Mulheres olímpicas que precisamos conhecer

As Olimpíadas do Rio 2016 já são os Jogos com o maior percentual de participação das mulheres – 45%. Embora ainda tenha margem para crescer, esse dado já seria suficiente para servir como parâmetro ou – vá lá – inspiração para muitas instituições e corporações daqui e de várias partes do mundo. O Congresso brasileiro, por exemplo, não chega a 10% de participação feminina. Uma vergonha.

Mas se escavarmos um pouco o que há debaixo dos números é possível encontrar traços bem mais humanos e muito mais representativos do desempenho feminino nessas Olimpíadas.

Separei algumas personagens de diferentes modalidades e países. Mesmo com o livro olímpico ainda em aberto, elas já escreveram histórias que, além de emoção e drama, são úteis para quebrar paradigmas sobre coisas que já ouvimos muito ou ainda ouviremos em nossas vidas, principalmente em se tratando delas, as mulheres.

Essa roupa não parece adequada: mulheres são diariamente julgadas pelo modo como se vestem e não deve ter sido diferente com as egípcias Doaa Elgobashy e Nada Meawad. Elas formam a primeira dupla de vôlei de praia do Egito e proporcionaram uma das imagens mais belas dos Jogos até o momento.

Foto: Lucy Nicholson/ Reuters

Cuidado para não se expor: no caso da norte-americana Ibtihaj
Muhammad
, nada pode colocá-la mais em evidência do que cobrir seus cabelos. Esgrimista, ela foi a primeira a competir pelos EUA usando hijab. Considerando que o sentimento antimuçulmano é crescente em um país em que a intolerância pauta a campanha de um dos principais candidatos à presidência daquele país, seu feito merece mais do que medalha de ouro.

Joga como homem: Poucos esportes são tão machistas quanto o futebol. Então, em um time que já tem Marta, eleita melhor jogadora de futebol do mundo cinco vezes, é difícil se destacar, certo? Errado. Cristiane marcou um golaço de letra contra a Suécia e se tornou a maior goleadora das Olimpíadas. Nenhuma mulher fez mais gols que ela em Jogos Olímpicos. E nenhum homem também.

Você não tem idade pra isso: A ginasta uzbeque Oksana Chusovitina está em sua sétima Olimpíada. Oksana já ganhou medalha de prata, de ouro, já foi mãe e quando ela disputou sua primeira Olimpíada, em Barcelona, apenas duas integrantes  da equipe feminina de ginástica do Brasil haviam nascido (Jade Barbosa e Daniele Hipólito). Aos 41 anos e em um esporte dominado por garotas, ela não só chegou aos Jogos como recordista de longevidade como compete em bom nível no salto.

Ponha-se no seu lugar: Para a ONU Kosovo não é um país reconhecido ainda que há dois anos seja reconhecido pelo COI. Para a judoca Majlinda Kelmendi, o fato de ter nascido na ex-província Sérvia, devastada pela guerra e por perseguições étnicas não foi empecilho. O lugar dela é mesmo o alto do pódio. Além de ser bicampeã mundial, no Rio ela também conquistou a primeira medalha de ouro em Olimpíada para seu país.

Um legado possível da Olimpíada do Rio 2016

Rio de Janeiro

texto publicado no LinkedIn

Em o Velho e o Mar, o escritor Ernest Hemingway escreve uma história aparentemente simples sobre uma longa disputa entre um velho pescador e um enorme peixe. Não são poucas as metáforas possíveis de se extrair dessa obra para a vida e, por consequência, para o esporte. O livro fala sobre a determinação do pescador, que supera as dificuldades do clima e do ambiente, suas limitações da idade, do equipamento e a força do seu adversário aquático.

No texto há uma frase que me marcou e que considero útil nesse momento de notório pessimismo pré-Olimpíada: “É uma estupidez não ter esperança”.

Pois é. Ainda não há muito a se comemorar. A organização teve falhas. A impressão deixada pela Vila dos Atletas, por exemplo, é a de uma antessala onde hasteamos nossa bandeira do improviso e da desorganização.

