O que tem de bom no 7×1

7 a 1
Imagem retirada do Facebook: https://www.facebook.com/familiademocratas

7/1/2015.

Oportunidade pra lembrar com piadinha o grande fiasco do ano que passou e ainda continua a zunir em nossa memória.

A parte boa de tudo isso é que, aparentemente, o Brasil evoluiu de 1950 pra cá.

Não apenas matematicamente, com os 5 títulos mundiais que ganhamos, mas principalmente pela maneira de encarar uma derrota em casa.

Trocamos o choro, o desespero e o complexo de vira lata pela zoeira, a chacota, a pura resignação.

Não se levar tão a sério não é, necessariamente, negativo.

Outra consequência de ser atropelado pelo panzer alemão  é que não perdemos tempo criando (nem lendo sobre!) nenhuma teoria da conspiração.

Não houve suspeita de corpo mole, conversa fiada de entregar o jogo ou qualquer outra desculpa esfarrapada de quem não admite a superioridade do adversário.

Pra tirar 10 dessa lição que a Copa do Mundo em casa nos deu só falta aqueles que dirigem o esporte estudarem tudo aquilo que já foi discutido e concluído como as mais preponderantes causas da tragédia e agirem para corrigir os rumos do futebol brasileiro.

Mas aí já é pedir demais né, professor! Então, ficamos com 7 mesmo.

Roberto Bolaño

Roberto BolañoNa carona da Copa do Mundo de 2014, a universidade norte-americana de Rochester criou uma outra modalidade: a Copa do Mundo de Literatura.

O torneio consistia em uma seleção de escritores de ficção de vários países representados por uma obra de sua autoria.

Como no mata-mata no futebol, a cada fase um autor era eliminado enquanto outro seguia à próxima etapa. Votação feita por um juri composto de 26 especialistas em literatura definia os vencedores.

O Brasil também não venceu esta Copa, mas também pode se consolar por ter sido eliminado pelo vencedor da competição. Representante brasileiro, Chico Buarque e seu livro Budapeste acabaram eliminados por Noturno do Chile, do chileno Roberto Bolaño que, mais a frente, se tornaria o grande campeão.

A diferença é que, ao contrário da humilhação sofrida pela seleção brasileira, a obra de Chico Buarque recebeu muitos elogios dos críticos e avaliadores, mas acabou superado pela qualidade de Bolaño, comparado pelos organizadores como um “Pelé-Beckham-Ronaldinho” da literatura mundial.

Aliás, Noturno do Chile há algum tempo já pode ser considerado um clássico da literatura contemporânea, por sua técnica e estilo. Para usar o jargão futebolística, é um livro feito em dois toques, isto é, dois parágrafos. Um bastante longo e descritivo e o outro composto por apenas oito linhas.

O tema da narrativa de Roberto Bolaño não poderia ser mais relevante: a ditadura chilena, dos tempos do brucutu Pinochet.

Quanto à Copa do Mundo de Literatura, os organizadores ficaram tão satisfeitos com o resultado que prometem uma nova competição durante o mundial de futebol feminino, em 2015. Dessa vez, apenas com escritoras.

 

 

 

Sem Pulo

jamesrodriguez

Tradução livre (ING): No Jump

Ínterprete do GIF: James Rodriguez / Colômbia.

Como se diz “Sem Pulo” (voleio) em:

Inglês: volley

Francês: vollé

Alemão: volleyschuss

Espanhol: volea

Italiano: tiro al volo

É com muita honra em que abrimos espaço para celebrar o primeiro lance de um não-brasileiro neste dicionário do futebol.

Agraciado com o prêmio de gol mais bonito da Copa do Mundo no Brasil, o colombiano James Rodriguez fez balançar a trave, a rede e as estruturas do futebol mundial quando acertou seu voleio perfeito na partida contra o Uruguai, pelas oitavas de final do torneio.

Voleio que, durante minha infância, também aprendi com os mais velhos que poderia ser chamado de “sem pulo”, já que a definição rápida do atacante não permite que a bola toque o chão antes de ser disparada ao gol.

