A arte de se reinventar

“Quando a gente não pode imitar os grandes homens, imite ao menos as grandes ficções”. Essa frase de Machado de Assis, publicada em uma crônica sua, resume com maestria como deveria ser nossa busca por bons exemplos.

No caso de Eduardo Gonçalves de Andrade, muito mais conhecido como Tostão, sem dúvida temos um grande homem para imitar. E mais: se considerarmos que a seleção brasileira de futebol da Copa de 70 não era deste mundo, pode-se dizer que Tostão é parte ainda de uma fantástica obra de ficção.

Lançado no fim do ano passado, o livro “Tempos Vividos, Sonhados e Perdidos” escrito pelo craque brasileiro traz, além de suas memórias e experiências, uma belíssima história de reinvenção, palavra hoje repetida exaustivamente em qualquer atividade profissional.

Entretanto, ouvimos muito que “é preciso se reinventar” mas pouco sobre o que é preciso para se reinventar.

Tostão começou no futebol profissional ainda adolescente. Com 16 anos já atuava pela equipe principal do Cruzeiro. Aos 20 e poucos, conseguiu espaço no time titular daquele que é para muitos o maior esquadrão de futebol de todos os tempos: a seleção brasileira de 1970.

Ao senso comum, ser campeão de uma Copa do Mundo ao lado de Pelé e tantos craques seria suficiente para qualquer jogador ter uma carreira mais do que promissora e segura.

Porém, os desígnios da bola e da vida obrigaram Tostão a mudar, a se reinventar em decorrência de uma necessidade. Um problema na retina o retirou dos gramados quando tinha apenas 26 anos. Em uma época em que jogadores não assinavam contratos multimilionários, Tostão se viu aposentado precocemente e sem perspectiva na profissão que fora seu ganha-pão nos últimos dez anos.

Sem poder escolher largar tudo e fazer um mochilão pela Ásia, Tostão se viu impelido a tomar outro rumo profissional. A seu favor, ele podia contar com inteligência, sensibilidade e cultura acima da média, atributos que nunca desprezou mesmo em seu auge nos campos. Fez cursinho, prestou vestibular e passou em medicina. Os próximos anos ele veria futebol pela TV, clinicando e dando aulas para futuros doutores.

Anos mais tarde, nova transferência. Dessa vez por sua própria vontade. Sairia da medicina e voltaria para o futebol na posição de comentarista. Com o repertório literário que acumulou, a cultura e a didática de quem foi professor, Tostão se tornou um dos melhores analistas – nos diferentes sentidos da palavra – de futebol do país e, novamente, se reinventou com sucesso.

Esse não me parece o objetivo de seu livro, mas Tostão ensina que estudar e saber mais nunca é um desperdício. Não importa se você é atleta, cozinheiro, gerente da repartição ou concursado. Às vezes, é impossível prever quando vamos precisar do conhecimento e das experiências que acumulamos em nossas trajetórias. Além da vontade de se reinventar, é preciso ter humildade para valorizar cada chance de aprendizado.  Se houvesse se confortado apenas com sua imensa capacidade de jogar bola, talvez Tostão estivesse hoje entre tantos ex-grandes-jogadores com dificuldades financeiras e problemas emocionais.

Artigo publicado originalmente no LinkedIn. Siga meu perfil lá para receber os novos textos.

Ela ensinou que podemos ser humanos

patti

Já falamos muito sobre como 2016 foi difícil. Mas já é hora de trocar o calendário e, com ele, alterar nosso mood para seguir a luta.

Sempre busco na arte inspirações para minha vida. Ninguém entende melhor a dor e a alegria do que os artistas.

Quando também aprendemos melhor sobre nossas dores e nossas alegrias nos tornamos mais aptos para evoluir. É uma espécie de darwinismo individual. Ajuda a superar aquilo que não desejamos ou não precisamos ser.

Quando aprendemos melhor sobre nossas dores e nossas alegrias nos tornamos mais aptos para evoluir.

Ano passado, duas das mais importantes referências culturais para mim se foram: David Bowie e Muhammad Ali.