Muitos daqueles que comandam os negócios dos jogos merecem a medalha da vergonha. Só para ficar em dois exemplos: o prefeito do Rio contracenou uma comédia sem graça com a delegação australiana, com direito a chave da cidade e canguru e o proprietário da construtura que comanda as obras do condomínio da Vila dos Atletas mostrou como a mentalidade de uma parte considerável do empresariado ainda está presa não aos anéis olímpicos, mas aos grilhões da escravidão.

A Baía de Guanabara não escapou das metas não alcançadas e, com sorte, o iatismo não terá uma modalidade inédita em jogos: as regatas com obstáculos – no caso, o lixo.

No esporte, ainda dependemos quase sempre de exceções heroicas em modalidades olímpicas historicamente negligenciadas e sem apoio básico na formação de atletas. O esporte feminino evoluiu pouco e nossa delegação de mulheres, em casa, será a menor em cinco Olimpíadas.

Até a palavra legado, de tão desgastada, já parece maldita. Então, como ter esperança?

Primeiro, acredito que, como na Copa do Mundo, os Jogos Olímpicos serão um sucesso esportivo e teremos uma festa a altura do que merece a primeira Olimpíada da América do Sul. Sim, já recusei a não me contagiar com o “espírito” da Olimpíada.

Não acredito em otimismo aleatório, mas é cedo para dizer que tudo deu errado. Claro que precisamos criticar, cobrar e aprender com nossos (muitos) erros, mas também é necessário fazer um balanço de nossas qualidades e dar vasão ao que temos de melhor. A Copa do Mundo de 58 já nos ensinou que é fundamental abandonar o complexo de vira-latas se um dia desejamos ser ouro em alguma coisa. A Olimpíada do Rio não será a primeira nem a última a ter problemas.

Mas eis aqui minha maior esperança: teremos uma cobertura da Olimpíada como nunca se viu antes.Todas as competições serão exibidas pelos meios de comunicações e, graças a indiscutíveis avanços sociais do Brasil nas últimas décadas,  a Internet também tornará possível difundir para um número de pessoas jamais alcançado não apenas nossos tropeções, mas também o que apresentarmos de melhor nos Jogos.

Não receio parecer ingênuo e, muito menos, romântico. Torço – e creio – que a presença próxima de ídolos do esporte mundial e as conquistas brasileiras serão capazes de inspirar e motivar as próximas gerações, ainda imunes a nossa síndrome de inferioridade. A vontade da garotada em correr como um Bolt ou nadar como um Phelps certamente é capaz de atrapalhar os planos, a indisposição, a ganância e a incompetência de certos governantes e homens de negócio. Nas Olimpíadas do Rio podemos ter o embrião de uma numerosa delegação de futuros atletas de pessoas comprometidas a não se conformar com o nosso atraso.

Em qualquer canto do país a Olimpíada vai inserir uma memória afetiva capaz de transformar realidades de milhões de meninos e meninas.

Em tempo: também não vou perder a abertura dos Jogos que promete ser inesquecível.

Precisamos falar sobre paternidade

pai

As leis de um país se transformam conforme a necessidade de se adequar uma sociedade às mudanças. Ou deveriam se transformar.

Há problemas quando existe um longo distanciamento entre a mudança da sociedade e o acompanhamento da legislação.

Tornar-me pai me escancarou a janela do atraso em que a paternidade é vista na sociedade brasileira e a licença de cinco dias é um reflexo do descompasso da lei com os modelos familiares atuais e de uma nova concepção de paternidade que, acredito, é necessária para os novos tempos.

É verdade que há sinais positivos no horizonte: a possibilidade de aumento para 20 dias estabelecido pelo governo, a instituição de 40 dias de licença aos paisconcedida pela Natura e o movimento de algumas empresas multinacionais para aumentar esse período são dados de alento, mas que mostram que ainda engatinhamos em um tema historicamente ignorado em nossa cultura.

