Eduardo Galeano: Figurinha do Uruguai

Eduardo Galeano figurinhaO jornalista e escritor Eduardo Galeano não só é uma importante figura do Uruguai como de toda América Latina.

Seu livro mais conhecido, “As veias abertas da América Latina” se tornou um clássico para aqueles que, no campo do pensamento político, gostam de se posicionar ao lado esquerdo e para aqueles que buscam entender as raízes que prendem o continente ao atraso.

Em se tratando do jogo de bola, seu livro fundamental chama-se “Futebol ao Sol e à Sombra”.

Com ele, Galeano conta a evolução do esporte mais popular do planeta, desde sua pré-história, dos jogos com o pé em bolas ainda rudimentares nas civilizações antigas, passando pelo surgimento das regras modernas na Inglaterra do século XIX e o desenvolvimento do esporte na América no início do século XX.

Futebol ao sol e a sombra capa

Quando chega à era do profissionalismo, o autor faz um apanhado abrangente do futebol usando como linha mestra as Copas do Mundo até a edição dos Estados Unidos, última antes do lançamento do livro, em 1995 (no Brasil, é possível encontrar a mesma edição da imagem, da L&PM Pocket, atualizada até o Mundial de 2010).

Em um dos capítulos iniciais, com tom mais filosófico, Galeano rechaça o axioma “futebol é o ópio do povo”, como se essa fosse uma obrigação pessoal com sua consciência, já que muitos intelectuais de sua estima, como o admirável  Jorge Luis Borges, nutriam desprezo pelo esporte das massas.

O autor não só apresenta bons argumentos de que é possível ser um torcedor assíduo sem cair no fosso da alienação, como também narra com senso crítico aguçado diversos episódios em que o futebol é utilizado perversivamente para enriquecer corporações e dirigentes, ou também como instrumento de propaganda política dos mais nefastos governos, inclusive o Regime Militar brasileiro.

Como promete o título, Galeano não se esquece do futebol e suas sombras. Já quando fala do sol, é uma explosão de craques históricos, folclores e histórias reais contadas em uma linguagem objetiva e ao mesmo tempo com certa poesia.

Batman: A Piada Mortal

BATMAN__A_PIADA_MORTAL_1232491848PComo o mundo em que vivemos, o tempo fez Batman se tornar cada vez mais realista, nada ingênuo, psicologicamente traumatizado e autodestrutivo.

Nos quadrinhos, há trabalhos facilmente reconhecidos como pontos altos deste herói, principalmente  quando as histórias saíam das mãos de gente como Frank Miller, Alan Moore e Dennis O’neil.

Batman: A Piada Mortal, do inglês Alan Moore, é um clássico (No Brasil,  encontra-se uma edição em preto e branco como a da imagem no formato livreto de capa dura. Na internet, é possível adquirir a versão original colorida). Também é uma grande leitura para quem se fascinou com o perturbador Coringa vivido por Heath Ledger nos cinemas.

Os filmes da última trilogia de Christopher Nolan em que Batman é interpretado por Christian Bale mostram bem a transformação que o herói sofreu, primeiro nos quadrinhos, a partir das décadas de 80 e 90.

Outro cineasta, Tim Burton, é fã declarado de “A Piada Mortal” e já apontava para um lado mais sombrio do Homem Morcego em sua visão vivida por Michael Keaton, ainda sem tanta carga psicológica sobre o milionário Bruce Wayne.

Uma das façanhas da obra de Moore é apostar no vilão como protagonista, buscando explicações realistas para o desequilíbrio mental da personagem. Coringa é o “herói ao contrário” da trama. É ele quem distribui os dilemas morais como jogaria suas cartas de baralho à mesa que, no caso, é a cabeça não menos desequilibrada de Batman.  Só que mesmo entre duas mentes ligadas pela loucura, há um desvio crucial que as tornam essencialmente distintas.

Humanizar o palhaço assassino é como mostrar a enorme capacidade de vilanias que o homem pode cometer gratuitamente contra um semelhante. Uma forma de expiar a própria desgraça no sofrimento alheio. Embora, é bom dizer, mesmo sob um cenário tão pessimista, o vilão não triunfe. Não totalmente e no que depender da dupla Batman e Comissário Gordon.

