Seleção brasileira e os oxímoros

Antes de qualquer coisa, é saudável esclarecer. Oxímoro não é uma doença que pode dar coceira na bunda dos jogadores e impedi-los de correr atrás da bola. Tampouco é uma substância química passível de punição no exame antidoping.

Atualmente, oxímoro tem a ver com algo bem menos compreendido do que patologias e substâncias químicas: a língua portuguesa. É aquilo que aprendemos no Ensino Médio como figura de linguagem – a metáfora, a hipérbole e o eufemismo também são.

É como se o oxímoro fosse um parente próximo da antítese e do paradoxo. Bem próximo deste último, o oxímoro permite que duas ideias, por mais opostas e excludentes que possam ser, coexistam. Por mais absurdo que pareça, o oxímoro autoriza dois elementos contraditórios conviverem, ainda que não de uma forma muito lógica, mas explicável. Camões era um craque nisso.

Mas há algum tempo, tenho notado que a despeito da falta de coerência, da lógica, da organização, da transparência e até mesmo de craques, em nossa seleção brasileira sobram oxímoros.

A começar por sua administração.

Enquanto a agenda política brasileira acompanha as apurações da Comissão Nacional da Verdade, que tem como nobre objetivo passar a limpo o obscuro período do regime militar no Brasil, o futebol, tão usado pela propaganda fardada, é presidido em sua instituição máxima – a CBF – por José Maria Marín, antigo fantoche biônico da ditadura.

Aliás, ele é o próprio oxímoro ambulante. No futebol, o atual presidente da CBF se tornou conhecido, não por algum trabalho em favor do esporte mas, principalmente, por um episódio em que predomina a total falta de mérito esportivo, quando flagrado embolsando uma medalha durante premiação da Copa São Paulo de Juniores em 2012.

Marin  recebeu de bom grado a atual posição para substituir o chefe anterior da entidade, Ricardo Teixeira, porque o ex-refugiado de Boca Ratón e ex-genro de João Havelange (no parentesco parece que vemos alguma consonância), se viu pressionado por alguns escândalos a tal ponto de pedir para sair após mais de duas décadas. E a substituição em si só seria um oxímoro se fosse com intenção de moralizar a administração da entidade. Contudo, isso é mais ou menos como colocar o Felipe Melo para evitar perder um volante porque o titular está pendurado com um cartão amarelo. A troca é só mais uma cena do paradoxo político que se encontra o país onde um político acusado de improbidades administrativas assume a Presidência do Senado. Eis que a frase “Brasil, um país sério” seria um bom exemplo de oxímoro, se não fosse também uma ironia. Ou um epitáfio.

E para não cansar o leitor com exemplos da política, não vamos sequer tocar no tema “estádios da Copa”, fingindo que eles não existem. Ainda que, a rigor, a maioria deles não exista de fato.

Falemos, então, de futebol. Até agora, Marin tem como principal realização em seu cargo de chefe da entidade demitir o treinador Mano Menezes enquanto este passava seu melhor momento na Seleção e chamar, para dar continuidade a um processo de “renovação”, o técnico que comandou o time campeão há 11 anos  e como coordenador e mentor dessa retomada, outro que fora vitorioso há mais de duas décadas.

Ambos reconhecidos pela escola de um futebol pouco vistoso e talvez até ultrapassados, contrapõem-se a tendência atual, na qual o clube do momento, o espetacular Barcelona, coleciona títulos com um futebol brilhante e cheio de magia. Entre as seleções, a Espanha e Alemanha são duas que também buscam a vitória por um futebol mais “à brasileira”. Aliás, até a Itália, e isso é um baita oxímoro, tem remado contra sua tradição em busca de um jogo mais aberto e, vejam só, já há até uma real possibilidade de jogarem com dois atacantes contra a, tempos atrás, temida seleção brasileira.

Mas contradição é coisa para amadores e seleção brasileira é coisa para profissional. Até agora presenciamos um elenco reformulado principalmente por jogadores que o antigo treinador convocava. Inclusive, alguns nomes muito contestados como Hulk que, particularmente, acho um nome útil para o elenco.

Só que nessa profusão de oxímoros, a soma de tantas ideais opostas e contraditórias só poderia acabar na mais perfeita coerência e, mesmo fazendo tudo sem planejamento, de alguma forma o Brasil honra sua tradição e, claro, pode ganhar a Copa de 2014.

Agora, se isso vai ser bom mesmo para o país ou só mais um oxímoro, juro que não sei.