O machismo encalacrado na sociedade brasileira enxerga a responsabilidade parental quase como exclusivamente da mulher. Cuidar de bebês sempre foi brincadeira de meninas. Ao macho cabe correr atrás do alimento. Assim funciona desde a era cenozoica e ainda em grande parte da mentalidade da população. Por isso, creio, a discussão da paternidade sempre foi tão negligenciada.

Quando morei nos EUA, tive uma boa surpresa quando vi nos banheiros masculinos aparelhos para trocar fraldas de crianças. Infelizmente, aqui a gente ainda sofre da dificuldade de encarar a amamentação como algo natural.

Faço coro às palavras do antropólogo basco Ritxar Bacete, quando ele diz que as mudanças de visão da paternidade não acontecem simplesmente “porque há um temor dos homens de que haja igualdade”. Primeiro, porque essa mudança significa uma reviravolta no entendimento da masculinidade tradicional e, segundo, porque ela daria mais autonomia e importância às mulheres.

Engana-se quem pensa que o aumento da licença paternidade seria um benefício exclusivamente masculino.

Aliás, engana-se quem pensa que o aumento da licença paternidade seria um benefício exclusivamente masculino. Ao contrário. Além de proporcionar melhores condições de suporte para que a mulher exerça seu papel de mãe, há ainda um argumento que considero matador e que vi pela primeira vez exposto por uma mulher, a jornalista Mariana Amaro.

Ela defende que as licenças de pais e mães sejam iguais, exatamente como acontece em países como Alemanha (olha outro 7 a 1) e Suécia. Um dos motivos, aponta a jornalista, é que uma mulher tende a sofrer menos discriminação na hora de ser contratada ou ao assumir um cargo de liderança por causa da questão parental. Com direitos iguais fica mais difícil uma empresa pressionar mulheres por essa decisão tão pessoal que é a de ser mãe.

Em tempos em que salários competitivos cada vez mais deixam de ser a única preocupação para se escolher um trabalho, o movimento para a extensão da licença paternidade é também uma ótima alternativa para empresas atraírem profissionais, no mínimo, mais sintonizados aos novos tempos. E essa ideia deveria mobilizar não só companhias mais antenadas ou ligadas a setores como o da tecnologia, mas de todas as indústrias.

É claro que a licença paternidade não é a única questão envolta nesse processo complexo e delicado de transformação do papel do homem na criação dos filhos, mas ela carrega um simbolismo que pode ser capaz de iniciar um novo período de reflexão.

Redefinir o papel dos pais ajuda a estabelecer novos parâmetros sobre como vamos cuidar das próximas gerações e isso significa muito não só para a economia, mas também para a evolução da nossa espécie.

Messi e a pressão nossa de cada dia

Messi

texto originalmente publicado no LinkedIn

A surpresa da Copa América aconteceu depois de mais uma derrota nos pênaltis da Argentina para o Chile: Messi renunciou à seleção alviceleste.

À primeira vista, sua decisão está exclusivamente vinculada a mais uma derrota. Não concordo com essa tese e, embora acredite que o craque irá mudar de ideia, acho que vale a pena identificar as causas que o levaram a essa escolha.

Como se sabe, Messi sempre foi visto como o cara que resolveria a abstinência de títulos da seleção argentina, há 23 anos sem erguer uma taça. Mais do que isso, os argentinos, incluídos aí imprensa e torcida, exigiram dele que não só liderasse, mas carregasse o time para essas conquistas.

Depois de tudo que fez pelo Barcelona, é até compreensível que os argentinos vissem nele a salvação. Messi, o predestinado. Mas ao que parece, foi aí que se criou um novo problema.

Na mitologia grega, Atlas carrega as abóbodas celestes em suas costas não como prêmio, mas como castigo imposto por Zeus. Na Argentina, Messi também foi incumbido de carregar tudo em suas costas.

Na mitologia grega, o titã Atlas carrega as abóbodas celestes em suas costas não como prêmio, mas como castigo imposto por Zeus. Na Argentina, Messi também foi incumbido de carregar tudo em suas costas. Como se fosse sua obrigação resolver tudo sozinho. Não funcionou.

