Black Sabbath eterno

Foto: AP/Jonathan Short - G1
Foto: AP/Jonathan Short – G1

Apesar de ter nascido pouco tempo depois de Ozzy ser dispensado do Black Sabbath, foi à formação original do grupo e aos seus primeiros álbuns que me voltei durante a adolescência e que me abriram as portas do rock. Entre elas algumas que me levaram à insensatez de entrar em discussões com outros fanáticos por achar que Tony Iommi montou excelentes bandas com Dio e Ian Gillan, por exemplo, mas Black Sabbath só existia de verdade com Ozzy no microfone.

Aos 11 anos, comprei o CD Sabbath Bloody Sabbath, quinto álbum de estúdio da banda e até hoje aquele que ouço com mais carinho. Quase sempre de cabo a rabo.

Depois, compraria o Volume 4, outra preciosidade, até chegar à gênese do heavy metal que foram os dois primeiros: Black Sabbath, título de estreia, e o clássico seguinte, Paranoid.

Porém, confesso:  ao ler pela primeira vez a notícia sobre um novo disco com a formação original (ou ao menos 75% dela, sem o baterista Bill Ward) minha reação foi de pura desconfiança.

Aquela altura já tinha aprendido que a decadência é inevitável  até para meus heróis do rock and roll, portanto não gostaria que o Black Sabbath, minha banda do coração, a registrasse em estúdio como tantas outras clássicas e decadentes bandas fizeram ao lançar novos trabalhos.

Quando saíram as primeiras resenhas, fiz questão de não ler. Fugi da competição – que premia ninguém – para saber quem tem a opinião mais rápida sobre um novo disco liberado na rede. Às vezes, acho que já há “críticos” escrevendo sobre discos que nem serão lançados. Na era digital leva-se muito em conta a velocidade.

Felizmente, o Black Sabbath faz parte de outra época. Tony Iommi consegue ser um dos maiores nomes da guitarra mundial sem precisar tocar milhares de notas por segundo. Basta a nota certa no tempo exato. Isso faz diferença.

Inclusive, revelam as notas da imprensa, uma dos acertos do experiente produtor Rick Rubin foi deixar os tiozões à vontade no estúdio para tocar sem pressa e deixar que as músicas cumprissem seus ciclos de 5, 6 ou até mais minutos de duração.  Depois, fiz minha parte e ouvi o disco novo com calma mais de uma vez. Sensação de ótima surpresa. Diria até que “13”, como Ozzy batizou o álbum novo, chega a ser melhor do que alguns trabalhos pré-separação da banda no fim dos anos 70.

Tudo isso encerrava uma questão. Sim, eles ainda são capazes de fazer novas músicas boas! Só faltava vê-los ao vivo.

Ozzy no mesmo palco que  Tony Iommi. Sinceramente achei que nunca teria oportunidade de ver essa cena. No entanto, assistir a isso com o guitarrista passando por um tratamento de câncer e Ozzy voltando à rotina do que foi toda a sua vida – uma  reabilitação sem fim – já parecia roteiro de filme. E não é que foi mesmo?

Se não há mais a mesma energia natural de quem tem 20 ou 30 e poucos anos, nem com o gás proporcionado por otras cositas, alguns sinais nem o tempo apaga. Ao contrário, os tornam ainda mais marcantes.

A velhice deixou Ozzy com mais jeito de bruxo-alucinado. Seu carisma está intacto e ele até aprendeu a lidar melhor com a voz para não desafinar tanto durante seus berros.  Tony Iommi, em seu sobretudo preto e sem as duas pontas dos seus dedos da mão esquerda que o fizeram se reinventar enquanto  músico, mantém a pegada monstruosamente pesada em sua guitarra. É o pai da banda e tudo começou por ele. Geezer Butler, baixista e letrista, é quem dá o ritmo tranquilo,  seguro e, claro, com todo o arsenal de graves que as músicas mais sombrias da história do rock exigem. Durante as duas horas de apresentação permanece praticamente estático em um dos cantos do palco. É a cama perfeita para Iommi deitar com potentes solos.

Não há telão de alta definição, não há coreografias, não há efeitos especiais, nem pirotécnicos.  Este um luxo reservado somente para mestres capazes de reter a atenção de 70 mil pessoas apenas com música e presença de palco enquanto o espetáculo prossegue entre delírios do público extasiado e os sorrisos dos velhos roqueiros.

Definitivamente, o Black Sabbath trilhou nas sombras do rock seu caminho para a eternidade na música. E eu que cheguei por décadas atrasado pude vê-los e ouvi-los de perto.

