Campeonato Brasileiro e a mancha no tapete

Apesar de tão desgastada quanto o tapetão usado no futebol brasileiro, a expressão “mancha indelével” combina perfeitamente com a antessala deste esporte que é o campeonato nacional de 2013.

Não há removedor que dê conta.

A explicação que levaria a troca de  posições na parte de baixo na tabela é confusa e opaca.

A balança da Justiça que pendeu com multa para o Cruzeiro, tende a balançar para a perda de pontos da Portuguesa e até mudar de lado no caso do time mineiro que nada teria a perder nesse momento como poderia ter quando da primeira punição.

O advogado da Lusa, mesmo em tempos de comunicação digital, afirma ter avisado por telefone os responsáveis e parece não deixar um documento que comprove esse fato.

A Portuguesa, por sua vez, demonstra que também não conta com um elenco administrativo suficientemente capaz para se preocupar com questões essenciais como a punição de seu jogador.

O meia Héverton foi punido com dois jogos depois de ter sido expulso contra o Bahia por ofender o juiz, coisa tão corriqueira no futebol brasileiro quando cumprimentar o próprio árbitro. Mais incomum são as duas partidas de gancho.

Um advogado que é pago pela CBF como forma de ajudar pequenos clubes que não possuem condições financeiras de contratar medalhões do Direito desportivo. Mesma entidade que pouca inclinação demonstra em favor dos pequenos clubes do Brasil e que quase nunca tomou medidas nessa direção.

Assim, um erro administrativo pode levar a Lusa para a Série B e livrar o Fluminense da guilhotina que armou para si dentro de campo com 38 rodadas de mal futebol e resultados piores ainda.

A lei ou, nesse caso, o regulamento, nem sempre são justos.

Muitas vezes possuem brechas que permitem manipular para onde irá a mão da Justiça, que em nosso país enxerga bem e discrimina. Somos hábeis em distanciar o que é legal do que é legítimo. Não acontece só no futebol.

Lei que também serve para os legalistas de ocasião se beneficiarem dela, rugindo em defesa do Direito e do cumprimento das regras. Mesmos legalistas que outrora apoiaram que um regulamento fosse rasgado para evitar outra passagem para a divisão inferior.

Gente séria como Paulo Vinicius Coelho  entende ser possível o cumprimento da Lei e a posterior mudança dela. Posição que não concordo, mas respeito.

E discordo simplesmente porque vejo muito mais indução ao erro cometido pela Portuguesa do que intenção dela em se favorecer por tal irregularidade. Com tanta neblina e tanto óleo na pista, fica mais fácil atravessar o sinal vermelho.  Além disso, Fluminense não é vítima da infração cometida pela Lusa. Então, por que seria indenizado com a redenção?

Mas não sou especialista em Direito e em interpretar leis. Gosto de futebol e, por isso, sinto que o esporte é o mais prejudicado nessa situação.

Do jeito que está, fica-se entre desrespeitar a lei e cumprir a justiça do campo que empurra o Fluminense para a segunda divisão ou preservar o regulamento e trair as leis da esportividade empurrando a Lusa da ladeira e dando a mão para o Tricolor carioca.

Por mim, rebaixaria a Lusa pelo erro administrativo e o Fluminense pelo que não conquistou em campo. Embora seja qual for a decisão tomada, parece difícil evitar que, com tanta sujeira embaixo, respingue outra mancha no futebol brasileiro.

Luxemburgo e o efeito Eike

Se a postulação “futebol é negócio” ficou batida,  vamos inverter e partir da premissa de que “negócio é futebol”. Principalmente para alguns para os quais ganhar dinheiro é esporte.

Daí, começa a teoria do “efeito Eike Batista” que gostaria de aplicar ao futebol. Ou apenas “efeito Eike”.

Craque dos cifrões, Eike Batista primeiro se destacou no campo de exploração do ouro. Com a chave do sucesso na mão, abriu muitas portas, inclusive no exterior, e foi parar na área do petróleo.

Como técnico vaidoso, Eike montou uma equipe a sua feição: milionária e que, no papel, prometia grandes conquistas. Como um dirigente sagaz, atraiu toda atenção para o seu time. Não esqueceu do marketing – tão aplaudido hoje no futebol brasileiro quanto um bom centroavante. Como se produzisse DVDs com os melhores momentos que ainda não aconteceram, incentivou a valorização do seu passe. Muita gente comprou. Sua fama de vencedor ajudava.

Até que, como se sabe,  os esquemas táticos de Eike deixaram de funcionar. Do seu projeto de conquistar o mundo como o homem mais rico, sobrou-lhe o rebaixamento a um calote bilionário.

Como a bola no chutão do zagueiro, o mundo dos negócios mostrou que a subida rápida é o primeiro passo para a queda vertiginosa.

Como no futebol, os negócios de Eike foram festejados pela crônica. Eram comum os incentivos ao megaempresário em várias partes da mídia. Havia até gente disposta a fazer coreografias, caso solicitado.

Até no futebol Eike  arriscou sua fezinha para se apropriar do novo Maracanã.

