Osmar Santos: Vai Garotinho que a Vida é Sua!

Por uma questão cronológica e geográfica, não posso dizer que acompanhei a carreira de Osmar Santos.

Quando criança, no interior de São Paulo, meu rádio só sintonizava o bordão “abrem-se as cortinas e começa o espetáculo” e o “crepúsculo de jogo, torcida brasileira” de Fiori Gigliotti, na Bandeirantes, se não me engano.

Mesmo assim, lembro-me com bastante clareza quando encontrei pessoalmente Osmar Santos no estádio Walter Ribeiro, em Sorocaba. Ele narraria um São Bento x Corinthians, no início da década de 90. Meu primo o apontou e ele, muito simpático, me cumprimentou com um sinal de positivo, dizendo o seu “fala, garotinho!”. Não dá pra esquecer.

Afinal, era impossível conhecer alguém que gostasse de futebol e ignorasse a “gorduchinha”, ou “ripa na chulipa”.

Ontem, assisti o documentário ou, como apontou Maurício Stycer, a “grande reportagem” que a ESPN Brasil preparou contando a trajetória do locutor e as reviravoltas que causou no rádio brasileiro.

Do menos relevante, posso dizer que minha maior – decepção não é o caso, surpresa talvez seja melhor – foi descobrir que Osmar Santos não era corinthiano, como muita gente, eu e, aparentemente, Casagrande pensávamos (não farei spoiler do seu time do coração).

Também não me arrisco a analisar os atributos técnicos do filme embora tenha gostado do recurso de mostrar a reação de Osmar Santos enquanto via pelo computador os depoimentos colhidos para a construção do documentário.

O mais importante é que foram felizes ao mostrar com lucidez a trajetória de Osmar Santos – como diria Fausto Silva, um dos entrevistados do filme – tanto no pessoal quanto no profissional.

Desde sua infância, a maneira como se apaixonou pela narração esportiva, como foi desenvolvendo seu jeito inovador de narrar e até sua atuação política e cívica como narrador das Diretas.

Além, é claro, do drama pessoal provocado pelo acidente de carro em que se envolveu e que o impediu de continuar trabalhando com a voz.

Há reprises previstas na programação do canal. Vale a pena assistir.

 

Ali no corner dos adversários

Ali no primeiro combate com Joe Frazier

Não é a primeira vez que menciono Muhammad Ali. Decerto não deverá ser a última.

Não porque encontre nele a santidade que muitos tentam colar nas grandes figuras.

Santidades definitivamente não me interessam. Nem seres humanos infalíveis.

Por isso, para quem se interessa por Muhammad Ali, recomendo o documentário Encarando Ali (Facing Ali).

O filme é de 2009. Assisti graças à disponibilidade no Netflix.

Aparentemente sua íntegra está vetada no YouTube.

O mais legal desse documentário é que ele é totalmente centrado na visão que os oponentes tinham de Muhammad Ali. Inclusive os mais célebres como Joe Frazier e George Foreman.

Nesses depoimentos a gente entende que Ali foi o maior não porque ele repetia isso. Nem porque ele nunca se equivocou em meio a sua trajetória de ídolo.

Mas simplesmente porque, entre diferentes motivos, seus maiores adversários o reconhecem assim.

 

Magic Johnson: O Anúncio

 

Crédito foto: Francis Specker/Bloomberg News
Crédito foto: Francis Specker/Bloomberg News

Meu primeiro contato com o basquete profissional norte-americano foi no fim dos anos 80, comecinho dos 90, quando era possível, muito mais no videogame do que na TV, ver as estrelas do basquete norte-americano em quadra.

Sempre tive uma simpatia gratuita por Magic Johnson e os Los Angeles Lakers, ainda que o basquete tenha sido meu segundo esporte muito mais por influência da turma do Oscar  e, principalmente, por causa da rainha Hortência que assistia defender as cores de Sorocaba em jogos eletrizantes contra outra Magic, a Paula que atuava por Piracicaba.

Mais ou menos como acontecia com a Seleção de 82, a dimensão que Earvin “Magic” Johnson representava para o basquete me era clara, mas só fui entender melhor como funcionava seu jogo, suas assistências, sua liderança, enfim, como jogava em quadra mais tarde, justamente quando ouviu-se falar mais dele no Brasil por seu anúncio público de que contraíra o vírus do HIV.

Até então, a principal referência nacional que assumira publicamente a condição de infectado pela doença fora Cazuza. Infelizmente, tanto no seu caso quanto em quase todas as pessoas de que se tinha notícia naquela época eram relatos de um fim triste, depois de uma caminhada dolorida.

Magic Johnson conseguiu percorrer outra estrada. O documentário produzido pela ESPN dos EUA no ano passado e reprisado pela ESPN Brasil nos primeiro dias de janeiro (há também uma versão legendada no YouTube) mostra exatamente essa vitoriosa trajetória, mas não sem sofrimento, do jogador. O texto é narrado pelo próprio atleta e ilustrado pelos depoimentos de quem lhe era mais próximo naqueles dias que abalaram o basquete e o mundo.