PS.: Mais uma vez a organização de um grande evento em São Paulo foi horrorosa e indigna da apresentação de uma banda histórica como o Sabbath e completamente desrespeitosa para com um público que pagou um dos ingressos mais caros da turnê mundial da banda. Mas sobre isso prefiro não me estender por já não ter mais esperança de que alguma coisa mude para melhor ainda neste século. 

Uma noite na ópera e a elitização dos estádios

Muitas imagens marcaram as manifestações pelas ruas de São Paulo. Em especial, uma delas ficou na minha mente até escrever esse texto. Não era uma foto carregada de energia da massa mobilizada ou outra cena de abuso policial, mas uma pichação nas paredes do Theatro Municipal de São Paulo com os dizeres “fogo na burguesia”.

Em princípio, chamou minha atenção por dois motivos.  Um, as pichações estragaram a fachada do teatro que acabara de ser restaurado. Dois, elas foram feitas uma semana depois que visitei pela primeira vez aquele lugar, mesmo morando em São Paulo há mais de uma década.

fogo na burguesia

Mas havia outro motivo mais intrigante. Aquela frase, com uma pegada jacobina, mostra claramente a percepção daquele manifestante em relação ao frequentadores do teatro. E foi essa percepção, somada as manifestações e, acreditem, as novas arenas do futebol, que acabaram provocando a reflexão que faço agora.

Nunca havia ido a uma ópera no Theatro Municipal e reconheço em mim, assim como naquele manifestante de spray à mão, a impressão de que, naquele pomposo edifício, estaria a mais alta concentração da fidalguia paulistana. Em certa medida, não deixa de ser verdade. Basta dizer que naquele dia, enquanto um pichava, alguns tocavam fogo na rua ao lado e outros gritavam palavras de ordem, a ópera, alienada a tudo isso, não interromperia sua execução. Com uma ressalva: só estavam lá 300 pessoas dos 1600 lugares disponíveis.

Uma semana antes, no dia 12 de junho, em vez de enfrentar quilômetros de filas nos restaurantes para comemorar o Dia dos Namorados, optei por encarar  o  segundo dia (até agora) de maior congestionamento em São Paulo (justamente durante a trégua das passeatas) para conhecer o Theatro Municipal de São Paulo onde estreava o espetáculo “A carreira do Libertino”, clássico de Ígor Stravinsky.

Lá, com um pouco de surpresa, descobri que a “burguesia” apreciadora da ópera talvez seja apenas meia verdade. Não posso comprovar em números. Especulo por impressões. Mas a elite que lá se encontra está mais para uma aristocracia cultural do que financeira. Confesso que em alguns casos até senti um cheiro de naftalina em casacos de pele que abraçavam a decadência elegante de uma alta burguesia  de outros tempos. A maioria dos ali presentes parecia de  apreciadores de mais uma manifestação cultural ignorada pela maioria da elite econômica do país: senhoras e senhores que empunhavam atenciosamente seus livretos da peça, jovens casais, grupos que pareciam estudantes de música ou artes com visuais em que nada remetiam à elite. Poderiam estar em um concerto punk ou de heavy metal, só que estavam lá para ver uma obra de quase um século atrás. Conversei também com gente que, como eu, ia lá pela primeira vez.

Em suma, é possível que a “burguesia” apontada pelo pichador fosse muito mais fruto do imaginário popular do que de fato pelas posses dos frequentadores daquele teatro. O que diria o mesmo pichador quando soubesse que com R$ 40, valor do ingresso mais barato para ir à ópera no Theatro Municipal, é praticamente impossível ver qualquer jogo de futebol em uma dessas novas arenas pelo Brasil?

Aí pensei: o rótulo de um espetáculo caro e tão exclusivo a uma minoria não poderia, além de causar repulsa naquele pichador, espantar muitos curiosos ou novos consumidores desse gênero?

Dias depois, o lema “fogo na burguesia” ou pelo menos o sentimento de exclusão, se alastrou dali para  as sedes dos jogos das Copas das Confederações. Àquela altura, os manifestantes queriam ser vistos e ouvidos e já entendiam que a boa e velha elite do país estava toda voltada para os recitais que aconteceriam dentro de campo. Aliás, estavam ali mesmo, do lado de dentro das arenas.

É bem provável que aqueles manifestantes também não soubessem que com o mesmos R$ 40 que custam algumas entradas para bailes funk também é possível assistir a uma ópera porque a imagem desse espetáculo resistiu ao tempo como exclusivo para quem pode pagar muita grana. Entretanto, naquele momento, o futebol nacionalmente começava a sair da esfera de um evento popular.

