Sócrates

Sócrates
Imagem do meu celular

Entre os métodos de Sócrates na Grécia Antiga, está o famoso questionamento que incentivava seus alunos a pensar e refletir sobre um tema, estimulando a busca pelo conhecimento, ou a virtude, para usar o léxico do filósofo.

Quando seu Raimundo, leitor dos Diálogos de Platão e de muitas outras obras gregas, batizou seu primogênito com um do seus nomes mais marcantes não imaginava que ele seria o jogador de futebol mais original – e por que não dizer o mais filosófico – do Brasil. Sócrates desenvolveu seu próprio método para questionar todas as estâncias do mundo do futebol.

Seu legado é de uma riqueza espantosa e o livro Sócrates, do jornalista Tom Cardoso passa pela vida do craque contando (e recontando) histórias e diálogos que ajudam a entender sua personalidade pouco convencional para os padrões sociais. Ainda mais do futebol.

Como se vivesse uma missão intuitiva de ensinar, Sócrates, incentivou o questionamento dentro e fora do campo. Questionava convenções quando pedia o fim da concentração dos jogadores, questionava modelos comportamentais quando expunha livremente seus pensamentos e questionava até a lógica do esporte quando bebia sem limites e, mesmo assim, era capaz de exibir um jogo plástico, exuberante e também de resultados.

Sócrates também criou seus paradoxos, bem particulares. Um deles era capaz de colocar à frente todos times em que jogou usando a parte de trás do pé.

Sobre seu calcanhar o livro esclarece o que para mim era um mistério: Sócrates calçava 41, um pé diminuto para sua altura (1,95 m), mas um pouco maior do que algumas lendas que li e ouvi sobre sua chuteira estar numerada na casa dos trinta.

O paradoxo socrático no futebol também se estendia quando tomava decisões desprovido da razão sem, contudo, abandonar a lógica que movia seu caráter.

Sócrates, o filósofo, dizia que o conhecimento leva a virtude.

Conhecer a história desse jogador é tão importante para o pensamento do futebol brasileiro como os gregos são para a filosofia.

Em uma era dominada por técnicos retranqueiros, jogadores limitados, administrações incompetentes e viciadas em beneficiar a poucos, a história deixada por Sócrates é um testamento de princípios e idealismos que precisam ser resgatados para que o futebol brasileiro recupere o que sempre teve de melhor: a alegria de jogar bola.

Sinalizadores

Sou contra a elitização irrestrita no futebol.
Embora o jogo de bola tenha se tornado um negócio dos mais caros, à torcida do Corinthians, marcada no seu DNA pelas camadas mais humildes, é obrigatório que haja uma política de ingressos com preços acessíveis.

Nada disso, porém, parece ter alguma relação com o ato de se acender sinalizadores, quando é evidente que isso pode causar punição ao clube em momento decisivo do campeonato. Mesmo que como pano de fundo disso estivesse um protesto por um motivo justo, a forma e o momento escolhida passou longe do razoável porque a vontade de qualquer torcedor é ver o time vencer.

Também não sou especialista – e creio que pouca gente é – em sinalizadores para saber se aqueles acesos contra o Grêmio são inofensivos, são os mesmos que mataram tragicamente o menino boliviano.

Faltou sensibilidade – inteligência mesmo – para se escolher manifestação mais eficiente e que gerasse mais empatia.

Se há leis equivocadas (dos sinalizadores, das bandeiras e tantas outras), ótimo. Apontem-se os erros, mas que se faça de forma clara e democrática. Distribuam panfletos na entrada em vez de acender essas cacetas desses sinalizadores.

Assim como é bom desconfiar das leis que nem sempre fazem justiça, também é preciso ter dois pés atrás quando meia dúzia de indivíduos acha que pode pensar e agir do jeito que quer em nome de milhões de pessoas.

Corinthians é muito maior do que qualquer cartilha de torcedor.

RITA LEE

Rita LeeMuita gente diz que ela é a “Rainha do Rock brasileiro”. Como não sou fã de nenhum tipo de monarquia ou realeza, prefiro dizer que Rita Lee é a primeira-dama do estilo. Mulher que representa o rock em música, atitude e longevidade.

