Engole Quem Quer

Temer

O que vou contar pra minha filha e, portanto, não escondo de ninguém, é que eu assisti, em meio a uma multidão cheia de esperança na Avenida Paulista, o PT chegar ao poder pelas eleições diretas em 2002. Hoje, a sensação é de azia histórica.

De lá pra cá, tenho certeza de que mudanças importantes aconteceram. Algumas delas boas e uma bastante terrível, que começou antes mesmo de 2002: a mudança do próprio PT, que resolveu jogar o jogo daqueles a quem se opunha e que sempre deram as cartas. Os mesmos ases que agora viraram o tabuleiro pra voltar ao poder. Não empunharam armas, mas tiveram a mãozinha de uma mídia economicamente frágil e moralmente vergonhosa. Noves fora, o PT paga o preço do seu próprio desgoverno.

Torço sempre para que as coisas melhorem embora não me arrisque em apostas. Espero apenas que aquela parte do que a gente se acostumou a chamar de esquerda se reorganize e busque fôlego novo pra fazer frente a tudo que está aí e se alimenta da ascensão ultraconservadora sombria que se fortaleceu nesta última década.

Agora, se me perguntar o que aconteceu e que terá como um dos “dias históricos” o de hoje, não me ocupo de eufemismos ou da “questão semântica” (como escreveu Veríssimo). Minha filha, foi golpe. Mas pode chamar de impeachment, de conspiração, mutreta, tapetão, jeitinho.

Afinal, isso é uma democracia. Ou não é?

Andrea Bocelli: Figurinha da Itália

Bocelli figurinhaO Leicester City fez história ao ganhar pela primeira vez a Primeira Liga Inglesa.

Para celebrar a conquista, o clube que foi dirigido pelo treinador italiano Claudio Ranieri, convidou outro italiano para cantar uma música italiana. O espetáculo aconteceu antes da cerimônia de entrega do troféu.

O resultado foi esse do vídeo abaixo, com Andrea Bocelli cantando Nessun Dorma, clássico da obra de Giacomo Puccini.

Frozen, Andersen e o mercado

A notícia de que o estrondoso sucesso da Disney, a animação Frozen, terá uma continuação em 2018 saiu abraçada com uma campanha nas redes sociais para que a protagonista da animação, a princesa Elsa, ganhe uma namorada. O que seria um fato inédito para a Disney e, provavelmente, para as histórias infantis.

Ainda que as diferenças sejam enormes, muita gente afirma que a inspiração de Frozen está no texto A Rainha da Neve, do mais conhecido escritor dos contos de fadas, o dinamarquês Christian Andersen. A história de Andersen conta a saga de Gerda, uma menina que se aventura para resgatar seu melhor amigo do castelo de uma rainha não muito boazinha. (Se você se interessa por Andersen e contos de fadas pode assistir meu vídeo sobre ele).

Embora o relacionamento entre duas pessoas do mesmo sexo também não esteja no texto do escritor, nele o autor já trata a mulher como protagonista, corajosa e independente de príncipes. Coisa que nas produções da Disney eram raras até bem pouco tempo.

Essas diferentes abordagens exemplificam como a civilização não evolui com o tempo de maneira linear, nem igualmente em todos os setores da sociedade. Se considerarmos que um escritor do século XIX já criava personagens femininas independentes e corajosas, fica um pouco complicado entender por que, décadas depois, predominem nas produções contemporâneas os clichês das princesas indefesas e dependentes de alguém – quase sempre um homem – que as salve.

No que se refere à continuação de Frozen, sou totalmente a favor – mais ainda se há tantos fãs que assim desejam – que Elsa seja feliz com uma companheira. Porém, aí há uma outra dicotomia entre as produções modernas e os clássicos contos de fadas. Outra concepção um tanto distorcida dos contos originais de Andersen é que neles muitas vezes os fins são melancólicos, tristes ou insolúveis. Passam longe dos finais felizes padronizados por essas produções. O que não impede que sirvam para importantes reflexões.

Gostaria que o happy end dos contos de fadas da Disney prevalecesse para os fãs que criaram essa campanha nas redes sociais. No entanto, é bem mais fácil acreditar que essa história da vida real vai seguir um roteiro mais conservador e, contraditoriamente, mais próximo aos finais melancólicos de Andersen. Afinal, só uma fada madrinha muito poderosa faria com que uma marca tradicional como a Disney, que em suas produções possui inúmeros desdobramentos de negócios com brinquedos, roupas e acessórios temáticos, aposte em bater de frente com um tabu ainda tão resistente como é a união de pessoas do mesmo sexo, principalmente dentro do universo infantil.

De novo, um exemplo de que a evolução do pensamento não caminha em todas as direções da sociedade. Entre criar um conto de fadas de verdade que faria muito bem a civilização e não arriscar seu negócio que movimenta castelos de dinheiro, acredito que a quase totalidade das grandes marcas tradicionais ainda fique com a segunda opção.

