Tabelinha

Falcao-alta-editado

Tradução livre (ING): Little ricochet

Ínterprete do GIF: Falcão / Internacional

Como se diz “tabelinha” em:

Inglês: give and go pass; one-two pass.

Francês: passe-et-va.

Alemão: Doppelpass

Espanhol: toco y me voy

Italiano: dai-e-vai.

A tabelinha, também conhecida como um-dois, está ligada à essência do futebol bonito e também do jogo coletivo.

No Santos de Pelé e Coutinho a tabelinha era como um verbo conjugado para enebriar adversários que desabavam envolvidos no encanto dessa arte.

Se o chuveirinho para a área é a expressão rude, sem imaginação e, muitas vezes, desesperada da busca pelo gol, a tabelinha é cirúrgica, ousada e inventiva.

Aqui ela é representada de forma surpreendente, graças ao improviso e a imaginação de Falcão e Escurinho quando, em 1976, no jogo entre Internacional de Porto Alegre e Atlético-MG pelo Campeonato Brasileiro eles tabelaram pelo ar, de cabeça.

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Drible da Vaca

Drible da Vaca, por Neymar.

Tradução livre (ING): Cow Dribble

Ínterprete do GIF: Neymar / Seleção brasileira.

Como se diz “Drible da Vaca” em:

Inglês: Pass around a player’s legs

Francês: Grand Pont

Alemão: Trick, bei dem der Ball rechts bzw. links am Gegner vorbeigespielt und dieser auf der anderen Seite umlaufen wird

Espanhol: Autopase

Italiano: Drible da vaca

Não há como se confirmar a exata origem do termo.

A lenda urbana, ou melhor, rural, diz que a expressão “drible da vaca” teria aparecido durante peladas nas fazendas do Brasil. Tocar a bola de um lado e pegar do outro era o jeito de desviar dos animais que pastavam nos campos de futebol improvisados.

No Brasil, o drible da vaca também pode ser conhecido como meia-lua, embora seja difícil não reconhecer que há muito mais carisma e poesia na primeira forma.

Nas línguas saxônicas não encontrei qualquer registro de uma expressão correspondente a essa finta. Por isso, fui obrigado a colocar uma pequena descrição em inglês e outra ainda maior em alemão (encontrada em um arquivo traduzido do francês).

Já os italianos utilizam o termo como foi batizado pelos brasileiros.

Bicicleta invertida

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Tradução livre (ING): Reverse Bicycle.

Ínterprete do GIF: Zico / Kashima Antlers (JAP).

Como se diz “Bicicleta invertida” em:

Inglês: Reverse Bicycle

Francês: Inversé retourne acrobatique

Alemão: Fallrückzieher invertierte

Espanhol: Chilena invertida

Italiano: Rovesciata invertita

Zico foi um dos maiores artilheiros do futebol brasileiro e até hoje é quem mais marcou gols no Maracanã.

Ainda que estivesse atuando em um campeonato imaturo como o japonês no início dos anos 90, seria difícil imaginar que passado seus 40 anos, Zico fosse capaz de inventar uma manobra radical para o futebol, como faz um moleque em cima do skate ao descobrir novos obstáculos.

Jogando pelo Kashima Antlers, o Galinho conseguiu, de improviso, criar um movimento que, na falta de uma definição melhor, se assemelha a uma bicicleta ao contrário. Ele mergulha de frente e ataca a bola com a parte traseira do pé direito.

Obra-prima  criada por um artista à beira da aposentadoria, mas que ainda era capaz de se divertir jogando bola como se fosse um garoto.

Chapéu

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Tradução livre (ING): Hat.

Ínterprete do GIF: Pelé / Seleção Brasileira.

Como se diz “Chapéu” em:

Inglês:

Francês: Sombrero

 Alemão:

Espanhol: Sombrero

Italiano: Sombrero

Se a linguagem pode ser analisada como um reflexo cultural de um povo, o chapéu é uma expressão que parece estar intimamente ligada ao estilo do futebol latino.

Em horas e horas de pesquisa não encontrei, por exemplo, nenhum sinônimo nas línguas inglesa ou alemã. O jornalista Paul Doyle, do diário inglês The Guardian, assinala apenas a palavra correspondente “hat” como significado da expressão brasileira, mas não designa nenhuma outra equivalente no seu idioma.

Em espanhol, italiano e francês, o drible em que se joga a bola por cima do adversário foi encontrado com a mesma grafia: sombrero, que remete ao chapéu dos mexicanos e também pode estar relacionado ao formato que a bola desenha no ar quando essa finta é aplicada.

