogo vai sempre funcionar.

Ano passado, Tite ensinou que no confronto direto há três fatores decisivos: técnico, tático e psicológico. O psicológico me preocupava mais. Temia por aquilo que esperava: erros individuais, expulsões, descontrole e mais uma Libertadores indo pelo ralo. Agora, tecnicamente os times são nivelados, taticamente estamos um passo adiante e chutamos longe a sina derrotista. Mas o psicológico segue consternando. Preocupo-me com o que uma equipe planejada, experimentada e que já testou muitas variáveis pode, ainda, não ter encontrado. Imagino que Tite deve fundir a cachola imaginando todas as variáveis possíveis para que nada lhe escape do treino, da preparação. Mas é sabido como se comportam os donos da situação quando alguma coisa lhes foge ao controle.

4) Por último, pergunto: apontar que a soberba e o excesso de confiança merecem atenção não é justamente assumir a própria condição de superioridade?

Fim da sessão. Sobram hipóteses e faltam certezas. Futebol nem Freud explica. Ao torcedor corinthiano, o papo reto: o Corinthians deve saber que para chegar a final de uma competição como essa não basta ter vencido a anterior. Agora jogando bem e com a mesma vibração do ano passado, dá para deixar esse papo de soberba e apostar:  Corinthians passa pelo Boca e segue forte na competição.

Fragmentos de Oruro

O que não faltam em tempos de redes sociais é opinião. A sabedoria popular ensinou que assim como a bunda, todo mundo tem a sua própria. A diferença é que no Brasil para mostrar o traseiro ainda somos conservadores, quando deveríamos ter muito mais pudor na hora de manifestar certas opiniões.

Antes de cair na armadilha e exibir a minha própria retaguarda, mais uma entre tantas já expostas na janela digital, pretendo fazer algo um pouco mais discreto em relação à discussão Oruro, sinalizador e Corinthians.

Já que é impossível impedir que os fragmentos da tragédia a essa altura já tenham se espalhados em diferentes lugares e que certas barbaridades já tenham sido registradas, depois de observar com alguma dedicação, tentarei dividir essa enorme discussão em partes e, de alguma forma, ajudar a quem quiser emitir o seu próprio parecer, ou, em último caso, filtrar algumas partes da discussão que não valem o tempo gasto para que outras pessoas ainda possam entrar nessa discussão que não deverá terminar tão cedo.

O principal engano ao se debater esse tema é misturar as coisas. Primeiro, é preciso separarmos fatos de opiniões e, principalmente, de crenças, achismos e preconceitos. E como falamos de futebol, é obrigatório também tentar se distanciar da paixão.

Acompanhei com atenção os comentários após a partida na Bolívia. Quando o sinalizador se chocou contra o menino Kevin, é como se o feixe de luz do artefato, além de provocar dor e comoção, liberou alguns  ratos de bueiro armados com palavras de ordem e veredictos pessoais sobre o caso.Quero crer que um dia, o tal sinalizador possa ser visto como símbolo de um pedido de socorro feito pelos deuses do futebol. Um clamor por um resgate das profundezas da cartolagem sul-americana. Quem sabe um dia. Por enquanto, é apenas o estopim de uma lamentável fatalidade que acabou mostrando, mais uma vez, os grotescos modos do ser humano ao tratar (e opinar) sobre sua própria inviabilidade.Retomando o objetivo desse texto, é importante dividir as partes que constituem o emaranhado de discussões porque elas se confundem e confundem imprensa e opinião pública. Muito por conta desse nó é que nos perdemos e nos saltam às telas dos televisores e computadores cronistas esportivos com palavras de ordem, às vezes com pose de justiceiros implacáveis; ou “cidadãos de bem” que descarregam seus preconceitos, revanchismos, ódios e outros sentimentos podres; ou até mesmo os casos menos patológicos, mais propensos à ingenuidade de quem muitas vezes não está acostumado a enxergar por trás da cortina do futebol; e, claro, aqueles que sempre demonstram como o ser humano é um animal  eminentemente egoísta, que no momento de uma grande crise enxerga apenas a própria bunda. Ou no caso, escuta apenas a própria opinião.Basicamente, desde o fatídico disparo do sinalizador, entraram em pauta três áreas diferentes que acomodam  questões controversas: a esportiva, política e criminal. Não me considero especialista em nenhuma delas, mas acho que posso tentar acomodar cada qual no seu devido lugar. Ao menos pra mim, essa divisão ajudou na compreensão do caso e até na construção da minha própria opinião.
I. Esporte
O primeiro ramo da discórdia é o esportivo, geralmente ligado àquilo que envolve a punição ou não ao Corinthians (e, consequentemente, a outros clubes que descumprirem o regulamento do torneio). Não me estenderei sobre qual penso ser o castigo ideal.Se é que há algum. Apenas acredito ser justo aplicá-lo ao clube. Afinal, não há como negar a existência de um desastre causado pela ação de um torcedor que representa duas instituições – torcida e clube, na qual existe uma situação clara em que uma entidade se relaciona de forma próxima e até colaborativa com a outra.Aqui é muito comum  alguém levantar o tom: “mas tem que punir quem soltou o sinalizador eu não soltei então não posso deixar de ver meu time por isso”. Calma, uma coisa é a punição esportiva, que está ligada ao regulamento da competição, outra é a criminal que diz respeito ao Código Penal.Ao meu ver, ao Corinthians cabe acatar a punição com dignidade, e, se possível, encampar um movimento sério para que novas punições sejam aplicadas – não somente nos casos com vítimas fatais – e que o esporte evolua a um patamar  menos belicoso na América do Sul. Não adianta achar que tudo mudará de uma hora para outra. Mas é preciso uma postura firme para criar mecanismos e evitar que certos indivíduos e mentalidades sequer passem perto de um estádio de futebol. Opa, já comecei a dar opinião. Voltemos.Nessa primeira parte da discussão, é bom filtrar os aproveitadores em primeiro grau – aliás, fuja deles! Para esses, a punição só é justa e deve existir quando aplicada contra o clube do outro. São tão rasos que no primeiro nível de algo tão complexo já se escorregam ao colocar  uma discussão que envolve vidas humanas apenas em nível do campo de futebol. Talvez eles tenham dificuldade também para distinguir a grama da bola.Um outro exemplo que se deve evitar são os míopes, com dificuldade de enxergar pouco mais a frente. Basta mencionar os quatro patetas que buscaram reverter uma punição esportiva na Justiça comum, como se a questão mais relevante dessa tragédia fosse o direito do consumidor. Vesgos de tanto olhar para o próprio umbigo, não puderam ver um palmo a frente do nariz, nem o fato de que até poderiam ter prejudicado aquilo que dizem tanto amar, o Corinthians.