Violência sobre rodas

Há algum tempo venho matutando – e protelando – para escrever algo sobre meu gosto de pedalar. Nesse período, alguns temas vieram à mente. Pensei em falar sobre o prazer de pedalar, o sentimento de liberdade ao rodar por diferentes bairros, parques e avenidas da cidade;pensei em tratar sobre as diferenças entre criar ciclofaixas de lazer e desenvolver uma estrutura de transporte urbano para bicicletas?; ou simplesmente escrever um manifesto pelo uso das  magrelas – alguém ainda chama as bikes assim? – como prática de esporte e, ao mesmo tempo, solução para um sistema de transporte completamente falido. Dava até para fazer um textinho sobre como elas servem até para o turismo, ao menos para quem aprecia desbravar pontos famosos das cidades sem a necessidade de parar o carro em estacionamento ou passar rápido sem observar com mais atenção.Certamente há muito a se falar. Inclusive, há um assunto que preferia não escrever. Aquele que diz respeito à convivência entre bicicletas e veículos motorizados no trânsito. Uma discussão que volta e meia retorna ao mesmo ponto de partida, geralmente recomeçando com mais um caso trágico de ciclista atropelado e uma posterior divisão entre os defensores radicais dos pedais, os cicloativistas, e o cidadão comum, os quais vou levar em conta apenas os que tentam enxergar além do próprio para-brisa. O percurso é quase sempre o mesmo e, invariavelmente, chega-se pelo mesmo relativismo à constatação mais trivial: a estupidez existe atrás do volante do automóvel e também sobre o selim da bicicleta.Por essas e outras, não queria me meter nessa trilha tortuosa temendo dar voltas inúteis e soar repetitivo. Até porque como alguém que gosta mais de pedalar do que dirigir, minha inclinação natural poderia ser apontar que o local mais fácil para se encontrar um imbecil na cidade grande é dentro de um automóvel. Principalmente, se for em um desses “utilitários” grandões, que em uma cidade na qual falta espaço, certamente devem ter alguma outra coisa útil que não seja o tamanho. Nem a truculência com que alguns trafegam.Mas no último final de semana fiquei chocado. Outra vez, um ciclista foi atropelado na Avenida Paulista, onde frequentemente gosto de passear. Mas, confesso: evito pedalar ali porque não vejo condições mínimas de segurança. É verdade que dessa vez o ciclista não morreu. Mas em virtude do choque brutal contra o automóvel, seu braço foi decepado pelo impacto e acabou preso ao veículo. Sem prestar socorro á vítima, o motorista do carro fugiu e se desfez do braço jogando-o em um córrego.

Se não fosse mais uma produção melancólica da vida real em São Paulo, o enredo passaria sem sobressaltos por uma cena de Mad Max, um dos filmes violentos de Mel Gibson que mostra o mundo em disputa sangrenta após a devastação completa pela guerra. É o trânsito de São Paulo cada vez mais parecido com a “cúpula do trovão”, onde só um chegará vivo ao seu destino.

O carro, menos do que um meio de transporte, é cada vez mais símbolo de um plano urbanístico fracassado. Peça de um sistema de transporte em colapso. Paradoxalmente, cada vez mais confortáveis, espaçosos e conectados à tecnologia, no dia a dia duro da cidade grande os automóveis são reduzidos a meros entulhos de lata enfileirados, gerando dezenas ou centenas de milhões de horas improdutivas que contrariam a própria noção capitalista que os sustenta e os estabeleceu na cultura como símbolo de sucesso, ostentação e potência. Inclusive a sexual. Na realidade fora das propagandas, carros hoje podem ser vistos também como desperdício de tempo, de paciência e de saúde.
Mas como todo sistema de rodas e engrenagem mais complexo, a tensão na convivência do trânsito vai além da singela dicotomia carro-bicicleta. E é por isso que não adianta nenhum dos lados partir para o confronto. Como ensinou o escritor americano Stephen Crane, definitivamente não há glórias na guerra, apenas uma mancha de sangue. E nessa guerra civil do trânsito, que infelizmente parece já ter começado, as armas estão postas sobre rodas. Justamente a roda, invenção do homem que marca um dos pontos de partida em direção à civilização e ao conhecimento, se tornou o epicentro de uma discussão que gira em círculos sem chegar a uma solução. Vil ironia, é sobre as rodas que o ser humano comete suas mais estúpidas barbáries. Sobre rodas ele nega sua própria evolução.Mas como um adepto das voltas de bike (não me acostumo a grafar assim, mas vá lá), achei que poderia escrever para tentar ao menos encontrar algumas explicações. Pedalando semanalmente nos últimos anos, tenho notado alguns fatos que podem dar evidências sobre o real problema – veja bem, não é uma pesquisa, apenas percepção.Sinto que há um aumento dos motoristas de automóveis que respeitam o espaço do ciclista. Alguns até oferecem prioridade na passagem e ultrapassam com cuidado, atentando-se a uma distância segura. Sinceramente, acredito que há uma parcela que parece disposta a “aceitar” a divisão da via pública. Essa é a boa notícia.Por outro lado, nas ciclofaixas e nos parques, justamente onde há uma proposta clara de lazer, percebo um aumento considerável de ciclistas mal educados, transportando para o pedal os mesmos sintomas e vícios que já estamos calejados de ver sobre quatro rodas. Em lugares onde se poderia reinar a tranquilidade, não é difícil se deparar com um ciclista energúmeno. Para chegar sabe-se lá onde mais rápido, faz ultrapassagens e manobras arriscadas e coloca em risco seus pares. Muitas vezes ignoram até crianças em suas bicicletas com rodinhas.

Como sou também um pedestre assíduo, outras cenas desse tipo não me escapam. Ciclistas também atropelam as regras de trânsito e do bom senso ao andar em alta velocidade sobre calçadas cheias de passantes; enfrentam a contra-mão de vias principais expondo ainda mais a própria fragilidade ou, ainda, atrapalham outros ciclistas que tentam, por sua própria segurança, seguir o fluxo normal como sugere o código de trânsito. Sobre uma bicicleta, alguns ameaçam  pedestres da mesma forma que talvez fariam com outros ciclistas se estivessem em um carro.