Na música e no esporte, cada um a seu modo, conseguiu com seus trabalhos e suas personalidades transbordar suas mensagens para as mais diferentes áreas do interesse humano como a política, a moda, o ativismo, a literatura.

Por outro lado, em 2016 também ganhei uma nova referência. Redescobri uma artista incrível e que, apesar de minha fissura pelo rock e pela literatura, havia me escapado de conhecer profundamente embora já gostasse de suas músicas.

Patti Smith.

Só Garotos é um livro autobiográfico que a cantora e escritora lançou em 2010 e que só fui ler no último ano depois de comprá-lo em um sebo. É fantástico.

Além da história de como uma garota pobre americana se tornou uma das lendas da música, o texto de Patti Smith traz profundas reflexões sobre a arte e a vida.

Uma das frases que me marcaram diz um pouco sobre como ela vê a si e a seus próprios ídolos: “preferia um artista que transformasse seu tempo, não que o espelhasse”.

Como Patti, acredito que o trabalho não deve ser apenas um retrato frio da nossa sociedade.

No fim de 2016, Patti Smith foi convidada para cantar durante a cerimônia de entrega do Nobel de Literatura. Como ela conta em um texto tocante que escreveu para a revista New Yorker, Patti Smith havia preparado e ensaiado com a banda uma canção do seu repertório. Porém, ao saber que o vencedor do prêmio era Bob Dylan, um dos seus grandes ídolos, resolveu mudar a sua apresentação e cantar uma canção do próprio Dylan.

Durante a apresentação, na frente de grandes personalidades, cientistas, intelectuais e ainda a família real da Suécia, Patti Smith não conteve o turbilhão da emoção que avançou sobre ela. Mesmo com toda sua experiência, precisou parar. Tomou fôlego. Admitiu que estava muito nervosa e começou novamente.

O vídeo rapidamente se espalhou. A naturalidade e a emoção genuína de quem estava fazendo algo com a alma e a franqueza para admitir a emoção e começar de novo em uma situação sem precedentes me fizeram um admirador ainda mais entusiasmado da artista. Dessas coisas que vou procurar levar comigo não apenas ao longo desse ano.

Em um mundo cheio de artificialidades e filtros para esconder nossas imperfeições, enquanto tanta gente busca vender a ilusão da própria perfeição, Patti Smith nos entregou sua verdadeira humanidade.

Em breve, quero ler o outro livro de Patti Smith, Linha M.

Acho que ainda há muito para aprender com ela.

Esse texto foi escrito motivado pela campanha do LinkedIn  #NovosÍdolos de 2017. Você pode ver outros textos que fiz aqui e me seguir para receber os próximos.

Há quem diga que 2016 acaba. Prefiro não arriscar.

2016

Se há uma lição que aprendi é que fazer previsões este ano foi um negócio muito arriscado.

E para não deixar dúvidas, fiz uma lista um tanto imprevisível do que aconteceu em 2016.

Coisas que até Nostradamus duvida.

A previsão mais errada aconteceu nos EUA, terra da NASA. Um país onde se desenvolvem tecnologias avançadíssimas para prevenir o planeta de meteoros apocalípticos, mas que não conseguiu nos proteger da vitória de Donald Trump.

Pior, eles sequer nos avisaram de que isso aconteceria. Com as louváveis exceções do Los Angeles Times e de alguns profetas como Michael Moore, todas as pesquisas que monitoraram a opinião dos eleitores americanos deram a vitória de Hillary Clinton como certa. Decepção que acompanhou a tragédia.

Aliás, uma das causas do triunfo do republicano foi atribuída ao gigantesco compartilhamento de notícias falsas pelas redes sociais usadas como armas de convencimento que ajudaram a moldar a opinião pública em favor de Trump.

Tanto se espalharam os boatos pela Internet que Oxford elegeu a pós-verdade (post-truth) como a palavra do ano. O termo significa aquele momento em que os fatos valem muito menos do que o que aquilo que as pessoas acreditam. Nada mais 2016 do que isso. Agora, cá entre nós, quem também quebrou a cara foram aqueles muitos que sempre acharam que as redes sociais estavam aí só pra gente ficar mais bem informado.

