Pearl Jam

Acabo de ler no blog do Lucio Ribeiro que a banda fará shows no Brasil em novembro.

Há dez anos fui vê-los tocar no Pacaembu quando o prefeito da cidade era o atual senador José Serra.

Era a primeira vez que os caras tocavam no Brasil e foram obrigados a terminar tudo antes das 22h para não atrapalhar a vizinhança rabugenta do bairro que reclamava do barulho para o prefeito (coisa que Eddie Vedder fez questão de ironizar).

Além de começar (e acabar) cedo, acho que esse foi o único show de rock em que estive e era proibido vender cerveja ou qualquer bebida alcoólica, embora uns caras tenham camuflado e entrado com aqueles sachês coloridos (e horríveis!) de pinga com mel pra vender, deixar a molecada insana e provar como certas proibições simplesmente não funcionam.

Juro que não tomei.

Com tudo isso e também por tudo isso, esse foi um dos melhores shows da minha vida.

Pearl Jam ao vivo? Recomendo sempre.

O que tem de bom no 7×1

7 a 1
Imagem retirada do Facebook: https://www.facebook.com/familiademocratas

7/1/2015.

Oportunidade pra lembrar com piadinha o grande fiasco do ano que passou e ainda continua a zunir em nossa memória.

A parte boa de tudo isso é que, aparentemente, o Brasil evoluiu de 1950 pra cá.

Não apenas matematicamente, com os 5 títulos mundiais que ganhamos, mas principalmente pela maneira de encarar uma derrota em casa.

Trocamos o choro, o desespero e o complexo de vira lata pela zoeira, a chacota, a pura resignação.

Não se levar tão a sério não é, necessariamente, negativo.

Outra consequência de ser atropelado pelo panzer alemão  é que não perdemos tempo criando (nem lendo sobre!) nenhuma teoria da conspiração.

Não houve suspeita de corpo mole, conversa fiada de entregar o jogo ou qualquer outra desculpa esfarrapada de quem não admite a superioridade do adversário.

Pra tirar 10 dessa lição que a Copa do Mundo em casa nos deu só falta aqueles que dirigem o esporte estudarem tudo aquilo que já foi discutido e concluído como as mais preponderantes causas da tragédia e agirem para corrigir os rumos do futebol brasileiro.

Mas aí já é pedir demais né, professor! Então, ficamos com 7 mesmo.

Falta filosofia ao futebol brasileiro

A primeira vez que, em uma roda de amigos meio embriagados, lancei a ideia de que ao futebol brasileiro falta filosofia, fui meio ridicularizado. Naquele dia, entendi que, em se tratando de futebol, é difícil defender uma linha lógica de raciocínio quando resultados, que não seguem lógica alguma, podem contrariar seus argumentos. Mas não desisti de formular um pensamento sobre isso.

À época, critiquei a substituição de Mano Menezes por Felipão. Não por gostar mais de um do que de outro. Minha tese era de que a troca seguia critérios puramente políticos. Nada tinha a ver com esporte. Era o recibo de que não tínhamos sequer um esboço de planejamento para ganhar a Copa em casa.

Naquele momento, escrevi um texto sobre isso dizendo que a administração da seleção brasileira era tão cheia de contradições que, mesmo fazendo tudo errado, corríamos o risco de dar certo e sermos campeões do mundo. Não seria a primeira vez. E apesar de o tempo todo torcer para o errado dar certo (o que também é paradoxal, admito), o que sobrou da Copa foi um grande vazio existencial.

Quando me refiro à falta de filosofia, obviamente não pretendo insinuar que a Alemanha ganhou a Copa do Mundo porque possui em sua história de pensamento um Nietzsche, um Schopenhauer ou um Kant, embora isso indique que o hábito de pensar por lá é valorizado. Ao bater na tecla de que nos falta uma filosofia, quero dizer que é preciso refletir mais sobre nossa própria existência, nossos valores e a nossa estética futebolística.

Todos falam da organização, da disciplina, da tecnologia e de tantos fatores que levaram os alemães a ganhar a Copa no Brasil, mas pouco se fala do exercício de pensamento que os alemães encararam depois de perder a Copa em 2002 para o Brasil.

