Precisamos falar sobre paternidade

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As leis de um país se transformam conforme a necessidade de se adequar uma sociedade às mudanças. Ou deveriam se transformar.

Há problemas quando existe um longo distanciamento entre a mudança da sociedade e o acompanhamento da legislação.

Tornar-me pai me escancarou a janela do atraso em que a paternidade é vista na sociedade brasileira e a licença de cinco dias é um reflexo do descompasso da lei com os modelos familiares atuais e de uma nova concepção de paternidade que, acredito, é necessária para os novos tempos.

É verdade que há sinais positivos no horizonte: a possibilidade de aumento para 20 dias estabelecido pelo governo, a instituição de 40 dias de licença aos paisconcedida pela Natura e o movimento de algumas empresas multinacionais para aumentar esse período são dados de alento, mas que mostram que ainda engatinhamos em um tema historicamente ignorado em nossa cultura.

O machismo encalacrado na sociedade brasileira enxerga a responsabilidade parental quase como exclusivamente da mulher. Cuidar de bebês sempre foi brincadeira de meninas. Ao macho cabe correr atrás do alimento. Assim funciona desde a era cenozoica e ainda em grande parte da mentalidade da população. Por isso, creio, a discussão da paternidade sempre foi tão negligenciada.

Quando morei nos EUA, tive uma boa surpresa quando vi nos banheiros masculinos aparelhos para trocar fraldas de crianças. Infelizmente, aqui a gente ainda sofre da dificuldade de encarar a amamentação como algo natural.

Faço coro às palavras do antropólogo basco Ritxar Bacete, quando ele diz que as mudanças de visão da paternidade não acontecem simplesmente “porque há um temor dos homens de que haja igualdade”. Primeiro, porque essa mudança significa uma reviravolta no entendimento da masculinidade tradicional e, segundo, porque ela daria mais autonomia e importância às mulheres.

Engana-se quem pensa que o aumento da licença paternidade seria um benefício exclusivamente masculino.

Aliás, engana-se quem pensa que o aumento da licença paternidade seria um benefício exclusivamente masculino. Ao contrário. Além de proporcionar melhores condições de suporte para que a mulher exerça seu papel de mãe, há ainda um argumento que considero matador e que vi pela primeira vez exposto por uma mulher, a jornalista Mariana Amaro.

Ela defende que as licenças de pais e mães sejam iguais, exatamente como acontece em países como Alemanha (olha outro 7 a 1) e Suécia. Um dos motivos, aponta a jornalista, é que uma mulher tende a sofrer menos discriminação na hora de ser contratada ou ao assumir um cargo de liderança por causa da questão parental. Com direitos iguais fica mais difícil uma empresa pressionar mulheres por essa decisão tão pessoal que é a de ser mãe.

Em tempos em que salários competitivos cada vez mais deixam de ser a única preocupação para se escolher um trabalho, o movimento para a extensão da licença paternidade é também uma ótima alternativa para empresas atraírem profissionais, no mínimo, mais sintonizados aos novos tempos. E essa ideia deveria mobilizar não só companhias mais antenadas ou ligadas a setores como o da tecnologia, mas de todas as indústrias.

É claro que a licença paternidade não é a única questão envolta nesse processo complexo e delicado de transformação do papel do homem na criação dos filhos, mas ela carrega um simbolismo que pode ser capaz de iniciar um novo período de reflexão.

Redefinir o papel dos pais ajuda a estabelecer novos parâmetros sobre como vamos cuidar das próximas gerações e isso significa muito não só para a economia, mas também para a evolução da nossa espécie.