Ah, e a pressa e a impaciência transcorrem exatamente como no trânsito “tradicional”. Posso estar exagerando, mas até as quedas parecem aumentar desde a primeira vez que percorri uma dessas ciclofaixas e, em pouco tempo, não me estranharia se as desavenças – com ou sem palavrões, indo ou não às vias de fato,-  começassem a surgir a cada nova barbeiragem ciclística.Por isso, a ferrugem que corrói  continuamente a estrutura da convivência pacífica não está somente em quem anda de carro. Tampouco só nos ciclistas (ou nos cicloativistas). Não podemos levar adiante o tema como uma luta de classes. Admito que talvez não tenha todas as respostas para dar visão a quem dirige com olhos vendados pelo individualismo exacerbado ou simples ignorância.Só não quero ficar parado no meio da pista. Acredito que a redução de carros nas ruas tornará o sistema de transporte melhor, deverá diminuir os dados trágicos e, quem sabe, abrir espaço para um sistema de transporte menos estressante. E  muita gente também já se deu conta sobre a inviabilidade dos carros e, por isso, está tentando se adaptar a uma bicicleta – que bom! Logo, o tráfego delas tende a crescer cada vez mais e será preciso fazer esse contingente entender que ciclistas também precisam cumprir suas obrigações. Seja para não prejudicar aqueles que andam a pé, seja para ter consciência de sua fragilidade frente aos seus colegas de lata e aço e a importância do uso de certos equipamentos e do respeito a algumas regras de segurança.E nesse momento, luz amarela, sinto desapontar o leitor porque após andar todo esse caminho, posso chegar a um lugar comum. Isso porque minha conclusão é de que o caminho mais curto para civilizar nosso trânsito está de novo naquela via tão pouco cuidada da sociedade brasileira: a educação.

Quem sabe falando das diferenças dos direitos e deveres de carros, bicicletas e pedestres desde a escola infantil. Quem sabe com campanhas na Internet, na TV, nos parques, nas ciclofaixas e onde mais for necessário. Quem sabe com mais fiscalização e orientação para quem comete abusos dentro dos carros ou em cima das bicicletas.

Um bom começo já seria ver não apenas ciclistas protestando quando alguém sobre uma bicicleta é atingido. Afinal, muita gente ainda finge que um ciclista atropelado não lhe diz respeito. Todos somos vítimas de um trânsito violento e mesmo aqueles que nunca sentaram a bunda em um selim precisam se comover, se indignar e se for o caso, andar pelados juntos aos ciclistas nas ruas da cidade. Do seu lado, os ciclistas também podem começar a ensinar seus colegas sobre duas rodas como se comportar de maneira menos desorganizada nas ruas, calçadas e ciclovias.

Certamente há uma longa estrada pela frente. Só não dá mais para ver tanta gente morrendo sobre rodas e nada sair do lugar.

 

Fragmentos de Oruro

O que não faltam em tempos de redes sociais é opinião. A sabedoria popular ensinou que assim como a bunda, todo mundo tem a sua própria. A diferença é que no Brasil para mostrar o traseiro ainda somos conservadores, quando deveríamos ter muito mais pudor na hora de manifestar certas opiniões.

Antes de cair na armadilha e exibir a minha própria retaguarda, mais uma entre tantas já expostas na janela digital, pretendo fazer algo um pouco mais discreto em relação à discussão Oruro, sinalizador e Corinthians.

Já que é impossível impedir que os fragmentos da tragédia a essa altura já tenham se espalhados em diferentes lugares e que certas barbaridades já tenham sido registradas, depois de observar com alguma dedicação, tentarei dividir essa enorme discussão em partes e, de alguma forma, ajudar a quem quiser emitir o seu próprio parecer, ou, em último caso, filtrar algumas partes da discussão que não valem o tempo gasto para que outras pessoas ainda possam entrar nessa discussão que não deverá terminar tão cedo.

O principal engano ao se debater esse tema é misturar as coisas. Primeiro, é preciso separarmos fatos de opiniões e, principalmente, de crenças, achismos e preconceitos. E como falamos de futebol, é obrigatório também tentar se distanciar da paixão.