Que tipo de jogadores queremos formar? Qual é o estilo de jogo que vamos praticar? Qual perfil de treinador procuramos? De que forma vamos atuar para alcançar aquilo que traçamos como ideal? Qual preparação é mais adequada para esse tipo de campeonato? Concentração longe das mulheres e da família ainda faz sentido no século XXI?

Essas e, provavelmente, muitas outras questões foram pensadas e repensadas nos detalhes, não só para que a Alemanha ganhasse uma Copa, mas para que permanecesse no topo do futebol por um longo período. Um campeonato nacional fortíssimo, título na Liga dos Campeões e uma seleção que, no mínimo, chega às semifinais nos últimos quatro mundiais confirmaram isso.

A filosofia estabelecida pelos dirigentes alemães não foi feita para ganhar o próximo torneio, mas para se firmar como potência nas próximas décadas. É isso que temos visto desde então. Um pensamento claro, com valores morais e estéticos permanentes que não se abalaram quando veio a primeira derrota, justamente na Copa de 2006, sediada pelos próprios germânicos.

Aliás, é importante ressaltar: uma filosofia no esporte não serve para vencer todas as competições. Nem quero dizer que qualquer filosofia não necessite de ajustes e mudanças ao longo do tempo. Se até a teoria da relatividade de Einstein (outro alemão!) pode passar por revisões, o que dizer de um conjunto de pensamentos sobre o futebol?

Mas uma filosofia no esporte, com preceitos bem definidos, serve para estabelecer metas claras daquilo que se pretende nessa vida e facilita a pavimentação do caminho para alcançar esse objetivo. O vôlei brasileiro é um exemplo. Não ganhamos todos os títulos que disputamos, mas há quanto tempo conseguimos nos manter entre os melhores?

Quando Bernardinho ou Zé Roberto passam por uma turbulência, como quando precisam renovar a equipe, não deixam que se abalem certas convicções adquiridas durante um longo e sério trabalho. Calma, não estou dizendo que um ou outro deva treinar um time de futebol, mas que seus exemplos podem servir de inspiração.

No Brasil, cultua-se muito o valor do improviso. E não há dúvidas de que dessa característica é possível se tirar proveitos. Mas sem uma estratégia, com metas claras a serem perseguidas, a tal capacidade de improviso se torna apenas um remendo mal feito. Aliás, se tivéssemos gente preparada e atenta ao que acontece no futebol mundial, veríamos que tanto a capacidade de improviso quanto a miscigenação de uma equipe que permite contar com os mais variados tipos de atleta, deixaram de ser uma exclusividade nossa e pesar apenas a nosso favor.

Há tempos, o Brasil monta times que em nada representam sua história de jogar bola. Abdicamos do passe, de um meio de campo criativo e da formação de jogadores talentosos. No lugar, colocamos volantes e zagueiros fisicamente privilegiados e um time simplesmente combativo. Não há filosofia tática e abandonamos nossa filosofia técnica. Falo isso com a segurança de um fã do catenaccio italiano, como alguém que sempre valoriza a importância de uma defesa consistente e também a garra e a disposição típica dos argentinos e uruguaios. Porém, esses componentes devem somar aos nossos valores tradicionais, nunca substituí-los.

No entanto, com as cabeças fracas que temos no comando do esporte é muito difícil acreditar que uma filosofia surja dali para nortear o futebol nas próximas décadas. Com gente da estirpe de José Maria Marín e Marco Polo Del Nero, o máximo que alcançamos é o pensamento pueril de tentar ganhar o próximo campeonato, desde que até lá seja possível lucrar ao máximo. Uma mentalidade tacanha, sustentada por um pragmatismo que pode nos levar a um poço ainda mais fundo.

A última coletiva de imprensa da CBF, para anunciar o “ex-empresário” Gilmar Rinaldi como coordenador da seleção, é a prova de que por ali ninguém tem ideia do que precisa ser feito, exceto quando o objetivo em questão é tirar proveito próprio de alguma situação. Essa, sim, uma filosofia tradicionalmente brasileira.

Dizer que essa é a pior crise do futebol brasileiro pode até ser exagero. Mas não há dúvida que se não houver uma reformulação na cúpula do futebol brasileiro, o eterno 7×1 nos servirá apenas como uma lembrança amarga de uma época que nunca ficará para trás. Aí, a única filosofia que acabará vingando é a de que a seleção brasileira merece o nosso desprezo.