Falta filosofia ao futebol brasileiro

A primeira vez que, em uma roda de amigos meio embriagados, lancei a ideia de que ao futebol brasileiro falta filosofia, fui meio ridicularizado. Naquele dia, entendi que, em se tratando de futebol, é difícil defender uma linha lógica de raciocínio quando resultados, que não seguem lógica alguma, podem contrariar seus argumentos. Mas não desisti de formular um pensamento sobre isso.

À época, critiquei a substituição de Mano Menezes por Felipão. Não por gostar mais de um do que de outro. Minha tese era de que a troca seguia critérios puramente políticos. Nada tinha a ver com esporte. Era o recibo de que não tínhamos sequer um esboço de planejamento para ganhar a Copa em casa.

Naquele momento, escrevi um texto sobre isso dizendo que a administração da seleção brasileira era tão cheia de contradições que, mesmo fazendo tudo errado, corríamos o risco de dar certo e sermos campeões do mundo. Não seria a primeira vez. E apesar de o tempo todo torcer para o errado dar certo (o que também é paradoxal, admito), o que sobrou da Copa foi um grande vazio existencial.

Quando me refiro à falta de filosofia, obviamente não pretendo insinuar que a Alemanha ganhou a Copa do Mundo porque possui em sua história de pensamento um Nietzsche, um Schopenhauer ou um Kant, embora isso indique que o hábito de pensar por lá é valorizado. Ao bater na tecla de que nos falta uma filosofia, quero dizer que é preciso refletir mais sobre nossa própria existência, nossos valores e a nossa estética futebolística.

Todos falam da organização, da disciplina, da tecnologia e de tantos fatores que levaram os alemães a ganhar a Copa no Brasil, mas pouco se fala do exercício de pensamento que os alemães encararam depois de perder a Copa em 2002 para o Brasil.

Que tipo de jogadores queremos formar? Qual é o estilo de jogo que vamos praticar? Qual perfil de treinador procuramos? De que forma vamos atuar para alcançar aquilo que traçamos como ideal? Qual preparação é mais adequada para esse tipo de campeonato? Concentração longe das mulheres e da família ainda faz sentido no século XXI?

Essas e, provavelmente, muitas outras questões foram pensadas e repensadas nos detalhes, não só para que a Alemanha ganhasse uma Copa, mas para que permanecesse no topo do futebol por um longo período. Um campeonato nacional fortíssimo, título na Liga dos Campeões e uma seleção que, no mínimo, chega às semifinais nos últimos quatro mundiais confirmaram isso.

A filosofia estabelecida pelos dirigentes alemães não foi feita para ganhar o próximo torneio, mas para se firmar como potência nas próximas décadas. É isso que temos visto desde então. Um pensamento claro, com valores morais e estéticos permanentes que não se abalaram quando veio a primeira derrota, justamente na Copa de 2006, sediada pelos próprios germânicos.

Aliás, é importante ressaltar: uma filosofia no esporte não serve para vencer todas as competições. Nem quero dizer que qualquer filosofia não necessite de ajustes e mudanças ao longo do tempo. Se até a teoria da relatividade de Einstein (outro alemão!) pode passar por revisões, o que dizer de um conjunto de pensamentos sobre o futebol?

Mas uma filosofia no esporte, com preceitos bem definidos, serve para estabelecer metas claras daquilo que se pretende nessa vida e facilita a pavimentação do caminho para alcançar esse objetivo. O vôlei brasileiro é um exemplo. Não ganhamos todos os títulos que disputamos, mas há quanto tempo conseguimos nos manter entre os melhores?

Quando Bernardinho ou Zé Roberto passam por uma turbulência, como quando precisam renovar a equipe, não deixam que se abalem certas convicções adquiridas durante um longo e sério trabalho. Calma, não estou dizendo que um ou outro deva treinar um time de futebol, mas que seus exemplos podem servir de inspiração.

No Brasil, cultua-se muito o valor do improviso. E não há dúvidas de que dessa característica é possível se tirar proveitos. Mas sem uma estratégia, com metas claras a serem perseguidas, a tal capacidade de improviso se torna apenas um remendo mal feito. Aliás, se tivéssemos gente preparada e atenta ao que acontece no futebol mundial, veríamos que tanto a capacidade de improviso quanto a miscigenação de uma equipe que permite contar com os mais variados tipos de atleta, deixaram de ser uma exclusividade nossa e pesar apenas a nosso favor.