Ele também nunca abandonou outro componente comum ao jogo de bola: a superstição. No caso do ex-bilionário, é notória a fissura pela letra X, presente em todos os seus empreendimentos.

Até que vieram os consecutivos revezes. As promessas não vingaram, a má fase tomou conta e Eike passou de bestial para besta em pouco tempo.

É o “efeito Eike” que atribuo a Vanderlei Luxemburgo. Ainda que o fenômeno do técnico seja anterior, o batismo segue as leis do mercado e fica com quem perdeu mais dinheiro.

Treinador que há vinte anos saiu do Bragantino com um título paulista para, rapidamente, ser aclamado como melhor técnico do Brasil.

Que prometia chegar à Seleção e lá deixar sua marca com uma equipe vencedora, fazedora de gols e com futebol ofensivo.

Mas que alcançou resultados infinitamente menores do que as projeções e ainda foi para o chuveiro sob os refletores de uma CPI.

Luxemburgo vê seu desempenho despencar a cada clube que insiste investir nele.

Hoje, Luxa não é sombra daquele que prometia ser o “maior treinador brasileiro” e sua valorização está interrompida faz tempo. Difícil acreditar que hoje ele se encontre como primeira opção de qualquer clube grande do Brasil. Pelos torcedores, Luxemburgo é quase sempre lembrado como quem mistura negócios com futebol.

No momento, seu projeto mais ambicioso é não cair para a Série B com o Fluminense.

Sem entrar em méritos técnicos, faço uma avaliação mística.

Talvez seu maior erro tenha sido uma substituição: quando trocou o “W” de Wanderlei para o “V” e esqueceu de mexer, ou melhor, chacoalhar, o mais importante.

Sua credibilidade.

Assim como Eike, Luxemburgo quer a volta por cima, mas enfrenta o enorme desafio de retomar a boa fé no seu trabalho.

Enquanto isso, também lhe sobram problemas e  letras X sem valor, não é “PofeXô”?

Corinthians no divã: balanço psicológico antes do mata-mata

A fase mais legal da Libertadores vai começar.

O mata-mata é a parte mais divertida porque é justamente aquela que oferece as maiores emoções. É o momento da competição em que a pressão psicológica atinge o ápice para jogadores, treinadores, juízes e, claro, o torcedor. E nós gostamos da emoção porque ela mexe com nossas cabeças. Então, tentei entender justamente o que passa pela cabeça do torcedor corinthiano nesse momento que, certamente, vai proporcionar fortes emoções.

Essa é a primeira vez que o Corinthians vai para o mata-mata sem o peso de não possuir um título da competição. Se antes era preciso controlar o nervosismo e a pressão por uma taça, o desafio agora é evitar o relaxamento, o comodismo e, principalmente, aquilo que o jornal de hoje destaca como uma das preocupações do treinador Tite: a soberba.

Tem gente que talvez nem questione essa condição. A mim me parece bastante curioso. Resolvi colocar o Corinthians no divã, já que não é a primeira vez que vejo um paciente do futebol superar o complexo de vira-lata e, rapidamente, enfrentar o risco de cair em outra patologia: a síndrome da superioridade, batizada também por estudiosos de “mal de Ceni”.

Histórico

A seleção brasileira foi um dos primeiros pacientes, ou melhor, times a serem diagnosticados com complexo de vira-lata. A conclusão se deu após a clamorosa derrota para o Uruguai em 1950. Porém, depois de conhecer o fundo do poço, vieram 3 títulos em 4 Copas (de 58 a 70) e a Seleção mergulhou em seu “complexo de superioridade” que a levou um estado letárgico profundo. Neste estado, acreditou que só a camisa amarela era capaz de jogar sozinha. Só voltou do coma em 94 ao assumir uma postura bem menos pretensiosa e ganhar a Copa nos EUA.  Nos pênaltis e com três volantes.

Corinthians

O Corinthians também passou por um evento traumático. Aliás, trauma na Libertadores nunca faltou. Dupla-eliminação para o Palmeiras, para o River, a maldição dos laterais e o vexame do Tolima. Todas essas altas doses de “inferiorismo” foram contra-golpeadas com o título invicto da competição, seguido por um Mundial no Japão e um time que se mantém no auge. E é justamente essa alternância de emoções que pode trilhar o caminho ao perigoso penhasco da soberba.

Os elevadores, corredores, ônibus, ruas e portarias de prédio são os divãs onde os corinthianos expõem suas preocupações. E o parecer geral é: no papel, o time melhorou em relação ao ano passado. Perdemos Leandro Castán, mas ganhamos Paulo André e Gil (grande surpresa). Saíram Liédson e Alex, mas trouxemos Guerrero – herói do Mundial e Alexandre Pato que, se ainda não mostrou tudo que se espera dele, tem estrela suficiente para fazer seus gols com constância de artilheiro. Melhor ainda. A exceção do goleiro, parece que o time possui um reserva confiável para cada posição. Mesmo assim, paira uma sensação comum: não há a mesma pegada do ano passado.