Mas os americanos não estão sozinhos no mundo, ainda que muitos deles não acreditem nisso. No Reino Unido, ninguém vai esquecer de 2016, quando em uma decisão inédita, a população decidiu deixar a União Européia contrariando as expectativas de vários analistas da política internacional.

Junto aos americanos e britânicos, grande parte da imprensa internacional também desandou quando previu que as Olimpíadas no Brasil sofreriam com uma terrível interferência fora das arenas: o vírus Zika que, de fato, foi um enorme problema no Brasil e também em outras partes do mundo, mas que durante os Jogos Olímpicos por aqui contrariou todas as previsões alarmistas. Ao menos, nesse caso, uma previsão que não se concretizou para o nosso próprio bem.

Ainda sobre Olimpíadas: a previsão do Comitê Olímpico Brasileiro também não foi a mais exata. A estimativa era de que a equipe brasileira terminasse em décimo no Quadro de Medalhas. No fim, ficamos em décimo terceiro. Entretanto, essa foi uma previsão bem menos errada do que a de muitos brasileiros que antes dos Jogos apostavam em um fracasso retumbante do país sede que, no caso, éramos nós mesmos. Porém, o que se viu logo na abertura foi exatamente o oposto. O mundo aplaudiu a criatividade e a alegria dos brasileiros que fizeram uma festa com 85% menos gastos do que Londres quatro anos antes.

(Nem vou comentar o tropeção daqueles que previram mais um papelão do futebol masculino depois dos dois péssimos dois jogos iniciais da primeira fase. Ops, já comentei)

No Brasil, muitos entendidos também escorregaram na política em um ano em que até quem nunca gostou do assunto tinha uma certeza pra compartilhar. Economistas, consultorias, pais de santo e milhões de pessoas que foram às ruas pelo Impeachment previram que com a saída de Dilma Roussef as coisas se acalmariam e o sol votaria a brilhar (e, quem sabe, até a corrupção desapareceria). Houve quem previu o dólar estaria abaixo dos três reais até o fim do ano.

Nenhuma coisa, nem outra. Acertaram uns poucos que falaram em uma desestabilização ainda maior das instituições brasileiras frente a uma tempestade política sem fim e a economia ainda passando por fortes turbulências.

A popularidade do novo presidente Michel Temer caiu tanto quanto as previsões mais otimistas pós-impeachment.

Outras previsões furadas que também merecem registro:

“Esse deve ser o último ano do Big Brother, Philip Roth vai ganhar o Nobel de Literatura, Lula preso amanhã, não adianta só trocar o técnico da seleção, Portugal não tem chances de ganhar a Eurocopa, o Inter não cai, cheiro de hepta, esse ano o Palmeiras não ganha o Brasileirão”.

Profetas, clarividentes, futurólogos, pitonisas e aspirantes a oráculos do porvir, a verdade é que 2016 rachou qualquer bola de cristal e é melhor não dar nada como certo até que o relógio dê meia-noite no dia 31.

Alguém arrisca uma previsão para 2017?

Respeitar as vítimas e o público é a melhor forma de se comunicar

Em uma tragédia de proporções gigantescas como a queda do avião que levava a equipe da Chapecoense, delimitar onde se presta uma homenagem e começa a exploração da tragédia muitas vezes confunde as marcas e os meios de comunicação.

O fio da navalha no jornalismo passa entre a necessidade de informar e a busca por cliques ou pontos extras de audiência.

As escolhas disponíveis trarão resultados bem diferentes para quem decidir se comunicar sobre um tema tão delicado quanto a queda trágica de um avião que chocou o mundo inteiro. Essas escolhas dependem de sensibilidade, coisa que a pressa para correr contra o tempo ou a vontade de impactar mais que o concorrente muitas vezes ignora (nos piores casos há interesses ainda menos nobres norteando as ações).

Sobre os casos ruins, não acredito que valem menção. Muito já se falou deles e a rapidez com que foram criticados e se espalharam pelas redes é auto explicativa sobre o danos que uma escolha ruim num momento como esse pode trazer.

chapecoense

O Esporte Interativo tomou uma decisão se não inédita, muito rara no cobertura de um evento como esse: a equipe editorial resolveu não entrevistar parentes das vítimas como forma de preservá-los em um momento tão difícil. Ao constatarem que nenhum familiar poderia acrescentar mais informações do que aquelas disponíveis pelas autoridades ou pelos órgãos de imprensa, o canal optou por não explorar a emoção dessas pessoas. Muitos estranharam a decisão, mas a emissora avaliou que a repercussão entre sua audiência foi positiva.