E essa fuga da imagem de esporte tão popular prosseguiu mesmo depois que a comitiva da FIFA abandonou os palcos brasileiros. No último clássico entre Flamengo e Botafogo pelo Campeonato Brasileiro, só para citar o time de maior torcida do país, o ingresso mais barato foi de R$ 100,00. Valor suficiente para pagar uma nobre entrada na quarta fileira da plateia do Theatro Municipal, com cadeira estofada e visão total do palco a poucos metros. Só que na ópera não há confusão na entrada, nem na saída.

Não desejo fazer campanha contra a presença dos mais abastados nas arenas. É óbvio que futebol tem um alto custo e precisa ter fontes de renda vigorosas. Mas não parece justo fecharmos os olhos para a desigualdade do Brasil e os portões na cara do torcedor mais pobre, responsável por fazer do futebol o esporte mais popular do país – aqui no sentido de número de fãs – e que agora corre o risco de ver um de seus programas favoritos se transformando naquilo que um dia foi para alguns ir a uma noite na ópera.

A história mostra que o futebol só foi capaz de se desenvolver realmente no Brasil quando deixou as cercanias da elite e caiu nas graças do povão. Não por coincidência, vi algumas ideias de que o Estado crie mecanismos para garantir a presença do torcedor popular, aquele da geral, protegendo a máxima representação cultural desse esporte. Da mesma forma que se discutem leis de incentivo à cultura que evitam ou, em tese, deveriam evitar que artes como o teatro, a música e o cinema fiquem ainda mais pautadas pelos interesses do “mercado”.

Só que esperar o Estado se movimentar pode ser um exercício muito cansativo. Então, vejamos o problema – sim, a elitização dos estádios é um problema – sob a óptica do entusiasta do futebol moderno, que é regido pelo mercado. Qual o risco em associar um esporte que encanta a todos apenas como um programa para quem pode pagar muito?

A descoberta da classe C, que no fundo significa conquistar uma nova massa que gasta dinheiro, é hoje o desejo de toda empresa  para aumentar o mercado consumidor. Restringir o público dos estádios não seria um caminho inverso? Com tão altos valores das entradas o futebol não estaria abrindo mão desse grande público? É bom não esquecer que o futebol também precisa sobreviver de outros meios como as transmissões, produtos licenciados e, claro, os patrocínios de empresas que também querem falar com o povo.

As cotas de TV somam a maior parte do faturamento dos grandes clubes e só são polpudas graças aos anunciantes que investem a grana nas emissoras para impactar justamente a massa da população que acompanha os jogos, a mesma negligenciada nessa nova política de preços dos estádios. Será que em médio ou longo prazo, o povo sem acesso, não diminuirá seu interesse gerando menos audiência e, consequentemente, menos dinheiro das emissoras? Sem falar que mesmo rentável, um estádio pouco ocupado certamente não é o ideal para as câmeras. Por enquanto, a solução paliativa de alguns clubes é mandar jogos em outros centros do país. Já até há quem comemore uma média de público anabolizada pela novidade em algumas praças fora do tradicional eixo. Ao menos até que essa fonte seque.

Que tal aproveitar enquanto os holofotes estão virados para o grande espetáculo que será a Copa do Mundo no Brasil e equalizar de forma consistente as variáveis para tornar o futebol um esporte lucrativo e também um espetáculo acessível a todos? Sem correr o risco que ele ganhe a temível pecha de “coisa de burguês”.  A divulgações sobre o novo estádio do Corinthians, por exemplo, garante que depois de sua inauguração estarão disponíveis entradas de R$ 20 para os torcedores populares. A conferir.

Então, que se proponham modelos lucrativos com as administrações privadas das novas arenas, sem que isso seja mais um golpe no futebol brasileiro, já ferido pela ausência de seus principais craques e pelos desmandos da cartolagem incompetente. É preciso evitar que o espetáculo da bola acabe como o libertino da ópera de Stravinski. O personagem que se deslumbrou com as vantagens e prazeres mundanos do dinheiro imediato e deixou de lado quem realmente lhe dava valor. No fim, terminou sozinho, enlouquecido, sem que atenção das pessoas que lhe eram mais importantes.

Sobre donzelas e damas de ferro.

Ouvi falar de Margaret Thatcher quando tinha uns 11 anos. Minha apresentação à líder política não foi das melhores.

Naqueles tempo, desenvolvia-me um ardoroso fã de Heavy Metal e do Iron Maiden.

Segundo lia nas revistas segmentadas da época, a Donzela de Ferro – tradução do grupo inglês e também alcunha de uma máquina de tortura medieval – e a Dama de Ferro – como era conhecida a primeira-ministra britânica – não se bicaram, a despeito das semelhanças dos nomes.