Há tempos, o Brasil monta times que em nada representam sua história de jogar bola. Abdicamos do passe, de um meio de campo criativo e da formação de jogadores talentosos. No lugar, colocamos volantes e zagueiros fisicamente privilegiados e um time simplesmente combativo. Não há filosofia tática e abandonamos nossa filosofia técnica. Falo isso com a segurança de um fã do catenaccio italiano, como alguém que sempre valoriza a importância de uma defesa consistente e também a garra e a disposição típica dos argentinos e uruguaios. Porém, esses componentes devem somar aos nossos valores tradicionais, nunca substituí-los.

No entanto, com as cabeças fracas que temos no comando do esporte é muito difícil acreditar que uma filosofia surja dali para nortear o futebol nas próximas décadas. Com gente da estirpe de José Maria Marín e Marco Polo Del Nero, o máximo que alcançamos é o pensamento pueril de tentar ganhar o próximo campeonato, desde que até lá seja possível lucrar ao máximo. Uma mentalidade tacanha, sustentada por um pragmatismo que pode nos levar a um poço ainda mais fundo.

A última coletiva de imprensa da CBF, para anunciar o “ex-empresário” Gilmar Rinaldi como coordenador da seleção, é a prova de que por ali ninguém tem ideia do que precisa ser feito, exceto quando o objetivo em questão é tirar proveito próprio de alguma situação. Essa, sim, uma filosofia tradicionalmente brasileira.

Dizer que essa é a pior crise do futebol brasileiro pode até ser exagero. Mas não há dúvida que se não houver uma reformulação na cúpula do futebol brasileiro, o eterno 7×1 nos servirá apenas como uma lembrança amarga de uma época que nunca ficará para trás. Aí, a única filosofia que acabará vingando é a de que a seleção brasileira merece o nosso desprezo.

ATUALIZAÇÃO: amanhã, Dunga promete ser anunciado como novo técnico. E isso pouco importa, simplesmente porque não teremos uma renovação estrutural. A pressa em anunciar o treinador é uma estratégia de Marín e Del Nero para desviar o foco.

Sebastián Bednarik: Figurinha do Uruguai

Sebastián BednarikSebastián Bednarik é, junto com Andrés Varela, diretor do documentário “Maracaná”, filme que reconta a história da Copa do Mundo de 1950.

(verdade que poderíamos ter figurinha dupla com os diretores, mas até a Panini abortou nesta Copa as tais figurinhas duplas. Então, o desempate elegeu Bednarik que já filmou outro filme sobre futebol em 2010: “Mundialito”, sobre o uso e a manipulação do futebol pela ditadura uruguaia).

Trágica para brasileiros, heróica para os uruguaios, a história da primeira Copa do Mundo pós-2ª Guerra é bastante conhecida, principalmente por seu apelido famoso (Maranazo): os brasileiros eram favoritos e acabaram derrotados no Maracanã com 200 mil pessoas.

A divulgação do filme destaca as imagens inéditas daquele Mundial restauradas em HD e outro mérito deste documentário é reunir diversas declarações dos principais personagens daquela Copa, como os  uruguaios Máspoli, Varela e Ghiggia, o técnico brasileiro Flávio Costa e o goleiro Barbosa, entre outros. Muitas dessas imagens recuperadas de antigas entrevistas já que boa parte deles já se foram.

Além de recriar cronologicamente os passos das duas equipes até a derradeira partida, não escapam detalhes de bastidores (ou nem tão de bastidores assim) que puderam somar influência no resultado da partida.

Merece atenção o pronunciamento do então prefeito do Rio de Janeiro Mendes de Morais, responsável pela construção do Maracanã, que com os jogadores das duas equipes perfilados no gramado faz um discurso mais do que eufórico em que postula, sem se envergonhar, como a seleção brasileira era imbatível e, portanto, já poderia se considerar campeã daquela Copa.

Lollapalooza, Copa do Mundo e os eventos à brasileira

LollapaloozaNo último sábado fui ao Lollapalooza.

Confesso que não havia comprado ingresso por causa do preço e só compareci porque, na última hora, acabei presenteado com um convite.

A chegada foi tranquila de transporte público. Segui a orientação dos organizadores e a experiência de quem já havia ido a dois shows de rock em Interlagos.