ATUALIZAÇÃO: amanhã, Dunga promete ser anunciado como novo técnico. E isso pouco importa, simplesmente porque não teremos uma renovação estrutural. A pressa em anunciar o treinador é uma estratégia de Marín e Del Nero para desviar o foco.

Sebastián Bednarik: Figurinha do Uruguai

Sebastián BednarikSebastián Bednarik é, junto com Andrés Varela, diretor do documentário “Maracaná”, filme que reconta a história da Copa do Mundo de 1950.

(verdade que poderíamos ter figurinha dupla com os diretores, mas até a Panini abortou nesta Copa as tais figurinhas duplas. Então, o desempate elegeu Bednarik que já filmou outro filme sobre futebol em 2010: “Mundialito”, sobre o uso e a manipulação do futebol pela ditadura uruguaia).

Trágica para brasileiros, heróica para os uruguaios, a história da primeira Copa do Mundo pós-2ª Guerra é bastante conhecida, principalmente por seu apelido famoso (Maranazo): os brasileiros eram favoritos e acabaram derrotados no Maracanã com 200 mil pessoas.

A divulgação do filme destaca as imagens inéditas daquele Mundial restauradas em HD e outro mérito deste documentário é reunir diversas declarações dos principais personagens daquela Copa, como os  uruguaios Máspoli, Varela e Ghiggia, o técnico brasileiro Flávio Costa e o goleiro Barbosa, entre outros. Muitas dessas imagens recuperadas de antigas entrevistas já que boa parte deles já se foram.

Além de recriar cronologicamente os passos das duas equipes até a derradeira partida, não escapam detalhes de bastidores (ou nem tão de bastidores assim) que puderam somar influência no resultado da partida.

Merece atenção o pronunciamento do então prefeito do Rio de Janeiro Mendes de Morais, responsável pela construção do Maracanã, que com os jogadores das duas equipes perfilados no gramado faz um discurso mais do que eufórico em que postula, sem se envergonhar, como a seleção brasileira era imbatível e, portanto, já poderia se considerar campeã daquela Copa.

Barbosa e a Copa do Mundo de 1950

Não tenha dúvidas de que você já leu ou ouviu e ainda lerá e ouvirá  muitas referências a 1950 por causa da Copa 2014 no Brasil.

O tom poderá ser eufórico, patriótico, irônico ou trágico a depender de quem fizer as comparações ou conforme a seleção brasileira estiver desempenhando seu papel. Mesmo depois de 64 anos, é natural que se repitam comparações como também é certo que se cometerão equívocos em relação aos fatos daquela Copa do Mundo que o Brasil viu escapar em casa contra o Uruguai.

Para quem deseja se aprofundar em 1950, esse é um momento oportuno para o livro Barbosa (à venda pela Editora Bússola), do jornalista Roberto Muylaert, lançado no ano 2000 (também ano da morte de Barbosa) na ocasião dos 50 anos do vice-campeonato do Brasil. Uma leitura que certamente trará novidades ao leitor sobre o tão falado jogo contra o Uruguai, como também contará alguns fatos que podem nos levar à conclusões um pouco diferentes das versões estabelecidas pelo consenso.

Essa é a capa do livro que tenho, em sua 1ª edição pela RMC Editora.
Essa é a capa do livro que tenho, em sua 1ª edição pela RMC Editora.

O objetivo mais importante da obra é entender e explicar a melancólica trajetória de Barbosa, responsável por expiar o pecado não só das 200 mil pessoas que se calaram naquele dia como de todos os brasileiros que ficaram de fora e até das gerações que nunca o viram em ação. A figura do goleiro, um dos maiores nomes da sua posição, é um exemplo duro e realista sobre como ídolos são tratados indigentemente no Brasil.

Barbosa era o titular indiscutível da posição naquele Mundial (coisa que a seleção de hoje, por exemplo, não tem) e por uma falha no segundo gol dos uruguaios pagou eternamente pela derrota, sendo alvo de atitudes tão covardes quanto aquela em que,  durante a preparação para a Copa de 1994, a comissão técnica de Parreira e Zagallo o impediu de visitar a Granja Comary sob o pretexto de que ele traria azar ao time.

