Estádio do Corinthians

Demorei para escrever sobre o assunto “estádio do Corinthians” apenas por achar que esse tema toma rumos que o desviam de sua questão principal: a política. Tinha vontade de simplesmente ignorar quase todas as notícias e comentários que diariamente acompanho no Twitter e encerrar: “vocês realmente acharam que uma Copa no Brasil, unindo o que há de pior do futebol – cartolas e CBF – mais alguns políticos mal intencionados não iria acabar em distribuição do meu, do seu, do nosso dinheiro? ”

Se fosse cínico o bastante, encostaria-me no argumento canalha de que finalmente o Brasil atingiu o ápice da democracia. Afinal, até os esquemas, desvios e embromações para a festa com dinheiro público são feitos em benefício da maioria. No caso, a massa corinthiana.

Só que não é bem assim.

Apesar de estar ainda em processo de terraplanagem,  a cada dia vejo novos desdobramentos em torno do estádio do Corinthians e, como corinthiano, achei por bem dizer o que penso sobre uma obra que deveria ser apenas a realização de um sonho da torcida, mas que acaba se transformando em pretexto para a farra com o dindim dos contribuintes.

Ontem, por exemplo, o governador Geraldo Alckmin confirmou a liberação de mais R$ 70 milhões para o aluguel (?) de 20 mil lugares adicionais exigidos pela FIFA para que o estádio do Corinthians possa sediar a partida inaugural da Copa.

Assim, é praticamente certo que a abertura deverá mesmo ser realizada no Fielzão, Itaquerão, ou seja lá como ele será chamado.

Então, aí vão alguns pontos que penso sobre isso:

1- Antes de qualquer coisa, é preciso dizer que a construção do novo estádio não deve ser analisada sob uma óptica clubística. A regra geral é: corinthianos defendem seus interesses e o incentivo governamental para a obra enquanto são paulinos, palmeirenses, santistas e outros se colocam em oposição. Tornar um assunto complexo em um jogo de futebol no qual só um lado sairá vencedor multiplica os equívocos em efeito dominó, tornando a discussão cada vez mais improfícua.

2 – Sou contra o uso de dinheiro público para a construção de todos os estádios da Copa, inclusive o do Corinthians. Aliás, enquanto a discussão permanece focada ao redor do Fielzão, absurdos iguais acontecem em Manaus, Brasília e outras capitais que terão elefantes brancos alimentados com dinheiro da população.

3 – Como corinthiano, preferiria muito mais que o Timão ficasse em definitivo com o Pacaembu. Não só por toda história de afinidade que ele possui com o clube ou por sua localização privilegiada, mas até por pragmatismo. No Pacaembu, o Corinthians é difícil de ser batido. É lá que o torcedor e jogadores se sentem em casa. Sem contar o fato de que com a construção de um novo estádio, o Pacaembu corre sério risco de se tornar um cemitério de moscas.

4 – Não concordo com corinthianos e com quem quer que seja que usa de oportunismo para defender o Fielzão e argumentar que o estádio do Morumbi também foi construído com a mãozinha do poder público. Não se paga um erro com outro e muito menos com grana que poderia ser utilizada, de fato, para trazer mais qualidade de vida ao povo de São Paulo.Só para lembrar, no Fielzão serão feitos cimento R$ 400 milhões oriundos do BNDES.

5 – Assim como é reprovável que corinthianos justifiquem os fins pelos meios, é igualmente vergonhoso saber que existem torcedores adversários que são capazes de roubar no troco de um refrigerante antes de um jogo de futebol, mas que agora levantam a bandeira da moral e da ética para condenar o novo estádio do Corinthians. Há demagogia pura em alguns que direcionam às causas de vários problemas da cidade à construção do estádio do Corinthians. É como se o prefeito Gilberto Kassab e seu antecessor, assim como Geraldo Alckmin, tivessem recebido votos apenas de corinthianos ou como se os problemas da cidade só houvessem começado agora.

6 – Acho até admirável – às vezes, até honesta – a boa vontade de alguns que defendem a isenção fiscal (serão R$ 200 milhões no Fielzão) para a construção do estádio como incentivo para o desenvolvimento econômico da Zona Leste. Porém, parece-me que isso é história pra boi dormir. Se fosse verdade, muitas isenções já poderiam ter sido propostas para melhorar, por exemplo, as condições das vias públicas naquela região.

