Vampeta, o dirigente

vampeta-fala-sobre-ensaio-nu-para-a-g-magazineVampeta foi um grande jogador. Fora do campo, sua espontaneidade sempre cativou muita gente. Do tipo folclórico, se distanciava da mesmice dos discursos pasteurizados dos jogadores. Já como dirigente, ele começa a se atirar na vala comum dos cartolas do país.

Ontem, em entrevista ao canal SporTV, o ex-volante do Corinthians e da Seleção campeã da Copa do Mundo em 2002, como de costume, foi bastante contundente e criticou o Bom Senso F.C. e suas principais propostas. A diferença é que agora, a sinceridade do jogador decepciona.

O argumento central de Vampeta é semelhante ao de muitos que se levantam contra as ações do movimento nas redes sociais e se baseia no alto salário dos líderes do movimento, atletas de grandes clubes como Paulo André, Alex, Rogério Ceni etc. A partir desse ponto, a intenção é desconstruir outros pilares como a diminuição do número de jogos por temporada.

Para defender sua tese, Vampeta, hoje presidente do Audax, cita o caso específico de sua equipe, na qual os jogadores possuem apenas quatro meses de campeonato e, portanto, não poderiam se dar ao luxo de concordar com uma proposta de redução de compromissos.

Mas o Velho Vamp peca, no mínimo, em dois fundamentos. O primeiro é o raciocínio simplista de que, como ganham muito bem, fica fácil defender a redução do número de jogos. Se fosse fácil assim, por que um movimento como esse não apareceu antes? A geração de Vampeta – ele também – já era conhecida por ganhar muito dinheiro e jamais tocou em assuntos nevrálgicos da estrutura do futebol brasileiro.

Evidentemente, não me estranha que em um país com tantas desigualdades, salários tão altos gerem desconforto. O que não faz sentido é usar tal argumento para negar os direitos legítimos a qualquer trabalhador,  inclusive o de uma maioria de atletas que recebe muito menos que jogadores de grandes clubes. Sem falar que altos salários não impedem que os jogadores se machuquem cada vez mais e, consequentemente, tenham carreiras cada vez mais curtas.

Outro erro do cartola Vampeta é a desinformação. Dentre as questões levantas pelo Bom Senso F.C. e já deixada clara em mais de uma oportunidade está a discussão – e até a redução – de altos salários em benefício da saúde financeira dos clubes, o que eles chamam de fair play financeiro. De que adianta constar altos rendimentos em contrato, mas não receber? Ou, em outro aspecto, é certo os clubes pagarem salários inflacionados e mergulharem em um buraco sem fundo de dívidas? O próprio Vampeta, quando era jogador – e talvez o tempo na cadeira de presidente já tenha atrapalhado sua memória – afirmou certa vez quando estava no Flamengo: “eles fingem que me pagam e eu finjo que jogo”. Pois não seria exatamente isso que o Bom Senso tenta eliminar do futebol brasileiro?

Quanto a redução de partidas, se houvesse dado mais atenção ao que diz o manifesto dos jogadores, saberia que no caso de clubes pequenos, como o que ele dirige, o movimento pede justamente o inverso: aumentar a partidas e dar condições trabalhistas mais estáveis aos jogadores que ganham menos e que são a maioria no país.

Mais decepcionante, ainda, neste “novo” Vampeta não são os equívocos em sua retórica, mas sua nova faceta como dirigente. Nos moldes de um Eurico Miranda, Vampeta até ameaçou demitir qualquer jogador do seu clube que tome atitude de protesto semelhante a dos jogadores que se sentaram em campo no início das partidas do campeonato brasileiro.

O Vampeta cartola me lembra de uma outra história. Durante uma das festas em que participava com Ronaldo, conta-se que certa vez ele abriu um vinho da adega pessoal do Fenômeno, experimentou e, logo depois do primeiro gole, odiou. Então, despejou o líquido todo da garrafa pelo ralo da pia. Ao ver a cena e as últimas gotas caindo, Ronaldo lamentou dizendo que aquele vinho não era qualquer um, mas um presente que ele havia ganho do Papa João Paulo II.

