Ela ensinou que podemos ser humanos

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Já falamos muito sobre como 2016 foi difícil. Mas já é hora de trocar o calendário e, com ele, alterar nosso mood para seguir a luta.

Sempre busco na arte inspirações para minha vida. Ninguém entende melhor a dor e a alegria do que os artistas.

Quando também aprendemos melhor sobre nossas dores e nossas alegrias nos tornamos mais aptos para evoluir. É uma espécie de darwinismo individual. Ajuda a superar aquilo que não desejamos ou não precisamos ser.

Quando aprendemos melhor sobre nossas dores e nossas alegrias nos tornamos mais aptos para evoluir.

Ano passado, duas das mais importantes referências culturais para mim se foram: David Bowie e Muhammad Ali.

Na música e no esporte, cada um a seu modo, conseguiu com seus trabalhos e suas personalidades transbordar suas mensagens para as mais diferentes áreas do interesse humano como a política, a moda, o ativismo, a literatura.

Por outro lado, em 2016 também ganhei uma nova referência. Redescobri uma artista incrível e que, apesar de minha fissura pelo rock e pela literatura, havia me escapado de conhecer profundamente embora já gostasse de suas músicas.

Patti Smith.

Só Garotos é um livro autobiográfico que a cantora e escritora lançou em 2010 e que só fui ler no último ano depois de comprá-lo em um sebo. É fantástico.

Além da história de como uma garota pobre americana se tornou uma das lendas da música, o texto de Patti Smith traz profundas reflexões sobre a arte e a vida.

Uma das frases que me marcaram diz um pouco sobre como ela vê a si e a seus próprios ídolos: “preferia um artista que transformasse seu tempo, não que o espelhasse”.

Como Patti, acredito que o trabalho não deve ser apenas um retrato frio da nossa sociedade.

No fim de 2016, Patti Smith foi convidada para cantar durante a cerimônia de entrega do Nobel de Literatura. Como ela conta em um texto tocante que escreveu para a revista New Yorker, Patti Smith havia preparado e ensaiado com a banda uma canção do seu repertório. Porém, ao saber que o vencedor do prêmio era Bob Dylan, um dos seus grandes ídolos, resolveu mudar a sua apresentação e cantar uma canção do próprio Dylan.

Durante a apresentação, na frente de grandes personalidades, cientistas, intelectuais e ainda a família real da Suécia, Patti Smith não conteve o turbilhão da emoção que avançou sobre ela. Mesmo com toda sua experiência, precisou parar. Tomou fôlego. Admitiu que estava muito nervosa e começou novamente.

O vídeo rapidamente se espalhou. A naturalidade e a emoção genuína de quem estava fazendo algo com a alma e a franqueza para admitir a emoção e começar de novo em uma situação sem precedentes me fizeram um admirador ainda mais entusiasmado da artista. Dessas coisas que vou procurar levar comigo não apenas ao longo desse ano.

Em um mundo cheio de artificialidades e filtros para esconder nossas imperfeições, enquanto tanta gente busca vender a ilusão da própria perfeição, Patti Smith nos entregou sua verdadeira humanidade.

Em breve, quero ler o outro livro de Patti Smith, Linha M.

Acho que ainda há muito para aprender com ela.

Esse texto foi escrito motivado pela campanha do LinkedIn  #NovosÍdolos de 2017. Você pode ver outros textos que fiz aqui e me seguir para receber os próximos.

Bob Dylan Nobel de Literatura

O reconhecimento de Bob Dylan como Nobel de Literatura provocou uma intensa discussão no mundo todo sobre o significado desse prêmio. Entre aqueles que aplaudiram a decisão de certa forma surpreendente, houve quem achasse que o Nobel faria melhor para a arte da literatura se entregue a um escritor não a um músico.

Houve também aqueles que para criticar a decisão tentassem diminuir a obra de Bob Dylan, mas esses merecem bem pouca consideração.

O fato é que a escolha estimulou uma enxurrada de textos sobre a obra, a carreira e a vida de Bob Dylan e também, claro, opiniões sobre o Nobel entregue ao artista.

No YouTube, fiz um vídeo para comentar o fato e, claro, deixar meu pitaco também.

Abaixo, deixo uma coletânea de links, com vários textos que li (ainda e estou lendo e aumentando a lista) e que recomendo para que as pessoas possam se aprofundar ou, para os não iniciados, que tenham uma dimensão do que representa a figura de Bob Dylan para a arte, além da discussão em torno do merecimento ou não do prêmio Nobel ao artista.