Definitivamente, o autódromo não é uma boa escolha para eventos dessa natureza ( aliás, já ouvi mais de uma vez que nem para corridas ele é o melhor exemplo).

Porém, a tranquilidade acabou rápido. Ao entrar, minha grande dúvida era como funcionaria (ou não) a estrutura megalomaníaca com 4 palcos, os mais distantes separados por 2,5 quilômetros de distância.

Além dos palcos, haviam banheiros, quiosques para comprar fichas, barracas de comes e bebes, grandes espaços para os patrocinadores e muita, muita gente.

Em pouco mais de uma hora zanzando lá dentro, não tive sucesso em praticamente nada do que tentei fazer. A fila das fichas era enorme e demorada e as barracas de comida estavam superlotadas. Os únicos shows que rolavam estavam longe.

Assim que uma apresentação acabava, uma quantidade enorme de pessoas tentava se locomover para comer, beber e usar os banheiros, mas a geografia do autódromo, cheia de afunilamentos, criava enormes gargalos que formavam enormes congestionamentos de pessoas.

Grandes concentrações de gente, muito mais do que a infra suportava, e o evento se tornou uma representação perfeita da cidade de São Paulo: um fracasso em mobilidade.

Quem não conseguia comprar ficha, tentava pagar os ambulantes “por fora”. Por sua vez, os vendedores que viram uma oportunidade de levar um a mais cobravam em dinheiro, alguns se negavam a vender com ficha e quem já havia comprado as fichas começava a ter dificuldades em consumir uma pipoca, como foi o meu caso.

Não houve uma pessoa que conversei depois do evento que não reclamasse da dificuldade de acesso aos serviços do festival.

A intenção de se fazer um grande evento de rock é louvável e espero que aconteçam outros. No entanto, se pudesse dar apenas um conselho aos organizadores, diria: menos.

Menos palcos, menos preço nos ingressos, menos de nove reais em uma cerveja.

A tentativa de se fazer um evento gigantesco, de proporções muito maiores que aguentava o local e a organização provocou uma overdose na estrutura.

Penso se a vontade de lucrar não tirou a vontade de se satisfazer os fãs de música e, talvez, valesse uma reflexão com um pouquinho da filosofia de Woodstock: menos dinheiro, menos ostentação e mais música, por favor.

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Ao voltar do show, demorei vários minutos para entrar na estação de trem e a Copa do Mundo me veio a cabeça, junto com a frase “a Copa das Copas” que retumbava ao fundo.

O Mundial padrão FIFA poderia ser feito com menos sedes e com menos estádios novos, construídos de última hora.

Poderíamos fazer uma Copa do Mundo no Brasil da maneira que o país é capaz de suportar, mas optou-se por algo grandioso, com porte e garbo  do tamanho da ambição de se ganhar dinheiro dos organizadores.

O atraso dana conclusão nos estádios e a menos que mínima execução das obras de infraestrutura comprovam que essa mania de grandeza já atrapalhou.

Como no Lollapalooza, na Copa do Mundo será preciso torcer para que a capacidade de improviso acima da média do brasileiro e a tolerância do povo com os péssimos serviços oferecidos sejam capazes de dar conta para que tudo aconteça sem grandes enroscos ou até mesmo em tragédia.

O álbum de figurinhas na era da reprodutibilidade digital

Uma das aulas de teoria da comunicação na faculdade das quais me lembro alguma coisa explicava como o italiano Umberto Eco criou dois times ao teorizar sobre cultura de massa. Parecia uma maneira de simplificar as posições sobre o tema: Um grupo ele chamou apocalípticos, formado por aqueles que abominavam os efeitos da Indústria Cultural. O outro era dos Integrados, uma turma bem mais entusiasmada com a massificação da cultura.

Para expor minhas ideais que não são tão profundas, gostaria de fazer uma divisão com as mesmas nomenclaturas usadas pelo escritor de “O Nome da Rosa”, mas sem qualquer tentativa de paralelo com os conceitos originais. Também não pretendo transformar esse texto em uma aula de teoria da comunicação. Quero uma reflexão bem menos pretensiosa e traumática.