A federação de futebol da argentina é tão amadora e desorganizada quanto a nossa CBF e o time da argentina também possui suas carências. Mas a conclusão de que a seleção argentina não é o Barcelona, apesar de óbvia, não impediu que o senso comum pleiteasse, na seleção, o Messi do Barcelona. Para muitos só o alto salário que ganha um craque como ele já justifica a responsabilidade compulsória que recebeu. Há também o componente Maradona que, por si, rende também teses e análises.

Ainda que o próprio Messi tenha se colocado sob essa mesma carga pesada, a última decisão da Copa América mostrou, mais uma vez, que só pressão e cobrança somadas ao talento do jogador são insuficientes para resolver todos os problemas da Argentina ou, ao menos, o principal deles: um título.

O mais curioso é que, depois do anúncio em que abre mão da camisa argentina, os próprios argentinos parecem ter notado o equívoco. A segunda derrota para o Chile parece ter ficado em segundo plano. O objetivo, agora, é evitar um novo desastre: a saída do craque.

O jornal Olé publicou uma capa em que implora a permanência de Messi e até o presidente da Argentina ligou para o jogadorpedindo que ele não saia.

Enfim, parece que caiu a ficha. Embora seja um dos maiores jogadores da história, Messi é humano e não suportou o nível de pressão e exigência que lhe foi imposto. E isso é muito bom.

Como apontaram analistas, talvez essa humanização seja o primeiro passo para que a Argentina mude sua relação com o craque. Eles perceberam que, mais do que ninguém, Messi é argentino, se preocupa com a seleção do país e se incomoda em não vencer. Porém, não é capaz de solucionar tudo como eles imaginavam. No futebol e na vida, ninguém faz nada sozinho.

Quanto a nós, podemos aprender que pressão é bom, ajuda a motivar. Mas quando extrapola certos níveis do que é suportável não há salário alto ou talento capaz de trazer os resultados esperados.

Em tempos em que somos cada vez mais exigidos e nos impomos metas cada vez mais agressivas é bom lembrar que somos humanos. É bom respeitar nossas limitações porque, afinal, até o Messi tem as suas.

Televisão: o que esperar depois da aposentadoria do controle remoto

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A declaração de Susan Wojcicki, diretora-presidente do YouTube de que “A TV do futuro será sob demanda, móvel e para vários dispositivos” pode soar como previsão conveniente para uma pessoa em sua posição, mas é inegável que ela reflete o contexto de transformação da TV que assistismos.

Na frase da executiva do YouTube, mais do que uma previsão, está uma constatação. Em vez de esperarmos e, quase que aleatoriamente, procurarmos um programa que nos interesse, estamos nos programando para assistir o que queremos, quando queremos. O que não significa, é claro, que o novo modelo de TV já se consolidou.

O controle remoto está cada vez mais deixado de lado e esse fenômeno é tema de um livro útil para qualquer profissional de comunicação:  “Adeus, controle remoto”, do crítico de televisão Maurício Stycer. O livro mostra sob diversos pontos de vistas como a Revolução Digital chacoalha como nunca as bases em que o modelo de TV está erguido. Em vez de profecias para o futuro, o mérito do livro está em explicar o presente, traçando paralelos entre a indústria dos EUA e a brasileira para indicar algumas direções que a TV poderá seguir. Com base nesses textos, tentei elencar o que mais me chamou atenção nesse panorama de mudança da TV.

“os executivos sempre dizem desejar programas inéditos, mas de fato eles só querem o novo depois que o novo já está no ar e provou ser capaz de atrair audiência”.