Acompanhei com atenção os comentários após a partida na Bolívia. Quando o sinalizador se chocou contra o menino Kevin, é como se o feixe de luz do artefato, além de provocar dor e comoção, liberou alguns  ratos de bueiro armados com palavras de ordem e veredictos pessoais sobre o caso.Quero crer que um dia, o tal sinalizador possa ser visto como símbolo de um pedido de socorro feito pelos deuses do futebol. Um clamor por um resgate das profundezas da cartolagem sul-americana. Quem sabe um dia. Por enquanto, é apenas o estopim de uma lamentável fatalidade que acabou mostrando, mais uma vez, os grotescos modos do ser humano ao tratar (e opinar) sobre sua própria inviabilidade.Retomando o objetivo desse texto, é importante dividir as partes que constituem o emaranhado de discussões porque elas se confundem e confundem imprensa e opinião pública. Muito por conta desse nó é que nos perdemos e nos saltam às telas dos televisores e computadores cronistas esportivos com palavras de ordem, às vezes com pose de justiceiros implacáveis; ou “cidadãos de bem” que descarregam seus preconceitos, revanchismos, ódios e outros sentimentos podres; ou até mesmo os casos menos patológicos, mais propensos à ingenuidade de quem muitas vezes não está acostumado a enxergar por trás da cortina do futebol; e, claro, aqueles que sempre demonstram como o ser humano é um animal  eminentemente egoísta, que no momento de uma grande crise enxerga apenas a própria bunda. Ou no caso, escuta apenas a própria opinião.Basicamente, desde o fatídico disparo do sinalizador, entraram em pauta três áreas diferentes que acomodam  questões controversas: a esportiva, política e criminal. Não me considero especialista em nenhuma delas, mas acho que posso tentar acomodar cada qual no seu devido lugar. Ao menos pra mim, essa divisão ajudou na compreensão do caso e até na construção da minha própria opinião.
I. Esporte
O primeiro ramo da discórdia é o esportivo, geralmente ligado àquilo que envolve a punição ou não ao Corinthians (e, consequentemente, a outros clubes que descumprirem o regulamento do torneio). Não me estenderei sobre qual penso ser o castigo ideal.Se é que há algum. Apenas acredito ser justo aplicá-lo ao clube. Afinal, não há como negar a existência de um desastre causado pela ação de um torcedor que representa duas instituições – torcida e clube, na qual existe uma situação clara em que uma entidade se relaciona de forma próxima e até colaborativa com a outra.Aqui é muito comum  alguém levantar o tom: “mas tem que punir quem soltou o sinalizador eu não soltei então não posso deixar de ver meu time por isso”. Calma, uma coisa é a punição esportiva, que está ligada ao regulamento da competição, outra é a criminal que diz respeito ao Código Penal.Ao meu ver, ao Corinthians cabe acatar a punição com dignidade, e, se possível, encampar um movimento sério para que novas punições sejam aplicadas – não somente nos casos com vítimas fatais – e que o esporte evolua a um patamar  menos belicoso na América do Sul. Não adianta achar que tudo mudará de uma hora para outra. Mas é preciso uma postura firme para criar mecanismos e evitar que certos indivíduos e mentalidades sequer passem perto de um estádio de futebol. Opa, já comecei a dar opinião. Voltemos.Nessa primeira parte da discussão, é bom filtrar os aproveitadores em primeiro grau – aliás, fuja deles! Para esses, a punição só é justa e deve existir quando aplicada contra o clube do outro. São tão rasos que no primeiro nível de algo tão complexo já se escorregam ao colocar  uma discussão que envolve vidas humanas apenas em nível do campo de futebol. Talvez eles tenham dificuldade também para distinguir a grama da bola.Um outro exemplo que se deve evitar são os míopes, com dificuldade de enxergar pouco mais a frente. Basta mencionar os quatro patetas que buscaram reverter uma punição esportiva na Justiça comum, como se a questão mais relevante dessa tragédia fosse o direito do consumidor. Vesgos de tanto olhar para o próprio umbigo, não puderam ver um palmo a frente do nariz, nem o fato de que até poderiam ter prejudicado aquilo que dizem tanto amar, o Corinthians.

 
II. Política
Aqui o personagem central é a entidade (des)organizadora: a sempre letárgica Conmebol, Uma gestora que nunca tomou medidas enérgicas para evitar o flerte constante com desastres, mas que dessa vez não pode mais continuar inerte. Fazendo jus às tradições das confederações do futebol mundial, há tempos vive às voltas com suspeitas e denúncias de corrupção e é comandada por um tiozinho – Sr. Nicolas Leoz – que apesar de ter a mesma idade do ex-Papa Ratzinger não parece ter a mesma disposição em descalçar os sapatos vermelhos e pedir para sair.Ao contrário do que muitos alegam – e aqui vale um novo filtro a algumas opiniões – a incompetência e passividade da Conmebol não atenua, muito menos exime a responsabilidade da clube e da torcida  pela dor da família boliviana. Não se pode contestar a punição esportiva devido aos passos tortos da Conmebol pela política do esporte.Esse caso abre uma possibilidade – talvez única – de mudança nas estruturas dessa instituição que permanece desde os anos 60 em transe no que diz respeito a organização de seus torneios. A ferida aberta poderá ser benéfica para todos os clubes e fãs do futebol ao longo das próximas décadas. E certamente não é o caso de se deter apenas ao campeonato desse ano.No âmbito político, não é possível nos dias de hoje aceitar que rivalidades entre os clubes brasileiros os impeçam de formar uma espécie de grupo que cobre da Confederação Sul-Americana punições e, principalmente, condições para se jogar e organizar partidas de futebol sem risco à integridade de atletas e torcedores. Meu lado otimista ainda crê na possibilidade de que uma tragédia como essa possa servir  de exemplo para uma virada na reabilitação da Copa Libertadores e do  futebol do continente.Agora, se tudo correr como sempre, veremos mais uma tabelinha entre cartolas que olham para um lado e correm para outro. Uma jogada ensaiada só para parecer que as coisas mudarão de uma vez por todas. Não se pode aceitar que o Corinthians seja punido, expiando a culpa aos olhos do mundo, mas que tudo continue como antes e os donos do poder sigam tocando a bola de lado.