A eterna cruz que carregou sozinho – Barbosa nunca tentou dividir a “culpa” da derrota com algum companheiro, técnico ou dirigente – é também “culpada” por um dos defeitos do livro, que apresenta seu melhor capítulo logo no começo, com o relato do episódio em que Barbosa expurgou ou tentou expurgar um pouco do carma quando usou para fazer o braseiro do churrasco as traves  que formavam os gols do estádio do Maracanã, naquele tempo quadradas e de madeira.

Mas a ideia é entender a História e ela, como se diz, é contada pelos vencedores, neste caso, prevalecendo a versão de quem tem cinco títulos mundiais. Não foi somente o Brasil que perdeu o título de 1950, mas o Uruguai que, heroicamente, conquistou a taça que muitos já achavam ter dono antes do apito inicial.

Com justiça, há no livro um capítulo dedicado exclusivamente ao bravo capitão da Celeste Obdulio Varela que, como ninguém, soube liderar e motivar sua equipe para alcançar um feito impossível apenas na cabeça dos brasileiros e, talvez, de uma maioria pouco familiarizada com a capacidade daquela seleção que já contava um titulo mundial e outros dois olímpicos.

Outro fator que torna essa leitura proveitosa nestes tempos é entender como a História, sob alguns aspectos, se repete se não em forma de farsa, ao menos ela vem em um roteiro atualizado com a superprodução que os novos tempos exigem, mas não muito diferente na ação de certos personagens. O Maracanã, cenário da final da Copa, foi construído às pressas, em dois meses, e praticamente inaugurado durante o torneio, provando que o atraso nas obras não é uma bandeira recente.

Episódio recorrente também é o descarado uso político da Seleção brasileira. O ponto mais alto da cara-de-pau de colarinho branco acontece momentos antes da grande final. Uma fila de políticos interrompeu a concentração para tirar uma casquinha da bola cheia do time. Um deles, o então candidato a senador Adhemar de Barros, responsável, além de atrapalhar o time de 50, por inaugurar um dos epitáfios políticos nacionais, o “rouba, mas faz”.

O autor relasta, inclusive, que os jogadores da seleção brasileira chegaram ao Maracanã sem almoçar direito e que até a preleção do treinador Flavio Costa seria interrompida por um assessor do prefeito da cidade do Rio de Janeiro que desejava garantir a caravana para comemorar o título.

Já dentro de campo, o ponto alto da urucubaca do oportunismo de nossos políticos foi o discurso do general Ângelo Mendes de Morais, prefeito do Rio de Janeiro, que, entre outras lameiras patrióticas, pregou: “A vós que eu já saúdo como vencedores! Cumpri minha promessa construindo esse estádio. Agora, fazei o vosso dever, ganhando a Copa do Mundo”.

Qualquer semelhança com o o papo megalomaníaco de “Copa das Copas” não é mera coincidência, tampouco é a comum ingerência de pessoas alheias ao futebol que, como parece, se repetiria de forma bastante evidente em outros mundiais muito tempo depois (alguém falou 1998? Ou 2006?).

Mesmo assim, sempre haverá quem prefira culpar o goleiro ou arrumar outra desculpa qualquer.

Caneta

romario-caneta-final

Tradução livre (ING): Pen; little roll

Ínterprete do GIF: Romário / Seleção Brasileira.

Como se diz caneta em:

Inglês: Nutmeg; tunnel.

Francês: Petit pont.

Alemão: Beinschuss; tunnelt.

Espanhol: Cañito; caño.

Italiano: Panna.

Passar a bola debaixo das pernas do adversário é sem dúvida um dos lances mais humilhantes do futebol. Quem já viu a bola atravessar limpamente o vão entre as canelas sabe o tamanho da vontade de enterrar a cabeça na terra, como avestruz.

Certamente também é um dos dribles mais antigos do futebol. Talvez por isso seja um dos que tenha mais sinônimos.  No Brasil, alguns são: caneta, rolinho, janela, cana, sainha.

Mais do que uma forma de superar um adversário no tempo e espaço do campo,  a caneta é uma arma psicológica que desestabiliza quem a sofre ou eleva o espírito de quem a executa. À torcida ela é capaz de provocar risos, gritos de “opa!”, “olé” ou “oh” ou  mesmo ser comemorada como gol.

Sobre o Dicionário do Futebol Arte.