O motivo seria uma capa do single “Sanctuary” (foto), lançado em 1980, que projetava uma imagem da primeira-ministra deitada ao chão, golpeada de punhal pelo mascote Eddie após ela rasgar um cartaz que divulgava um concerto da banda. Há quem diga que a banda não simpatizava muito com o jeitão autoritário de Thatcher.

Apesar de ser facilmente encontrada hoje na web, a capa foi censurada na época.

Segundo rezam os fãs do Iron Maiden, a banda ainda faria mais uma provocação na capa do álbum Killers, na qual a “Dama de Ferro” não aparece, mas é, supostamente, outra vez a vítima fatal do monstrengo Eddie.

Se há uma marca inerente ao Iron Maiden é o conservadorismo. A estrutura de suas músicas permanece a mesma ao longo do tempo. Só que a dosagem conservadora de Thatcher foi tão alta quanto o incômodo barulho que uma banda de metal devia causar aos ouvidos daquela senhora.

Não tenho mais 11 anos, o Iron Maiden não faz tantas músicas legais como na década de 80 e meus motivos para não gostar de Margaret Thatcher cresceram.

Por isso, enquanto muitos manifestam sua nostalgia, órfãos da mãe do neoliberalismo ocidental,  transcrevo abaixo um texto que condensa boa parte das coisas que me provocam repulsa à Margaret Thatcher.

Curiosamente, palavras escritas por um roqueiro: Morrissey, que, se na música tem um som bem mais suave que o metal, nas palavras tem corrosão suficiente para destituir a boa imagem da Dama de Ferro.

Thatcher: um terror sem um átomo de humanidade

O cantor Morrissey, da banda seminal dos anos 80 The Smiths, reage à notícia da morte da ex-primeira-ministra britânica Margaret Thatcher.

The Daily Beast

Thatcher é lembrada como A Dama de Ferro porque só possuía traços completamente negativos, como a teimosia persistente e a recusa de ouvir aos outros.

Cada movimento que fazia era carregado de negatividade; ela destruiu a indústria manufatureira britânica, odiava os mineiros, odiava as artes, odiava os combatentes da liberdade irlandeses e permitiu que eles morressem, odiava os ingleses pobres e não fez nada para ajudá-los, odiava o Greenpeace e ambientalistas, foi a única líder política da Europa que se opôs a uma proibição do comércio de marfim,  não tinha nenhuma sagacidade e nenhum calor a ponto de seu próprio Gabinete demiti-la. Ela deu a ordem para explodir o Belgrano, mesmo estando fora da zona de exclusão das Malvinas – e navegando em direção oposta ao das Ilhas!  Quando os jovens argentinos a bordo do Belgrano sofreram  uma morte terrível e injusta, Thatcher fez sinal de positivo  para a imprensa britânica.

De ferro? Não. Bárbara? Sim.  Ela odiava feministas apesar de ter sido em grande parte devido ao avanço do movimento de mulheres que o povo britânico permitiu-se a aceitar que um primeiro-ministro pudesse  ser do sexo feminino. Mas por causa de Thatcher, pode ser que nunca mais haja uma outra mulher no poder na política britânica. Em vez de abrir a porta para outras mulheres, ela fechou.

Thatcher só será lembrada com carinho por sentimentalistas que não sofreram sob a sua liderança, mas a maioria dos trabalhadores britânicos já a esqueceu e as pessoas da Argentina devem estar celebrando sua morte. Os fatos mostram, sem sombra de dúvida, que Thatcher era um terror sem um átomo de humanidade.
Morrissey.

PS.: Vi esse texto publicado pela primeira vez no blog O Esquerdopata.

Torcida do Liverpool canta Beatles

Há momentos em um estádio de futebol que são capazes de arrepiar até o ser humano mais indiferente à emoção. Nesse vídeo, de 1964, qualquer amante do futebol fica de pelos eriçados ao ouvir a potência das vozes da torcida inglesa cantando, no auge do Yeah-Yeah-Yeah, a linha de quatro mais genial daquele país: os Beatles.

 

Volta do Faith no More

Você, torcedor de algum time, já deve ter imaginado num simples exercício de prazer, como seria bom ver aquela equipe que marcou época jogando novamente.

