Drible da Vaca

Drible da Vaca, por Neymar.

Tradução livre (ING): Cow Dribble

Ínterprete do GIF: Neymar / Seleção brasileira.

Como se diz “Drible da Vaca” em:

Inglês: Pass around a player’s legs

Francês: Grand Pont

Alemão: Trick, bei dem der Ball rechts bzw. links am Gegner vorbeigespielt und dieser auf der anderen Seite umlaufen wird

Espanhol: Autopase

Italiano: Drible da vaca

Não há como se confirmar a exata origem do termo.

A lenda urbana, ou melhor, rural, diz que a expressão “drible da vaca” teria aparecido durante peladas nas fazendas do Brasil. Tocar a bola de um lado e pegar do outro era o jeito de desviar dos animais que pastavam nos campos de futebol improvisados.

No Brasil, o drible da vaca também pode ser conhecido como meia-lua, embora seja difícil não reconhecer que há muito mais carisma e poesia na primeira forma.

Nas línguas saxônicas não encontrei qualquer registro de uma expressão correspondente a essa finta. Por isso, fui obrigado a colocar uma pequena descrição em inglês e outra ainda maior em alemão (encontrada em um arquivo traduzido do francês).

Já os italianos utilizam o termo como foi batizado pelos brasileiros.

Bicicleta invertida

Zico-kashima-alta

Tradução livre (ING): Reverse Bicycle.

Ínterprete do GIF: Zico / Kashima Antlers (JAP).

Como se diz “Bicicleta invertida” em:

Inglês: Reverse Bicycle

Francês: Inversé retourne acrobatique

Alemão: Fallrückzieher invertierte

Espanhol: Chilena invertida

Italiano: Rovesciata invertita

Zico foi um dos maiores artilheiros do futebol brasileiro e até hoje é quem mais marcou gols no Maracanã.

Ainda que estivesse atuando em um campeonato imaturo como o japonês no início dos anos 90, seria difícil imaginar que passado seus 40 anos, Zico fosse capaz de inventar uma manobra radical para o futebol, como faz um moleque em cima do skate ao descobrir novos obstáculos.

Jogando pelo Kashima Antlers, o Galinho conseguiu, de improviso, criar um movimento que, na falta de uma definição melhor, se assemelha a uma bicicleta ao contrário. Ele mergulha de frente e ataca a bola com a parte traseira do pé direito.

Obra-prima  criada por um artista à beira da aposentadoria, mas que ainda era capaz de se divertir jogando bola como se fosse um garoto.

Chapéu

Pele_chapeu_alta

Tradução livre (ING): Hat.

Ínterprete do GIF: Pelé / Seleção Brasileira.

Como se diz “Chapéu” em:

Inglês:

Francês: Sombrero

 Alemão:

Espanhol: Sombrero

Italiano: Sombrero

Se a linguagem pode ser analisada como um reflexo cultural de um povo, o chapéu é uma expressão que parece estar intimamente ligada ao estilo do futebol latino.

Em horas e horas de pesquisa não encontrei, por exemplo, nenhum sinônimo nas línguas inglesa ou alemã. O jornalista Paul Doyle, do diário inglês The Guardian, assinala apenas a palavra correspondente “hat” como significado da expressão brasileira, mas não designa nenhuma outra equivalente no seu idioma.

Em espanhol, italiano e francês, o drible em que se joga a bola por cima do adversário foi encontrado com a mesma grafia: sombrero, que remete ao chapéu dos mexicanos e também pode estar relacionado ao formato que a bola desenha no ar quando essa finta é aplicada.

Já no Brasil, chapelar é até verbo e o substantivo tem  sinônimo: lençol ou , às vezes, boné.

Para ilustrar, o registro é uma imagem daquele que é provavelmente o chapéu mais espetacular já produzido. A começar pela grife, assinada pelo Rei Pelé, ainda com 17 anos. Depois, o contexto da obra, uma final de Copa do Mundo. Para fechar, seu resultado: um golaço na vitória de 5×2 do Brasil sobre a Suécia na partida decisiva da Copa de 58.

Sobre o Dicionário do Futebol Arte.

Pombo sem asa (Bomba)

rivellino-patada-alta

Tradução livre (ING): Dove with no wings (Bomb).

Ínterprete do GIF: Roberto Rivelino / Seleção Brasileira

Como se diz “bomba” em:

Inglês: Cannon Ball; Cannon Shot.

Francês: Bombarder; Boulet de Canon.

Alemão: HammerBombenschuss.

Espanhol: Sapatazo; Balonazo; Cañonazo.

