Seleção brasileira: uma marca que agoniza

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(texto originalmente publicado no LinkedIn)

Há anos ouvimos como o marketing se tornou inevitável ao futebol e aos esportes. Não só entre as fabricantes de materiais esportivos, mas clubes, seleções, treinadores e atletas utilizam todas ferramentas disponíveis para construir suas reputações.

Paralelamente à difusão desse discurso, poucas marcas esportivas no mundo definham e agonizam  tanto quanto a da seleção brasileira.

Comandada há décadas por homens que pouco entendem de futebol, mas que conhecem como poucos as jogadas do submundo dos negócios e da política, a seleção brasileira vive uma longa crise de gestão

Comandada há décadas por homens que pouco entendem de futebol, mas que conhecem como poucos as jogadas do submundo dos negócios e da política, a seleção brasileira vive uma longa crise de gestão. Nesse tempo, trocaram-se algumas peças, mas a visão nebulosa dos gestores nunca passou perto de se alterar.

Para piorar, seu principal produto, o futebol, nunca foi tão desvalorizado. O 7 a 1 foi um desastre. Mas se passarmos um pente fino na história recente, ele não foi o único vexame a contribuir  para a má reputação do que deveria ser entendido como o principal produto da nossa seleção. Quem viaja e conversa com estrangeiros entende como mudou o papo sobre futebol quando a gente se declara brasileiro.

A camisa da seleção, que deveria ser o principal símbolo de identificação com o que sempre tivemos de melhor (nosso futebol), hoje remete mais à situação política do país do que ao futebol. Qualquer grande empresa que visse sua logomarca associada a qualquer outra coisa que não fosse seu negócio, ficaria preocupada. Mas a seleção não é administrada com a atenção que sua própria grandeza merece. Enquanto isso, com tantas opções de times a seleções estrangeiras mais carismáticos, as crianças cada vez menos arriscam a se vestir com a camisa amarela.

Agora, a seleção parece viver uma nova etapa desse processo de derrocada: a indiferença. Certa vez me ensinaram como a expectativa do consumidor é importante para o valor de uma marca. A expectativa que desenvolvemos por uma marca ou um produto é capaz de criar laços emocionais com ela. É por causa da expectativa que um consumidor reclama nas redes sociais e na área de atendimento de uma empresa quando se sente decepcionado. É quando uma marca frustra sua expectativa.

Infelizmente, a seleção foi eliminada na primeira fase da Copa América e nunca vi tão poucas pessoas decepcionadas, reclamando. Ao que parece, nenhum consumidor, ou melhor, torcedor, se dá mais ao luxo de se decepcionar com os resultados da seleção porque, afinal, ninguém tem mais expectativa sobre ela.

No meu caminho para o trabalho o porteiro do prédio não reclamou, o dono da banca também não. Os colegas do escritório mal sabiam do resultado do jogo. Sinal de que pouca gente espera alguma coisa da seleção.

E poucas derrotas parecem tão doloridas como essa.

O que a (falta de) leitura diz sobre o Brasil

Leitura

Nas últimas semanas, entre viagens de elevador e conversas da hora do almoço, não foram poucos os comentários elogiosos que ouvi sobre o português “bem falado” do presidente interino Michel Temer. Não me atrevo a uma análise política, mas entre tantas interpretações possíveis, esses comentários soaram como se o domínio da língua ainda seja coisa tão distante quanto eram os espelhos para os habitantes nativos do Brasil quando os colonizadores os apresentaram pela primeira vez.

Os números da pesquisa do Ibope, Retratos da Leitura mostram que, se tomarmos a leitura como ponto de partida para o domínio da própria língua, não há dúvidas de que o brasileiro ainda está longe do aceitável. Segundo essa pesquisa, 30% dos brasileiros nunca compraram um livro e 54% não consomem literatura por vontade própria.  Portanto, não devemos nos espantar que um português empolado, à parnasiana, ainda provoque admiração e até submissão.

Embora indicadores de faixa social pesem para explicar a parte da população não leitora, eles não parecem suficientes pra dizer que no Brasil basta ser rico ou ter escolaridade formal para ter afinidade com as letras ou, ao menos, ser bem informado. Apenas 17% da população lê jornais todos os dias e 50% dos não leitores estão na região sul do Brasil, a parte mais rica.

O principal argumento para não ler é a falta do tempo. Ora, não ter tempo significa que, entre as prioridades de vida, ler não é uma delas. O dado é ainda mais alarmante se pensarmos que, com a tecnologia, podemos ler em qualquer lugar. Porém, a absoluta maioria dos brasileiros também não conhece o livro digital.

A leitura, mais do que um problema de escolaridade e grana, é comportamental. Enquanto, em média, o brasileiro não chega a cinco livros lidos por pessoa durante um ano (sendo que apenas metade desse número é de livros terminados), a Espanha passa de dez. Nossos vizinhos argentinos e chilenos também costumam ter números melhores que os nossos.

Saber ler, por si só, não significa capacidade de dominar uma língua, assim como reconhecer um português bem falado ao ouvido não significa, necessariamente, compreender o que está sendo dito.

A leitura é uma forma de aprendermos sobre aquilo que nos é mais importante, saber o que está acontecendo em nosso mundo e também um exercício da nossa capacidade de concentração, de se comunicar e de formar opinião sobre as coisas. Não me parece coincidência que em um país onde se lê tão pouco, compartilhe-se cada vez mais informações falsas nas redes sociais.

Com tantos estímulos ao redor, a leitura é pra muitos quase um ato de heroísmo em um mundo exigente com a dedicação para muitas atividades simultâneas. Mas achar que as respostas e as perguntas que precisamos fazer estão apenas nos memes, nas imagens e nos vídeos de 30 segundos, embora tentador, – spoiler! – não é a solução.

É até contraditório que a palavra “foco” seja repetida como mantra e ao mesmo tempo seja tão difícil nos mantermos atentos por mais tempo em uma atividade como a leitura. Também não é de hoje que empresários e especialistas alertam que o Brasil carece de mão de obra qualificada. Mas como qualificar uma mão de obra que não é capaz de ler e nem é incentivada por seus líderes? Recentemente, Bill Gates fez um artigo recomendando livros. Prova de que, qualquer um (mesmo!) pode arrumar tempo pra ler.

Em tempos de conhecimentos superficiais, a leitura parece uma saída e tanto para aumentar níveis de atenção e de retenção da informação. Já a falta de leitura do brasileiro precisa ser encarada com questão social. Minha sugestão é que o incentivo à leitura deve ser pensado não apenas pelos poderes públicos, mas também por empresas e instituições. Não compartilhe um texto do qual você leu só o título podia até ser um mote para campanha.