Outra emissora de TV esportiva, a Fox Sports, detentora dos direitos de transmissão da final da Copa Sul-Americana e que também sofreu com a perda de seus profissionais que viajavam no mesmo avião, fez uma sensível homenagem quando exibiu durante os noventa minutos que seriam dedicados ao primeiro jogo da decisão do campeonato uma tela preta, expressão de luto às vítimas da tragédia.

Impossível não mencionar aquela que foi, talvez, a mais incrível e comovente mobilização (além, é claro, daquela realizada pela própria torcida da Chape): a reunião dos torcedores colombianos do Atlético Nacional, adversário da Chapecoense, no estádio Atanasio Girardot, no horário em que aconteceria o primeiro jogo da final da Copa Sul-Americana. Sem sombra de dúvidas, a atitude mexeu com tanta gente que, além de se tornar mais conhecido, o Atlético Nacional ganhou novos admiradores no Brasil e no mundo inteiro. O grande apelo da marca do clube foi o imenso coração de sua torcida.

Em comum, todas essas manifestações tiveram o cuidado e a precaução em respeitar a dor do próximo e a gravidade da situação, independentemente de qualquer outro valor.

Você acredita na morte do livro?

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“Se você quer ver Deus rir, fale a Ele sobre seus planos”. A frase atribuída a Woody Allen brinca com a nossa incapacidade de controlar o futuro e de não conseguir antecipar os eventos, ainda que o exercício de fazer previsões sobre o que ainda vai acontecer seja inerente ao ser humano desde o momento em que desenvolvemos a capacidade de pensar.

Tirésias, o profeta grego que anteviu a tragédia de Édipo ou os oráculos da Mitologia são antigas evidências de quanto o desejo de enxergar o futuro antes apaixona a humanidade. Os sucessos da ficção científica não me deixam mentir.

Na literatura do século XX, a arte  de imaginar tempos vindouros criou grandes clássicos.  Distopias como Admirável Mundo Novo, Laranja Mecânica e 1984, escritas por célebres nomes da literatura inglesa como Aldous Huxley, Anthony Burgess e George Orwell conceberam realidades ficcionais de um mundo décadas a frente do tempo em que as histórias foram escritas e, é verdade, conseguiram se aproximar de conceitos como o avanço da biotecnologia, da proliferação de câmeras e até da música eletrônica. No entanto, nenhuma dessas obras conseguiu, por exemplo, imaginar o telefone celular.

Todos os exemplos acima podem ser encontrados em livros e, mais do que coincidência, a intenção ao citá-los é a de provocar. Sim, porque o livro, onde muitas vezes os homens registraram suas impressões futurísticas, também é alvo de previsões acerca do seu futuro há muito tempo.

Trabalho com Internet há mais de dez anos e, embora tenha contato diário com a tecnologia, nunca abri mão dos livros em papel que, para mim, suprem uma necessidade não apenas técnica, mas também afetiva. Por isso, sempre acompanhei a discussão (e também as previsões) sobre o mercado editorial e o destino do livro impresso.

Desde o surgimento da web 2.0 – aquela que nos trouxe as redes sociais – leio e vejo os formatos digitais engolirem jornais e revistas no papel e, por consequência, muitos apostaram que o mesmo se daria com os livros físicos.

Em 2011, Silvio Meira, professor emérito da Universidade Federal de Pernambuco deu 15 anos de sobrevida ao livro impresso. Argumentou que esse era tempo suficiente para que fossem substituídos pelo livro digital. Um ano antes, Jean Paul Jacob, pesquisador emérito da IBM na Califórnia, afirmou algo parecido, cravando que, em um futuro próximo, livros digitais e eletrônicos não dividiriam o mesmo tempo e espaço no planeta Terra.