Italiano: Bomber; Cannoniere

O cinema de Scorsese ou de Tarantino provam que violência também pode ser elemento construtivo da arte.

No futebol, é comum colocarmos em oposição força e beleza, como se elas não pudessem respirar sob a mesma atmosfera. Nem sempre é assim.

A cacetada de um chute está entre os mais antigos e nobres talentos artísticos do futebol e não há time que despreze a capacidade de furar retrancas com um míssil certeiro.

Considerada o melhor time de todos os tempos por muitos, a Seleção Brasileira de 1970 fez muito bem quando arrumou um lugar na ponta esquerda  para Roberto Rivelino, capaz de demonstrar sutileza ao aplicar um elástico, mas que também podia ostentar orgulhosamente o apelido de “Patada Atômica” por sua capacidade de provocar destruição nas defesas.

E como um apelido muitas vezes demonstra um gesto de afeição, a expressão brasileira “pombo sem asa” é a maneira mais poética de identificar o rastro branco da bola que risca o ar depois de disparada por um pé bem calibrado. Um sinônimo pacífico da belicosa “bomba”, maneira mais comum de chamar os chutes carregados de potência.

A imagem que ilustra esse capítulo é da primeira partida da Copa de 70, quando o Brasil ainda perdia por 1 a 0, e mostra a bomba de Rivelino atravessando o lado direito da barreira e passando pelo goleiro da antiga Tchecoslováquia que, mesmo conseguindo colocar a mão na bola antes que ela entrasse em sua meta, é incapaz de impedir sua trajetória rumo às redes, tamanha a brutalidade do disparo.

Sobre o Dicionário do Futebol Arte.

Meia Bicicleta

Bebeto-voleio-perfeito

Tradução livre (ING): half-bicycle

Ínterprete do GIF: Bebeto / Seleção Brasileira

Como se diz “meia-bicicleta” em:

Inglês: Scissor kick; half volley.

Francês: Ciseau; demi volée

Alemão: Seitfallzieher

Espanhol: Media chilena

Italiano: Sforbiciata; Semirovesciata.

Entre uma bicicleta e um voleio perfeito há um ponto médio, o equilíbrio entre as duas habilidades que se pode chamar de voleio acrobático ou também meia bicicleta.

No Brasil, não resta dúvidas de que Bebeto foi quem mais aprimorou a excelência na execução desse movimento. Tinha tempo de bola, leveza e agilidade suficiente para inclinar o corpo no momento certo e, com a alavanca de um pé após outro, aumentar a potência do chute enquanto o corpo pairava sobre o ar.

A imagem do gif ilustra o gol que abriu o placar da semifinal da Copa América de 1989, entre Brasil e Argentina.

 Sobre o Dicionário do Futebol Arte.

Nada mais conservador que um liberal no futebol

0x0Quando comecei a me interessar por política, poucas coisas me confundiram tanto quanto a palavra liberal, particularmente por sua capacidade de ter significados variados.

Em artigo publicado em o Estado de S.Paulo, o escritor Mario Vargas Llosa discorre sobre como o tempo alterou os sentidos dessa palavra que, em uma de suas primeiras citações, aparece em Dom Quixote ainda distante da religião ou da política. Em Cervantes, liberal sugere uma pessoa aberta, alguém com mais propensão a ganhar a simpatia do outro.

Na minha própria linha de tempo, primeiro aprendi a reconhecer o clássico liberal da economia, aquele cidadão com tesão pelo livre mercado e o troca-troca global de mercadorias, que exige sempre ausência completa de regulação estatal em suas fantasias comerciais. Porém, quando deixa de ser o dinheiro e passa a se tratar de pessoas, não é raro esses caras vigiarem com mão de ferro burocrática e exigiram regulamentação para todos os tipos de liberdade: sexual,  feminina e até mesmo política.

Mas estes constituem apenas uma espécie de mentalidade liberal com conotação variável.

Há também alguns liberais que conheci na época da faculdade e que parecem se multiplicar em taxas exponenciais. São os que prezam em seus discursos pela abertura das discussões e das decisões baseadas na pluralidade de pensamentos. Defendem publicamente a democracia em seu estado mais puro, ao menos até virar a chave da porta de dentro de seus partidos ou de suas casas para impor o cabresto das ideias únicas e a centralização das decisões como se vivesse em uma monarquia absolutista.

