Ali no corner dos adversários

Ali no primeiro combate com Joe Frazier

Não é a primeira vez que menciono Muhammad Ali. Decerto não deverá ser a última.

Não porque encontre nele a santidade que muitos tentam colar nas grandes figuras.

Santidades definitivamente não me interessam. Nem seres humanos infalíveis.

Por isso, para quem se interessa por Muhammad Ali, recomendo o documentário Encarando Ali (Facing Ali).

O filme é de 2009. Assisti graças à disponibilidade no Netflix.

Aparentemente sua íntegra está vetada no YouTube.

O mais legal desse documentário é que ele é totalmente centrado na visão que os oponentes tinham de Muhammad Ali. Inclusive os mais célebres como Joe Frazier e George Foreman.

Nesses depoimentos a gente entende que Ali foi o maior não porque ele repetia isso. Nem porque ele nunca se equivocou em meio a sua trajetória de ídolo.

Mas simplesmente porque, entre diferentes motivos, seus maiores adversários o reconhecem assim.

 

Livro – A Luta, de Norman Mailer

Muhammad Ali - the fightNão seria exagero dizer que este é o livro de esporte mais bem escrito de todos os tempos. Não só pelo talento de Norman Mailer, expoente do jornalismo literário de sua geração (que, entre outros, contava com Truman Capote), mas também porque Muhammad Ali é um personagem por demais fascinante.

Politicamente falando, talvez seja ele das figuras esportivas mais influentes de todos os tempos, a ponto de me fazer arriscar até uma provocação: se Pelé tivesse metade do punch de Ali, talvez a situação do racismo no futebol hoje fosse outra.  Infelizmente, o gênio do futebol lutou sempre do lado mais poderoso. Mas essa é uma outra história.

A “luta” do título não parece apenas uma maneira de se referir ao combate entre Ali e George Foreman em 1974, no Zaire. Mais do que confrontar dois dos maiores pugilistas de todos os tempos, se opunham implicitamente  naquele momento outras forças, como o domínio branco e a autonomia dos negros.

Havia também o pacifismo que se colocava ante à Guerra do Vietnã. Muhammad Ali perdera seu título mundial quando recusou a convocação para o exército enquanto Mailer foi preso depois de protestar contra ela. As “lutas” daquele período ferviam sob fogo alto e, de alguma forma, tanto o boxeador quanto o escritor estavam lá para recuperar algo que haviam perdido.

Não bastasse o contexto político, Norman Mailer tem precisão invejável e, com punhos firmes, descreve um Ali que transcende o gênio esportivo, sem jamais ignorar os fatores decisivos do boxe: treinamento físico, preparação psicológica e a estratégia pensada e desenvolvida para que Ali pudesse lutar em igualdade contra um “Big George” 7 anos mais jovem que ele, no auge da forma física e favorito nas bolsas de apostas.

A primeira vez que me debrucei em “A Luta” foi em uma edição nacional da Companhia das Letras. Gostei tanto que adquiri um exemplar no idioma original para ler novamente (imagem).