    1. Leonard Cohen: “é como dar uma medalha ao Everest por ele ser o mais alto do mundo”.
    2. 75 fatos sobre Bob Dylan.
    3. Escritor brasileiro comenta de Nova York o Nobel para Dylan.
    4. O Nobel de Dylan na visão do fã: “Eu já sabia!”
    5. Nobel de Dylan: um prêmio para a música
    6. Bob Dylan, 500 vezes mais popular em serviço de streaming
    7. Eduardo Suplicy homenageou Bob Dylan pelo Nobel:

8. Repercussão do Nobel entre escritores e Academia

9. O anúncio do Nobel a Bob Dylan

10. Por que Bob Dylan não deveria ter ganho o Nobel (em inglês)

11. Bob Dylan, Mestre da mudança (em inglês)

12. Vamos celebrar a vitória de Bob Dylan (em inglês)

As melhores notícias sobre livros #agosto

Leio muita coisa sobre livros todos os meses. Por isso, resolvi compartilhar todos os meses uma compilação de informações, curiosidades e novidades que achei mais importantes ou divertidas nesse período.

Uma ou outra notícia não estão em português, portanto, se preferir, fiz um vídeo sobre isso no meu canal de livros detalhando as notícias.

  1. Pokémon Go inspirou jogo de incentivo à leitura.
  2. Bienal do Livro de São Paulo.
  3. Best Sellers dos últimos 40 anos.
  4. Livros selecionados por Barack Obama.
  5. Novos textos achados de Lima Barreto.
  6. A disputa pelos manuscritos de Kafka.

Frozen, Andersen e o mercado

A notícia de que o estrondoso sucesso da Disney, a animação Frozen, terá uma continuação em 2018 saiu abraçada com uma campanha nas redes sociais para que a protagonista da animação, a princesa Elsa, ganhe uma namorada. O que seria um fato inédito para a Disney e, provavelmente, para as histórias infantis.

Ainda que as diferenças sejam enormes, muita gente afirma que a inspiração de Frozen está no texto A Rainha da Neve, do mais conhecido escritor dos contos de fadas, o dinamarquês Christian Andersen. A história de Andersen conta a saga de Gerda, uma menina que se aventura para resgatar seu melhor amigo do castelo de uma rainha não muito boazinha. (Se você se interessa por Andersen e contos de fadas pode assistir meu vídeo sobre ele).

Embora o relacionamento entre duas pessoas do mesmo sexo também não esteja no texto do escritor, nele o autor já trata a mulher como protagonista, corajosa e independente de príncipes. Coisa que nas produções da Disney eram raras até bem pouco tempo.

Essas diferentes abordagens exemplificam como a civilização não evolui com o tempo de maneira linear, nem igualmente em todos os setores da sociedade. Se considerarmos que um escritor do século XIX já criava personagens femininas independentes e corajosas, fica um pouco complicado entender por que, décadas depois, predominem nas produções contemporâneas os clichês das princesas indefesas e dependentes de alguém – quase sempre um homem – que as salve.

No que se refere à continuação de Frozen, sou totalmente a favor – mais ainda se há tantos fãs que assim desejam – que Elsa seja feliz com uma companheira. Porém, aí há uma outra dicotomia entre as produções modernas e os clássicos contos de fadas. Outra concepção um tanto distorcida dos contos originais de Andersen é que neles muitas vezes os fins são melancólicos, tristes ou insolúveis. Passam longe dos finais felizes padronizados por essas produções. O que não impede que sirvam para importantes reflexões.

Gostaria que o happy end dos contos de fadas da Disney prevalecesse para os fãs que criaram essa campanha nas redes sociais. No entanto, é bem mais fácil acreditar que essa história da vida real vai seguir um roteiro mais conservador e, contraditoriamente, mais próximo aos finais melancólicos de Andersen. Afinal, só uma fada madrinha muito poderosa faria com que uma marca tradicional como a Disney, que em suas produções possui inúmeros desdobramentos de negócios com brinquedos, roupas e acessórios temáticos, aposte em bater de frente com um tabu ainda tão resistente como é a união de pessoas do mesmo sexo, principalmente dentro do universo infantil.

De novo, um exemplo de que a evolução do pensamento não caminha em todas as direções da sociedade. Entre criar um conto de fadas de verdade que faria muito bem a civilização e não arriscar seu negócio que movimenta castelos de dinheiro, acredito que a quase totalidade das grandes marcas tradicionais ainda fique com a segunda opção.

O que, de longe, não quer dizer que campanhas como essa são sejam fundamentais para que mais pessoas se juntem em torno dessa ideia e que a gente não deva continuar acreditando em um final feliz para a igualdade de gêneros.