Já no Brasil, chapelar é até verbo e o substantivo tem  sinônimo: lençol ou , às vezes, boné.

Para ilustrar, o registro é uma imagem daquele que é provavelmente o chapéu mais espetacular já produzido. A começar pela grife, assinada pelo Rei Pelé, ainda com 17 anos. Depois, o contexto da obra, uma final de Copa do Mundo. Para fechar, seu resultado: um golaço na vitória de 5×2 do Brasil sobre a Suécia na partida decisiva da Copa de 58.

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Pombo sem asa (Bomba)

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Tradução livre (ING): Dove with no wings (Bomb).

Ínterprete do GIF: Roberto Rivelino / Seleção Brasileira

Como se diz “bomba” em:

Inglês: Cannon Ball; Cannon Shot.

Francês: Bombarder; Boulet de Canon.

Alemão: HammerBombenschuss.

Espanhol: Sapatazo; Balonazo; Cañonazo.

Italiano: Bomber; Cannoniere

O cinema de Scorsese ou de Tarantino provam que violência também pode ser elemento construtivo da arte.

No futebol, é comum colocarmos em oposição força e beleza, como se elas não pudessem respirar sob a mesma atmosfera. Nem sempre é assim.

A cacetada de um chute está entre os mais antigos e nobres talentos artísticos do futebol e não há time que despreze a capacidade de furar retrancas com um míssil certeiro.

Considerada o melhor time de todos os tempos por muitos, a Seleção Brasileira de 1970 fez muito bem quando arrumou um lugar na ponta esquerda  para Roberto Rivelino, capaz de demonstrar sutileza ao aplicar um elástico, mas que também podia ostentar orgulhosamente o apelido de “Patada Atômica” por sua capacidade de provocar destruição nas defesas.

E como um apelido muitas vezes demonstra um gesto de afeição, a expressão brasileira “pombo sem asa” é a maneira mais poética de identificar o rastro branco da bola que risca o ar depois de disparada por um pé bem calibrado. Um sinônimo pacífico da belicosa “bomba”, maneira mais comum de chamar os chutes carregados de potência.

A imagem que ilustra esse capítulo é da primeira partida da Copa de 70, quando o Brasil ainda perdia por 1 a 0, e mostra a bomba de Rivelino atravessando o lado direito da barreira e passando pelo goleiro da antiga Tchecoslováquia que, mesmo conseguindo colocar a mão na bola antes que ela entrasse em sua meta, é incapaz de impedir sua trajetória rumo às redes, tamanha a brutalidade do disparo.

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Meia Bicicleta

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Tradução livre (ING): half-bicycle

Ínterprete do GIF: Bebeto / Seleção Brasileira

Como se diz “meia-bicicleta” em:

Inglês: Scissor kick; half volley.

Francês: Ciseau; demi volée

Alemão: Seitfallzieher

Espanhol: Media chilena

Italiano: Sforbiciata; Semirovesciata.

Entre uma bicicleta e um voleio perfeito há um ponto médio, o equilíbrio entre as duas habilidades que se pode chamar de voleio acrobático ou também meia bicicleta.

No Brasil, não resta dúvidas de que Bebeto foi quem mais aprimorou a excelência na execução desse movimento. Tinha tempo de bola, leveza e agilidade suficiente para inclinar o corpo no momento certo e, com a alavanca de um pé após outro, aumentar a potência do chute enquanto o corpo pairava sobre o ar.

A imagem do gif ilustra o gol que abriu o placar da semifinal da Copa América de 1989, entre Brasil e Argentina.

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Cobertura

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Tradução livre (ING): Topping goal

Ínterprete do GIF: Ronaldo / Corinthians.

Como se diz “cobertura” em:

Inglês: chip; lob

Francês: Pichenette; Lobbé

Alemão: Lupfen

Espanhol: Cuchara

Italiano: Pallonetto

Enquanto todos pensavam com os músculos, foi com a sutileza do cérebro que o grego Ulisses conseguiu superar a forte defesa de Troia. Em vez de usar a brutalidade para derrubar muralhas, inventou um cavalo de madeira gigante e, como quem não desejasse agredir, presenteou seus inimigos. Recebido sem desconfiança, os soldados saíam de dentro do cavalo e quando os adversários, atônitos não sabiam muito bem o que fazer. Quando perceberam, era tarde demais.

No futebol, o gol por cobertura é como o Cavalo de Troia que discretamente passa pela defesa. Lance totalmente inesperado e fora de alcance. Não dá chance para reação. Quando zagueiros e goleiros se dão conta do toque sutil do atacante, todos já estão batidos.