O que, de longe, não quer dizer que campanhas como essa são sejam fundamentais para que mais pessoas se juntem em torno dessa ideia e que a gente não deva continuar acreditando em um final feliz para a igualdade de gêneros.

Leicester campeão

O fato mais surpreendente do futebol em 2016 dificilmente será outro, mesmo que ainda estejamos a um mês do fim do primeiro semestre.

O Leicester City campeão da Premir League é daquelas coisas que faz ricos quem se aventura em aposta tão improvável no início de uma temporada.

E dentre tantas coisas que li, vi e compartilhei depois da conquista do título, mesmo sem jogar, separei esse material feito pela Folha de S.Paulo que monta um roteiro de filme para a trajetória das raposas.

É por histórias como essa que o futebol nos encanta.

 

Filho de uma lenda das traves, Kasper Schmeichel já entrou pra história.

Osmar Santos: Vai Garotinho que a Vida é Sua!

Por uma questão cronológica e geográfica, não posso dizer que acompanhei a carreira de Osmar Santos.

Quando criança, no interior de São Paulo, meu rádio só sintonizava o bordão “abrem-se as cortinas e começa o espetáculo” e o “crepúsculo de jogo, torcida brasileira” de Fiori Gigliotti, na Bandeirantes, se não me engano.

Mesmo assim, lembro-me com bastante clareza quando encontrei pessoalmente Osmar Santos no estádio Walter Ribeiro, em Sorocaba. Ele narraria um São Bento x Corinthians, no início da década de 90. Meu primo o apontou e ele, muito simpático, me cumprimentou com um sinal de positivo, dizendo o seu “fala, garotinho!”. Não dá pra esquecer.

Afinal, era impossível conhecer alguém que gostasse de futebol e ignorasse a “gorduchinha”, ou “ripa na chulipa”.

Ontem, assisti o documentário ou, como apontou Maurício Stycer, a “grande reportagem” que a ESPN Brasil preparou contando a trajetória do locutor e as reviravoltas que causou no rádio brasileiro.

Do menos relevante, posso dizer que minha maior – decepção não é o caso, surpresa talvez seja melhor – foi descobrir que Osmar Santos não era corinthiano, como muita gente, eu e, aparentemente, Casagrande pensávamos (não farei spoiler do seu time do coração).

Também não me arrisco a analisar os atributos técnicos do filme embora tenha gostado do recurso de mostrar a reação de Osmar Santos enquanto via pelo computador os depoimentos colhidos para a construção do documentário.

O mais importante é que foram felizes ao mostrar com lucidez a trajetória de Osmar Santos – como diria Fausto Silva, um dos entrevistados do filme – tanto no pessoal quanto no profissional.

Desde sua infância, a maneira como se apaixonou pela narração esportiva, como foi desenvolvendo seu jeito inovador de narrar e até sua atuação política e cívica como narrador das Diretas.

Além, é claro, do drama pessoal provocado pelo acidente de carro em que se envolveu e que o impediu de continuar trabalhando com a voz.

Há reprises previstas na programação do canal. Vale a pena assistir.

 

E se craques de hoje jogassem nos “tempos de antigamente”?

As comparações entre diferentes épocas do futebol são, na maioria das vezes, inúteis.

Com jeito de firula que não vai em direção ao gol, levantam questões repetitivas as já tradicionais “Queria ver o Pelé jogando com a marcação de hoje”  ou  “Neymar precisaria brigar por posição na seleção de 70”.

Mas o site Paladar Negro criou uma forma original de unir craques do presente ao passado, transformando os visuais dos boleiros de hoje em figurinhas com o charme e o fahion way das décadas primevas do futebol profissional.

 

 

Filme da Fifa é campeão entre os fracassos

A capacidade para levantar grana em propinas e subornos nada tem a ver com o talento para arrecadar dinheiro nas bilheterias de cinema.

Apesar de tentar. chegando até a juntar um time de atores respeitável (Gerard Depadieu, Tim Roth e Sam Neill) a Fifa não conseguiu convencer nem público, nem crítica com seu filme auto-elogioso e fantasioso de sua própria história e de seus mandatários.

O filme foi um fracasso digno de 7×1.  Custou US$17 milhões inteiramente bancados pela entidade, mas não conseguiu amealhar meros mil dólares (US$ 918) nas salas. Um recorde.

Tão estrondoso quanto o fracasso do filme foi o arrependimento do ator Tim Roth e do cineasta Frédéric Auburtin. O primeiro se recusa a falar sobre “Paixões Unidas” (sim, esse é o nome do filme da Fifa) em quando se pronunciou chegou a dizer que “seu pai se reviraria no caixão” por esse trabalho. Já Auburtin se entristece por ser reconhecido como alguém que criou  “propaganda para pessoas corruptas”.