Como se pode perceber, há uma interminável lista de mais ou menos liberais e para agravar a confusão terminológica, não param de surgir novos exemplos. Recentemente, dei conta das variações de liberais especificamente dentro do futebol. O que nem chega a ser surpresa, já que esse esporte é voluntarioso ao refletir os vícios da sociedade e as mais diversas contradições entre os indivíduos.

O primeiro caso que denunciou conservadores uniformizados de liberais se deu a partir do escândalo do re-rebaixamento do Fluminense. Conforme surgiam evidências cada vez mais cristalinas que faziam até um cego enxergar os contornos de tramoia na situação, muitos driblavam suas próprias posições em relação a justiça e o merecimento do esporte para explicar ou tentar encontrar uma boa forma de convencer os outros de que seu clube do coração não merecia cair. Ao menos segundo o exercício legalista daquela oportunidade.

Houve até costumeiros críticos da CBF que, nesse caso e apenas dessa vez, a pouparam de qualquer responsabilidade. Muitos que batiam forte contra cada decisão do confuso STJD, passaram a compreender as razões que levavam os juízes a poupar o Tricolor da descida para a Série B: “é a lei, diziam”. Defensores calorosos da esportividade e do fair play, de repente, se tornaram legalistas frios amparados na cegueira da justiça e de suas próprias paixões.

Outro episódio recente, escancarou a dificuldade de se manter a coerência entre os torcedores aparentemente liberais: a invasão da torcida organizada do Corinthians no CT do clube. Uma atitude digna das páginas policiais e que tomou conta das discussões futebolísticas.

Não foram raros os casos de gente acostumada a criticar – com razão – em alto som a truculência policial, relativizar a atitude bárbara dos torcedores organizados. Apesar do discurso pacifista fora do futebol, naquele episódio especificamente parecia mais fácil compreender a agressividade de quem não se conformava com um time de jogadores tão apático e que, para tomar jeito, bem precisava de um certo terror.

A identificação com a atitude violenta da uma minoria, gerou  uma tentativa patética de minimizar a violência, justificando-a não como um crime, mas como uma manifestação de impaciência com atletas que dispendiam uma quantidade de suor em campo abaixo dos padrões exigidos por tais fanáticos.

Paralelamente a violência das torcidas, o Bom Senso também era atacado pela bruteza intelectual de falsos liberais. Muitos deles trabalhadores, que jamais aceitariam ficar sem férias em seus empregos, condenaram a reivindicação do movimento por um calendário mais justo. Quantos torcedores que sempre criticavam o mandonismo patronal contra o trabalhador não se posicionaram como se os jogadores fossem suas propriedades privadas? Afinal, eles pagavam para vê-los. Sem falar daqueles para os quais os altos salários dos jogadores justifica qualquer tipo de cobrança.

Não são poucos os árduos defensores da mão invisível do capitalismo, talvez alguns daqueles mesmos liberais da economia, que usaram os altos salários dos atletas, apelando para uma demagogia social como se estivessem a denunciar que os rendimentos astronômicos fossem uma vilania em um país miserável e que, por isso, impedem a reivindicação de qualquer direito.

Nisso ignoravam duas regras elementares do sistema. A primeira, a de que jogadores ganham muito porque há muita gente disposta pagar, ainda que a gente saiba que no Brasil muitas vezes o salário declarado nem pago é. A segunda, é a de que nem todos os jogadores, ou pior, apenas uma minoria possui salários milionários, coisa que o discurso generalista da ocasião, não levava em conta.

Se há um ponto a se comemorar, é que o cair das máscaras ajuda a evidenciar o modus operandi de um falso liberal. Primeiro, ele grita as palavras de ordem para uma mudança, desde que ela jamais ameace seus pequenos privilégios. Depois, a partir do momento que tal mudança – mesmo aquela que em longo prazo  sinalize um grande benefício a todos – gera um desconforto momentâneo, como o prejuízo de seus times de futebol, o falso liberal rapidamente abandona o discurso trajado anteriormente para exigir imediatamente a permanência do status quo. 

Aos quarenta do segundo tempo, o falso liberal confessa torcer pela manutenção de uma estrutura viciada, negando a transformação que possa mexer um pouquinho com seus ínfimos privilégios, que são nada comparado aos daqueles que realmente lucram com a podridão do sistema.

Seja como for, mais uma vez os falsos liberais, também no futebol, viraram o jogo. Afinal, nada indica que o Fluminense disputará a Série B, ainda que a Portuguesa (administrada também por falsos liberais de ocasião) tente reaver na Justiça Comum seu direito conquistado em campo de seguir na Primeira Divisão.