Bob Marley: figurinha da Jamaica

Bob marley figurinhaPoucos artistas foram tão influentes em todo mundo e menos ainda demonstraram um amor tão grande pelo futebol como Bob Marley. O ídolo do Reggae sempre admitiu: maior que sua paixão pela bola, só a música. Para ele, futebol significava liberdade, um dos valores mais cantados em suas letras.

Apesar de não ter um time do coração em particular, Bob era um grande admirador de Pelé, Maradona e um outro clássico jogador argentino, Osvaldo Ardiles.

Como nunca dispensou uma pelada, não são poucos os registros de sua intimidade com a bola. Tanto que em uma das muitas partidas que ele fazia junto com a banda em meio às turnês e excursões ao redor do mundo, consta um momento célebre ocorrido em 1980, no Brasil. Em um contra histórico, figuraram craques como Chico Buarque, Alceu Valença, Toquinho e seu amigo, o ex-jogador Paulo César Caju.

crédito imagem: http://www.futebolarte.blog.br/musica/bob-marley-isso-e-amor/
crédito imagem: http://www.futebolarte.blog.br/musica/bob-marley-isso-e-amor/

Em 1978, durante a turnê Kaya, Bob Marley e os Wailers inspiraram todo o design das apresentações na Copa da Argentina e ainda dispunham de uma TV no ônibus para que pudessem acompanhar os jogos. Inclusive, como telespectador, Bob Marley tinha o costume de tirar o som porque não gostava dos comentários durante a transmissão.

Quando era criança, Bob Marley chegou até a apanhar de sua mãe por estragar seus sapatos jogando futebol com latinhas e outros objetos depois que saía da escola. História sem dúvida comum a muitos outros garotos.

Já adulto, um de seus projetos era construir um centro de treinamento para garotos na Jamaica, seleção que participou apenas da Copa do Mundo de 1998. Infelizmente, Bob Marley morreria antes, em maio de 1981, em decorrência de um câncer que se alastrou depois de um ferimento no pé ocorrido, por infeliz coincidência, durante um jogo de futebol.

Marighella, protagonista de uma história que ainda ecoa

marighella - PCA contar dos últimos dois anos, nunca li tantas biografias. É verdade que nesse período muito contribuiu a onda incessante de histórias pessoais de roqueiros. Seja como for, esse é um gênero que sempre gostei. Então, posso afirmar com alguma segurança que nas melhores biografias o personagem principal morre no fim.

Escrever sobre gente viva parece  que é uma tendência relativamente nova, da biografia de entretenimento. Nada contra. Mas biografias de personagens vivos contém mais interferências e menos distanciamento. Isso se o biografado não for um Roberto Carlos, capaz até de vetar uma publicação não autorizada.

Então, se é para falar de gente que participou ativamente da História e, principalmente, de um personagem controverso, penso que o tempo é a senha para se chegar a versão mais fiel possível dos fatos.

No caso da biografia “Marighella, o guerrilheiro que incendiou o mundo”, escrita por Mário Magalhães e lançada pela Companhia das Letras, o tempo foi útil na busca, por exemplo, de fontes e documentos capazes de esclarecer alguns fatos e derrubar alguns mitos. Muitos destes consagrados por distorções involuntárias, outros por mentiras conscientes.

Além disso, mesmo que o protagonista tenha morrido há mais de 50 anos, muitos temas que perpassam a obra estão mais vivos do que nunca. Alguns, talvez, nunca morrerão. E aí está um dos méritos de uma boa biografia. Nesse caso, há ainda um toque pessoal de coincidência em uma obra que mergulha na militância política nacional e que acabei lendo justamente quando no Brasil pipocaram manifestações depois de um longo período de dormência.

Por isso, listei alguns desses assuntos recorrentes (uns mais sérios, outros nem tanto). Com mais ou menos spoilers (fica o aviso!), tento mostrar a relevância atual das quase 600 páginas que prezam pelo detalhe e acuracidade das informações, atravessando trechos dos mais conturbados da História recente do Brasil: o Estado Novo e o  início do Regime Militar.

Brasil e Argentina: A projeção de Ernesto Che Guevara é mundial e incontestavelmente maior. Tanto que até os brasileiros conhecem bem mais o argentino. Mas Carlos Marighella é, em muitos aspectos, comparável a Che. Além da oposição ferrenha ao capitalismo, é impossível negar o carisma, coragem e determinação como características comuns. Entre as diferenças, uma delas é que Marighella sempre teve como campo de atuação o seu país.