7- Por fim, jamais direi bravatas do tipo “enquanto for vivo, não pisarei naquele estádio”. Se ele ficar pronto, tenho certeza de que assistirei jogos lá e espero muito que em meio a tantos absurdos durante seu processo de erguimento, o estádio possa realmente trazer benefícios para a cidade. Mas, cá entre nós, cada dia é mais difícil de acreditar…

Dois Escobares: ópio do povo está além do futebol

O filme não é novo.

Dois Escobares (Two Escobars), documentário dirigido pelos irmãos Jeff e Michael Zimbalist, chegou a ser exibido na 34ª Mostra de cinema em 2010 embora, atualmente, esteja sendo mostrado também na TV aberta pela ESPN, dentro de uma série de documentários esportivos.

Mas a sustentação da narrativa usando o tripé futebol, política e sociedade é just in time quando tanto se fala em Copa do Mundo no Brasil.

O filme mostra com primor como futebol e política se misturam ao longo da História como afluentes de um grande rio e como seus desdobramentos desembocam na sociedade. No caso do filme, uma sociedade tomada pelo narcotráfico.

Não que o uso político do futebol seja novidade. Basta dizer que a Seleção de 70 não é só um clássico pela bola que jogou, mas também pelo exemplo, muitas vezes já discutido, da exploração política que o Regime Militar fez daquela imagem de sucesso. Mas como já dito, em tempos que se discute Copa do Mundo por aqui não é necessário lembrar dos encontros e desencontros entre política e futebol.

Porque no caso colombiano, a seleção da país era passada de pé em pé por dois lados de uma mesma guerra: o governo tentando vender uma imagem de prosperidade e de controle da situação frente ao narcotráfico que, para usar do linguajar futebolístico, ocupava os espaços deixados pelo Estado, ganhando legitimidade e popularidade junto ao povo colombiano e, pior, quando da ausência desse Estado, dividindo o poder da força bruta e, muitas vezes, até das leis.

Nesse cenário, o roteiro tem o mérito de conectar todas esses componentes unindo duas pontas que, aparentemente, possuem apenas um sobrenome em comum: Escobar.

Um deles é o famigerado traficante Pablo Escobar que iniciou a construção de seu império nos anos 70, comandando o Cartel de Medelin que no seu auge, chegou a dominar 80% do mercado ilegal da região. Assim como o futebol colombiano em sua plenitude chegou a engasgar campeões como a Argentina, derrotada em casa por 5 a 0, Pablo Escobar aquela altura já se tornava quase um mito para uma parcela da população e seu domínio territorial do comércio de drogas certamente incomodava muitos figurões, a ponto dos EUA entrarem no jogo.

O outro Escobar – que não possui grau de parentesco com Pablo – é o zagueiro e capitão da seleção colombiana na Copa do Mundo de 1994. Um time famoso pelas figuras excêntricas como o meia Valderrama e o goleiro Higuita, mas também reconhecido por ser a equipe que jogava o melhor futebol antes do Mundial dos Estados Unidos. Fato que fez até Pelé afirmar, em um de seus palpites mais trágicos, que a Colômbia era uma das favoritas ao título naquele Mundial.

Só que  a tragédia não se deteve ao campo de jogo. Pior do que a desclassificação prematura, ainda na primeira fase, a Colômbia viu o zagueiro Andres Escobar, autor de um gol contra que acabou selando a eliminação da equipe contra os EUA, ser assassinado duas semanas depois de voltar para o seu país. Na ocasião, um território praticamente sitiado pela disputa entre as Forças Armadas, Agentes dos EUA e gangues.

Mesmo com tantos ingredientes misturados, a história só desenrola fácil porque o documentário é rico em depoimentos e imagens de jogadores, técnicos, familiares do zagueiro assassinado, políticos e até de capangas de Pablo Escobar que mostram como a instabilidade política se estendeu ao dia a dia dos jogadores e acabou se tornando o principal adversário daquela que foi a melhor equipe da história do país.

Fogueteira do Maracanã

Hoje, em nota na Folha, fui informado sobre a morte da “Fogueteira do Maracanã”.

Em mais de duas décadas essa, talvez, tenha sido a terceira vez que ouvi falar dela.

A primeira delas foi também uma das mais antigas lembranças do futebol e da Seleção que guardo na memória.

Para  quem não sabe da história, foi no último jogo das Eliminatórias da Copa de 90, entre Brasil e Chile, no Maracanã.