Livro – A Luta, de Norman Mailer

Muhammad Ali - the fightNão seria exagero dizer que este é o livro de esporte mais bem escrito de todos os tempos. Não só pelo talento de Norman Mailer, expoente do jornalismo literário de sua geração (que, entre outros, contava com Truman Capote), mas também porque Muhammad Ali é um personagem por demais fascinante.

Politicamente falando, talvez seja ele das figuras esportivas mais influentes de todos os tempos, a ponto de me fazer arriscar até uma provocação: se Pelé tivesse metade do punch de Ali, talvez a situação do racismo no futebol hoje fosse outra.  Infelizmente, o gênio do futebol lutou sempre do lado mais poderoso. Mas essa é uma outra história.

A “luta” do título não parece apenas uma maneira de se referir ao combate entre Ali e George Foreman em 1974, no Zaire. Mais do que confrontar dois dos maiores pugilistas de todos os tempos, se opunham implicitamente  naquele momento outras forças, como o domínio branco e a autonomia dos negros.

Havia também o pacifismo que se colocava ante à Guerra do Vietnã. Muhammad Ali perdera seu título mundial quando recusou a convocação para o exército enquanto Mailer foi preso depois de protestar contra ela. As “lutas” daquele período ferviam sob fogo alto e, de alguma forma, tanto o boxeador quanto o escritor estavam lá para recuperar algo que haviam perdido.

Não bastasse o contexto político, Norman Mailer tem precisão invejável e, com punhos firmes, descreve um Ali que transcende o gênio esportivo, sem jamais ignorar os fatores decisivos do boxe: treinamento físico, preparação psicológica e a estratégia pensada e desenvolvida para que Ali pudesse lutar em igualdade contra um “Big George” 7 anos mais jovem que ele, no auge da forma física e favorito nas bolsas de apostas.

A primeira vez que me debrucei em “A Luta” foi em uma edição nacional da Companhia das Letras. Gostei tanto que adquiri um exemplar no idioma original para ler novamente (imagem).

 

Superman vs Ali: encontro de heróis

superman-vs-muhammad-ali-99eMuhammad Ali e Super-Homem já se encontraram nos quadrinhos, no início da década de 70, em uma típica história dos tempos mais ingênuos das comics. Não conta com uma complexa estrutura narrativa, nem com tramas psicológicas em que algumas obras mais recentes são pródigas. Mas o roteirista Dennis O’Neil conseguiu tornar o encontro bastante factível e, o mais importante, divertido.

A leitura feita hoje dá ao gibi um caráter de documento histórico também por retratar alguns traços daquele momento da humanidade – só para usar um termo típico das HQs.  Há, por exemplo, uma simples metáfora que traz uma mensagem clara contra a discriminação racial, luta que naquela época revelou personagens fundamentais do planeta Terra como Martin Luther King e Malcom X.

Para não se apoderarem da Terra, dois terráqueos mais fortes decidiriam no boxe quem seria o desafiante do campeão extraterrestre. Então, os alienígenas, cada qual com suas formas, cores, número de membros e de olhos, obrigam Super-Homem a subir no ringue com seu uniforme colorido porque assim seria uma maneira de diferenciá-lo de Ali. No fundo, uma singela forma de dizer que aos olhos de habitantes de outros planetas somos tão iguais que a cor da pele passa desapercebida. Um detalhe levado em conta apenas por humanos, únicos seres dados a essas frivolidades.

O discurso ia ao encontro da postura política de Ali, um notório defensor da igualdade racial e que, além de ser um herói dos ringues, também usou seus poderes – como o fato de ser uma das celebridades mais reconhecidas do mundo – para o bem das pessoas. Coragem em assumir posições que custou ao pugilista um título mundial quando recusou a convocação à Guerra do Vietnã. Depois, ele ainda se converteria ao islamismo, o que seria mais um direto nas fuças da conservadora e cristã sociedade americana.