Apesar desses argumentos, anos depois dessas previsões, mais precisamente em 2016, um estudo a da Pew Research Center nos Estados Unidos parece contrariar essa tendência. Segundo a pesquisa, apesar de tantas parafernálias tecnológicas à disposição, os americanos não estão lendo menos livros impressos. 65% dos adultos no país afirmaram ter lido um livro impresso no último ano, mesmo número apontado em 2012. É verdade que 28% disseram ter optado por ebooks, mas esse dado permaneceu estável nos últimos dois anos.

Enquanto isso, 6% das pessoas afirmaram ler exclusivamente livros enquanto 38% ainda dizem preferir apenas a leitura em papel. Além dos números, há também especialistas que descartam a aposentadoria dos livros impressos. O historiador Robert Darnton, que foi Diretor da Biblioteca de Harvard, é um deles. Embora reconheça que esta transformação tecnológica é a mais sensível na longa vida dos livros, ele acredita que livros digitais e impressos coexistirão por muito tempo ainda. Ele relembra: “existem várias profecias de que o livro impresso iria acabar. Todas falharam”.

De fato, para quem em 2011 previu o fim do livro nos 15 anos seguintes, é preciso uma transformação muito mais rápida do que aquela que já vem ocorrendo para que a profecia se concretize ainda na próxima década.

Se levarmos o dilema dos livros para outras mídias, lembraremos que o vinil foi “morto” pelo CD, que por sua vez sucumbiu ao MP3 que, recentemente, cedeu seu lugar ao streaming. Mas o vinil, o mais antigo dessa cadeia, continua vivo. Não como o mais popular formato, mas como uma experiência diferente aos ouvidos de muitos apaixonados por música.

Como consumidor tanto do livro digital quanto do impresso, mas longe de me colocar no papel de pitonisa para garantir o que virá daqui pra frente, apenas destaco que entre um formato e outro é preciso se levar em conta que existem diferentes experiências. No livro digital há uma incrível facilidade de se traduzir palavras de um texto, marcar (e consultar posteriormente) e, claro, carregar várias obras em um mesmo lugar quando se viaja.

Mas quando é para se debruçar na literatura e nas obras de arte escritas através dos séculos, ainda acho que o livro é um esporte de contato físico. Para ler boas histórias ainda não encontrei nenhuma tecnologia melhor do que a definição de livro inventada lá no século XV.

E você? Quanto tempo acha que o livro impresso ainda tem?

Se você se interessa por livros, conheça meu canal sobre clássicos da literatura no YouTube.

Bob Dylan Nobel de Literatura

O reconhecimento de Bob Dylan como Nobel de Literatura provocou uma intensa discussão no mundo todo sobre o significado desse prêmio. Entre aqueles que aplaudiram a decisão de certa forma surpreendente, houve quem achasse que o Nobel faria melhor para a arte da literatura se entregue a um escritor não a um músico.

Houve também aqueles que para criticar a decisão tentassem diminuir a obra de Bob Dylan, mas esses merecem bem pouca consideração.

O fato é que a escolha estimulou uma enxurrada de textos sobre a obra, a carreira e a vida de Bob Dylan e também, claro, opiniões sobre o Nobel entregue ao artista.

No YouTube, fiz um vídeo para comentar o fato e, claro, deixar meu pitaco também.

Abaixo, deixo uma coletânea de links, com vários textos que li (ainda e estou lendo e aumentando a lista) e que recomendo para que as pessoas possam se aprofundar ou, para os não iniciados, que tenham uma dimensão do que representa a figura de Bob Dylan para a arte, além da discussão em torno do merecimento ou não do prêmio Nobel ao artista.