Seleção e Política: muita gente torceu contra a seleção brasileira na Copa das Confederações sob o discurso de protesto à CBF e/ou ao “governo”. Em 1970, mesmo com o uso que a ditadura fez do escrete Canarinho, Marighella torceu pela Seleção. Até porque o time de feras foi arquitetado por um treinador que era seu camarada, o comunista João Saldanha. Isso antes de Zagallo assumir com a anuência dos militares.

Fla-Flu político: a discussão política do país hoje, muitas vezes, fica restrita ao duelo PSDB-PT, como se a essência e os interesses de ambos fossem opostos. Durante a Guerra Fria, há também o erro em se reduzir a disputa apenas em capitalistas e comunistas, sem se levar em conta as inúmeras diferenças que existiam dentro de cada um desses blocos. Longe disso, o livro detalha muitos abismos ideológicos da esquerda brasileira, alguns estratégicos no combate ao inimigo comum. Também mostra quando as contradições e discrepâncias dentro das próprias militâncias emperram a engrenagem de um movimento de oposição, como foi com a Ditadura Vargas e pós-golpe de 64.

Culto a personalidade: Em “Marighella”, ficam claros certos vícios dos militantes políticos como o culto excessivo à personalidade. O exemplo mais evidente é o do Cavaleiro da Esperança, Luis Carlos Prestes, sempre impermeabilizado pelos comunistas quanto aos seus erros e defeitos. Ainda nesse tema, um dos pontos altos do livro é quando Marighella descobre que Stalin não era bem o ser humano que ele pensava ser. Atualmente, essa adoração à personalidade é visível na fúria de alguns partidários quando se crítica o ex-presidente Lula ou, na outra margem do rio, o também ex, FHC.

Espionagem americana:obviamente não é de hoje que os EUA praticam sua arte da vigilância. Em plena Guerra Fria, o monitoramento tinha como discurso o “perigo comunista” e, como hoje, a “ameaça terrorista”. No fundo, a balela de vigiar pela “segurança pública” persiste como um meio que se encontra para exercer e preservar um controle. O livro relata episódios de agentes infiltrados nos grupos armados e há até alguns momentos sublimes em que a CIA se mostra muito mais bem informada sobre a situação dos grupos guerrilheiros do que o governo brasileiro. Mesmo que os militares sempre estivessem ao dispor em cumprir as vontades dos norte-americanos.

Igreja e política: a má fama da Igreja Católica como consequência de suas posições em relação as diferenças de gêneros, a sexualidade e aos crimes cometidos dentro da instituição contribuem para uma generalização moral dos religiosos. Mas a história da militância no Brasil lembra que, apesar de muitos padres e bispos católicos estarem ao lado dos milicos, muitos deles, como os dominicanos, enfrentaram com coragem os desmandos da ditadura. Inclusive, sofreram como poucos nas horríveis salas de torturas que, por sua vez, nunca pouparam mulheres, nem homens de batina.

Policia: em meio aos estouros de manifestações em vários locais do país,  graças às redes sociais e a imprensa ninja, algumas armações da Polícia Militar  se tornaram públicas. No livro, o autor esmiúça diversos procedimentos ilegais  dos tiras, inclusive com respaldo de órgãos da imprensa. O principal deles é a barbárie da tortura. Mas a Ditadura também foi exímia na manipulação de fatos com a falsificação de documentos, alteração da cena do crime, adulteração de depoimentos, ameaça às testemunhas, entre outros estratagemas. Os episódios de abusos da PM que acompanhamos nas últimas manifestações em diversos estados do País comprovam a influência das mais de duas décadas de regime militar no procedimento policial, ainda muito mais repressor do que protetor da sociedade. O destaque evidente do livro é a demonstração de como a polícia política do facínora  Delegado Fleury fraudou escandalosamente a cena da execução (e não de combate) de Carlos Marighella.