Por isso, é de se esperar que o Corinthinas tenha altivez ao lidar com a punição esportiva que alguns torcedores não tiveram e aproveite (de preferência, com o apoio dos clubes brasileiros) para abrir espaço na política. Quem sabe não é hora de liderar uma campanha de moralização.

Todo cuidado é pouco para evitar atitudes que apenas engrossem a fila de palhaços que povoam o circo da cartolagem do futebol na América do Sul.

III. Criminal
Esse ponto certamente é o mais sensível à questão humana. Nele, alguém deverá ser julgado por ter sido o agente do desastre que matou um garoto. Triste.Aqui também não vou me alongar em discutir as suposições convenientes para quem quer que seja e que se possa beneficiar de um menor assumindo essa culpa. A primeira vista, é conveniente demais. Porém, o mais absurdo da história é ela ser perfeitamente factível em um contexto com total desapego de valores esportivos e de convivência humana.Aliás, quando o assunto segue para a área criminal, é imprescindível fugir de alguns teóricos sobre a “maldade inerente dos torcedores organizados”, “banditismo na periferia” e até um neodetermininsmo em que  se buscam apontar alguns moldes de seres humanos.Por não identificar as diferentes áreas que a tragédia expôs, ou até para reduzir a tragédia em apenas um ato, muitos preferem embutir as responsabilidades do desporto e da política no indivíduo que disparou o sinalizador e que, na verdade, deverá ser julgado criminalmente.Como não sou jurista e tampouco sei que o se passava nos momentos antes ao disparo do sinalizador, não quero entrar no mérito da intenção ou não, mas me reservo ao direito de criticar quem parte do princípio do dolo utilizando como argumento algumas teorias e inclinações mencionadas acima. Geralmente, esses são os mais cheios de certeza e, portanto, os que mais falam bobagens.

É bom lembrar que a busca em aliviar a dor ou aplacar a raiva causada por uma tragédia  em uma única pessoa não apaga o que já aconteceu e também não impede o surgimento de novas tragédias. Aplicar uma pena desproporcional sobre quem disparou o sinalizador não resolverá as questões políticas e esportivas que permeiam essa discussão e que podem provocar novos desastres em um futuro não tão distante.

Estádio do Corinthians

Demorei para escrever sobre o assunto “estádio do Corinthians” apenas por achar que esse tema toma rumos que o desviam de sua questão principal: a política. Tinha vontade de simplesmente ignorar quase todas as notícias e comentários que diariamente acompanho no Twitter e encerrar: “vocês realmente acharam que uma Copa no Brasil, unindo o que há de pior do futebol – cartolas e CBF – mais alguns políticos mal intencionados não iria acabar em distribuição do meu, do seu, do nosso dinheiro? ”

Se fosse cínico o bastante, encostaria-me no argumento canalha de que finalmente o Brasil atingiu o ápice da democracia. Afinal, até os esquemas, desvios e embromações para a festa com dinheiro público são feitos em benefício da maioria. No caso, a massa corinthiana.

Só que não é bem assim.

Apesar de estar ainda em processo de terraplanagem,  a cada dia vejo novos desdobramentos em torno do estádio do Corinthians e, como corinthiano, achei por bem dizer o que penso sobre uma obra que deveria ser apenas a realização de um sonho da torcida, mas que acaba se transformando em pretexto para a farra com o dindim dos contribuintes.

Ontem, por exemplo, o governador Geraldo Alckmin confirmou a liberação de mais R$ 70 milhões para o aluguel (?) de 20 mil lugares adicionais exigidos pela FIFA para que o estádio do Corinthians possa sediar a partida inaugural da Copa.

Assim, é praticamente certo que a abertura deverá mesmo ser realizada no Fielzão, Itaquerão, ou seja lá como ele será chamado.

Então, aí vão alguns pontos que penso sobre isso:

1- Antes de qualquer coisa, é preciso dizer que a construção do novo estádio não deve ser analisada sob uma óptica clubística. A regra geral é: corinthianos defendem seus interesses e o incentivo governamental para a obra enquanto são paulinos, palmeirenses, santistas e outros se colocam em oposição. Tornar um assunto complexo em um jogo de futebol no qual só um lado sairá vencedor multiplica os equívocos em efeito dominó, tornando a discussão cada vez mais improfícua.

2 – Sou contra o uso de dinheiro público para a construção de todos os estádios da Copa, inclusive o do Corinthians. Aliás, enquanto a discussão permanece focada ao redor do Fielzão, absurdos iguais acontecem em Manaus, Brasília e outras capitais que terão elefantes brancos alimentados com dinheiro da população.

3 – Como corinthiano, preferiria muito mais que o Timão ficasse em definitivo com o Pacaembu. Não só por toda história de afinidade que ele possui com o clube ou por sua localização privilegiada, mas até por pragmatismo. No Pacaembu, o Corinthians é difícil de ser batido. É lá que o torcedor e jogadores se sentem em casa. Sem contar o fato de que com a construção de um novo estádio, o Pacaembu corre sério risco de se tornar um cemitério de moscas.