No caso do Corinthians, Paulo André, um dos líderes do Bom Senso FC foi  o eleito o culpado da vez pelos maus resultados, assim como havia sido o treinador no ano anterior e, literalmente, foi parar na China. Com sua postura sincera e sem meias palavras, incomodou dirigentes e aparentemente também a televisão, acionista majoritária do produto futebol, além de parte da torcida composta de falsos liberais que dizem gostar de jogar no ataque, mas preferem sempre deixar as coisas como estão para garantir mais um zero a zero.

Nada mais conservador do que um liberal no futebol.

Dia de San Valentin (Valentine’s Day)

Hoje é dia de San Valentin, o dia dos namorados em muitos países.

Há uns 4 anos, a marca esportiva PUMA fez  um vídeo bem legal que mostra torcedores apaixonados cantando furiosamente, da mesma forma que fazem para empurrar seus times do coração. Só que em vez de entoarem gritos de um clube de futebol, eles cantam a plenos pulmões a balada romântica “Truly Madly Deeply”, do Savage Garden, como se estivessem em um coral se declarando para a pessoa amada.

Versão original da música aqui.

Aqui as outras versões da campanha em italiano, alemão e francês.

Cobertura

Ronaldo-cobertura-final

Tradução livre (ING): Topping goal

Ínterprete do GIF: Ronaldo / Corinthians.

Como se diz “cobertura” em:

Inglês: chip; lob

Francês: Pichenette; Lobbé

Alemão: Lupfen

Espanhol: Cuchara

Italiano: Pallonetto

Enquanto todos pensavam com os músculos, foi com a sutileza do cérebro que o grego Ulisses conseguiu superar a forte defesa de Troia. Em vez de usar a brutalidade para derrubar muralhas, inventou um cavalo de madeira gigante e, como quem não desejasse agredir, presenteou seus inimigos. Recebido sem desconfiança, os soldados saíam de dentro do cavalo e quando os adversários, atônitos não sabiam muito bem o que fazer. Quando perceberam, era tarde demais.

No futebol, o gol por cobertura é como o Cavalo de Troia que discretamente passa pela defesa. Lance totalmente inesperado e fora de alcance. Não dá chance para reação. Quando zagueiros e goleiros se dão conta do toque sutil do atacante, todos já estão batidos.

O gol por cobertura é a estocada fatal da astúcia, do alcance privilegiado da visão. Na Copa de 1970, Pelé fez o único gol por cobertura da história do futebol em que a bola não tocou as redes e acabou saindo pela linha de fundo. O lance entrou para a história como um de seus gols que não aconteceram, mas se perpetuaram como exemplo de genialidade de alguém que, como Ulisses, conseguia ver além no campo de batalha.

Sobre o Dicionário do Futebol Arte.

Pedalada

robinho-pedalada-final

Tradução livre (ING): Pedalling; pedalled

Ínterprete do GIF: Robinho / Santos.

Como se diz pedalada em:

Inglês: (multiple) Step over; scissors.

Francês: Passement de jambes.

Alemão: Übersteiger.

Espanhol: Bicicleta.

Italiano: Doppio passo.

Difícil saber quem foi o primeiro a executar a pedalada: entre os anos de 1910 a 1930 figuram os nomes do argentino Pedro Calomino, do italiano Amedeo Biavati ou do holandês Law Adam. Em cada lugar, uma referência diferente.

No Brasil, não há dúvida de que quem melhor driblou sem precisar tocar os pés na bola foi Garrincha, embora seus sinuosos e insinuantes movimentos tenham marca tão própria que não possam ser denominados especificamente porque são praticamente inimitáveis até hoje.

Na final da Copa de 70, Clodoaldo registra uma pedalada no lance em que deixa quase meio time da Itália para trás. Nas eliminatórias de 1993, o meia Zinho marca uma dupla pedalada antes de colocar a bola na cabeça de Evair.

No século XXI, a pedalada é praticamente commoditie no mundo da bola e seu domínio é quase obrigatório em qualquer jogador um pouco mais habilidoso. Muitas pedaladas de qualidade foram produzidas nos pés Ronaldo Fenômeno e Ronaldinho Gaúcho, sendo também repetida em larga escala por Denílson, atacante que, basicamente por seus números circenses, chegou a participar de duas Copas do Mundo (1998 e 2002).

Uma geração depois, quando Robinho surgiu no time do Santos, ganhou o apelido de Rei das Pedaladas, principalmente depois do lance na final do Campeonato Brasileiro de 2002 em que chegou a dar meia dúzia delas até ser derrubado dentro da área.

Sobre o Dicionário do Futebol Arte