Meu ponto é como a transformação digital pela qual passamos criou uma divisão. Bem, certamente criou várias, mas gostaria de me ater em apenas duas: uma delas, chamarei de “Apocalípticos digitais” e são aqueles que preconizam a substituição total de qualquer meio físico por um similar digital, enquanto os “Integrados digitais” são aqueles que convivem e até se beneficiam das novidades tecnológicas, mas não renunciam absolutamente aos meios físicos.

Imagem do ótimo blog Old School Pannini (http://www.oldschoolpanini.com), que publica textos com figurinhas digitalizadas de diferentes épocas.
Imagem do ótimo blog Old School Pannini (http://www.oldschoolpanini.com), que publica textos com figurinhas digitalizadas de diferentes épocas.

O próprio Umberto Eco talvez estivesse enquadrado no grupo dos Integrados. Com seus mais de 80 anos, ele já admitiu usar o tablet e acessar livros digitais, mas não abre mão de ter um cômodo inteiro de sua casa dedicado a uma biblioteca particular com milhares de livros.

Da parte dos apocalípticos não cito um nome específico, já que foram muitos textos que li, alguns escritos há mais de dez anos, antes da popularização dos smartphones e tablets, que previam a rápida extinção do jornal impresso, dos livros físicos e das revistas. Um dos motivos que me fez usar o termo “apocalípticos” é porque eles sempre enxergam o fim de alguma coisa quando aparece uma novidade.

Entretanto, por mais que sofram a transposição inevitável para as telas, livros impressos ainda estão longe de acabar; as revistas continuam expostas até em prateleiras do supermercado; os jornais, ainda que agonizem, possuem um público que continua a sujar as mãos com a tinta do papel para se informar.

Na música, acertaram os gurus (apocalípticos ou não) que previram a extinção do CD como a grande fonte de lucros das gravadoras. O Compact Disc, que nunca passou de uma miniatura digitalizada do LP, acabou superado pelos arquivos digitais como o MP3 e os dispositivos móveis. Hoje, em uma nova onda do vinil, começam até a ser substituídos por eles. Mas quantas previsões tiveram a clarividência de que o disco de vinil, depois de descartado pelo CD, ganharia sobrevida para rir no túmulo daquele que decretara sua obsolescência?

Sobre o LP, outro professor italiano, Lorenzo Mammì, em artigo publicado na edição 89 da Revista Piauí ( A era do disco) , defende que não só por sua sonoridade, mas por seu formato, sua embalagem (capa) e sua tecnologia constituíam por si uma forma particular de arte. Todos elementos eram pensados para dialogar entre si.

No mesmo texto, Mammì também exemplifica como o livro digital é muito mais uma transição dos rolos egípcios ou das tabuinhas sumérias para as telas digitais do que propriamente dos livros de Gutemberg. Afinal, páginas de verdade você só encontra naquele formato impresso, onde é possível realizar  o tradicional ato de folhear.

Essa introdução fiz para dizer que me considero um Integrado. Trabalho com tecnologia e comunicação digital há mais de uma década, mas não consigo abandonar minha estante de livros e, vá lá, de alguns discos.

Não creio que um consumidor hoje compre discos de vinil, mas não se delicie com a facilidade de ter uma coleção infinita de músicas digitais para ouvir no dia a dia. Porém, cultuar o prazer de procurar um bolachão preto, botar na agulha e ouvir as ondas de graves e agudos diferentes dos arquivos digitais, enquanto admiramos o belo encarte da obra é outro tipo de experiência. Talvez mais romântica para uns. Talvez inútil para outros. Seja como for, vivenciar as experiências é exatamente o que difere essas duas visões do uso da tecnologia.

Essa discussão é longa e pode ser interminável. Mesmo que esses formatos analógicos possuam amantes eternos capazes de manter o negócio vivo e, quem sabe, lucrativo, dirão os apocalípticos, com razão, que todos já foram substituídos por similares eletrônicos. No entanto, acredito que ainda há um produto impresso que não possui nenhum formato digital correspondente e talvez nunca o tenha: o álbum de figurinhas.

Imagine qual seria a graça de colecionar um álbum no computador ou no celular, sem sentir aquela ansiedade de abrir os pacotinhos correr pelas mãos?

Como colecionar um álbum sem colar os famosos cromos ilustrados? Como ficar sem se irritar quando eles são fixados tortos na página ou não se empolgar conforme o álbum toma forma? Como resistir em não pegar bode daquela figurinha repetida que você já viu sair umas trezentas vezes?

