Engole Quem Quer

Temer

O que vou contar pra minha filha e, portanto, não escondo de ninguém, é que eu assisti, em meio a uma multidão cheia de esperança na Avenida Paulista, o PT chegar ao poder pelas eleições diretas em 2002. Hoje, a sensação é de azia histórica.

De lá pra cá, tenho certeza de que mudanças importantes aconteceram. Algumas delas boas e uma bastante terrível, que começou antes mesmo de 2002: a mudança do próprio PT, que resolveu jogar o jogo daqueles a quem se opunha e que sempre deram as cartas. Os mesmos ases que agora viraram o tabuleiro pra voltar ao poder. Não empunharam armas, mas tiveram a mãozinha de uma mídia economicamente frágil e moralmente vergonhosa. Noves fora, o PT paga o preço do seu próprio desgoverno.

Torço sempre para que as coisas melhorem embora não me arrisque em apostas. Espero apenas que aquela parte do que a gente se acostumou a chamar de esquerda se reorganize e busque fôlego novo pra fazer frente a tudo que está aí e se alimenta da ascensão ultraconservadora sombria que se fortaleceu nesta última década.

Agora, se me perguntar o que aconteceu e que terá como um dos “dias históricos” o de hoje, não me ocupo de eufemismos ou da “questão semântica” (como escreveu Veríssimo). Minha filha, foi golpe. Mas pode chamar de impeachment, de conspiração, mutreta, tapetão, jeitinho.

Afinal, isso é uma democracia. Ou não é?