Naquela partida, Rosenery Mello – esse é o nome da fogueteira – atirou um rojão da arquibancada que foi parar ao lado do goleiro chileno.

Na ocasião, o guarda-metas era o senhor Roberto Rojas, auxiliar que chegou até a comandar, como técnico, o time do São Paulo.

Nos momentos seguintes ao estouro, Rojas teria sacado uma navalha de suas luvas e cortado a si mesmo.

A ideia era tentar melar a partida e provocar um novo jogo para que o Chile tentasse, enfim, obter uma vaga para o Mundial. Tudo graças a essa noveleta pastelão.

Mas o que se deu foi que a farsa acabou desmascarada rapidamente e a péssima encenação rendeu ao Chile a suspensão de cinco anos do futebol profissional e o Oscar de atuação para Rojas foi ser banido do esporte para sempre.

E o Brasil levou à Copa da Itália uma das piores seleções brasileiras de todos os tempos. Dias depois da partida contra os chilenos, não me lembro ao certo, ouvi dizer que Rosenery seria capa da Playboy. E foi mesmo, em novembro de 1989.

Nunca vi as fotos. Provavelmente porque era muito novo a época e, depois disso, porque nunca mais me lembrei dela. Tenho certeza que entre ontem e hoje as buscas por essas fotos cresceram milhares de vezes.

E agora, ao ler na Folha, via Internet, sobre sua morte, “ouço falar” mais uma vez de Rosenery. Incrível como foi só bater o olho na chamada com a sua antonomásia, ” a fogueteira do Maracanã”, e no mesmo instante me remeti mentalmente a todos os fatos narrados anteriormente.

Talvez a “Fogueteira do Maracanã” seja o primeiro caso de celebridade instantânea presenciei às custas do futebol. Ainda em uma época pré-Internet.

Só fui ouvir falar dela outra vez dela mais de vinte anos depois de se tornar “famosa”, em nota fúnebre na rede.

Sinal de que o tempo não perdoa é que a internet não só cria celebridades instantâneas. Agora também as enterra.

Torcida do Liverpool canta Beatles

Há momentos em um estádio de futebol que são capazes de arrepiar até o ser humano mais indiferente à emoção. Nesse vídeo, de 1964, qualquer amante do futebol fica de pelos eriçados ao ouvir a potência das vozes da torcida inglesa cantando, no auge do Yeah-Yeah-Yeah, a linha de quatro mais genial daquele país: os Beatles.

 

Mike Tyson no Animal Planet

Falar sobre um programa de Mike Tyson no Animal Planet pode ser uma deixa para dezenas de piadas infames.

Para o bem de todos não farei uma sequer. O que está escrito acima é a mais pura verdade. Mike Tyson já gravou um programa para o canal dedicado aos animais que foi ao ar em março nos EUA.

O engraçado, por tão curioso, é que Mike Tyson aparecerá na televisão falando de sua maior paixão: os pombos.

No vídeo abaixo é possível até conferir o ex-campeão falando que ama alguma coisa viva e mais, pegando um pombo entre suas mãos sem esmagar o pássaro entre dedos que tantas vezes aterrissaram em cabeças alheias. Dentro e fora do tablado.

Ainda não assisti os episódios, mas vi alguns trechos na Internet. No Brasil começa em 16 de junho.

No trailer da série, Tyson conta quando brigou pela primeira vez porque um garoto arrancou a cabeça de um pombo seu.

Apesar da violência um tanto incomum contida na história, não há novidade quando se trata de eventos que podem ter moldado a personalidade explosiva de Mike Tyson.

Aliás, nada é mais comum do que ver Mike Tyson em um meio de comunicação qualquer mostrando sua faceta animalesca.

Mas se prevalecer a proposta de mostrar a dedicação do brigador com pombos de corrida  – algo que no caso dele soa até sublime -.ficarei mais animado.

Seria a primeira vez que uma câmera tenta olhar para Tyson como um ser humano.

Coréia do Norte na Copa do Mundo

Amanhã começa a Copa do Mundo e brasileiro que é brasileiro, diria o Zagallo, já deve estar ansioso para ver o escrete canarinho em campo.

Ainda que a estreia da Seleção só aconteça na próxima semana contra a Coréia do Norte.

Por isso, nada mais justo do que apresentar nosso primeiro adversário, um desconhecido no mundo do futebol.