    1. Leonard Cohen: “é como dar uma medalha ao Everest por ele ser o mais alto do mundo”.
    2. 75 fatos sobre Bob Dylan.
    3. Escritor brasileiro comenta de Nova York o Nobel para Dylan.
    4. O Nobel de Dylan na visão do fã: “Eu já sabia!”
    5. Nobel de Dylan: um prêmio para a música
    6. Bob Dylan, 500 vezes mais popular em serviço de streaming
    7. Eduardo Suplicy homenageou Bob Dylan pelo Nobel:

8. Repercussão do Nobel entre escritores e Academia

9. O anúncio do Nobel a Bob Dylan

10. Por que Bob Dylan não deveria ter ganho o Nobel (em inglês)

11. Bob Dylan, Mestre da mudança (em inglês)

12. Vamos celebrar a vitória de Bob Dylan (em inglês)

Se eu fosse você, não mediria sua produtividade em horas

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Imagine um personagem fictício (ou nem tão fictício assim). Ele passa 14 horas no escritório, sempre envolvido nas mesmas tarefas, nas mesmas mensagens de e-mail, nos mesmos sites de notícias e nos mesmos círculos das redes sociais. Todo dia ele cobra de seus funcionários uma ideia diferente ou para usar o clichê (que cabe muito bem para esse personagem), que “pensem fora da caixa”. Mas esse personagem, ele mesmo, entrega cada vez menos resultados e nunca consegue pensar fora da caixa, justamente porque não sai de dentro dela. No caso, sua caixa é o escritório e a rotina massacrante.

Acredito que medir a produtividade por horas é tão eficaz quanto medir altura por quilos

A simplória fábula corporativa serve apenas para introduzir aquilo que vejo como um erro bastante comum entre as pessoas com quem converso sobre trabalho: estabelecer a produtividade por horas de trabalho. Acredito que medir a produtividade por horas é tão eficaz quanto medir altura por quilos. Afinal, você pode pensar que quanto mais alta uma pessoa, maior será seu peso e, às vezes, esse raciocínio até funciona, mas a quantidade de erros que essa premissa vai provocar é gigantesca. Portanto, seguir com ela é, para dizer o mínimo, contraproducente. No caso do personagem citado acima, certamente as 14 horas no escritório não farão jus ao seu nível de produção.

Desconheço quando começou essa história de se medir a produtividade apenas por horas trabalhadas, mas creio que ela era muito forte na primeira metade do século XIX. No período da Revolução Industrial, operários muitas vezes passavam até 18 horas em uma fábrica. A quantidade de horas também era muito apreciada no sistema de produção agrícola de plantation, existente em países como o Brasil. Nele não havia sequer funcionários. Os trabalhadores eram escravos. Felizmente, esses modelos foram extintos da prática legal.

O problema é que o vício de se medir produtividade por horas trabalhadas atravessou os séculos e, parece, estacionou em alguns lugares. Nem é preciso ir tão longe para mostrar como as pessoas ainda acreditam que nesse assunto quantidade é sinônimo de qualidade. Meses atrás, empresários se reuniram com o presidente Michel Temerpedindo uma flexibilidade no aumento de horas da jornada. A proposta (ainda) não foi para frente, mas com certeza a lógica de muitos desses grandes empresários permanece a mesma.

Uma jornada de 12 horas para quem vive em cidade grande – ou até em algumas médias onde o transporte público é ruim – é praticamente impossível se considerarmos aqueles em que ir e voltar do trabalho consome até 4 horas. Mas o leitor atento dirá que quem propõe aumento da jornada tem outros motivos e não está pensando em produtividade. Sim, e o problema é exatamente esse. Muita gente no mercado de trabalho ainda se pauta sob modelos ultrapassados nos quais nem se cogitam esse conceito de produtividade que a gente tanto ouve falar, exatamente como o gestor do início do texto que vive para “trabalhar” muito, mas produzir pouco.

Uma pesquisa publicada em agosto pelo YouGov, um instituto do Reino Unido, mostra que para os britânicos, que trabalham em média 8 horas e meia diárias, uma jornada ideal de trabalho do ponto de vista da produtividade teria 7 horas ou menos.

O estudo vai além. Dividindo o valor do PIB pelo número de horas trabalhadas, eles montaram um ranking com 10 países e descobriram que 7 dos campeões em produtividade possuem as menores jornadas de trabalho (Luxemburgo, Noruega, Suíça, Holanda, Alemanha, Dinamarca e Suécia). Desses países, aquele que apresenta o menor número de horas trabalhadas em um ano é a Alemanha, símbolo de eficiência até para nações como os Estados Unidos, conhecidos como os primeiros a cultuar o perfilworkaholic e que figura em oitavo na lista, duas posições atrás dos germânicos. Só que os EUA entram nessa lista bem menos pela jornada reduzida do que pelo seu PIB, que é o maior do mundo.