Dramas profissionais e familiares, preconceito e ciência são temas fundamentais que envolvem a doença e estão bem exemplificados pelo diretor Nelson George – que já havia feito filmes sobre o tema na HBO – para que se possa entender a evolução no tratamento e no entendimento das pessoas em relação à AIDS.

Sem falar nos toques de magia que só o esporte é capaz de acrescentar às histórias de superação.

Um exemplo ocorre durante o Jogo das Estrelas da NBA. A posição de especialistas era contundente em afirmar que o risco de contaminação em quadra eram mínimos e, elas fizeram Magic Johnson desistir da aposentadoria em 1992. Mas muitos jogadores não se conveciam – duvidavam? – de que o simples contato físico não trazia perigo. Coisa que não se deu com o maior deles.

Durante o jogo em que defendiam lados opostos, Leste contra Oeste, Michael Jordan fez questão de marcar Magic bem de perto. Cutucou, chamou para o duelo, segurou e até mandou um apertão na bunda de Magic como se aquilo fosse mais do que uma brincadeira entre amigos, mas uma forma de convencer a todos de que não havia motivos para se preocupar.

*Acessei a programação da ESPN Brasil e não encontrei um dia de reprise, ao menos na próxima semana. Mas vale a pena solicitá-la junto à emissora. Poderiam, no mínimo, colocar em todos os horários dedicados ao chatíssimo pôquer. 

Dois Escobares: ópio do povo está além do futebol

O filme não é novo.

Dois Escobares (Two Escobars), documentário dirigido pelos irmãos Jeff e Michael Zimbalist, chegou a ser exibido na 34ª Mostra de cinema em 2010 embora, atualmente, esteja sendo mostrado também na TV aberta pela ESPN, dentro de uma série de documentários esportivos.

Mas a sustentação da narrativa usando o tripé futebol, política e sociedade é just in time quando tanto se fala em Copa do Mundo no Brasil.

O filme mostra com primor como futebol e política se misturam ao longo da História como afluentes de um grande rio e como seus desdobramentos desembocam na sociedade. No caso do filme, uma sociedade tomada pelo narcotráfico.

Não que o uso político do futebol seja novidade. Basta dizer que a Seleção de 70 não é só um clássico pela bola que jogou, mas também pelo exemplo, muitas vezes já discutido, da exploração política que o Regime Militar fez daquela imagem de sucesso. Mas como já dito, em tempos que se discute Copa do Mundo por aqui não é necessário lembrar dos encontros e desencontros entre política e futebol.

Porque no caso colombiano, a seleção da país era passada de pé em pé por dois lados de uma mesma guerra: o governo tentando vender uma imagem de prosperidade e de controle da situação frente ao narcotráfico que, para usar do linguajar futebolístico, ocupava os espaços deixados pelo Estado, ganhando legitimidade e popularidade junto ao povo colombiano e, pior, quando da ausência desse Estado, dividindo o poder da força bruta e, muitas vezes, até das leis.

Nesse cenário, o roteiro tem o mérito de conectar todas esses componentes unindo duas pontas que, aparentemente, possuem apenas um sobrenome em comum: Escobar.

Um deles é o famigerado traficante Pablo Escobar que iniciou a construção de seu império nos anos 70, comandando o Cartel de Medelin que no seu auge, chegou a dominar 80% do mercado ilegal da região. Assim como o futebol colombiano em sua plenitude chegou a engasgar campeões como a Argentina, derrotada em casa por 5 a 0, Pablo Escobar aquela altura já se tornava quase um mito para uma parcela da população e seu domínio territorial do comércio de drogas certamente incomodava muitos figurões, a ponto dos EUA entrarem no jogo.

O outro Escobar – que não possui grau de parentesco com Pablo – é o zagueiro e capitão da seleção colombiana na Copa do Mundo de 1994. Um time famoso pelas figuras excêntricas como o meia Valderrama e o goleiro Higuita, mas também reconhecido por ser a equipe que jogava o melhor futebol antes do Mundial dos Estados Unidos. Fato que fez até Pelé afirmar, em um de seus palpites mais trágicos, que a Colômbia era uma das favoritas ao título naquele Mundial.

Só que  a tragédia não se deteve ao campo de jogo. Pior do que a desclassificação prematura, ainda na primeira fase, a Colômbia viu o zagueiro Andres Escobar, autor de um gol contra que acabou selando a eliminação da equipe contra os EUA, ser assassinado duas semanas depois de voltar para o seu país. Na ocasião, um território praticamente sitiado pela disputa entre as Forças Armadas, Agentes dos EUA e gangues.

Mesmo com tantos ingredientes misturados, a história só desenrola fácil porque o documentário é rico em depoimentos e imagens de jogadores, técnicos, familiares do zagueiro assassinado, políticos e até de capangas de Pablo Escobar que mostram como a instabilidade política se estendeu ao dia a dia dos jogadores e acabou se tornando o principal adversário daquela que foi a melhor equipe da história do país.