E a melhor maneira de se apresentar alguém é usar como gancho a característica pela qual eles mais são conhecidos. No caso, a guerra. Ou o Exército.

Tudo começou no auge da Guerra Fria, quando a Coréia se dividiu entre um Sul capitalista e o Norte comunista.

Desde então, os coreanos setentrionais se fecharam para o mundo em regimes autoritários e dedicaram boa parte de sua energia na construção de um país militarmente desenvolvido.

Basta dizer que, atualmente, em vias de se pegar mais uma vez com os seus vizinhos do sul, o Exército norte-coreano é constituído por 1,2 milhões de pessoas.

E se você acha que isso não tem nada a ver com futebol, se engana.

A presença do militarismo é tão forte que em sua única participação em Copas, em 66 na Inglaterra, o melhor jogador do time, o senhor Pak Doo Ik, foi promovido a sargento depois da surpreendente participação.

Sim, a Coreía do Norte assustou muita gente em 66.

Alcançou às quartas de final depois de bater e eliminar a Itália por 1×0. No mata-mata, chegou a fazer 3×1 em Portugal, mas acabou eliminada com a virada (5×3) portuguesa comandada pelo craque Eusébio.

Claro que isso faz muito tempo e a Coréia do Norte é, em tese, a grande zebra no grupo do Brasil. Porém, se voltarmos outra vez ao Exército deles, veremos que disciplina e disposição não faltará.

Basta assistir a marcha dos militares norte-coreanos no vídeo abaixo durante a comemoração dos 60 anos da fundação da República em 2008.

Sem dúvida marchar no estilo norte-coreano cansa mais do que jogar uma partida de futebol.

Veja também como foi a vitória da Coréia do Norte sobre a Itália em 66.

Dunga, o chefe da seleção

Prezado Capitão,

É ruim ter que começar um texto repetindo algo. Mas é preciso dizer, antes de qualquer coisa, que concordo com a sua convocação.

Em 90%.

Lamento apenas o fato de não abrirmos mão de (pelo menos!) um volante para a entrada de um meia de criação ou outro atacante. Não cito nenhum nome para não desviar o assunto.

Ressalto também que não sou um entusiasta de corpo e alma do futebol arte, do futebol ultraofensivo com cinco atacantes ou qualquer outro sistema para quem espera ver seis gols numa mesma partida. Não concordo com os saudosistas que pretendem ainda ver o time de 1970, ou pior, a de 58 em ação novamente (talvez por isso comparem tanto a convocação de Neymar com a de Pelé).

Admiro uma defesa técnica, com senso de cobertura, com os atacantes voltando para marcar e com saída de jogo de qualidade.

Também concordo com o cara que diz que bons ataques ganham jogos, mas boas defesas, campeonatos. E, com certeza, nunca vi em resultados uma preparação tão boa da Seleção.

Enfim, tudo isso para esclarecer que nas pesquisas de opinião sobre o trabalho do treinador da Seleção eu engordaria a minoria ao seu favor, professor.

Mas não consigo gostar da maneira pessoal (e não profissional) como o Dunga comanda a amarelinha.

E só faço essa crítica por admirar o Dunga, o capitão do tetra. O jogador raçudo que berrava e compensava a técnica com garra, mas que também sabia dar seus toques precisos e lançamentos longos de três dedos.

Uma crítica não, calma professor.

Um toque, já que torço para o Brasil ganhar como torci quando vi pela primeira vez uma taça erguida pelo Brasil por suas mãos.

Símbolo de uma liderança, que o levou ao comando da Seleção,  e que é tão indiscutível como a certeza de que a preparação  (?) da Copa de 2006 não poderia se repetir.

Mas, Dunga, você parece ter mergulhado fundo na imagem de capitão.

Quem lê, ou melhor, quem não lê por que não há notícias da Seleção, tem a sensação de que parecemos estar tentando alcançar o extremo da “preparação ideal”.

Jogadores intocáveis como soldados num bunker. Tudo hermeticamente vedado contra a possível contaminação da imprensa e dos torcedores.

Aliás, a higienização parece já ter sido iniciada na escolha dos soldados. Apenas os aria…, ou melhor, apenas aqueles que se enquadram no mais rigoroso grau de seleção jamais realizado na história das nossas seleções.

Há que se dormir cedo e escovar os dentes, pelo menos, quatro vezes ao dia.