“Se homens e mulheres pudessem trabalhar quatro horas por dia em algo útil, o trabalho produziria o suficiente para obter todas as necessidades e confortos da vida”, diria Benjamin Franklin.

Obviamente, não é permitido concluir a partir deste texto que quanto menor o número de horas trabalhadas maior a produtividade. Não quero provar que a inversão da premissa errada seja verdadeira,  mas que o conceito de produtividade é mais complexo do que se pressupõe a lógica primitiva do “produzo mais quanto mais horas trabalho”. Há muitas variáveis para aumentar a produtividade. Inclusive, creio que elas sejam diferentes para cada pessoa.

Mas isso é assunto para outro post.

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Domingos Montagner

Um legado possível da Olimpíada do Rio 2016

Rio de Janeiro

texto publicado no LinkedIn

Em o Velho e o Mar, o escritor Ernest Hemingway escreve uma história aparentemente simples sobre uma longa disputa entre um velho pescador e um enorme peixe. Não são poucas as metáforas possíveis de se extrair dessa obra para a vida e, por consequência, para o esporte. O livro fala sobre a determinação do pescador, que supera as dificuldades do clima e do ambiente, suas limitações da idade, do equipamento e a força do seu adversário aquático.

No texto há uma frase que me marcou e que considero útil nesse momento de notório pessimismo pré-Olimpíada: “É uma estupidez não ter esperança”.

Pois é. Ainda não há muito a se comemorar. A organização teve falhas. A impressão deixada pela Vila dos Atletas, por exemplo, é a de uma antessala onde hasteamos nossa bandeira do improviso e da desorganização.

Muitos daqueles que comandam os negócios dos jogos merecem a medalha da vergonha. Só para ficar em dois exemplos: o prefeito do Rio contracenou uma comédia sem graça com a delegação australiana, com direito a chave da cidade e canguru e o proprietário da construtura que comanda as obras do condomínio da Vila dos Atletas mostrou como a mentalidade de uma parte considerável do empresariado ainda está presa não aos anéis olímpicos, mas aos grilhões da escravidão.

A Baía de Guanabara não escapou das metas não alcançadas e, com sorte, o iatismo não terá uma modalidade inédita em jogos: as regatas com obstáculos – no caso, o lixo.

No esporte, ainda dependemos quase sempre de exceções heroicas em modalidades olímpicas historicamente negligenciadas e sem apoio básico na formação de atletas. O esporte feminino evoluiu pouco e nossa delegação de mulheres, em casa, será a menor em cinco Olimpíadas.

Até a palavra legado, de tão desgastada, já parece maldita. Então, como ter esperança?

Primeiro, acredito que, como na Copa do Mundo, os Jogos Olímpicos serão um sucesso esportivo e teremos uma festa a altura do que merece a primeira Olimpíada da América do Sul. Sim, já recusei a não me contagiar com o “espírito” da Olimpíada.

Não acredito em otimismo aleatório, mas é cedo para dizer que tudo deu errado. Claro que precisamos criticar, cobrar e aprender com nossos (muitos) erros, mas também é necessário fazer um balanço de nossas qualidades e dar vasão ao que temos de melhor. A Copa do Mundo de 58 já nos ensinou que é fundamental abandonar o complexo de vira-latas se um dia desejamos ser ouro em alguma coisa. A Olimpíada do Rio não será a primeira nem a última a ter problemas.

Mas eis aqui minha maior esperança: teremos uma cobertura da Olimpíada como nunca se viu antes.Todas as competições serão exibidas pelos meios de comunicações e, graças a indiscutíveis avanços sociais do Brasil nas últimas décadas,  a Internet também tornará possível difundir para um número de pessoas jamais alcançado não apenas nossos tropeções, mas também o que apresentarmos de melhor nos Jogos.