Ali está entre os poucos esportistas na história a quebrar a barreira de grandes (e meras) celebridades para se tornarem também ativistas. E se você duvida, basta olhar para o maior ícone do futebol brasileiro. Pelé, que no gibi é retratado na plateia durante a luta entre Ali e Super-Homem por ser uma das criaturas mais conhecidas do mundo, jamais abriu mão de sua posição confortável para combater os típicos vilões da cartolagem do futebol e seus planos de dominar o mundo.

Como Ali, poucos puderam estar tão alinhados com os dilemas do Super-Homem, um cara que poderia utilizar sua superioridade para fazer qualquer coisa, mas escolhia sempre estar às voltas em encrencas interestelares sofrendo e brigando para ajudar o planeta que o adotou.  Super-Homem é um herói que atravessa os tempos exatamente por sua opção de encarar dilemas mundanos.

Por sua vez, Muhammad Ali conseguiu transpor a barreira do boxe e do esporte para ser também herói das causas dos simples mortais  e até hoje pode ser símbolo de igualdade e liberdade em tempos que o mundo cada vez mais carece de ídolos verdadeiros.

PS.: A HQ Superman Vs Muhammad Ali foi relançada em 2011 aqui no Brasil pela Editora Panini em edição especial. 

Marighella, protagonista de uma história que ainda ecoa

marighella - PCA contar dos últimos dois anos, nunca li tantas biografias. É verdade que nesse período muito contribuiu a onda incessante de histórias pessoais de roqueiros. Seja como for, esse é um gênero que sempre gostei. Então, posso afirmar com alguma segurança que nas melhores biografias o personagem principal morre no fim.

Escrever sobre gente viva parece  que é uma tendência relativamente nova, da biografia de entretenimento. Nada contra. Mas biografias de personagens vivos contém mais interferências e menos distanciamento. Isso se o biografado não for um Roberto Carlos, capaz até de vetar uma publicação não autorizada.

Então, se é para falar de gente que participou ativamente da História e, principalmente, de um personagem controverso, penso que o tempo é a senha para se chegar a versão mais fiel possível dos fatos.

No caso da biografia “Marighella, o guerrilheiro que incendiou o mundo”, escrita por Mário Magalhães e lançada pela Companhia das Letras, o tempo foi útil na busca, por exemplo, de fontes e documentos capazes de esclarecer alguns fatos e derrubar alguns mitos. Muitos destes consagrados por distorções involuntárias, outros por mentiras conscientes.

Além disso, mesmo que o protagonista tenha morrido há mais de 50 anos, muitos temas que perpassam a obra estão mais vivos do que nunca. Alguns, talvez, nunca morrerão. E aí está um dos méritos de uma boa biografia. Nesse caso, há ainda um toque pessoal de coincidência em uma obra que mergulha na militância política nacional e que acabei lendo justamente quando no Brasil pipocaram manifestações depois de um longo período de dormência.

Por isso, listei alguns desses assuntos recorrentes (uns mais sérios, outros nem tanto). Com mais ou menos spoilers (fica o aviso!), tento mostrar a relevância atual das quase 600 páginas que prezam pelo detalhe e acuracidade das informações, atravessando trechos dos mais conturbados da História recente do Brasil: o Estado Novo e o  início do Regime Militar.

Brasil e Argentina: A projeção de Ernesto Che Guevara é mundial e incontestavelmente maior. Tanto que até os brasileiros conhecem bem mais o argentino. Mas Carlos Marighella é, em muitos aspectos, comparável a Che. Além da oposição ferrenha ao capitalismo, é impossível negar o carisma, coragem e determinação como características comuns. Entre as diferenças, uma delas é que Marighella sempre teve como campo de atuação o seu país.

Seleção e Política: muita gente torceu contra a seleção brasileira na Copa das Confederações sob o discurso de protesto à CBF e/ou ao “governo”. Em 1970, mesmo com o uso que a ditadura fez do escrete Canarinho, Marighella torceu pela Seleção. Até porque o time de feras foi arquitetado por um treinador que era seu camarada, o comunista João Saldanha. Isso antes de Zagallo assumir com a anuência dos militares.

