Sem Pulo

jamesrodriguez

Tradução livre (ING): No Jump

Ínterprete do GIF: James Rodriguez / Colômbia.

Como se diz “Sem Pulo” (voleio) em:

Inglês: volley

Francês: vollé

Alemão: volleyschuss

Espanhol: volea

Italiano: tiro al volo

É com muita honra em que abrimos espaço para celebrar o primeiro lance de um não-brasileiro neste dicionário do futebol.

Agraciado com o prêmio de gol mais bonito da Copa do Mundo no Brasil, o colombiano James Rodriguez fez balançar a trave, a rede e as estruturas do futebol mundial quando acertou seu voleio perfeito na partida contra o Uruguai, pelas oitavas de final do torneio.

Voleio que, durante minha infância, também aprendi com os mais velhos que poderia ser chamado de “sem pulo”, já que a definição rápida do atacante não permite que a bola toque o chão antes de ser disparada ao gol.

Gabriel García Marquez

GaboHá três times de escritores latinos.

Um deles reúne aqueles que passaram sua vida indiferentes ao futebol. Assim era o argentino Julio Cortázar, que preferia acompanhar combates de boxe.

Outro time é formado por aqueles que desprezavam o futebol, gente do gabarito de Jorge Luis Borges, outro argentino que, de birra, chegou até a dar aulas durante a Copa do Mundo de 78, bem na hora do jogo da seleção argentina.

Mas há um terceiro time, recheado de grandes caras, que não só enalteciam o esporte das multidões como poderiam ser considerados torcedores comuns, com todas as fraquezas e alegrias que um apaixonado por futebol pode sentir.

Gabriel García Márquez, mais conhecido escritor colombiano, faz parte desta última seleção. Ainda que sua convocação tenha vindo tardiamente: só depois dos 20 anos é que Gabo foi seduzido pela arte de jogar com os pés e se tornou fervoroso hincha do Júnior de Barranquilla e admirador confesso de um craque brasileiro: Heleno de Freitas, que brilhara também no Botafogo.

E como qualquer torcedor, Gabriel García Márquez também sofreu com a Copa do Mundo. Conta-se que em 1994, durante o Mundial dos Estados Unidos, o escritor apostou uma Mercedez com um amigo que a seleção colombiana levaria o caneco.

Não se sabe se sua confiança vinha da profecia de Pelé que também acreditava no poder daquela que foi a mais forte seleção colombiana de todos os tempos, nem se Márquez pagou a aposta, embora seja conhecido de todos que aquele time da Colômbia amargou um retumbante fracasso ao ser eliminado na primeira fase.

O que não impediu ao grande cérebro (e grande cabeleira) daquela célebre equipe, Carlos “El Pibe” Valderrama,  de publicar uma generosa mensagem de despedida quando, em 17 de abril de 2014, Gabriel García Márquez entrou para outro time de escritores latinos, os eternos: “morre o ser humano, vive a lenda. Gabo, que sempre nos fez sonhar no mundo de suas letras, nos abandonou. Descanse em paz”.

Dois Escobares: ópio do povo está além do futebol

O filme não é novo.

Dois Escobares (Two Escobars), documentário dirigido pelos irmãos Jeff e Michael Zimbalist, chegou a ser exibido na 34ª Mostra de cinema em 2010 embora, atualmente, esteja sendo mostrado também na TV aberta pela ESPN, dentro de uma série de documentários esportivos.

Mas a sustentação da narrativa usando o tripé futebol, política e sociedade é just in time quando tanto se fala em Copa do Mundo no Brasil.

O filme mostra com primor como futebol e política se misturam ao longo da História como afluentes de um grande rio e como seus desdobramentos desembocam na sociedade. No caso do filme, uma sociedade tomada pelo narcotráfico.

Não que o uso político do futebol seja novidade. Basta dizer que a Seleção de 70 não é só um clássico pela bola que jogou, mas também pelo exemplo, muitas vezes já discutido, da exploração política que o Regime Militar fez daquela imagem de sucesso. Mas como já dito, em tempos que se discute Copa do Mundo por aqui não é necessário lembrar dos encontros e desencontros entre política e futebol.

Porque no caso colombiano, a seleção da país era passada de pé em pé por dois lados de uma mesma guerra: o governo tentando vender uma imagem de prosperidade e de controle da situação frente ao narcotráfico que, para usar do linguajar futebolístico, ocupava os espaços deixados pelo Estado, ganhando legitimidade e popularidade junto ao povo colombiano e, pior, quando da ausência desse Estado, dividindo o poder da força bruta e, muitas vezes, até das leis.

Nesse cenário, o roteiro tem o mérito de conectar todas esses componentes unindo duas pontas que, aparentemente, possuem apenas um sobrenome em comum: Escobar.

Um deles é o famigerado traficante Pablo Escobar que iniciou a construção de seu império nos anos 70, comandando o Cartel de Medelin que no seu auge, chegou a dominar 80% do mercado ilegal da região. Assim como o futebol colombiano em sua plenitude chegou a engasgar campeões como a Argentina, derrotada em casa por 5 a 0, Pablo Escobar aquela altura já se tornava quase um mito para uma parcela da população e seu domínio territorial do comércio de drogas certamente incomodava muitos figurões, a ponto dos EUA entrarem no jogo.

O outro Escobar – que não possui grau de parentesco com Pablo – é o zagueiro e capitão da seleção colombiana na Copa do Mundo de 1994. Um time famoso pelas figuras excêntricas como o meia Valderrama e o goleiro Higuita, mas também reconhecido por ser a equipe que jogava o melhor futebol antes do Mundial dos Estados Unidos. Fato que fez até Pelé afirmar, em um de seus palpites mais trágicos, que a Colômbia era uma das favoritas ao título naquele Mundial.

Só que  a tragédia não se deteve ao campo de jogo. Pior do que a desclassificação prematura, ainda na primeira fase, a Colômbia viu o zagueiro Andres Escobar, autor de um gol contra que acabou selando a eliminação da equipe contra os EUA, ser assassinado duas semanas depois de voltar para o seu país. Na ocasião, um território praticamente sitiado pela disputa entre as Forças Armadas, Agentes dos EUA e gangues.

Mesmo com tantos ingredientes misturados, a história só desenrola fácil porque o documentário é rico em depoimentos e imagens de jogadores, técnicos, familiares do zagueiro assassinado, políticos e até de capangas de Pablo Escobar que mostram como a instabilidade política se estendeu ao dia a dia dos jogadores e acabou se tornando o principal adversário daquela que foi a melhor equipe da história do país.