Para Caetano, ela é a “melhor tradução de São Paulo”. Da cidade de São Paulo, que fique bem claro. Porque nessa íntima relação de Rita Lee com a capital paulista, no futebol ela se dá com o Corinthians.

Figura marcante nos atos da Democracia Corinthiana, movimento que pleiteava maior participação de todos os jogadores nas decisões do clube no momento em que o país vivia uma Ditadura Militar, Rita Lee foi a comícios e até registrou cenas clássicas ao lado de Sócrates, Wladimir e Casagrande.

Algumas delas podem ser vista no documentário  “Democracia em Preto e Branco”, de Pedro Asbeg, em que Rita Lee faz a locução do bom filme que conta com imagens e depoimentos importantes e esclarecedores sobre o movimento que chacoalhou o Corinthians e, por tabela, a política brasileira.

Rita Lee também compôs uma música, com Arnaldo Baptista, seu lendário parceiro dos Mutantes, que cantava seu estranho gosto pelo sofrimento, tradução da sua paixão pelo Corinthians. A canção, de 1972, foi chamada “Amor em Preto e Branco”.

Até este blogueiro tem um pequeno causo futebolístico com Rita Lee. Na manhã seguinte a uma das mais vexaminosas eliminações do Corinthians na pré-Libertadores, contra o Tolima, pedi em tom despretensioso para que ela mandasse todos da minha timeline, que tripudiavam como o Corinthians naquele momento, tomarem naquele lugar.

Pois Rita Lee atendeu prontamente. Copiou meu pedido em seu próprio post e acrescentou: “Vão tomar no cu!”.

Tuite rita lee

Cobertura

Ronaldo-cobertura-final

Tradução livre (ING): Topping goal

Ínterprete do GIF: Ronaldo / Corinthians.

Como se diz “cobertura” em:

Inglês: chip; lob

Francês: Pichenette; Lobbé

Alemão: Lupfen

Espanhol: Cuchara

Italiano: Pallonetto

Enquanto todos pensavam com os músculos, foi com a sutileza do cérebro que o grego Ulisses conseguiu superar a forte defesa de Troia. Em vez de usar a brutalidade para derrubar muralhas, inventou um cavalo de madeira gigante e, como quem não desejasse agredir, presenteou seus inimigos. Recebido sem desconfiança, os soldados saíam de dentro do cavalo e quando os adversários, atônitos não sabiam muito bem o que fazer. Quando perceberam, era tarde demais.

No futebol, o gol por cobertura é como o Cavalo de Troia que discretamente passa pela defesa. Lance totalmente inesperado e fora de alcance. Não dá chance para reação. Quando zagueiros e goleiros se dão conta do toque sutil do atacante, todos já estão batidos.

O gol por cobertura é a estocada fatal da astúcia, do alcance privilegiado da visão. Na Copa de 1970, Pelé fez o único gol por cobertura da história do futebol em que a bola não tocou as redes e acabou saindo pela linha de fundo. O lance entrou para a história como um de seus gols que não aconteceram, mas se perpetuaram como exemplo de genialidade de alguém que, como Ulisses, conseguia ver além no campo de batalha.

Sobre o Dicionário do Futebol Arte.

Calcanhar

 

socrates_calcanhar

Tradução livre (ING): backheel.

Ínterprete do GIF: Sócrates / Corinthians.

Como se diz “Calcanhar” em:

Inglês: backheel

Francês: talonnade; passe du talon.

 Alemão: hackentrick

Espanhol: tacón; taquito.

Italiano: tacco.

Como Michelangelo está para a Capela Sistina, Da Vinci para Monalisa ou Picasso para Guernica, no Brasil o toque de calcanhar é uma arte associada a Sócrates. Alto, magro e com os pés relativamente pequenos para seu tamanho, o craque, que também se formou em medicina, parece ter adotado o toque invertido naturalmente e coo na teoria darwinista funcionou como adaptação evolutiva que o permitiu resistir à seleção natural dos campos.

Sobre o Dicionário do Futebol Arte.