Fla-Flu político: a discussão política do país hoje, muitas vezes, fica restrita ao duelo PSDB-PT, como se a essência e os interesses de ambos fossem opostos. Durante a Guerra Fria, há também o erro em se reduzir a disputa apenas em capitalistas e comunistas, sem se levar em conta as inúmeras diferenças que existiam dentro de cada um desses blocos. Longe disso, o livro detalha muitos abismos ideológicos da esquerda brasileira, alguns estratégicos no combate ao inimigo comum. Também mostra quando as contradições e discrepâncias dentro das próprias militâncias emperram a engrenagem de um movimento de oposição, como foi com a Ditadura Vargas e pós-golpe de 64.

Culto a personalidade: Em “Marighella”, ficam claros certos vícios dos militantes políticos como o culto excessivo à personalidade. O exemplo mais evidente é o do Cavaleiro da Esperança, Luis Carlos Prestes, sempre impermeabilizado pelos comunistas quanto aos seus erros e defeitos. Ainda nesse tema, um dos pontos altos do livro é quando Marighella descobre que Stalin não era bem o ser humano que ele pensava ser. Atualmente, essa adoração à personalidade é visível na fúria de alguns partidários quando se crítica o ex-presidente Lula ou, na outra margem do rio, o também ex, FHC.

Espionagem americana:obviamente não é de hoje que os EUA praticam sua arte da vigilância. Em plena Guerra Fria, o monitoramento tinha como discurso o “perigo comunista” e, como hoje, a “ameaça terrorista”. No fundo, a balela de vigiar pela “segurança pública” persiste como um meio que se encontra para exercer e preservar um controle. O livro relata episódios de agentes infiltrados nos grupos armados e há até alguns momentos sublimes em que a CIA se mostra muito mais bem informada sobre a situação dos grupos guerrilheiros do que o governo brasileiro. Mesmo que os militares sempre estivessem ao dispor em cumprir as vontades dos norte-americanos.

Igreja e política: a má fama da Igreja Católica como consequência de suas posições em relação as diferenças de gêneros, a sexualidade e aos crimes cometidos dentro da instituição contribuem para uma generalização moral dos religiosos. Mas a história da militância no Brasil lembra que, apesar de muitos padres e bispos católicos estarem ao lado dos milicos, muitos deles, como os dominicanos, enfrentaram com coragem os desmandos da ditadura. Inclusive, sofreram como poucos nas horríveis salas de torturas que, por sua vez, nunca pouparam mulheres, nem homens de batina.

Policia: em meio aos estouros de manifestações em vários locais do país,  graças às redes sociais e a imprensa ninja, algumas armações da Polícia Militar  se tornaram públicas. No livro, o autor esmiúça diversos procedimentos ilegais  dos tiras, inclusive com respaldo de órgãos da imprensa. O principal deles é a barbárie da tortura. Mas a Ditadura também foi exímia na manipulação de fatos com a falsificação de documentos, alteração da cena do crime, adulteração de depoimentos, ameaça às testemunhas, entre outros estratagemas. Os episódios de abusos da PM que acompanhamos nas últimas manifestações em diversos estados do País comprovam a influência das mais de duas décadas de regime militar no procedimento policial, ainda muito mais repressor do que protetor da sociedade. O destaque evidente do livro é a demonstração de como a polícia política do facínora  Delegado Fleury fraudou escandalosamente a cena da execução (e não de combate) de Carlos Marighella.

Volta da Ditadura Militar: algumas ideias que o atual momento de eferverscência política trouxe à tona já deveriam estar enterradas. Mas isso talvez faça parte do processo. A mais perigosa é a que prega a falácia sobre “a volta da Ditadura”. Para alguns, um regime ditatorial seria melhor do que a democracia que vivemos. Bobagem colossal. A diferença é que a corrupção existia na proporção de um país que ainda contava 90 milhões de habitantes. Basta lembrar o escândalo que foi uma Transamazônica. Só que em um regime totalitário, se alguém vai à rua se manifestar ou se um grupo se reúne para se opor às atrocidades do governo corre o risco de apanhar e ser preso. Ou pior: ser torturado e morto.