Tudo muito certinho e sempre rodeado de discursos de auto-ajuda. Não raros, vazios de significado.

Seu mau humor ao lidar com a imprensa é tão caricato que, às vezes, parece tencioná-lo a dizer bobagens como a de que para saber se a ditadura ou a escravidão foram ruins é preciso tê-las vivido – meu Deus, vou lá tomar umas chibatadas para saber que não é legal ser escravo.

A atuação da assessoria de imprensa também demonstra a blindagem verbal. Ou seja, perguntar pode, mas só aquilo que queremos responder.

Em outras palavras, na Seleção, Dunga, você é um professor que vai muito bem em matemática, mas precisar estudar um pouco mais de humanas.

Não tem problema. Isso é coisa da inexperiência. Afinal, também é novato como comandante de um time de futebol.

Tudo muito planejado, muito sincronizado, muito marcado.

Mas que pode parecer previsível e ultrapassado, às vezes.

Com essa postura exagerada, dá até para pensar que o professor Dunga é um general diante de uma nova Guerra Fria e deseja construir um novo time científico e imbatível.

Talvez como aquele da URSS que levou um baile de Garrincha em 58 (viva os saudosistas!).

Digo tudo isso, pois tanto pelo estilo de jogo que, ao que parece, teremos na Copa, quanto pela frieza que a Seleção transmite com o isolamento e tão poucos jogadores carismáticos, cada vez mais aumenta o fosso entre a Seleção e os torcedores.

Como se já não bastasse tantos jogadores estrangeiros, nem no Brasil o torcedor consegue ficar mais perto deles.

Se futebol é tão sério quanto uma Copa faz parecer ser, diria a você, capitão, que muitas de suas atitudes como técnico contrariam traços marcantes e autênticos do futebol e do povo brasileiro. E que antes de ser um time, a Seleção é um patrimônio da humanidade (e do brasileiro) e você pode estar prestes a cometer um atentado histórico ao descaracterizar ainda mais a Seleção.

Tornar as coisas um pouco menos chatas para a torcida não quer dizer cair na esculhambação. É só uma questão de aproximar duas forças que devem estar juntas.

Devagar, comandante.

A pressão para quem está fora da Seleção, torcendo, também é grande.

Volta do Faith no More

Você, torcedor de algum time, já deve ter imaginado num simples exercício de prazer, como seria bom ver aquela equipe que marcou época jogando novamente.

Algo mais ou menos como se o corinthiano pudesse trazer o time de 99 no lugar daquele horroroso que caiu ou o palmeirense, na mesma situação, fosse capaz de resgatar a equipe de 94 (ou ainda mais longe, o timaço da Academia).
Ou ainda, se o torcedor brasileiro conseguisse levar para a Copa de 90 o time de 82 (sem o Lazaroni também, óbvio).
Claro que as barreiras físicas e do tempo impedem que delírios como esse se tornem reais. Ao menos no futebol.
Porém, acredite, na música isso é possível. Mais especificamente, no Rock, foi exatamente isso que ocorreu.
Claro que o leitor vai dizer que não há novidade nenhuma nos dias de hoje em se assistir o retorno de medalhões com suas velhas guitarras e companheiros de palco.
Seja por oportunismo, por necessidade de fazer uma graninha ou mesmo só por prazer, uma enxurrada de grandes nomes andaram se reecontrando com a sua torcida, ou melhor, seu público. E não são poucos para torcer o nariz, fazer bico e dizer que essas reuniões são pura jogada comercial (e o que é não é em nossos tempos modernos?). De qualquer forma, isso mais parece uma evidência de que em todo lugar há sempre uma turma do amendoim para cornetar.
Desfeito no ano de 1998, o Faith no More voltou em 2009 para dar espetáculo. E conseguiu.
Um timaço de músicos que mais de uma década depois de se separar, repetiu aquilo que faziam de melhor: um som moderno, um concerto autêntico e com muito mais disposição do que a grande parte das “novidades” sonoras do My Space.
No último sábado, o capitão Mike Patton e sua trupe (desfalcada do guitarrista original, mas nem por isso menos afinada) detonaram uma apresentação impecável na Chácara do Jockey em São Paulo (Festival Maquinária). Com chuva e tudo, fizeram os fãs esquecerem as intepéries do tempo (e aqui não me refiro ao clima, mas ao passar dos anos).
O Faith no more fez com que os fãs da música pudessem reviver uma belíssima amostra do que melhor se fez no rock nos anos 80 e 90 e, talvez, mostrar para os novatos algo que eles ainda não puderam ver em bandas hypes da internet: carisma, autenticidade, conhecimento musical e, por que não dizer, geográfico. A banda cantou em português, trocou o “ela é carioca” por “ela é paulista” e ainda preteriu o tradicional “fuck” pelos bem mais sonoros palavrões em português: “porra, caralho”.
Sem se colocar no pedestal de quem sempre precisa ser levado a sério, Mike Patton e cia não renegaram nem a veia brega que se mistura às influências de metal, funk e rap nas músicas do grupo.
Formação clássica é isso aí.