4 – Não concordo com corinthianos e com quem quer que seja que usa de oportunismo para defender o Fielzão e argumentar que o estádio do Morumbi também foi construído com a mãozinha do poder público. Não se paga um erro com outro e muito menos com grana que poderia ser utilizada, de fato, para trazer mais qualidade de vida ao povo de São Paulo.Só para lembrar, no Fielzão serão feitos cimento R$ 400 milhões oriundos do BNDES.

5 – Assim como é reprovável que corinthianos justifiquem os fins pelos meios, é igualmente vergonhoso saber que existem torcedores adversários que são capazes de roubar no troco de um refrigerante antes de um jogo de futebol, mas que agora levantam a bandeira da moral e da ética para condenar o novo estádio do Corinthians. Há demagogia pura em alguns que direcionam às causas de vários problemas da cidade à construção do estádio do Corinthians. É como se o prefeito Gilberto Kassab e seu antecessor, assim como Geraldo Alckmin, tivessem recebido votos apenas de corinthianos ou como se os problemas da cidade só houvessem começado agora.

6 – Acho até admirável – às vezes, até honesta – a boa vontade de alguns que defendem a isenção fiscal (serão R$ 200 milhões no Fielzão) para a construção do estádio como incentivo para o desenvolvimento econômico da Zona Leste. Porém, parece-me que isso é história pra boi dormir. Se fosse verdade, muitas isenções já poderiam ter sido propostas para melhorar, por exemplo, as condições das vias públicas naquela região.

7- Por fim, jamais direi bravatas do tipo “enquanto for vivo, não pisarei naquele estádio”. Se ele ficar pronto, tenho certeza de que assistirei jogos lá e espero muito que em meio a tantos absurdos durante seu processo de erguimento, o estádio possa realmente trazer benefícios para a cidade. Mas, cá entre nós, cada dia é mais difícil de acreditar…

Fogueteira do Maracanã

Hoje, em nota na Folha, fui informado sobre a morte da “Fogueteira do Maracanã”.

Em mais de duas décadas essa, talvez, tenha sido a terceira vez que ouvi falar dela.

A primeira delas foi também uma das mais antigas lembranças do futebol e da Seleção que guardo na memória.

Para  quem não sabe da história, foi no último jogo das Eliminatórias da Copa de 90, entre Brasil e Chile, no Maracanã.

Naquela partida, Rosenery Mello – esse é o nome da fogueteira – atirou um rojão da arquibancada que foi parar ao lado do goleiro chileno.

Na ocasião, o guarda-metas era o senhor Roberto Rojas, auxiliar que chegou até a comandar, como técnico, o time do São Paulo.

Nos momentos seguintes ao estouro, Rojas teria sacado uma navalha de suas luvas e cortado a si mesmo.

A ideia era tentar melar a partida e provocar um novo jogo para que o Chile tentasse, enfim, obter uma vaga para o Mundial. Tudo graças a essa noveleta pastelão.

Mas o que se deu foi que a farsa acabou desmascarada rapidamente e a péssima encenação rendeu ao Chile a suspensão de cinco anos do futebol profissional e o Oscar de atuação para Rojas foi ser banido do esporte para sempre.

E o Brasil levou à Copa da Itália uma das piores seleções brasileiras de todos os tempos. Dias depois da partida contra os chilenos, não me lembro ao certo, ouvi dizer que Rosenery seria capa da Playboy. E foi mesmo, em novembro de 1989.

Nunca vi as fotos. Provavelmente porque era muito novo a época e, depois disso, porque nunca mais me lembrei dela. Tenho certeza que entre ontem e hoje as buscas por essas fotos cresceram milhares de vezes.

E agora, ao ler na Folha, via Internet, sobre sua morte, “ouço falar” mais uma vez de Rosenery. Incrível como foi só bater o olho na chamada com a sua antonomásia, ” a fogueteira do Maracanã”, e no mesmo instante me remeti mentalmente a todos os fatos narrados anteriormente.

Talvez a “Fogueteira do Maracanã” seja o primeiro caso de celebridade instantânea presenciei às custas do futebol. Ainda em uma época pré-Internet.

Só fui ouvir falar dela outra vez dela mais de vinte anos depois de se tornar “famosa”, em nota fúnebre na rede.

Sinal de que o tempo não perdoa é que a internet não só cria celebridades instantâneas. Agora também as enterra.

Dunga, o chefe da seleção

Prezado Capitão,

É ruim ter que começar um texto repetindo algo. Mas é preciso dizer, antes de qualquer coisa, que concordo com a sua convocação.

Em 90%.

Lamento apenas o fato de não abrirmos mão de (pelo menos!) um volante para a entrada de um meia de criação ou outro atacante. Não cito nenhum nome para não desviar o assunto.

Ressalto também que não sou um entusiasta de corpo e alma do futebol arte, do futebol ultraofensivo com cinco atacantes ou qualquer outro sistema para quem espera ver seis gols numa mesma partida. Não concordo com os saudosistas que pretendem ainda ver o time de 1970, ou pior, a de 58 em ação novamente (talvez por isso comparem tanto a convocação de Neymar com a de Pelé).

Admiro uma defesa técnica, com senso de cobertura, com os atacantes voltando para marcar e com saída de jogo de qualidade.