Algo mais ou menos como se o corinthiano pudesse trazer o time de 99 no lugar daquele horroroso que caiu ou o palmeirense, na mesma situação, fosse capaz de resgatar a equipe de 94 (ou ainda mais longe, o timaço da Academia).
Ou ainda, se o torcedor brasileiro conseguisse levar para a Copa de 90 o time de 82 (sem o Lazaroni também, óbvio).
Claro que as barreiras físicas e do tempo impedem que delírios como esse se tornem reais. Ao menos no futebol.
Porém, acredite, na música isso é possível. Mais especificamente, no Rock, foi exatamente isso que ocorreu.
Claro que o leitor vai dizer que não há novidade nenhuma nos dias de hoje em se assistir o retorno de medalhões com suas velhas guitarras e companheiros de palco.
Seja por oportunismo, por necessidade de fazer uma graninha ou mesmo só por prazer, uma enxurrada de grandes nomes andaram se reecontrando com a sua torcida, ou melhor, seu público. E não são poucos para torcer o nariz, fazer bico e dizer que essas reuniões são pura jogada comercial (e o que é não é em nossos tempos modernos?). De qualquer forma, isso mais parece uma evidência de que em todo lugar há sempre uma turma do amendoim para cornetar.
Desfeito no ano de 1998, o Faith no More voltou em 2009 para dar espetáculo. E conseguiu.
Um timaço de músicos que mais de uma década depois de se separar, repetiu aquilo que faziam de melhor: um som moderno, um concerto autêntico e com muito mais disposição do que a grande parte das “novidades” sonoras do My Space.
No último sábado, o capitão Mike Patton e sua trupe (desfalcada do guitarrista original, mas nem por isso menos afinada) detonaram uma apresentação impecável na Chácara do Jockey em São Paulo (Festival Maquinária). Com chuva e tudo, fizeram os fãs esquecerem as intepéries do tempo (e aqui não me refiro ao clima, mas ao passar dos anos).
O Faith no more fez com que os fãs da música pudessem reviver uma belíssima amostra do que melhor se fez no rock nos anos 80 e 90 e, talvez, mostrar para os novatos algo que eles ainda não puderam ver em bandas hypes da internet: carisma, autenticidade, conhecimento musical e, por que não dizer, geográfico. A banda cantou em português, trocou o “ela é carioca” por “ela é paulista” e ainda preteriu o tradicional “fuck” pelos bem mais sonoros palavrões em português: “porra, caralho”.
Sem se colocar no pedestal de quem sempre precisa ser levado a sério, Mike Patton e cia não renegaram nem a veia brega que se mistura às influências de metal, funk e rap nas músicas do grupo.
Formação clássica é isso aí.

Anos desperdiçados

Há mais de dez anos, durante o show do Kiss, o blogueiro ainda adolescente constatou que Interlagos poderia sediar GPs de Fórmula 1 (há quem pense diferente). Entretanto, não possuía condições para receber uma apresentação musical com um público de final de campeonato.

Ontem (último domingo), dez anos mais velho, aprendi outra vez que uma década não é tempo suficiente para que as coisas mudem em meu país.
Junto a mais de sessenta mil pessoas, passei pelos mesmos terríveis problemas de 1999 e ainda com agravantes.
Em São Paulo, os fanáticos pelo Iron Maiden, fãs de Heavy Metal que são quase uma torcida de futebol, porém com a fúria mais direcionada aos acordes pesados, além de pagar o alto preço dos ingressos, pagaram custosas penitências para assistir ao espetáculo de seus ídolos. Extamente igual ou pior como passam os torcedores nos estádios do Brasil (e ainda pretende sediar uma Copa do Mundo…).
Filas para entrar com inúmeras voltas (quilômetros de gente atrás da outra!) e sem qualquer controle: muitos só conseguiram entrar no Autódromo quando a terceira faixa era executada.
Portões de acesso insuficientes. Na maior parte do tempo, houve apenas um disponível.
Na saída, muitos demoraram mais de uma hora para dar com a cara na rua. O trajeto era espremido em corredores completamente incapazes de absorver a massa. Duvido que milhares de pessoas, no momento da travessia, não pensaram estar diante de uma possível tragédia.
Para dar um ar mais épico como pedem as canções da banda, os fiéis tiveram que assistir a apresentação pisando sobre uma lama movediça. Afinal, é difícil supor (e os organizadores provavelmente nunca ouviram a música de Tom Jobim dizer: “em março as chuvas são recorrentes”) que água mais terra igual a lama.
Um cenário digno de trazer a mente de qualquer roqueiro o lendário festival Woodstock, realizado numa fazenda. Só que em Interlagos, apesar do tratamento de estrume dado aos fãs, não havia nenhum idealismo. Apenas mais um casual destrato com o público no Brasil.
Quanto ao show, muito bom.
Foi como sempre. Sejam eles brasileiros ou não. Sejam das chuteiras ou das guitarras. Lamentável é que haja tanto brucutu com poder no Brasil para roubar o brilho dos craques.