Volta da Ditadura Militar: algumas ideias que o atual momento de eferverscência política trouxe à tona já deveriam estar enterradas. Mas isso talvez faça parte do processo. A mais perigosa é a que prega a falácia sobre “a volta da Ditadura”. Para alguns, um regime ditatorial seria melhor do que a democracia que vivemos. Bobagem colossal. A diferença é que a corrupção existia na proporção de um país que ainda contava 90 milhões de habitantes. Basta lembrar o escândalo que foi uma Transamazônica. Só que em um regime totalitário, se alguém vai à rua se manifestar ou se um grupo se reúne para se opor às atrocidades do governo corre o risco de apanhar e ser preso. Ou pior: ser torturado e morto.

PS.: por último, é impossível, no meu caso, deixar de mencionar que Carlos Marighella era baiano, mas no estado paulista seu coração batia pelo Corinthians.

Sem rodeios, o fim das touradas veio com um baile

Há uma teoria de que Mike Tyson nocauteou muitos de seus adversários antes mesmo da luta começar. O primeiro e decisivo golpe vinha quando os lutadores eram postos frente a frente e, na encarada, seu olhar fulminante já desnorteava o outro lutador.

Ontem, em um Maracanã lotado, os perfilados times de Brasil e Espanha não puderam se encarar enquanto escutavam um coro vibrante a cantar o hino nacional brasileiro. No entanto, a energia que fluía no maior templo do futebol nacional naquele momento impressionou olhos, ouvidos e certamente mexeu com o jogo de pernas dos espanhóis. Fortaleceu o desafiante da hora a levar a melhor seleção do mundo à lona, sem que o primeiro apito soasse dando início ao combate.

A Espanha impôs durante cinco anos um jogo de expressões geométricas. Como mestre Picasso, pintam triângulos e polígonos milimetricamente desenhados em trocas de passes ao longo do campo. De forma inteligente, fizeram metáfora a estupidez de suas touradas: cansam o adversário fazendo-o se mover entre uma estocada e outra até que não haja forças para reagir.

Com a conquista de uma Copa do Mundo, os espanhóis já haviam ido mais longe do que a Hungria de 54 e a Holanda de 74, equipes históricas capazes de derrubar o quase sempre favorito futebol brasileiro. Aliás, era só essa conquista que faltava à Fúria.

Mas neste domingo, graças a uma marcação cinematográfica do Brasil, essa arte espanhola acabou enclausurada na sala de jantar, como a família burguesa da obra de Luis Buñuel. La Roja caiu em sua própria trampa. A Seleção também usava como metáfora a estupidez que pratica com seus touros, apertando de tal forma o time espanhol que a posse de bola, base da estratégia vencedora, se sublimou ao calor da correria de um time com mais fôlego e melhor pontaria.

O resultado, que contraria a ideia e a vontade daqueles que acham que perder um jogo de futebol pode resolver problemas  fora das quatro linhas,  é maior do que o título da Copa das Confederações. É a formação de um time e o retorno de uma identificação com sua torcida depois de um longo período de distanciamento físico e emocional.

Vitórias em campo em sintonia com as lutas fora dele que não podem e não deverão parar com a chegada da taça.  Porque a ousadia e alegria inspiraram até um protesto criativo e quase de improviso – pela “anulação da privatização do Maracanã” – durante a cerimônia de encerramento do torneio.

E se a Copa das Confederações ainda não é a Copa do Mundo, uma pena. Porque eu mesmo poucas vezes me diverti com a Seleção como desta vez. Que o melhor esteja guardado para o fim.

As manifestações e a máscara do “V de Vingança”

Muito se viu, um tanto se falou sobre a máscara que manifestantes usavam nas passeatas pelo país nas últimas semanas. Alguns tuiteiros mais azedos de bate-pronto já apontaram até para a banalização do acessório. Diriam: “virou clichê”.

Mas no mundo de informações rápidas, quantas coisas são repetidas sem reflexão? Quantas vezes nos deparamos com a mesma coisa sem que se saiba seu verdadeiro significado? Não seria injusto afirmar que muitos trajando a tal máscara, desconheciam totalmente sua origem. No entanto, buscarei a justa vendetta para aqueles que exibiam conscientes e orgulhoso o sorriso que surgiu bem antes que os emoticons se tornassem uma nova forma de expressão na linguagem digital. Minha lição de casa neste fim de semana foi reler a obra que levou a mania às ruas: a comic V de Vingança, do autor britânico Alan Moore.