Assim como não conseguiu enxergar o que havia de especial naquela garra de vinho, Vampeta  mede os gestos do Bom Senso pelo gosto mais baixo daqueles que comandam o futebol nacional: o interesse próprio. Ou será que Vampeta, que cita os jogadores mais humildes, perguntou a esses mesmos atletas o que eles acham do Bom Senso F.C.?

Ao que parece, Vampeta  e tanta gente que prefere apontar os altos salários dos líderes do Bom Senso F.C. e ignorar problemas muito maiores do futebol brasileiro estão desperdiçando o que há de mais valioso que há hoje no futebol brasileiro.

Copa do Mundo já deu resultados

Quando o Bom Senso F.C. começou seus protestos muita gente comemorou.

Mas houve quem criticasse suas propostas ou a falta de clareza delas.

Para quem conhecia pouco dessas ideias, algumas como a redução do calendário para grandes clubes e aumento de jogos para os pequenos foram reafirmadas na última semana.

Continuo, como escrevi antes, acreditando que só a existência de um movimento como esse já é uma vitória em um país onde a acomodação e o conformismo sempre venceram.

Se há enganos ou se algumas propostas podem ser melhores, que se discutam os pontos e que se façam os avanços.

O que não se pode é criticar o movimento porque os jogadores “ganham muito” e não podem reclamar de férias ou excesso de trabalho.

Qualquer trabalhador pode e deve exigir seus direitos.

Além disso, é preciso lembrar, nem todos os jogadores da primeira e, principalmente, da segunda divisão ganham salários milionários. Aliás, a maioria dos atletas de futebol no Brasil não possui rendimentos de astros.

Do seu lado do campo, a Copa do Mundo, antes mesmo de começar, já prestou serviço inestimável.

Ainda que todas as promessas de legado e infraestutura já tenham se tornado, oficialmente, mentiras dos políticos e ex-jogadores envolvidos na organização, o Mundial da Fifa mexeu com a capacidade de movimentar nossa paixão nacional da cadeira e abriu espaço para que as imagens do Bom Senso F.C. ganhem visibilidade mundial e pressionem, como nunca, a CBF.

Esperar sentado sempre foi esporte nacional.

Que o bom senso torne essa prática impopular.

Bom Senso F.C. não tem bom senso

O Bom Senso F.C. promete outra manifestação na rodada de hoje do Brasileirão.

O objetivo desses jogadores, todo mundo já sabe – ou deveria saber, é levantar bola para questões que desde Charles Miller seguem esquecidas pelas federações e pela Confederação Brasileira de Futebol.

Em entrevista ao Estadão, Paulo André, um dos líderes,  afirmou que o movimento não apoiará lado algum à presidência da CBF.

E reitera que só lutam por uma pauta , em especial a readequação do calendário e o que eles chamam de fair play financeiro.

Com a política no Brasil dominada pelo pragmatismo, onde todos, até notórios críticos dessa prática, abandonam suas ideias e discursos por uma chance de se chegar ao poder, o Bom Senso F.C. vem com um papo de negar uma posição cativa ao lado dos poderosos para não chutar longe os ideais.

Poucas coisas são tão distante da praxis política nacional, que ensina sempre tocar de lado para não furar o esquema.

Não bastasse, essa turma ainda pleiteia um corpo a corpo com a CBF e sua estrutura tão rígida e viciada que só quem perdeu o senso teria coragem de enfrentar.

Tanto que o próprio Paulo André reconhece que esse time ainda avançou muito pouco nas negociações e que a CBF pouco interesse tem demonstrado a eles.

Mesmo assim, insistem.

Enfrentar o conformismo dominante parece muito mais coisa de Contrassenso Futebol Clube.

Cutucar o  adormecido  futebol brasileiro é prova de que esse Bom Senso F.C. não tem o menor bom senso.

Porque acreditam no que o futebol ensinou, não a política: o lado mais fraco sempre tem chance de vencer.

Da arquibancada, resta-me fazer aquilo que é das coisas mais apaixonantes do futebol: torcer para o time mais fraco e, quem sabe, vibrar a cada sofrida vitória.

De verdade. Só de ter um Bom Senso F.C. para torcer já são três pontos na tabela.