Não receio parecer ingênuo e, muito menos, romântico. Torço – e creio – que a presença próxima de ídolos do esporte mundial e as conquistas brasileiras serão capazes de inspirar e motivar as próximas gerações, ainda imunes a nossa síndrome de inferioridade. A vontade da garotada em correr como um Bolt ou nadar como um Phelps certamente é capaz de atrapalhar os planos, a indisposição, a ganância e a incompetência de certos governantes e homens de negócio. Nas Olimpíadas do Rio podemos ter o embrião de uma numerosa delegação de futuros atletas de pessoas comprometidas a não se conformar com o nosso atraso.

Em qualquer canto do país a Olimpíada vai inserir uma memória afetiva capaz de transformar realidades de milhões de meninos e meninas.

Em tempo: também não vou perder a abertura dos Jogos que promete ser inesquecível.

Precisamos falar sobre paternidade

pai

As leis de um país se transformam conforme a necessidade de se adequar uma sociedade às mudanças. Ou deveriam se transformar.

Há problemas quando existe um longo distanciamento entre a mudança da sociedade e o acompanhamento da legislação.

Tornar-me pai me escancarou a janela do atraso em que a paternidade é vista na sociedade brasileira e a licença de cinco dias é um reflexo do descompasso da lei com os modelos familiares atuais e de uma nova concepção de paternidade que, acredito, é necessária para os novos tempos.

É verdade que há sinais positivos no horizonte: a possibilidade de aumento para 20 dias estabelecido pelo governo, a instituição de 40 dias de licença aos paisconcedida pela Natura e o movimento de algumas empresas multinacionais para aumentar esse período são dados de alento, mas que mostram que ainda engatinhamos em um tema historicamente ignorado em nossa cultura.

O machismo encalacrado na sociedade brasileira enxerga a responsabilidade parental quase como exclusivamente da mulher. Cuidar de bebês sempre foi brincadeira de meninas. Ao macho cabe correr atrás do alimento. Assim funciona desde a era cenozoica e ainda em grande parte da mentalidade da população. Por isso, creio, a discussão da paternidade sempre foi tão negligenciada.

Quando morei nos EUA, tive uma boa surpresa quando vi nos banheiros masculinos aparelhos para trocar fraldas de crianças. Infelizmente, aqui a gente ainda sofre da dificuldade de encarar a amamentação como algo natural.

Faço coro às palavras do antropólogo basco Ritxar Bacete, quando ele diz que as mudanças de visão da paternidade não acontecem simplesmente “porque há um temor dos homens de que haja igualdade”. Primeiro, porque essa mudança significa uma reviravolta no entendimento da masculinidade tradicional e, segundo, porque ela daria mais autonomia e importância às mulheres.

Engana-se quem pensa que o aumento da licença paternidade seria um benefício exclusivamente masculino.

Aliás, engana-se quem pensa que o aumento da licença paternidade seria um benefício exclusivamente masculino. Ao contrário. Além de proporcionar melhores condições de suporte para que a mulher exerça seu papel de mãe, há ainda um argumento que considero matador e que vi pela primeira vez exposto por uma mulher, a jornalista Mariana Amaro.

Ela defende que as licenças de pais e mães sejam iguais, exatamente como acontece em países como Alemanha (olha outro 7 a 1) e Suécia. Um dos motivos, aponta a jornalista, é que uma mulher tende a sofrer menos discriminação na hora de ser contratada ou ao assumir um cargo de liderança por causa da questão parental. Com direitos iguais fica mais difícil uma empresa pressionar mulheres por essa decisão tão pessoal que é a de ser mãe.

Em tempos em que salários competitivos cada vez mais deixam de ser a única preocupação para se escolher um trabalho, o movimento para a extensão da licença paternidade é também uma ótima alternativa para empresas atraírem profissionais, no mínimo, mais sintonizados aos novos tempos. E essa ideia deveria mobilizar não só companhias mais antenadas ou ligadas a setores como o da tecnologia, mas de todas as indústrias.

É claro que a licença paternidade não é a única questão envolta nesse processo complexo e delicado de transformação do papel do homem na criação dos filhos, mas ela carrega um simbolismo que pode ser capaz de iniciar um novo período de reflexão.

Redefinir o papel dos pais ajuda a estabelecer novos parâmetros sobre como vamos cuidar das próximas gerações e isso significa muito não só para a economia, mas também para a evolução da nossa espécie.