Nada mais conservador que um liberal no futebol

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0x0Quando comecei a me interessar por política, poucas coisas me confundiram tanto quanto a palavra liberal, particularmente por sua capacidade de ter significados variados.

Em artigo publicado em o Estado de S.Paulo, o escritor Mario Vargas Llosa discorre sobre como o tempo alterou os sentidos dessa palavra que, em uma de suas primeiras citações, aparece em Dom Quixote ainda distante da religião ou da política. Em Cervantes, liberal sugere uma pessoa aberta, alguém com mais propensão a ganhar a simpatia do outro.

Na minha própria linha de tempo, primeiro aprendi a reconhecer o clássico liberal da economia, aquele cidadão com tesão pelo livre mercado e o troca-troca global de mercadorias, que exige sempre ausência completa de regulação estatal em suas fantasias comerciais. Porém, quando deixa de ser o dinheiro e passa a se tratar de pessoas, não é raro esses caras vigiarem com mão de ferro burocrática e exigiram regulamentação para todos os tipos de liberdade: sexual,  feminina e até mesmo política.

Mas estes constituem apenas uma espécie de mentalidade liberal com conotação variável.

Há também alguns liberais que conheci na época da faculdade e que parecem se multiplicar em taxas exponenciais. São os que prezam em seus discursos pela abertura das discussões e das decisões baseadas na pluralidade de pensamentos. Defendem publicamente a democracia em seu estado mais puro, ao menos até virar a chave da porta de dentro de seus partidos ou de suas casas para impor o cabresto das ideias únicas e a centralização das decisões como se vivesse em uma monarquia absolutista.

Como se pode perceber, há uma interminável lista de mais ou menos liberais e para agravar a confusão terminológica, não param de surgir novos exemplos. Recentemente, dei conta das variações de liberais especificamente dentro do futebol. O que nem chega a ser surpresa, já que esse esporte é voluntarioso ao refletir os vícios da sociedade e as mais diversas contradições entre os indivíduos.

O primeiro caso que denunciou conservadores uniformizados de liberais se deu a partir do escândalo do re-rebaixamento do Fluminense. Conforme surgiam evidências cada vez mais cristalinas que faziam até um cego enxergar os contornos de tramoia na situação, muitos driblavam suas próprias posições em relação a justiça e o merecimento do esporte para explicar ou tentar encontrar uma boa forma de convencer os outros de que seu clube do coração não merecia cair. Ao menos segundo o exercício legalista daquela oportunidade.

Houve até costumeiros críticos da CBF que, nesse caso e apenas dessa vez, a pouparam de qualquer responsabilidade. Muitos que batiam forte contra cada decisão do confuso STJD, passaram a compreender as razões que levavam os juízes a poupar o Tricolor da descida para a Série B: “é a lei, diziam”. Defensores calorosos da esportividade e do fair play, de repente, se tornaram legalistas frios amparados na cegueira da justiça e de suas próprias paixões.

Outro episódio recente, escancarou a dificuldade de se manter a coerência entre os torcedores aparentemente liberais: a invasão da torcida organizada do Corinthians no CT do clube. Uma atitude digna das páginas policiais e que tomou conta das discussões futebolísticas.

Não foram raros os casos de gente acostumada a criticar – com razão – em alto som a truculência policial, relativizar a atitude bárbara dos torcedores organizados. Apesar do discurso pacifista fora do futebol, naquele episódio especificamente parecia mais fácil compreender a agressividade de quem não se conformava com um time de jogadores tão apático e que, para tomar jeito, bem precisava de um certo terror.

A identificação com a atitude violenta da uma minoria, gerou  uma tentativa patética de minimizar a violência, justificando-a não como um crime, mas como uma manifestação de impaciência com atletas que dispendiam uma quantidade de suor em campo abaixo dos padrões exigidos por tais fanáticos.

Paralelamente a violência das torcidas, o Bom Senso também era atacado pela bruteza intelectual de falsos liberais. Muitos deles trabalhadores, que jamais aceitariam ficar sem férias em seus empregos, condenaram a reivindicação do movimento por um calendário mais justo. Quantos torcedores que sempre criticavam o mandonismo patronal contra o trabalhador não se posicionaram como se os jogadores fossem suas propriedades privadas? Afinal, eles pagavam para vê-los. Sem falar daqueles para os quais os altos salários dos jogadores justifica qualquer tipo de cobrança.

Não são poucos os árduos defensores da mão invisível do capitalismo, talvez alguns daqueles mesmos liberais da economia, que usaram os altos salários dos atletas, apelando para uma demagogia social como se estivessem a denunciar que os rendimentos astronômicos fossem uma vilania em um país miserável e que, por isso, impedem a reivindicação de qualquer direito.

Nisso ignoravam duas regras elementares do sistema. A primeira, a de que jogadores ganham muito porque há muita gente disposta pagar, ainda que a gente saiba que no Brasil muitas vezes o salário declarado nem pago é. A segunda, é a de que nem todos os jogadores, ou pior, apenas uma minoria possui salários milionários, coisa que o discurso generalista da ocasião, não levava em conta.

Se há um ponto a se comemorar, é que o cair das máscaras ajuda a evidenciar o modus operandi de um falso liberal. Primeiro, ele grita as palavras de ordem para uma mudança, desde que ela jamais ameace seus pequenos privilégios. Depois, a partir do momento que tal mudança – mesmo aquela que em longo prazo  sinalize um grande benefício a todos – gera um desconforto momentâneo, como o prejuízo de seus times de futebol, o falso liberal rapidamente abandona o discurso trajado anteriormente para exigir imediatamente a permanência do status quo. 

Aos quarenta do segundo tempo, o falso liberal confessa torcer pela manutenção de uma estrutura viciada, negando a transformação que possa mexer um pouquinho com seus ínfimos privilégios, que são nada comparado aos daqueles que realmente lucram com a podridão do sistema.

Seja como for, mais uma vez os falsos liberais, também no futebol, viraram o jogo. Afinal, nada indica que o Fluminense disputará a Série B, ainda que a Portuguesa (administrada também por falsos liberais de ocasião) tente reaver na Justiça Comum seu direito conquistado em campo de seguir na Primeira Divisão.

No caso do Corinthians, Paulo André, um dos líderes do Bom Senso FC foi  o eleito o culpado da vez pelos maus resultados, assim como havia sido o treinador no ano anterior e, literalmente, foi parar na China. Com sua postura sincera e sem meias palavras, incomodou dirigentes e aparentemente também a televisão, acionista majoritária do produto futebol, além de parte da torcida composta de falsos liberais que dizem gostar de jogar no ataque, mas preferem sempre deixar as coisas como estão para garantir mais um zero a zero.

Nada mais conservador do que um liberal no futebol.