Nâo entrarei na discussão da validade ou não de se cobrir o rosto durante uma manifestação política. Sobre isso também muita coisa já foi dita por aí. Meu objetivo é apenas tentar explicar e legitimar o “V” como um símbolo pop da indignação e, por isso, adequado à causa do momento.

O primeiro equívoco que li no Facebook, este que em breve poderá ser rebatizado como a Wikipedia universal dos equívocos, é a confusão entre a personagem “V” da  HQ e Guy Fawkes, um cara que viveu no início do século XVII e que inspirou o desenhista David Lloyd a criar a máscara do vingador anarquista. Fawkes foi um extremista católico que acabou preso porque, em um plano maluco, pretendia explodir o Parlamento inglês. Acabou delatado. Fora os traços do rosto e o uso de explosivos contra o poder, as coincidências entre as figuras terminam aí. Como me parece óbvio, no caso dos jovens manifestantes, a cultura pop exerceu muito mais influência do que a História britânica. Portanto, mantenho o foco na obra de Moore, finalizada em 1988, durante o terceiro mandato da Donzela de Ferro, defensora dos bons costumes e da moral Margaret Thatcher e que, inclusive, virou filme em 2006. Presumo que muitos conheçam a personagem apenas do cinema.

Antes de transcrever um parágrafo com as aspas do autor que por si só já valeriam a indicação de leitura, peço que esqueçam as imagens de amigos posers trajando o adereço. Vou listar bons motivos para defender a máscara do “V” que, no fundo, são correlações entre nossa atual realidade e o cenário fictício da trama ambientada na Inglaterra do fim dos anos 90, sem é claro, me estender pela narrativa e estragar sua leitura posterior.

Primeiro, “V de Vingança” mostra com tinta forte a letargia do povo frente a manipulação das instituições e da informação e como um baque na estrutura inevitavelmente traz ondas de violência e, principalmente, uma horda de aproveitadores que desejam tomar as rédeas da situação. Segundo, a relação de subserviência da mídia com a versão oficial, algo que se na Turquia da praça Taksim chega a níveis catastróficos, por aqui, onde a democracia é menos centralizada, acabou fazendo a Rede Globo como a grande – e única? – vilã novelesca da trama. No Brasil, os enfoques dos principais jornais e programas de TV deram uma virada e trouxeram à baila os exageros da polícia militar somente depois que as redes sociais insistiram em desmentir o que alguns veículos classificavam apenas como “repressão aos vândalos”. Terceiro, Alan Moore, retorna a George Orwell e aponta o que o mais recente vazamento do governo Obama deixou respingar na agenda de temas públicos: a vigilância dos governos e das corporações da Internet.

A comparação também cabe na forma como a história conta, em meio a várias referências eruditas e pop, o soterramento da cultura e, principalmente, das grandes obras pelo “sistema”, aquela entidade meio abstrata que o anarquista quer destruir e que é formada basicamente por seres humanos que controlam os governos e a vida da população. Em nosso país, cabe refletir sobre esse tema: quanto tempo (e dinheiro) foi e é gasto em troca de acusações entre partidários de um governo que domou a inflação e militantes de outro que foi capaz de gerar uma sutil mobilidade social enquanto do ponto de vista educacional e cultural ambos nada ou pouco fizeram em quase vinte anos?

Por último, abro alas para que o próprio Alan Moore contextualize sua obra em um cenário fascista, em meio a crise climática – que para ele aconteceu apenas depois de uma guerra nuclear – idealizado por ele e justifique o que, em tempos de tantas menções vazias, possui um significado relevante. Não um clichê banal. E se é caso de proibir o lugar comum, afirmo sem medo sobre as palavras abaixo que qualquer semelhança com algum teor de nossa realidade não é mera coincidência:

“Estamos em 1988 (…) um jornal tablóide acalenta a ideia de campos de concentração para pessoas com AIDS. Os soldados da tropa de choque usam visores negros, bem como seus cavalos; e suas unidades móveis têm câmeras rotativas instaladas no teto. O governo expressou o desejo de erradicar a homossexualidade até mesmo como conceito abstrato. Só posso especular sobre qual minoria será alvo dos próximos ataques (…).

Paro por aqui. Apenas recordo que estamos 25 anos a frente de quando a obra foi escrita.

Acho que vocês já entenderam.