Sem falar nas trocas.

Colecionar um álbum pode ser bem mais do que um passatempo. Pode ser um evento social. Talvez esteja aí a raiz da expressão “trocar figurinhas” usada como sinônimo de bate-papo. Nesse caso, a tecnologia não só está longe de ser um inimigo como até ajuda a estabelecer novos contatos virtuais que se convertem em figurinhas concretas, de papel e tinta.

Até as crianças, cada vez mais expostas e hábeis com às traquitanas tecnológicas, teriam algum interesse em trocar figurinhas por telas? Ou pior, poderiam brincar de bafo utilizando um gadget? Não creio.

Pode ser que alguém profetize que se não há substituição digital para o álbum de figurinhas, haverá a perda do interesse, graças às inúmeras possibilidades de jogos e de diversão nos meios eletrônicos. Logo, os álbuns como conhecemos desde nossos avós estariam fadados a desaparecer. Mesmo assim, isso demoraria um pouco até que as gerações mais antigas desaparecessem.

Não sou o único a acreditar que a frenética utilização dos aparelhos digitais e a obsessão pela velocidade tendem a mover os indivíduos cada vez mais para si mesmos e aposentar algumas atividades que demandem mais tempo, dedicação e concentração, como a leitura e as relações humanas. É provável que as novas gerações estejam mais propensas a esse perfil. Por outro lado, guardo a sensação de que as pessoas com prazer em terminar um livro nunca foram maioria em qualquer período histórico da humanidade.

Com a Copa do Mundo, que é o grande momento dos colecionadores de figurinhas e apaixonados por futebol, haverá um bom termômetro para saber a quantas anda o interesse da nova geração em fazer álbuns.

Intimamente, torço para que os álbuns de figurinhas sigam firmes ainda por muito tempo e até arrisco que demorarão a sair de cena. Sem teorizar muito, palpito que a busca por uma experiência mais sensitiva ainda será responsável por manter o papel vivo em nossa cultura por tempo indeterminado. Inclusive, assim como acontece com os livros, as editoras devem se esforçar em criar produtos mais bem acabados, com diferenciais de ilustrações e conteúdos extras. O último álbum lançado pela Panini (Brasil de Todas as Copas) foi um primor nesse sentido.

No que depender de mim, serei sempre um dos que resistirão à digitalizar certas coisas. Há muitas atividades que ainda necessitam contato físico para se materializarem em autêntico prazer.

Em tempo: apesar do entusiasmo do texto, meu pai não é o dono da Panini. 
Então, caso alguém queira trocar figurinhas quando começarem as coleções, é só enviar mensagem no twitter (@cultebol). 

Shakira: Figurinha da Colômbia

Shakira figurinhaNão é surpresa a figurinha da cantora neste álbum. Poucos não sabem que ela é casada com o zagueirão do Barcelona, Gerard Piqué, de tão comum que é a presença do casal nas páginas sociais.

Se ela não é uma autêntica apaixonada pelo jogo, ao menos marca presença na torcida. Inclusive, ela se escalou nas arquibancadas da última Copa das Confederações no Brasil e, certamente, garantiu um digno consolo para o marido vice-campeão.

Shakira também se apresentou nas duas últimas Copas do Mundo, em 2006 e 2010, e também lidera um projeto social ligado ao esporte chamado “Piez descalzos”. Uma referência direta ao álbum que a lançou para o sucesso mundial, com músicas interpretadas em seu castelhano da cidade colombiana de Barranquilla.

Pavarotti: figurinha da Itália

Pavarotti figurinhaDizem que como quase toda criança na Itália, ele também sonhava em ser jogador de futebol. Na wikipedia consta sua paixão pelo calcio e seu amor pela Velha Senhora, a poderosa Juventus de Turim.

Mas a fama e o reconhecimento vieram por sua competência em uma área que possui muito menos espaço na mídia do que o esporte: a música clássica.

Por mais que seu carisma, o alcance vocal e sua habilidade indiscutível tenham sido essenciais para sua consagração, Luciano Pavarotti também acabou tocado pelo futebol para que pudesse se tornar uma das figuras públicas mais conhecidas mundialmente e também para fazer a música clássica alcançar um patamar de popularidade incomparável.