Anos desperdiçados

Há mais de dez anos, durante o show do Kiss, o blogueiro ainda adolescente constatou que Interlagos poderia sediar GPs de Fórmula 1 (há quem pense diferente). Entretanto, não possuía condições para receber uma apresentação musical com um público de final de campeonato.

Ontem (último domingo), dez anos mais velho, aprendi outra vez que uma década não é tempo suficiente para que as coisas mudem em meu país.
Junto a mais de sessenta mil pessoas, passei pelos mesmos terríveis problemas de 1999 e ainda com agravantes.
Em São Paulo, os fanáticos pelo Iron Maiden, fãs de Heavy Metal que são quase uma torcida de futebol, porém com a fúria mais direcionada aos acordes pesados, além de pagar o alto preço dos ingressos, pagaram custosas penitências para assistir ao espetáculo de seus ídolos. Extamente igual ou pior como passam os torcedores nos estádios do Brasil (e ainda pretende sediar uma Copa do Mundo…).
Filas para entrar com inúmeras voltas (quilômetros de gente atrás da outra!) e sem qualquer controle: muitos só conseguiram entrar no Autódromo quando a terceira faixa era executada.
Portões de acesso insuficientes. Na maior parte do tempo, houve apenas um disponível.
Na saída, muitos demoraram mais de uma hora para dar com a cara na rua. O trajeto era espremido em corredores completamente incapazes de absorver a massa. Duvido que milhares de pessoas, no momento da travessia, não pensaram estar diante de uma possível tragédia.
Para dar um ar mais épico como pedem as canções da banda, os fiéis tiveram que assistir a apresentação pisando sobre uma lama movediça. Afinal, é difícil supor (e os organizadores provavelmente nunca ouviram a música de Tom Jobim dizer: “em março as chuvas são recorrentes”) que água mais terra igual a lama.
Um cenário digno de trazer a mente de qualquer roqueiro o lendário festival Woodstock, realizado numa fazenda. Só que em Interlagos, apesar do tratamento de estrume dado aos fãs, não havia nenhum idealismo. Apenas mais um casual destrato com o público no Brasil.
Quanto ao show, muito bom.
Foi como sempre. Sejam eles brasileiros ou não. Sejam das chuteiras ou das guitarras. Lamentável é que haja tanto brucutu com poder no Brasil para roubar o brilho dos craques.

Ode a Guga

A força do guerreiro se reconhece no campo de batalha.

Em Roland Garros, ainda desconhecido, Gustavo Kuerten desmantelou seus adversários para conquistar a primeira das três coroas e ter seu coração, instantaneamente, flechado pelos encantos de Paris.

Como o herói grego Aquiles, Guga, sozinho, fez da raquete espada para riscar sua trilha gloriosa no tênis mundial.

Ainda que o calcanhar nunca o abandonasse, seu quadril o colocou defronte ao inevitável abandono das quadras. Guga gostaria, mas não pode lutar mais. Aos 31 anos, haverá de interromper seus golpes no terreno que o consagrou.

O primeiro duelo em Roland Garros em 2008 é a caminhada para uma derrota sabida (a menos que os deuses resolvam aprontar alguma).

Exatamente como fez o herói grego na derradeira batalha em Tróia. Mas para o verdadeiro guerreiro, a vitória é detalhe frente à verdadeira graça de combater.

Nada melhor que os tempos de luta tenham um fim em seu solo favorito: O saibro. Onde ele desenhou sonhos e corações.

Guga fez para o Brasil o que nenhum guerreiro imaginou e só por isso merece um templo no esporte nacional. Talvez até haja alguém para contestar seu real valor. Não importa. O que fica é a História de suas conquistas. Na França, a odisséia de Guga terá um final feliz.