  1. Evento social: cada vez menos, as pessoas se reúnem para assistir TV. Houve tempo em que a vizinhança se reunia para rodear o único aparelho de TV disponível na rua. Atualmente, assistir televisão está se tornando um hábito individual, exatamente pela facilidade com que cada um pode “criar” sua própria programação e facilidade de ver TV em diferentes dispositivos. O carregamento de temporadas inteiras das séries de TV também colaboram para essa “individualização” da audiência da TV e, ao que parece, precisaremos continuar atentos para desviar de spoilers nas redes sociais por um bom tempo.
  2. O modelo de venda dos pacotes de TV a cabo parece o primeiro a sucumbir frente aos estilhaços dessa Revolução Digital. (quase) Ninguém quer pagar por um monte de canais que não assiste. Há meses deixei de pagar TV fechada e não tenho vontade de tê-la novamente. As mais recentes opções para assistir TV como a Netflix, AppleTV e o próprio YouTube facilitaram a vida de quem deseja montar sua própria grade. Entretanto, é bom ressaltar, a TV aberta no Brasil ainda consegue alcançar o maior número de pessoas e os anunciantes continuam apostando nela como o principal meio para suas campanhas. Em 2015, a TV aberta concentrou 60% da verba publicitária.
  3. Conservadorismo:. Stycer cita a frase de um produtor dos EUA: “os executivos sempre dizem desejar programas inéditos, mas de fato eles só querem o novo depois que o novo já está no ar e provou ser capaz de atrair audiência”. O autor também conta como a Netflix, indo na corrente dos canais tradicionais de televisão,  planejou sua primeira série original, House of Cards, cruzando dados dos gostos dos seus assinantes. Eles perceberam que pessoas que gostavam dos filmes de David Fincher também curtiam os filmes de Kevin Space. A lógica disse que unir os dois era uma receita infalível. O resultado é conhecido de todos. O problema é essa lógica se tornar dominante a ponto de executivos evitarem se arriscar em novos formatos ou temas que não sejam defendidos por números prévios e, assim, criar-se uma barreira criativa nesse novo modelo.
  4. A Era de Ouro da televisão americana produziu séries tão boas que, entre outros efeitos, está mexendo com a estrutura de um dos principais produtos da televisão brasileira: as telenovelas. O lado positivo é que essa pressão pode levar a uma reformulação do modelo de novelas que nascemos e crescemos assistindo, tanto na duração (com menos capítulos) quanto em formatos mais ágeis, capazes de “segurar” o telespectador. Embora pareça consenso de que o Brasil ainda está bem atrás do mercado americano nesse quesito, há um movimento de produtores no caminho para melhorar a qualidade das séries e da teledramaturgia no Brasil (OK, talvez esse seja mais um desejo do que uma previsão).
  5. Baixaria deve continuar. Mais difícil do que romper os paradigmas do mercado de televisão parece ser alterar a concepção da TV que algumas pessoas têm e sobre como devem fazer para conseguir audiência. Por isso, é muito difícil acreditar que modelos batidos e ultrapassados de programas que apostam no sensacionalismo e na apelação sairão do ar tão cedo. A necessidade de provar a todo custo que a TV aberta ainda gera bons números de audiência ainda depositará muitas fichas na baixa qualidade como sinônimo de bons resultados. E, claro, nada parece impedir que essa velha visão se alastre para as novas mídias. É só trocar a obsessão pelos números do Ibope pelo número de visualizações.
  6. A medição de audiência será – ou já está sendo – revista. Cada vez mais os canais da TV aberta disponibilizam seus programas sob demanda em seus sites. Algumas emissoras até transmitem sua programação em tempo real. Muitas vezes, vejo os capítulos da novela em horários alternativos, quando tenho tempo. Parece óbvio que o Ibope, no modelo que sempre conhecemos para medir a audiência da televisão em tempo real, precisa se adequar a esse novo comportamento do usuário. Inclusive, quem sabe, não se prender ao tradicional Ibope pode ser um estímulo para as emissoras se dedicarem a novidades e formatos que ainda não foram testados. A transformação dos modelos de medir a audiência também pode impactar como o mercado publicitário distribui seus investimentos.

Texto publicado originalmente no LinkedIn.

Seleção brasileira: uma marca que agoniza

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(texto originalmente publicado no LinkedIn)

Há anos ouvimos como o marketing se tornou inevitável ao futebol e aos esportes. Não só entre as fabricantes de materiais esportivos, mas clubes, seleções, treinadores e atletas utilizam todas ferramentas disponíveis para construir suas reputações.

