Frozen, Andersen e o mercado

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A notícia de que o estrondoso sucesso da Disney, a animação Frozen, terá uma continuação em 2018 saiu abraçada com uma campanha nas redes sociais para que a protagonista da animação, a princesa Elsa, ganhe uma namorada. O que seria um fato inédito para a Disney e, provavelmente, para as histórias infantis.

Ainda que as diferenças sejam enormes, muita gente afirma que a inspiração de Frozen está no texto A Rainha da Neve, do mais conhecido escritor dos contos de fadas, o dinamarquês Christian Andersen. A história de Andersen conta a saga de Gerda, uma menina que se aventura para resgatar seu melhor amigo do castelo de uma rainha não muito boazinha. (Se você se interessa por Andersen e contos de fadas pode assistir meu vídeo sobre ele).

Embora o relacionamento entre duas pessoas do mesmo sexo também não esteja no texto do escritor, nele o autor já trata a mulher como protagonista, corajosa e independente de príncipes. Coisa que nas produções da Disney eram raras até bem pouco tempo.

Essas diferentes abordagens exemplificam como a civilização não evolui com o tempo de maneira linear, nem igualmente em todos os setores da sociedade. Se considerarmos que um escritor do século XIX já criava personagens femininas independentes e corajosas, fica um pouco complicado entender por que, décadas depois, predominem nas produções contemporâneas os clichês das princesas indefesas e dependentes de alguém – quase sempre um homem – que as salve.

No que se refere à continuação de Frozen, sou totalmente a favor – mais ainda se há tantos fãs que assim desejam – que Elsa seja feliz com uma companheira. Porém, aí há uma outra dicotomia entre as produções modernas e os clássicos contos de fadas. Outra concepção um tanto distorcida dos contos originais de Andersen é que neles muitas vezes os fins são melancólicos, tristes ou insolúveis. Passam longe dos finais felizes padronizados por essas produções. O que não impede que sirvam para importantes reflexões.

Gostaria que o happy end dos contos de fadas da Disney prevalecesse para os fãs que criaram essa campanha nas redes sociais. No entanto, é bem mais fácil acreditar que essa história da vida real vai seguir um roteiro mais conservador e, contraditoriamente, mais próximo aos finais melancólicos de Andersen. Afinal, só uma fada madrinha muito poderosa faria com que uma marca tradicional como a Disney, que em suas produções possui inúmeros desdobramentos de negócios com brinquedos, roupas e acessórios temáticos, aposte em bater de frente com um tabu ainda tão resistente como é a união de pessoas do mesmo sexo, principalmente dentro do universo infantil.

De novo, um exemplo de que a evolução do pensamento não caminha em todas as direções da sociedade. Entre criar um conto de fadas de verdade que faria muito bem a civilização e não arriscar seu negócio que movimenta castelos de dinheiro, acredito que a quase totalidade das grandes marcas tradicionais ainda fique com a segunda opção.

O que, de longe, não quer dizer que campanhas como essa são sejam fundamentais para que mais pessoas se juntem em torno dessa ideia e que a gente não deva continuar acreditando em um final feliz para a igualdade de gêneros.