Também concordo com o cara que diz que bons ataques ganham jogos, mas boas defesas, campeonatos. E, com certeza, nunca vi em resultados uma preparação tão boa da Seleção.

Enfim, tudo isso para esclarecer que nas pesquisas de opinião sobre o trabalho do treinador da Seleção eu engordaria a minoria ao seu favor, professor.

Mas não consigo gostar da maneira pessoal (e não profissional) como o Dunga comanda a amarelinha.

E só faço essa crítica por admirar o Dunga, o capitão do tetra. O jogador raçudo que berrava e compensava a técnica com garra, mas que também sabia dar seus toques precisos e lançamentos longos de três dedos.

Uma crítica não, calma professor.

Um toque, já que torço para o Brasil ganhar como torci quando vi pela primeira vez uma taça erguida pelo Brasil por suas mãos.

Símbolo de uma liderança, que o levou ao comando da Seleção,  e que é tão indiscutível como a certeza de que a preparação  (?) da Copa de 2006 não poderia se repetir.

Mas, Dunga, você parece ter mergulhado fundo na imagem de capitão.

Quem lê, ou melhor, quem não lê por que não há notícias da Seleção, tem a sensação de que parecemos estar tentando alcançar o extremo da “preparação ideal”.

Jogadores intocáveis como soldados num bunker. Tudo hermeticamente vedado contra a possível contaminação da imprensa e dos torcedores.

Aliás, a higienização parece já ter sido iniciada na escolha dos soldados. Apenas os aria…, ou melhor, apenas aqueles que se enquadram no mais rigoroso grau de seleção jamais realizado na história das nossas seleções.

Há que se dormir cedo e escovar os dentes, pelo menos, quatro vezes ao dia.

Tudo muito certinho e sempre rodeado de discursos de auto-ajuda. Não raros, vazios de significado.

Seu mau humor ao lidar com a imprensa é tão caricato que, às vezes, parece tencioná-lo a dizer bobagens como a de que para saber se a ditadura ou a escravidão foram ruins é preciso tê-las vivido – meu Deus, vou lá tomar umas chibatadas para saber que não é legal ser escravo.

A atuação da assessoria de imprensa também demonstra a blindagem verbal. Ou seja, perguntar pode, mas só aquilo que queremos responder.

Em outras palavras, na Seleção, Dunga, você é um professor que vai muito bem em matemática, mas precisar estudar um pouco mais de humanas.

Não tem problema. Isso é coisa da inexperiência. Afinal, também é novato como comandante de um time de futebol.

Tudo muito planejado, muito sincronizado, muito marcado.

Mas que pode parecer previsível e ultrapassado, às vezes.

Com essa postura exagerada, dá até para pensar que o professor Dunga é um general diante de uma nova Guerra Fria e deseja construir um novo time científico e imbatível.

Talvez como aquele da URSS que levou um baile de Garrincha em 58 (viva os saudosistas!).

Digo tudo isso, pois tanto pelo estilo de jogo que, ao que parece, teremos na Copa, quanto pela frieza que a Seleção transmite com o isolamento e tão poucos jogadores carismáticos, cada vez mais aumenta o fosso entre a Seleção e os torcedores.

Como se já não bastasse tantos jogadores estrangeiros, nem no Brasil o torcedor consegue ficar mais perto deles.

Se futebol é tão sério quanto uma Copa faz parecer ser, diria a você, capitão, que muitas de suas atitudes como técnico contrariam traços marcantes e autênticos do futebol e do povo brasileiro. E que antes de ser um time, a Seleção é um patrimônio da humanidade (e do brasileiro) e você pode estar prestes a cometer um atentado histórico ao descaracterizar ainda mais a Seleção.

Tornar as coisas um pouco menos chatas para a torcida não quer dizer cair na esculhambação. É só uma questão de aproximar duas forças que devem estar juntas.

Devagar, comandante.

A pressão para quem está fora da Seleção, torcendo, também é grande.

Volta do Faith no More

Você, torcedor de algum time, já deve ter imaginado num simples exercício de prazer, como seria bom ver aquela equipe que marcou época jogando novamente.