Libertadores ou Mundial? Qual vale mais?

Para alguns, a derrota do Atlético-MG no Mundial foi vexatória.

Para outros, apenas a confirmação de que a distância entre o futebol praticado na América do Sul e o do Marrocos é de apenas um estreito de Gibraltar.

Ao Galo, há motivos justos para salientar a importância da vitória continental na Libertadores. Assim como já fizeram Palmeiras, Cruzeiro e Vasco da Gama.

Já aos corinthianos, são-paulinos, colorados, flamenguistas, gremistas e santistas uma dúvida fica quicando na cabeça: qual taça vale mais, Mundial ou Libertadores?

Esta discussão não se resume à lógica de Fernando Pessoa que compara o rio de sua aldeia ao Tejo. Essa só mostra que, entre milhares de reflexões mais profundas do poeta, ficou mais famosa uma de suas mais óbvias. Não basta dizer se minha Libertadores foi melhor do que a do meu rival, mas se decidir entre os dois rios da sua própria aldeia. Escolher um filho preferido. Preferir Mundial à Libertadores! Ou o oposto.

Nota: esta é uma discussão exclusiva à identidade sulamericana. Aos europeus, que olham de cima o futebol local,  a prioridade sempre será a Liga dos Campeões. O que também garante desculpa convincente para eventuais perdedores.

De bate-pronto, a mim a Libertadores pareceria mais importante.

Por sua história. E também pela motivação de torcidas e clubes, tempo de competição e, infelizmente, a nada orgulhosa evidência de que em sua reputação contam-se os percalços e armadilhas não encontradas em quase nenhuma outra disputa.

Nesse quesito poucos podem celebrar a superação do estado de barbárie sul-americano quanto o Flamengo. Em 1981, até soco com pedrada visto com complacência pela arbitragem foi necessário enfrentar contra o Cobreloa do Chile, na final.

É certo que os 3 a 0 sobre o Liverpool em Tóquio não foram bobagem. Mas se fosse flamenguista, provavelmente meu coração balançaria pelo caráter épico da Libertadores.

Por outro lado, é impossível não reconhecer a projeção de um Mundial e o sabor de superar uma equipe do Velho Continente. São autênticos combustíveis  de exultação clubística.

São-paulinos orgulham-se por bater times da estirpe de Barcelona e Milan; gremistas, por sua vez, não podem reclamar do emocionante título frente ao Hamburgo da Alemanha, com gol na prorrogação do ídolo Renato; santistas são os únicos que podem se gabar por terem vencido Milan e Benfica em jogos de ida e volta.

Bastam alguns exemplos e repenso minha decisão. É mais simples concluir que não há uma fórmula capaz de definir importância dos títulos. Não é a marca da competição, mas os desígnios do futebol e o próprio torcedor os responsáveis em atribuir o valor de uma taça.

Um titulo é como uma viagem em que se mede o prazer não exclusivamente pela fama do destino final, na chegada, mas pelo caminho percorrido até ele e, claro,  o contexto e as emoções que envolvem o viajante.

Por falar em questões territoriais, um corinthiano pode se orgulhar mais de um título regional como o paulista como o de 77, que detonou 22 anos de jejum,  do que o Brasileiro de 2005 conquistado em meio à penumbra da Màfia do apito e dos jogos com pontos redisputados. Mesma lógica para festas mundiais e continentais.

Colorados são únicos por experimentar a doçura de vencer o Barcelona de Ronaldinho e digerir o amargo Mazembe,  que adicionou ao futebol brasileiro sinônimo a uma palavra representado pela, também africana, zebra. Pode-se variar a preferência com sentimentos opostos: uns nutrem gosto pelo Mundial por ser um momento único. Outros ficam com a Libertadores, competição que não tem colada ao imaginário a dança do goleiro Kidiaba batendo o traseiro ao chão. Aí o problema é indicar qual das duas taças continentais foi melhor.

No final, todos os torcedores podem se fazer a mesma pergunta, se são mais sensíveis a este ou aquele título, mas cada um terá sua própria resposta. Sem contar que o episódio pode estar ligado à promessas ou outras resoluções pessoais. Ou, ainda, remeter a memórias e lembranças, intensificando o sentimento da conquista.

