Tabelinha

Falcao-alta-editado

Tradução livre (ING): Little ricochet

Ínterprete do GIF: Falcão / Internacional

Como se diz “tabelinha” em:

Inglês: give and go pass; one-two pass.

Francês: passe-et-va.

Alemão: Doppelpass

Espanhol: toco y me voy

Italiano: dai-e-vai.

A tabelinha, também conhecida como um-dois, está ligada à essência do futebol bonito e também do jogo coletivo.

No Santos de Pelé e Coutinho a tabelinha era como um verbo conjugado para enebriar adversários que desabavam envolvidos no encanto dessa arte.

Se o chuveirinho para a área é a expressão rude, sem imaginação e, muitas vezes, desesperada da busca pelo gol, a tabelinha é cirúrgica, ousada e inventiva.

Aqui ela é representada de forma surpreendente, graças ao improviso e a imaginação de Falcão e Escurinho quando, em 1976, no jogo entre Internacional de Porto Alegre e Atlético-MG pelo Campeonato Brasileiro eles tabelaram pelo ar, de cabeça.

Sobre o Dicionário do Futebol Arte.

Libertadores ou Mundial? Qual vale mais?

Para alguns, a derrota do Atlético-MG no Mundial foi vexatória.

Para outros, apenas a confirmação de que a distância entre o futebol praticado na América do Sul e o do Marrocos é de apenas um estreito de Gibraltar.

Ao Galo, há motivos justos para salientar a importância da vitória continental na Libertadores. Assim como já fizeram Palmeiras, Cruzeiro e Vasco da Gama.

Já aos corinthianos, são-paulinos, colorados, flamenguistas, gremistas e santistas uma dúvida fica quicando na cabeça: qual taça vale mais, Mundial ou Libertadores?

Esta discussão não se resume à lógica de Fernando Pessoa que compara o rio de sua aldeia ao Tejo. Essa só mostra que, entre milhares de reflexões mais profundas do poeta, ficou mais famosa uma de suas mais óbvias. Não basta dizer se minha Libertadores foi melhor do que a do meu rival, mas se decidir entre os dois rios da sua própria aldeia. Escolher um filho preferido. Preferir Mundial à Libertadores! Ou o oposto.

Nota: esta é uma discussão exclusiva à identidade sulamericana. Aos europeus, que olham de cima o futebol local,  a prioridade sempre será a Liga dos Campeões. O que também garante desculpa convincente para eventuais perdedores.

De bate-pronto, a mim a Libertadores pareceria mais importante.

Por sua história. E também pela motivação de torcidas e clubes, tempo de competição e, infelizmente, a nada orgulhosa evidência de que em sua reputação contam-se os percalços e armadilhas não encontradas em quase nenhuma outra disputa.

Nesse quesito poucos podem celebrar a superação do estado de barbárie sul-americano quanto o Flamengo. Em 1981, até soco com pedrada visto com complacência pela arbitragem foi necessário enfrentar contra o Cobreloa do Chile, na final.

É certo que os 3 a 0 sobre o Liverpool em Tóquio não foram bobagem. Mas se fosse flamenguista, provavelmente meu coração balançaria pelo caráter épico da Libertadores.

Por outro lado, é impossível não reconhecer a projeção de um Mundial e o sabor de superar uma equipe do Velho Continente. São autênticos combustíveis  de exultação clubística.

São-paulinos orgulham-se por bater times da estirpe de Barcelona e Milan; gremistas, por sua vez, não podem reclamar do emocionante título frente ao Hamburgo da Alemanha, com gol na prorrogação do ídolo Renato; santistas são os únicos que podem se gabar por terem vencido Milan e Benfica em jogos de ida e volta.

Bastam alguns exemplos e repenso minha decisão. É mais simples concluir que não há uma fórmula capaz de definir importância dos títulos. Não é a marca da competição, mas os desígnios do futebol e o próprio torcedor os responsáveis em atribuir o valor de uma taça.

Um titulo é como uma viagem em que se mede o prazer não exclusivamente pela fama do destino final, na chegada, mas pelo caminho percorrido até ele e, claro,  o contexto e as emoções que envolvem o viajante.

Por falar em questões territoriais, um corinthiano pode se orgulhar mais de um título regional como o paulista como o de 77, que detonou 22 anos de jejum,  do que o Brasileiro de 2005 conquistado em meio à penumbra da Màfia do apito e dos jogos com pontos redisputados. Mesma lógica para festas mundiais e continentais.

Colorados são únicos por experimentar a doçura de vencer o Barcelona de Ronaldinho e digerir o amargo Mazembe,  que adicionou ao futebol brasileiro sinônimo a uma palavra representado pela, também africana, zebra. Pode-se variar a preferência com sentimentos opostos: uns nutrem gosto pelo Mundial por ser um momento único. Outros ficam com a Libertadores, competição que não tem colada ao imaginário a dança do goleiro Kidiaba batendo o traseiro ao chão. Aí o problema é indicar qual das duas taças continentais foi melhor.

No final, todos os torcedores podem se fazer a mesma pergunta, se são mais sensíveis a este ou aquele título, mas cada um terá sua própria resposta. Sem contar que o episódio pode estar ligado à promessas ou outras resoluções pessoais. Ou, ainda, remeter a memórias e lembranças, intensificando o sentimento da conquista.

Por isso, ao pesar tantos fatores envolvidos, entre Mundial e Libertadores, concluo, enfim, que escolho ambos. Por um simples motivo: recuso-me a apontar predileção entre filhos.