PS.: por último, é impossível, no meu caso, deixar de mencionar que Carlos Marighella era baiano, mas no estado paulista seu coração batia pelo Corinthians.

Graciliano Ramos e os ecos de São Bernardo

GracilianoRamosA Flip acabou no último domingo. Mas pra mim, longe da bela cidade de Paraty, a Feira Literária serviu como impulso para reler São Benardo, obra do homenageado da vez, Graciliano Ramos.

Primeiro, pensei que daria um bom texto o que  autor acharia da Flip. Mas como desconfio se iria até lá ser recebido com aquela pompa…

No fim das contas, optei por outro exercício  divertido. Quem sabe uma receita mais saborosa do que aquelas atividades obrigatórias de vestibular que só tornam os jovens mais distantes da leitura de gênios como Graciliano Ramos, Guimarães Rosa e Machado de Assis.

Peguei uma dose de realismo fantástico, um pouco de quadrinhos de Stan Lee e adicionei ao realismo cru e ainda atual de Graciliano. De São Bernardo, obra mais política dele, tirei Paulo Honório, um protagonista nada heroico. Em seguida, imaginei se como o Capitão América, ele dormisse durante uns 80 anos e, de chofre – diria o autor – acordasse no Brasil dos dias atuais. Como ele se situaria? Quais seriam suas posições?

Primeiro, é bom contextualizar. São Bernado se desenvolve na medida em que Paulo Honório conta sua própria história e liberta a voz do autor para uma análise política e social do meio e também profundamente psicológica sobre um rico fazendeiro de origem pobre que alcançou seu único sonho: conquistar a propriedade de São Bernardo, nas Alagoas, sujando as mãos de terra, suor e sangue.

Sujar as mãos de terra significa que Paulo Honório, lá no início dos anos 30, é um fazendeiro que não possui a nobreza nas veias. Não herdou seu latifúndio, tampouco a oportunidade de estudar. Conquistou tudo com  suor e sangue. Principalmente que escorreram dos outros. É uma espécie de coronel “emergente”. De pouco vocabulário, seria incapaz de afirmar que a ética é coisa de filósofos como um dia fez Eurico Miranda, baluarte do coronelismo futebolístico brasileiro. Simplesmente porque desconhecia tal palavra. Muito menos sua prática.

Apesar de deixar claro no primeiro capítulo que sua meta era fazer um livro de sua vida calcado na divisão do trabalho,  Paulo Honório não possui a sofisticação marqueteira de um empresário moderno dos nossos tempos. Não teria, por exemplo, inclinações cabalísticas para batizar  sua Fazenda São Bernardo de FSBX, nem possuía imaginação suficiente para “descobrir” campos de petróleo em meio às plantações de algodão. Mas é incrível como sua maneira brutalizada de enxergar o mundo não estaria muito distante dos dias de hoje. Méritos da obra que, assim como Vidas Secas, segue contemporânea.

Por isso, conforme Paulo Honório vai se abrindo, mais próximo vai se desenhando dos barões do século XXI. É incapaz de viver fora de seu mundo cercado, a despeito de toda riqueza que acumulou. O medo de perdê-la, misturado à inapetência pelo conhecimento, o fazem prisioneiro de sua propriedade.

Ele também é cego para aspectos não materiais. Basta dizer que quando sua futura esposa lhe pergunta se sua fazenda é bonita, ele não sabe a resposta. Apenas diz que é “regular” em sua produtividade. Passagem que lembra Ricardo Teixeira em uma entrevista à revista Piauí, quando também abre seu coração vazio e se mostra tomando champanhe de costas para os jardins de seu hotel em Zurique. Durante tantas estadias na Suíça, o cartola que reinou por mais de vinte anos na CBF também era incapaz de notar qualquer coisa fora de seu caminho para obtenção de mais poder.

Graciliano Ramos expõe com tal clareza as frações do pensamento da personagem que também não seria difícil apontar certas posições para alguns assuntos da agenda pública mais recente.