Por isso, ao pesar tantos fatores envolvidos, entre Mundial e Libertadores, concluo, enfim, que escolho ambos. Por um simples motivo: recuso-me a apontar predileção entre filhos.

Time do Chico Bento

Quando pequeno lia todos os gibis da Turma da Mônica.

Foram um impulso e tanto para pegar gosto pela leitura.

Imagino que para mim esta e outras histórias em quadrinhos tiveram o mesmo efeito que Harry Potter possui em algumas crianças de hoje.

Sempre soube que, igual a mim, Cascão era corinthiano.

E, claro, que o Cebolinha era torcedor do rival.

Até que na semana passada, assistindo ao programa Loucos por futebol, na ESPN Brasil, o convidado era Maurício de Sousa e o brilhante Celso Unzelte tira de sua cartola historiográfica uma edição da revista Placar em que o próprio criador e pai da são-paulina Mônica diz quais são os times de futebol de seus principais personagens.

Sim, Chico Bento, dos meus personagens favoritos é, segundo seu criador,  torcedor do São Bento de Sorocaba, clube da minha cidade natal e o primeiro time que vi atuar em campo, na mesma época em que lia histórias da Turma da Mônica.

Em uma rápida consulta ao oráculo digital, descubro que um blog de sãobentistas já fizera antes essa descoberta que tanto me encantou. Foi de lá que tirei a reprodução da imagem da edição de Placar de lá do início da década de 80.

São Bento é tradição.

Tite e o merecimento

Escrevo antes de Corinthians e Grêmio pela Copa do Brasil, jogo que pode dar um respiro ao trôpego segundo semestre  do time ou, mais provável, colocar fim à esperança mais próxima de alcançar a Libertadores.

Se os gaúchos, favoritos do momento, avançarem, muito mais gente clamará pela saída do também gaúcho Tite. Mesmo depois que a diretoria e o treinador garantiram a permanência até o fim do contrato, em dezembro de 2013.

Embora seja qual for o resultado dessa e das próximas partidas,  a situação do Adenor será discutida quanto mais perto estivermos do fim da temporada. Aliás, mesmo que o assunto já esteja resolvido entre técnico e diretoria, muito ainda vai se falar de Tite. Inclusive, se nada acontecer, muito se falará do técnico do Corinthians porque muito se fala de técnico no Brasil. Por isso, vou falar de Tite.

A partir da desmontagem do time campeão em 2012 e a reconstrução da equipe,  o coro pela demissão do treinador sobe o tom a cada atuação fraca.

Normal. Não é absurdo que após 3 anos – durabilidade rara para os padrões nacionais – venha a constatação de que um ciclo se encerrou e chegou a hora de partir para “outro desafio” – como manda o jargão dos que trocam de emprego. Tite sempre disse ao longo de sua passagem que três anos é um período limite.

Corriqueiro também é que alguns peçam a cabeça do professor como forma de elegê-lo único responsável pelo declínio do time. No fundo, seguem a tradição no país que determina demitir técnico sempre quando a receita começa desandar. Solução não muito eficaz, mas bem rápida para quem prefere não perder tempo em entender as situações.

Vejam, por exemplo, o caso do São Paulo.

Muricy, tricampeão brasileiro seguido, foi demitido porque não conseguia ganhar Libertadores. Torcida e dirigentes diziam que não era “técnico de mata-mata”.  Pouco tempo depois ganhou a perseguida com o Santos. Também levou um Brasileiro pelo Fluminense. Enquanto isso, o Tricolor paulista patinava em busca de um técnico que lhe trouxesse de volta as alegrias. Nada dava certo até que o São Paulo, atendendo novamente exigência da torcida (!), foi buscar… Muricy. E a coisa aos poucos parece voltar aos eixos.

Sob outro aspecto, Guardiola fez o oposto, mas também não permaneceu no Barcelona quando precisou reformular o timaço que vencia e dava espetáculo. Para não se desgastar, mesmo sabendo que precisava fazer, optou por não mexer em algumas peças do elenco e sair em busca de oxigênio. Tite não. Ele já mexeu bastante sacando medalhões, trocando esquemas, fazendo experiências e, claro, errando. Talvez isso atenha acelerado seu prazo de validade.