Paralelamente à difusão desse discurso, poucas marcas esportivas no mundo definham e agonizam  tanto quanto a da seleção brasileira.

Comandada há décadas por homens que pouco entendem de futebol, mas que conhecem como poucos as jogadas do submundo dos negócios e da política, a seleção brasileira vive uma longa crise de gestão

Comandada há décadas por homens que pouco entendem de futebol, mas que conhecem como poucos as jogadas do submundo dos negócios e da política, a seleção brasileira vive uma longa crise de gestão. Nesse tempo, trocaram-se algumas peças, mas a visão nebulosa dos gestores nunca passou perto de se alterar.

Para piorar, seu principal produto, o futebol, nunca foi tão desvalorizado. O 7 a 1 foi um desastre. Mas se passarmos um pente fino na história recente, ele não foi o único vexame a contribuir  para a má reputação do que deveria ser entendido como o principal produto da nossa seleção. Quem viaja e conversa com estrangeiros entende como mudou o papo sobre futebol quando a gente se declara brasileiro.

A camisa da seleção, que deveria ser o principal símbolo de identificação com o que sempre tivemos de melhor (nosso futebol), hoje remete mais à situação política do país do que ao futebol. Qualquer grande empresa que visse sua logomarca associada a qualquer outra coisa que não fosse seu negócio, ficaria preocupada. Mas a seleção não é administrada com a atenção que sua própria grandeza merece. Enquanto isso, com tantas opções de times a seleções estrangeiras mais carismáticos, as crianças cada vez menos arriscam a se vestir com a camisa amarela.

Agora, a seleção parece viver uma nova etapa desse processo de derrocada: a indiferença. Certa vez me ensinaram como a expectativa do consumidor é importante para o valor de uma marca. A expectativa que desenvolvemos por uma marca ou um produto é capaz de criar laços emocionais com ela. É por causa da expectativa que um consumidor reclama nas redes sociais e na área de atendimento de uma empresa quando se sente decepcionado. É quando uma marca frustra sua expectativa.

Infelizmente, a seleção foi eliminada na primeira fase da Copa América e nunca vi tão poucas pessoas decepcionadas, reclamando. Ao que parece, nenhum consumidor, ou melhor, torcedor, se dá mais ao luxo de se decepcionar com os resultados da seleção porque, afinal, ninguém tem mais expectativa sobre ela.

No meu caminho para o trabalho o porteiro do prédio não reclamou, o dono da banca também não. Os colegas do escritório mal sabiam do resultado do jogo. Sinal de que pouca gente espera alguma coisa da seleção.

E poucas derrotas parecem tão doloridas como essa.

A bola mais cara do mundo

Não se sabe ainda se o dono dessa relíquia, o francês Dominique Zanardi, vai decidir leiloar a bola que ele encontrou em um brechó no Reino Unido.

Em 1998, o Manchester United já ofereceu 100 mil dólares para colocar em seu museu a bola que pertenceu a um batalhão de soldados que lutaram na Primeira Guerra Mundial.

Dois Links de Futebol

Pra quem se interessa por futebol além dos jogos e resultados, dois textos publicados na última semana merecem atenção.

O primeiro é sobre como empresários picaretas estão traficando “pés-de-obra” africanos e os largando sem condições no Brasil. Reportagem da Vice, feita por Breiller Pires. 

Outro texto que destaco é sobre o menos famoso dos times classificados para as semifinais da Libertadores, o Independiente Del Valle, do Equador. Entre suas façanhas, a equipe consegue lotar o estádio nacional de Quito com campanhas beneficentes para as vítimas do terremoto que atingiu aquele país. Texto de Beatriz Montesanti para o Nexo.

O que a (falta de) leitura diz sobre o Brasil

Leitura

Nas últimas semanas, entre viagens de elevador e conversas da hora do almoço, não foram poucos os comentários elogiosos que ouvi sobre o português “bem falado” do presidente interino Michel Temer. Não me atrevo a uma análise política, mas entre tantas interpretações possíveis, esses comentários soaram como se o domínio da língua ainda seja coisa tão distante quanto eram os espelhos para os habitantes nativos do Brasil quando os colonizadores os apresentaram pela primeira vez.