Os mais otimistas dirão que é uma acomodação natural de quem sabe a hora de acionar as turbinas ao máximo quando necessário. O mais desconfiado, por sua vez, pode pensar que os apagões podem aparecer em algum momento inoportuno e colocar tudo a perder. Tite, escaldado psicólogo da bola, trabalha para evitar a segunda hipótese.

Mas como toda questão psicológica, há sempre os fatores externos que desencadeiam o processo.
Então, saindo um pouco de olhar o próprio umbigo, vamos a eles:

1) O nível técnico dos outros times não é intimidador. Estava muito empolgado para assistir Atlético-MG e São Paulo, mas acabei decepcionado com o número de passes errados. A partida valeu mais pela emoção e correria. Tecnicamente, ficou devendo. O Galo é, sem dúvida, o melhor time da primeira fase, mas pode sofrer com a pressão de não chegar tinindo na hora decisiva, além do peso da “obrigação” de quem nunca venceu uma competição dessa. Por experiência própria, sabemos que o equilíbrio psicológico – ele outra vez – será fundamental. Esse não é um ponto forte do treinador Cuca.

Aliás, fala-se muito dos times brasileiros, mas tirante o Galo nenhum apresentou grande futebol. Arrisco a dizer que até agora o Fluminense é decepção pelo tanto que se badalou. O Corinthians fez o seu melhor jogo do ano contra o Tijuana no Pacaembu. Nos outros, entre alguns completamente atípicos como na Bolívia e México, levou em banho maria, com o regulamento debaixo do bigode. Tudo isso leva a crer que, entre os brasileiros, o Corinthians é um time arrumadinho como nenhum outro.

E como o costume da imprensa e, consequentemente, da torcida brasileira é ignorar a maioria dos times de fora, estar a frente de nossos compatriotas pode levar o imaginário do torcedor a uma condição mental de “consciência do favoritismo”, fenômeno pelo qual o Barcelona tem passado e, por que não dizer, sofrendo nos últimos anos. Ressalva: não faço aqui uma comparação futebolística direta entre os times de Corinthians e Barcelona, apenas de situações. Enquanto Barça e Real se roíam para um eventual confronto direto, acabaram vítimas de um Bllitzkrieg sem precedentes por parte dos alemães.

2)  Muito ajuda quem não atrapalha. E o Paulistão, definitivamente não ajuda. Se não bastasse expor os principais jogadores ao desgaste antes de uma partida decisiva em La Bombonera, o campeonato paulista colocou Corinthians e Ponte Preta frente a frente outra vez. E a Macaca, que outrora, foi o portadora da mensagem salvadora que dizia: “troquem o goleiro!”, agora foi atropelada e ignorada como se não houvesse mais qualquer lição a ser tirada.

3) Como terceiro fator, elenco aqui a questão que talvez esteja um pouco além de nossas cabeças: a parapsicologia. Antes do mata-mata, fiz diversas projeções para tentar prever o adversário do Corinthians nas oitavas. Emelec era favorito e até o Palmeiras poderia aparacer mas, rigorosamente, em  nenhuma delas surgia o Boca Juniors. Jamais contei que o limitadíssimo time do Tigre passasse. Ao saber que o vice-campeão do ano passado cruzaria nosso caminho logo de cara bateu uma ansiedade diferente. Para quem acredita em coincidências, a explicação é fácil embora o evento em questão possa conter, na verdade, um aviso cifrado dos deuses de que o futebol continua sendo o esporte do inesperado. Dito isso, reservo-me inclusive ao direito de não levar em consideração a atual fase do Boca.

Porque o fantasma do inesperado pode estar em um cruzamento desses. Ou no quique de um gramado sintético que colocou fim a 16 jogos de invencibilidade na competição. O inesperado é até capaz de tirar Messi de suas plenas condições na reta final de uma Liga das Campeões e fazer o favoritismo pender totalmente para o outro lado. O inesperado também pode contrariar a certeza de que um sistema de jogo vai sempre funcionar.

Ano passado, Tite ensinou que no confronto direto há três fatores decisivos: técnico, tático e psicológico. O psicológico me preocupava mais. Temia por aquilo que esperava: erros individuais, expulsões, descontrole e mais uma Libertadores indo pelo ralo. Agora, tecnicamente os times são nivelados, taticamente estamos um passo adiante e chutamos longe a sina derrotista. Mas o psicológico segue consternando. Preocupo-me com o que uma equipe planejada, experimentada e que já testou muitas variáveis pode, ainda, não ter encontrado. Imagino que Tite deve fundir a cachola imaginando todas as variáveis possíveis para que nada lhe escape do treino, da preparação. Mas é sabido como se comportam os donos da situação quando alguma coisa lhes foge ao controle.

4) Por último, pergunto: apontar que a soberba e o excesso de confiança merecem atenção não é justamente assumir a própria condição de superioridade?

Fim da sessão. Sobram hipóteses e faltam certezas. Futebol nem Freud explica. Ao torcedor corinthiano, o papo reto: o Corinthians deve saber que para chegar a final de uma competição como essa não basta ter vencido a anterior. Agora jogando bem e com a mesma vibração do ano passado, dá para deixar esse papo de soberba e apostar:  Corinthians passa pelo Boca e segue forte na competição.