Por essas e outras, não me surpreenderia se Tite saísse por decisão pessoal.

Incompreensível, no entanto, é a maneira que outra parte – uma minoria da torcida, quem sabe – fala de Tite. E é uma parte que “fala muito, fala  muito”. Parece concentrar boa parte de cornetas que já pedia a demissão do treinador em 2011, que execrava jogadores como Danilo e que é constituída por tipos que só falam de futebol na base da agressividade. Se o pecado deles fosse apenas entender pouco do esporte não seria tão ruim.

Mas no que diz respeito ao treinador, cometem vários erros. Maior deles, a ingratidão.

“Esquecem” que Tite fez pelo clube o que nenhum outro pode.  Se hoje você, corinthiano, pode sair à rua e não ouvir gracinha sobre Libertadores é muito por causa dele. Alguns justificam que o técnico é muito bem pago e, por isso, precisa ser cobrado. Argumento que nem considera técnico como pessoa, mas como um produto com preço, garantia e, pior, descartável. E ainda que Tite fosse uma máquina – às vezes ele parece um robô falando -, no mercado não há similares que façam o mesmo que ele  e que cobrem baratinho.

Claro que qualquer trabalhador assalariado precisa ser cobrado. O que não se pode é confundir cobrança com ignorância. Jogar Tite para fora do clube como bagaço da cana moída que já deu pinga é uma cretinice com a história do Corinthians e tratemento que nenhum torcedor, no seu trabalho, gostaria de receber do seu empregador.

Um clube que eternamente convive com a mancha do arrependimento de ter escorraçado Rivellino, o maior craque que já passou pelo Parque São Jorge, não se pode dar ao luxo de destruir outros ídolos.

Gostem ou não da filosofia do treinador, do seu jeito, do seu vocabulário, do seu esquema tático e até do seu apreço incondicional por uma boa defesa às vezes demasiado,  não dá para negar que funcionou. E mais. Apesar de não ser o que em mais jogos dirigiu o Corinthians (é o segundo!), é difícil não concordar com a sentença: Tite é o treinador mais vencedor da história do Corinthians.

Caso a solução encontrada pela diretoria, pelos jogadores ou até mesmo pelo próprio Tite seja encerrar sua passagem pelo clube no fim do ano, o mínimo que se espera é uma despedida digna,  de quem ganhou tudo que podia pelo clube: homenagens, discurso, plaquinha, dicionário comemorativo com as palavras que Tite inventou ou qualquer coisa que celebre sua dedicação ao clube.

Não se pode esquecer que a escola da “titebilidade” deixou heranças. A maior delas, presente em todas as conquistas, é quando ele fala sobre o “me-re-ci-men-to”.

Tite merece uma saída honrosa, de portas abertas para o futuro, tão incerto como os resultados de futebol. Ainda que, intimamente, haja um coração aqui que não esconde torcer para uma dinastia Tite, coisa jamais vista em nosso futebol, como um Alex Ferguson do bando, talvez nem tão longa, mas ao menos tão vitoriosa.

Corinthians Campeão da Libertadores: Ano Um

         Soneto da Redenção

Sonho feito de bravura e furor.
Bem debaixo das barbas do Doutor.
Das mãos de Cássio, firmes no caminho
até o gol na cabeça de Paulinho!

Por dois batismos passou esse Escolhido
que por São Jorge um dia foi ungido.
Ele é Emerson! Imensa Nação grita!
Com seus dois gols fulminou antiga escrita.

Vai Fiel, nosso tão temido ataque.
Romarinho, ousadia sem temores.
Tantas batalhas, nenhuma esquecida.

Da equipe Tite fez seu maior craque.
Achas duro ganhar Libertadores?
mais duro é não perder uma partida.

Apêndice

O soneto é uma forma poética que possui 14 versos, o mesmo número de jogos de uma campanha da Libertadores. É feito de uma introdução, o desenvolvimento e, na última estrofe (terceto), o desfecho, também chamado de “chave de ouro” e que tem como objetivo resumir o conceito da obra. No caso: Corinthians: campeão invicto da Libertadores.

