O que a (falta de) leitura diz sobre o Brasil

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Leitura

Nas últimas semanas, entre viagens de elevador e conversas da hora do almoço, não foram poucos os comentários elogiosos que ouvi sobre o português “bem falado” do presidente interino Michel Temer. Não me atrevo a uma análise política, mas entre tantas interpretações possíveis, esses comentários soaram como se o domínio da língua ainda seja coisa tão distante quanto eram os espelhos para os habitantes nativos do Brasil quando os colonizadores os apresentaram pela primeira vez.

Os números da pesquisa do Ibope, Retratos da Leitura mostram que, se tomarmos a leitura como ponto de partida para o domínio da própria língua, não há dúvidas de que o brasileiro ainda está longe do aceitável. Segundo essa pesquisa, 30% dos brasileiros nunca compraram um livro e 54% não consomem literatura por vontade própria.  Portanto, não devemos nos espantar que um português empolado, à parnasiana, ainda provoque admiração e até submissão.

Embora indicadores de faixa social pesem para explicar a parte da população não leitora, eles não parecem suficientes pra dizer que no Brasil basta ser rico ou ter escolaridade formal para ter afinidade com as letras ou, ao menos, ser bem informado. Apenas 17% da população lê jornais todos os dias e 50% dos não leitores estão na região sul do Brasil, a parte mais rica.

O principal argumento para não ler é a falta do tempo. Ora, não ter tempo significa que, entre as prioridades de vida, ler não é uma delas. O dado é ainda mais alarmante se pensarmos que, com a tecnologia, podemos ler em qualquer lugar. Porém, a absoluta maioria dos brasileiros também não conhece o livro digital.

A leitura, mais do que um problema de escolaridade e grana, é comportamental. Enquanto, em média, o brasileiro não chega a cinco livros lidos por pessoa durante um ano (sendo que apenas metade desse número é de livros terminados), a Espanha passa de dez. Nossos vizinhos argentinos e chilenos também costumam ter números melhores que os nossos.

Saber ler, por si só, não significa capacidade de dominar uma língua, assim como reconhecer um português bem falado ao ouvido não significa, necessariamente, compreender o que está sendo dito.

A leitura é uma forma de aprendermos sobre aquilo que nos é mais importante, saber o que está acontecendo em nosso mundo e também um exercício da nossa capacidade de concentração, de se comunicar e de formar opinião sobre as coisas. Não me parece coincidência que em um país onde se lê tão pouco, compartilhe-se cada vez mais informações falsas nas redes sociais.

Com tantos estímulos ao redor, a leitura é pra muitos quase um ato de heroísmo em um mundo exigente com a dedicação para muitas atividades simultâneas. Mas achar que as respostas e as perguntas que precisamos fazer estão apenas nos memes, nas imagens e nos vídeos de 30 segundos, embora tentador, – spoiler! – não é a solução.

É até contraditório que a palavra “foco” seja repetida como mantra e ao mesmo tempo seja tão difícil nos mantermos atentos por mais tempo em uma atividade como a leitura. Também não é de hoje que empresários e especialistas alertam que o Brasil carece de mão de obra qualificada. Mas como qualificar uma mão de obra que não é capaz de ler e nem é incentivada por seus líderes? Recentemente, Bill Gates fez um artigo recomendando livros. Prova de que, qualquer um (mesmo!) pode arrumar tempo pra ler.

Em tempos de conhecimentos superficiais, a leitura parece uma saída e tanto para aumentar níveis de atenção e de retenção da informação. Já a falta de leitura do brasileiro precisa ser encarada com questão social. Minha sugestão é que o incentivo à leitura deve ser pensado não apenas pelos poderes públicos, mas também por empresas e instituições. Não compartilhe um texto do qual você leu só o título podia até ser um mote para campanha.