Não sabemos se Depardieu, que fugiu da França para a Rússia como estratégia para escapar das cobranças de impostos às grandes fortunas, se incomodou de representar Jules Rimet ao lado de Havelange e Blatter.

Blatter, aliás, parece foi um dos poucos que aplaudiu a obra.

Daqui da arquibancada, eu que nem vi e nem verei o filme, só tenho a comemorar tamanho fiasco.

Garotas de skate no Afeganistão

A fotógrafa Jessica Fulford-Dobson ficou encantada quando descobriu o projeto do skatista australino Oliver Percovich no Afeganistão. O que mais a atraiu foi o fato de que 45% dos aprendizes do esporte em Kabul eram meninas.

Acredite, no Afeganistão o skate se tornou o esporte mais popular entre as garotas, principalmente porque a elas não é permitido andar de bicicleta.

Texto original:

O que Camus ensina sobre o Fair Play do futebol brasileiro

CamusO escritor Albert Camus era apaixonado por futebol. No livro Futebol ao Sol e à Sombra, Eduardo Galeano, outro craque da posição e apreciador  do jogo, conta que quando chegava em casa, a avó de Camus fazia uma cuidadosa inspeção no solado do seu sapato para conferir se havia um desgaste acima do normal. Em caso positivo, era sinal de que o rapaz havia jogado bola e naquele momento poderia iniciar seu aquecimento para entrar na surra.

Mesmo sob ameaça, ele não se desligou do esporte e eternizou uma frase sobre o jogo. Certa feita, Camus teria dito: tudo que aprendi na vida sobre moral devo ao futebol. E, ao menos no que se trata do caso brasileiro, o escritor argelino (que segundo à suposição de Galeano escolheu a posição de goleiro para evitar o desgaste das solas dos sapatos) não poderia estar mais certo.

Há algum tempo, no país em que se plantando nem tudo dá certo, brotam em diferentes cantos uma daquelas discussões circunloquiais, em que tanto Pedro quanto João brigam sem razão, e que diz respeito ao Fair Play no futebol. Uma expressão que já foi concebida de maneira tortuosa, se considerarmos que o tal Jogo Justo – ou Jogo limpo, como queiram -, foi gestado pela Fifa, entidade regida por gente pouco adepta à limpeza dos próprios negócios, que cultiva o hábito de investir em discursos e medidas politicamente corretas para jogar o que há de pior no esporte que ela dirige para debaixo de um tapete em que os cartolas pisam e fingem não ver.

Na teoria o Fair Play é até legal. É um conjunto de medidas, mas que na maioria dos casos  pode ser resumido quando um time, vendo que o adversário foi prejudicado por um choque ou uma contusão, interrompa o jogo colocando a bola para fora de campo. Em resposta à nobre atitude, espera-se que o adversário, depois de ter seu atleta atendido, devolva a bola de bom grado para que, em seguida, o jogo volte ao confronto normal.

No futebol brasileiro, ultimamente presenciamos cada vez mais partidas nas quais jogadores brigam, reclamam, desabafam e se lamentam pelo não cumprimento do Fair Play. O último fim de semana foi um exemplo. Tudo porque, justiça feita às devidas exceções, os brasileiros praticam com frequência um engenhoso expediente para tirar proveito dessa prática e distorcer o intuito do Fair Play. O que tem se tornado comum é que quando um time está vencendo, seus jogadores, principalmente nos minutos finais da partida, acontecem de sofrer contusões, cãibras e súbitos mal-estares. Muitos gemem, gritam e rolam na grama esperando que a partida seja interrompida em nome do tal Fair Play. O problema é que, de tão repetida, a cena ficou manjada e quem está atrás do marcador não aceita mais se submeter um gesto cordial de colocar a bola para lateral ou devolvê-la, sob o risco de premiar a dissimulação do rival que usa o Fair Play em benefício próprio.

Verdade que essa distorção do Fair Play talvez não tenha sido inventada aqui e certamente não é exclusividade nossa, mas a persistência generalizada no ato e o costume de reclamar sobre o próprio direito ao Fair Play, isso sim me soa como algo bem brasileiro.  Voltando ao que disse Camus sobre moral e futebol, pensei se não haveria na vida um reflexo do nosso Fair Play de cada dia naquele que não paga seus impostos, mas exige do governo o manejo justo do dinheiro público. Ou daquele que reclama por seus direitos individuais, mas para na vaga de deficientes só um “pouquinho” quando está com pressa (o que pode significar sempre). Ou daquele cidadão que se derrete pela maneira gentil com que é tratado no trânsito pelos estrangeiros, mas em seu país resiste em ceder o espaço do seu carro ou alguns segundos do seu tempo para os outros.

Os exemplos são quase infinitos.  E o que aprendemos sobre nossa moral, em nosso futebol e em nossa vida, é que Fair Play bom é Fair Play que me serve.