Foi durante a Copa do Mundo da Itália, em 1990, que Luciano Pavarotti se apresentou pela primeira vez, em um concerto promovido pela FIFA, junto aos tenores espanhóis Plácido Domingo e José Carreras, além do maestro Zubin Mehta. A partir dali, eles fariam o álbum mais vendido de todos os tempos da música clássica e, como no futebol, também despertariam a ira de alguns fãs radicais, defensores da “autêntica música erudita” e que torceram o nariz para a massificação do estilo.

Seja como for, a apresentação se repetiria várias outras vezes, inclusive na final da Copa do Mundo em 1994 nos EUA, quando o show ganhou ainda mais repercussão e ficou marcado também pelas brincadeiras de Plácido Domingo e José Carreras durante a execução da Aquarela do Brasil com o tenor italiano , que pouco depois veria sua seleção perder o título mundial nos pênaltis para o Brasil.

Tom Zé: figurinha do Brasil

 

Tom Ze

Não há juiz mais rigoroso que a opinião pública digital.

Em tantos bites gastos na produção implacável de julgamentos, um deslize basta para alguém colocar sua biografia a perder.

Por falar nelas, Caetano Veloso e Roberto Carlos, por exemplo, não sem alguma justiça, foram condenados a chibatadas virtuais contra suas posições antidemocráticas sobre a legislação das histórias pessoais. Infelizmente, seguindo a linha de qualquer sistema penal brasileiro, nas redes sociais também é difícil controlar excessos e há quem tenha usado a polêmica para diminuir obras extensas de dois grandes artistas da música.

Recentemente, coisa parecida se deu com Tom Zé por conta de outro tema. Como muitos artistas fazem, o cantor baiano assinou contrato e cedeu sua voz para um comercial da Coca-Cola. Mas o refrigerante desceu torto. O gesto foi suficiente para uma saraivada de cacetadas digitais vindas não só dos que o penalizavam por supostamente ter se vendido e algumas viúvas de Stalin que o acusaram de se curvar ao deus capitalista. Há os oportunistas que,  embora não vissem problema caso outro artista fizesse o mesmo, aproveitaram a onda para tentar reduzir a grandeza de Tom Zé.

Mas a história do músico é dessas coisas impossíveis de se apagar. É bom lembrar seu lugar cativo no time da Tropicália que mudou os rumos da música brasileira e interferiu na política durante a Ditadura Militar (Tom Zé sempre fez questão de propagar suas ideais políticas e jamais se omitiu mesmo quando o adversário era poderoso). Depois do sucesso, viveu no ostracismo, até cair no gosto de David Byrne, líder do Talking Heads e pesquisador das sonoridades dos trópicos, que impulsionou o músico brasileiro a uma carreira nos festivais europeus voltados para ouvidos mais exigentes.

De volta à polêmica nas redes sociais, frente ao pelotão de fuzilamento de teclados e celulares, Tom Zé mostrou serenidade. Lançou um álbum independente e o batizou Tribunal do Feicebuque. Em vez de alimentar agressividade e rancor, fez um disco especial para o assunto, com apenas 500 cópias e disponível para download gratuito em sua própria página da web. Guardadas as distâncias do tempo, da forma e da causa, as letras são um pouco como a carta deixada pelo filósofo Sócrates, antes de sua execução por envenenamento na Grécia antiga: uma legítima defesa ante a insensatez de quem o julga.

Afinal, Tom Zé não é figura que se dá ao luxo de fugir da polêmica. Basta rememorar a clássica imagem da capa de um de seus álbuns, o “Todos os olhos”.

Além disso, ao que tudo indica, e ao contrário de muitos artistas brasileiros, o tempo não parece indicar mudança no caráter de Tom Zé. Logo após o desencadeamento da polêmica com a Coca-Cola, questionado por um jornalista se também assinaria um contrato para a Copa do Mundo com a Fifa, respondeu:  “Aí, eu não me meto. A Fifa é um negócio de trapaceiros. O futebol é um esporte lindo, administrado por bandidos.”

Em tempo: Tom Zé era fã do Botafogo, mas acabou se apaixonando pelo Corinthians e até já fez música para homenagear o clube na ocasião do segundo título mundial.