Os versos deste soneto são decassílabos, ou seja, possuem dez sílabas. Essa forma foi a mais consagrada em língua portuguesa, como por exemplo na obra de Vinicius de Moraes. Curiosamente, o Corinthians jogou toda a fase de mata-mata sem um camisa 10 no time, já que esse seria Adriano. Mas ele acabou dispensado antes e substituído pelo zagueiro Marquinhos. Alex e Danilo que poderiam usar esse número vestiam a 12 e a 20, respectivamente.

Como o futebol, um soneto também não é muito justo. Como o espaço é limitado, algumas omissões são inevitáveis como Danilo,  Ralf ou mesmo a exemplar zaga corinthiana.

Aprendendo com os erros

É difícil identificar que alguma coisa pode dar errado.

Mais difícil é bancar que alguma coisa que pode dar errado, vai dar errado.

Agora, o pior mesmo é não aprender com o que já deu errado.

Dias antes do primeiro jogo entre Corinthians e Boca Juniors, tentei estabelecer um diagnóstico, com doses de psicologia fuleira, ainda que com o nobre objetivo de levantar por que, dessa vez, meu faro de cachorro desconfiado apontava que o Corinthians precisaria ir muito além do que fizera ano passado para conquistar o bicampeonato da Libertadores.

Hoje, após a lição, não tiraria uma linha sequer exceto a última em que apostava: “o Corinthians passa pelo Boca”. Fato semelhante como quando se preenche – entre coluna 1, 2 ou coluna do meio – corretamente toda a loteria esportiva e na hora de levar o prêmio, perde-se tudo justamente pelo time do coração.

Identifiquei que o caldo poderia azedar, mas custei a acreditar.

Coisa que já havia feito várias vezes. Mas não posso dizer que aprendi e que farei diferente da próxima vez. A única coisa que sei  é que ao colocar razão e emoção lado a lado, a última acaba por prevalecer.

São as lições nunca aprendidas que incomodam mais.

Quantas vezes deixamos de acreditar naquilo que deveríamos? Quanto insistimos crer naquilo que não vale à pena?

Desdenhei o ano todo do Campeonato Paulista e foi justamente ele quem devolveu o moral para o corinthiano. Desejei que o Paulista não atrapalhasse a Libertadores e foi ele que apaziguou o azedume da eliminação. O futebol sempre ensina.

Só não aposto que a Federação Paulista tenha aprendido dessa vez que é desgastante e desnecessário um campeonato tão longo, com uma fórmula que gera desinteresse na maior parte da competição e que, em última instância, contribui para minguar ainda mais o estadual.

Como é difícil aprender com erros.

Até hoje ninguém aprendeu, mas a Libertadores ensinou mais uma vez  que a América do Sul ainda está longe, em qualquer aspecto, de outros lugares do mundo. Escudos policiais para se bater escanteio, objetos atirados ao campo, catimba, violência, cusparadas. A Libertadores continua um torneio norteado por posturas cafajestes.

Também gostaria de crer que Carlos Amarilla aprendesse com seus erros ao assistir o VT do jogo entre Corinthians e Boca. Isso se eu tivesse absoluta convicção de que foram realmente erros. Mas ainda ninguém aprendeu que a escolha da arbitragem precisa ter critérios mais transparentes e a tecnologia pode ajudar a acabar com sintomas de amadorismo no futebol. E também com impedimentos mal marcados. E como gostaria de acreditar que as ameaças de punições da Conmebol não são mais um ato teatral no interminável jogo de cena dessa instituição.

Por último, gostaria muito de dizer que a torcida organizada, a polícia, os dirigentes e todos os demais envolvidos, aprenderam com o triste caso do menino Kevin, morto por um sinalizador. Mas, ontem, minutos antes do fim do jogo entre Corinthians e Santos, as luzes e a fumaça vindas da  mesma torcida corinthiana eram o claro sinal de que a lição não foi aprendida.

Mais uma vez.