Algo mais ou menos como se o corinthiano pudesse trazer o time de 99 no lugar daquele horroroso que caiu ou o palmeirense, na mesma situação, fosse capaz de resgatar a equipe de 94 (ou ainda mais longe, o timaço da Academia).
Ou ainda, se o torcedor brasileiro conseguisse levar para a Copa de 90 o time de 82 (sem o Lazaroni também, óbvio).
Claro que as barreiras físicas e do tempo impedem que delírios como esse se tornem reais. Ao menos no futebol.
Porém, acredite, na música isso é possível. Mais especificamente, no Rock, foi exatamente isso que ocorreu.
Claro que o leitor vai dizer que não há novidade nenhuma nos dias de hoje em se assistir o retorno de medalhões com suas velhas guitarras e companheiros de palco.
Seja por oportunismo, por necessidade de fazer uma graninha ou mesmo só por prazer, uma enxurrada de grandes nomes andaram se reecontrando com a sua torcida, ou melhor, seu público. E não são poucos para torcer o nariz, fazer bico e dizer que essas reuniões são pura jogada comercial (e o que é não é em nossos tempos modernos?). De qualquer forma, isso mais parece uma evidência de que em todo lugar há sempre uma turma do amendoim para cornetar.
Desfeito no ano de 1998, o Faith no More voltou em 2009 para dar espetáculo. E conseguiu.
Um timaço de músicos que mais de uma década depois de se separar, repetiu aquilo que faziam de melhor: um som moderno, um concerto autêntico e com muito mais disposição do que a grande parte das “novidades” sonoras do My Space.
No último sábado, o capitão Mike Patton e sua trupe (desfalcada do guitarrista original, mas nem por isso menos afinada) detonaram uma apresentação impecável na Chácara do Jockey em São Paulo (Festival Maquinária). Com chuva e tudo, fizeram os fãs esquecerem as intepéries do tempo (e aqui não me refiro ao clima, mas ao passar dos anos).
O Faith no more fez com que os fãs da música pudessem reviver uma belíssima amostra do que melhor se fez no rock nos anos 80 e 90 e, talvez, mostrar para os novatos algo que eles ainda não puderam ver em bandas hypes da internet: carisma, autenticidade, conhecimento musical e, por que não dizer, geográfico. A banda cantou em português, trocou o “ela é carioca” por “ela é paulista” e ainda preteriu o tradicional “fuck” pelos bem mais sonoros palavrões em português: “porra, caralho”.
Sem se colocar no pedestal de quem sempre precisa ser levado a sério, Mike Patton e cia não renegaram nem a veia brega que se mistura às influências de metal, funk e rap nas músicas do grupo.
Formação clássica é isso aí.

Anos desperdiçados

Há mais de dez anos, durante o show do Kiss, o blogueiro ainda adolescente constatou que Interlagos poderia sediar GPs de Fórmula 1 (há quem pense diferente). Entretanto, não possuía condições para receber uma apresentação musical com um público de final de campeonato.

Ontem (último domingo), dez anos mais velho, aprendi outra vez que uma década não é tempo suficiente para que as coisas mudem em meu país.
Junto a mais de sessenta mil pessoas, passei pelos mesmos terríveis problemas de 1999 e ainda com agravantes.
Em São Paulo, os fanáticos pelo Iron Maiden, fãs de Heavy Metal que são quase uma torcida de futebol, porém com a fúria mais direcionada aos acordes pesados, além de pagar o alto preço dos ingressos, pagaram custosas penitências para assistir ao espetáculo de seus ídolos. Extamente igual ou pior como passam os torcedores nos estádios do Brasil (e ainda pretende sediar uma Copa do Mundo…).
Filas para entrar com inúmeras voltas (quilômetros de gente atrás da outra!) e sem qualquer controle: muitos só conseguiram entrar no Autódromo quando a terceira faixa era executada.
Portões de acesso insuficientes. Na maior parte do tempo, houve apenas um disponível.
Na saída, muitos demoraram mais de uma hora para dar com a cara na rua. O trajeto era espremido em corredores completamente incapazes de absorver a massa. Duvido que milhares de pessoas, no momento da travessia, não pensaram estar diante de uma possível tragédia.
Para dar um ar mais épico como pedem as canções da banda, os fiéis tiveram que assistir a apresentação pisando sobre uma lama movediça. Afinal, é difícil supor (e os organizadores provavelmente nunca ouviram a música de Tom Jobim dizer: “em março as chuvas são recorrentes”) que água mais terra igual a lama.
Um cenário digno de trazer a mente de qualquer roqueiro o lendário festival Woodstock, realizado numa fazenda. Só que em Interlagos, apesar do tratamento de estrume dado aos fãs, não havia nenhum idealismo. Apenas mais um casual destrato com o público no Brasil.
Quanto ao show, muito bom.
Foi como sempre. Sejam eles brasileiros ou não. Sejam das chuteiras ou das guitarras. Lamentável é que haja tanto brucutu com poder no Brasil para roubar o brilho dos craques.

Ode a Guga

A força do guerreiro se reconhece no campo de batalha.

Em Roland Garros, ainda desconhecido, Gustavo Kuerten desmantelou seus adversários para conquistar a primeira das três coroas e ter seu coração, instantaneamente, flechado pelos encantos de Paris.

Como o herói grego Aquiles, Guga, sozinho, fez da raquete espada para riscar sua trilha gloriosa no tênis mundial.

Ainda que o calcanhar nunca o abandonasse, seu quadril o colocou defronte ao inevitável abandono das quadras. Guga gostaria, mas não pode lutar mais. Aos 31 anos, haverá de interromper seus golpes no terreno que o consagrou.

O primeiro duelo em Roland Garros em 2008 é a caminhada para uma derrota sabida (a menos que os deuses resolvam aprontar alguma).

Exatamente como fez o herói grego na derradeira batalha em Tróia. Mas para o verdadeiro guerreiro, a vitória é detalhe frente à verdadeira graça de combater.

Nada melhor que os tempos de luta tenham um fim em seu solo favorito: O saibro. Onde ele desenhou sonhos e corações.

Guga fez para o Brasil o que nenhum guerreiro imaginou e só por isso merece um templo no esporte nacional. Talvez até haja alguém para contestar seu real valor. Não importa. O que fica é a História de suas conquistas. Na França, a odisséia de Guga terá um final feliz.