Os números da pesquisa do Ibope, Retratos da Leitura mostram que, se tomarmos a leitura como ponto de partida para o domínio da própria língua, não há dúvidas de que o brasileiro ainda está longe do aceitável. Segundo essa pesquisa, 30% dos brasileiros nunca compraram um livro e 54% não consomem literatura por vontade própria.  Portanto, não devemos nos espantar que um português empolado, à parnasiana, ainda provoque admiração e até submissão.

Embora indicadores de faixa social pesem para explicar a parte da população não leitora, eles não parecem suficientes pra dizer que no Brasil basta ser rico ou ter escolaridade formal para ter afinidade com as letras ou, ao menos, ser bem informado. Apenas 17% da população lê jornais todos os dias e 50% dos não leitores estão na região sul do Brasil, a parte mais rica.

O principal argumento para não ler é a falta do tempo. Ora, não ter tempo significa que, entre as prioridades de vida, ler não é uma delas. O dado é ainda mais alarmante se pensarmos que, com a tecnologia, podemos ler em qualquer lugar. Porém, a absoluta maioria dos brasileiros também não conhece o livro digital.

A leitura, mais do que um problema de escolaridade e grana, é comportamental. Enquanto, em média, o brasileiro não chega a cinco livros lidos por pessoa durante um ano (sendo que apenas metade desse número é de livros terminados), a Espanha passa de dez. Nossos vizinhos argentinos e chilenos também costumam ter números melhores que os nossos.

Saber ler, por si só, não significa capacidade de dominar uma língua, assim como reconhecer um português bem falado ao ouvido não significa, necessariamente, compreender o que está sendo dito.

A leitura é uma forma de aprendermos sobre aquilo que nos é mais importante, saber o que está acontecendo em nosso mundo e também um exercício da nossa capacidade de concentração, de se comunicar e de formar opinião sobre as coisas. Não me parece coincidência que em um país onde se lê tão pouco, compartilhe-se cada vez mais informações falsas nas redes sociais.

Com tantos estímulos ao redor, a leitura é pra muitos quase um ato de heroísmo em um mundo exigente com a dedicação para muitas atividades simultâneas. Mas achar que as respostas e as perguntas que precisamos fazer estão apenas nos memes, nas imagens e nos vídeos de 30 segundos, embora tentador, – spoiler! – não é a solução.

É até contraditório que a palavra “foco” seja repetida como mantra e ao mesmo tempo seja tão difícil nos mantermos atentos por mais tempo em uma atividade como a leitura. Também não é de hoje que empresários e especialistas alertam que o Brasil carece de mão de obra qualificada. Mas como qualificar uma mão de obra que não é capaz de ler e nem é incentivada por seus líderes? Recentemente, Bill Gates fez um artigo recomendando livros. Prova de que, qualquer um (mesmo!) pode arrumar tempo pra ler.

Em tempos de conhecimentos superficiais, a leitura parece uma saída e tanto para aumentar níveis de atenção e de retenção da informação. Já a falta de leitura do brasileiro precisa ser encarada com questão social. Minha sugestão é que o incentivo à leitura deve ser pensado não apenas pelos poderes públicos, mas também por empresas e instituições. Não compartilhe um texto do qual você leu só o título podia até ser um mote para campanha.

Cauby

Cauby

Uma vez li um livro que contava a história do rádio no Brasil e como os cantores do início da difusão do rádio tinham que ter o timbre grave ideal – o dó de peito – mais adequado às frequências ou, vá lá, às próprias limitações do aparelho.

Cauby é desse tempo e de muitos outros. Além de ter sido gigante na música, é um dos pouquíssimos, talvez o único no Brasil, a tornar o uso de perucas esteticamente possível.

Antes de Mick Jagger e da expressão “performático” existir, Cauby já fazia isso.