 
II. Política
Aqui o personagem central é a entidade (des)organizadora: a sempre letárgica Conmebol, Uma gestora que nunca tomou medidas enérgicas para evitar o flerte constante com desastres, mas que dessa vez não pode mais continuar inerte. Fazendo jus às tradições das confederações do futebol mundial, há tempos vive às voltas com suspeitas e denúncias de corrupção e é comandada por um tiozinho – Sr. Nicolas Leoz – que apesar de ter a mesma idade do ex-Papa Ratzinger não parece ter a mesma disposição em descalçar os sapatos vermelhos e pedir para sair.Ao contrário do que muitos alegam – e aqui vale um novo filtro a algumas opiniões – a incompetência e passividade da Conmebol não atenua, muito menos exime a responsabilidade da clube e da torcida  pela dor da família boliviana. Não se pode contestar a punição esportiva devido aos passos tortos da Conmebol pela política do esporte.Esse caso abre uma possibilidade – talvez única – de mudança nas estruturas dessa instituição que permanece desde os anos 60 em transe no que diz respeito a organização de seus torneios. A ferida aberta poderá ser benéfica para todos os clubes e fãs do futebol ao longo das próximas décadas. E certamente não é o caso de se deter apenas ao campeonato desse ano.No âmbito político, não é possível nos dias de hoje aceitar que rivalidades entre os clubes brasileiros os impeçam de formar uma espécie de grupo que cobre da Confederação Sul-Americana punições e, principalmente, condições para se jogar e organizar partidas de futebol sem risco à integridade de atletas e torcedores. Meu lado otimista ainda crê na possibilidade de que uma tragédia como essa possa servir  de exemplo para uma virada na reabilitação da Copa Libertadores e do  futebol do continente.Agora, se tudo correr como sempre, veremos mais uma tabelinha entre cartolas que olham para um lado e correm para outro. Uma jogada ensaiada só para parecer que as coisas mudarão de uma vez por todas. Não se pode aceitar que o Corinthians seja punido, expiando a culpa aos olhos do mundo, mas que tudo continue como antes e os donos do poder sigam tocando a bola de lado.

Por isso, é de se esperar que o Corinthinas tenha altivez ao lidar com a punição esportiva que alguns torcedores não tiveram e aproveite (de preferência, com o apoio dos clubes brasileiros) para abrir espaço na política. Quem sabe não é hora de liderar uma campanha de moralização.

Todo cuidado é pouco para evitar atitudes que apenas engrossem a fila de palhaços que povoam o circo da cartolagem do futebol na América do Sul.

III. Criminal
Esse ponto certamente é o mais sensível à questão humana. Nele, alguém deverá ser julgado por ter sido o agente do desastre que matou um garoto. Triste.Aqui também não vou me alongar em discutir as suposições convenientes para quem quer que seja e que se possa beneficiar de um menor assumindo essa culpa. A primeira vista, é conveniente demais. Porém, o mais absurdo da história é ela ser perfeitamente factível em um contexto com total desapego de valores esportivos e de convivência humana.Aliás, quando o assunto segue para a área criminal, é imprescindível fugir de alguns teóricos sobre a “maldade inerente dos torcedores organizados”, “banditismo na periferia” e até um neodetermininsmo em que  se buscam apontar alguns moldes de seres humanos.Por não identificar as diferentes áreas que a tragédia expôs, ou até para reduzir a tragédia em apenas um ato, muitos preferem embutir as responsabilidades do desporto e da política no indivíduo que disparou o sinalizador e que, na verdade, deverá ser julgado criminalmente.Como não sou jurista e tampouco sei que o se passava nos momentos antes ao disparo do sinalizador, não quero entrar no mérito da intenção ou não, mas me reservo ao direito de criticar quem parte do princípio do dolo utilizando como argumento algumas teorias e inclinações mencionadas acima. Geralmente, esses são os mais cheios de certeza e, portanto, os que mais falam bobagens.

É bom lembrar que a busca em aliviar a dor ou aplacar a raiva causada por uma tragédia  em uma única pessoa não apaga o que já aconteceu e também não impede o surgimento de novas tragédias. Aplicar uma pena desproporcional sobre quem disparou o sinalizador não resolverá as questões políticas e esportivas que permeiam essa discussão e que podem provocar novos desastres em um futuro não tão distante.