O gol por cobertura é a estocada fatal da astúcia, do alcance privilegiado da visão. Na Copa de 1970, Pelé fez o único gol por cobertura da história do futebol em que a bola não tocou as redes e acabou saindo pela linha de fundo. O lance entrou para a história como um de seus gols que não aconteceram, mas se perpetuaram como exemplo de genialidade de alguém que, como Ulisses, conseguia ver além no campo de batalha.

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Calcanhar

 

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Tradução livre (ING): backheel.

Ínterprete do GIF: Sócrates / Corinthians.

Como se diz “Calcanhar” em:

Inglês: backheel

Francês: talonnade; passe du talon.

 Alemão: hackentrick

Espanhol: tacón; taquito.

Italiano: tacco.

Como Michelangelo está para a Capela Sistina, Da Vinci para Monalisa ou Picasso para Guernica, no Brasil o toque de calcanhar é uma arte associada a Sócrates. Alto, magro e com os pés relativamente pequenos para seu tamanho, o craque, que também se formou em medicina, parece ter adotado o toque invertido naturalmente e coo na teoria darwinista funcionou como adaptação evolutiva que o permitiu resistir à seleção natural dos campos.

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Elástico

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Tradução livre (ING): elastic; rubber band.

Ínterprete do GIF: Ronaldinho Gaúcho / Barcelona.

Como se diz elástico em:

Inglês: flip flap; flip flop; snake.

Francês: double-contact; virgule.

Alemão: elastico; flip flap*

Espanhol: elastica; culebrita.

Italiano: elastico.

*Nota: Em todas as referências que encontrei em alemão, os termos encontrados são os mesmos do inglês.

A patente dessa invenção é reconhecida mundialmente para Roberto Rivelino, camisa 11 da seleção tricampeã mundial em 70 e craque de Corinthians e Fluminense. Mas é possível que as novas chuteiras e bolas tornaram sua execução menos dificultosa. Romário, Ronaldo e Ronaldinho Gaúcho também foram exímios nessa arte.

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Dicionário do Futebol Arte – Prefácio

Em defesa da arte: juntos na seleção, Garrincha e Pelé nunca perderam um jogo.
Vitória da arte: juntos na seleção, Garrincha e Pelé nunca perderam um jogo.

Depois que a seleção brasileira de 1970 atravessou sonhos de torcedores de todo planeta, como a flecha disparada por Eros perpassa o coração dos apaixonados, ergueu-se no imaginário dos amantes do futebol um monumento inabalável da arte.

Nem durante 24 anos de jejum, o futebol brasileiro deixou de alimentar o mundo com sua fantasia capaz de encantar e transformar derrotas em lendas, daquelas que o herói tomba no campo de batalha, mas fica para sempre vivo na memória de quem aprecia o toque de bola, o drible, o efeito e a catarse que essa arte provoca. Assim foi na Copa da Espanha em 1982.

É verdade que ganhamos o Mundial de  94 com três volantes. Em 2002, levamos o pentacampeonato com três zagueiros. Em um mundo cada vez mais de números e menos de sutilezas, a busca intransigente pelo resultado muitas vezes nos obrigou a abrir mão da ofensividade.

Mais de uma vez negamos nossas raízes, responsáveis em carregar a bola como seiva do requebrado, em troca de esquemas truncados, força física e pragmatismo. Mesmo assim, dos pés de nossos craques, a arte do futebol surgia em momentos tão sublimes quanto inesquecíveis, quase como combustão espontânea que mantém acesa a chama do jogo feito para divertir.

Claro que é impossível ignorar a contribuição de tantas outras nações que também se tornaram exímios cultivadores de belas jogadas nos campos e na criação de pinturas em forma de gols. Não se pode nunca esquecer que o belo futebol pode nascer em qualquer lugar, em qualquer canto da Terra. Por isso, cabe a nós também aprender com o mundo. Aqui não será diferente.

Criar um dicionário ilustrado com bonitas jogadas foi a maneira que encontrei para buscar o prazer em pesquisar, fuçar e redescobrir momentos que marcaram a história. Além de desvendar uma linguagem riquíssima, capaz de inúmeras variações dentro de um mesmo idioma ou de criar termos específicos apenas em uma determinada língua.

A ideia é juntar belos lances do futebol ilustrados e tentar mostrar acomo esses movimentos são descritos, inclusive em outros idiomas (ou, ao menos, na língua das oito seleções campeãs do mundo: português, espanhol, alemão, inglês e francês).