Paulo Honório não votaria contra a PEC 37. No máximo, seria daqueles que mudaria o voto na última hora. Ainda que por seu destemor destemperado, apostaria mais na primeira opção, agindo como um corrupto que não vê problema em se mostrar assim aos olhos de todos.

Paulo Honório também era incapaz de ver benefícios na educação. Tanto para os outros quanto para si mesmo. O que faria crer que jamais aprovaria a ideia de destinar lucros do petróleo para a melhoria dessa pasta. Aliás, ele é sensivelmente influenciado pela mentalidade escravista e, portanto, como algumas socialites de nossos tempos, provavelmente se escandalizaria com os direitos trabalhistas para empregadas domésticas.

E sobre manifestações? A grandeza da obra faz com que Paulo Honório não seja linear. Por isso, fica difícil apontar exatamente para qual lado o fazendeiro tiraria proveito da situação como fizeram alguns da ala mais conservadora do país. No entanto, em diversos momentos ele afirma não se interessar muito por política e também não pertencer a um partido. Mas seu discurso apartidário é desmentido por ele mesmo ao narrar a constante repressão que exercia sobre as ideais “socialistas” de seu empregado e até da esposa, além do financiamento de veículos de comunicação e políticos que facilitassem seus lucros.

Mesmo desgostando da política, é possível prever que a força das circunstâncias o faria ter uma cadeira cativa por anos no Congresso.  Aliás, a essa altura também não é preciso explicar muito, em se tratando de  questões ambientais, ele se posicionaria ao lado da bancada da serra elétrica. Não é preciso nem dizer o que Paulo Honório acharia da reforma agrária.

Nesta suposição futurista da obra de Graciliano, o que talvez mudaria fosse justamente o fim. Nos dias de hoje, é possível que seu destino fosse bem menos melancólico do que a solidão que lhe toma conta e o leva a escrever sua biografia. Com o livro publicado, não seria espantoso ver Paulo Honório tomando chá com alguns amigos em uma cadeira na ABL.

As manifestações e a máscara do “V de Vingança”

Muito se viu, um tanto se falou sobre a máscara que manifestantes usavam nas passeatas pelo país nas últimas semanas. Alguns tuiteiros mais azedos de bate-pronto já apontaram até para a banalização do acessório. Diriam: “virou clichê”.

Mas no mundo de informações rápidas, quantas coisas são repetidas sem reflexão? Quantas vezes nos deparamos com a mesma coisa sem que se saiba seu verdadeiro significado? Não seria injusto afirmar que muitos trajando a tal máscara, desconheciam totalmente sua origem. No entanto, buscarei a justa vendetta para aqueles que exibiam conscientes e orgulhoso o sorriso que surgiu bem antes que os emoticons se tornassem uma nova forma de expressão na linguagem digital. Minha lição de casa neste fim de semana foi reler a obra que levou a mania às ruas: a comic V de Vingança, do autor britânico Alan Moore.

Nâo entrarei na discussão da validade ou não de se cobrir o rosto durante uma manifestação política. Sobre isso também muita coisa já foi dita por aí. Meu objetivo é apenas tentar explicar e legitimar o “V” como um símbolo pop da indignação e, por isso, adequado à causa do momento.

O primeiro equívoco que li no Facebook, este que em breve poderá ser rebatizado como a Wikipedia universal dos equívocos, é a confusão entre a personagem “V” da  HQ e Guy Fawkes, um cara que viveu no início do século XVII e que inspirou o desenhista David Lloyd a criar a máscara do vingador anarquista. Fawkes foi um extremista católico que acabou preso porque, em um plano maluco, pretendia explodir o Parlamento inglês. Acabou delatado. Fora os traços do rosto e o uso de explosivos contra o poder, as coincidências entre as figuras terminam aí. Como me parece óbvio, no caso dos jovens manifestantes, a cultura pop exerceu muito mais influência do que a História britânica. Portanto, mantenho o foco na obra de Moore, finalizada em 1988, durante o terceiro mandato da Donzela de Ferro, defensora dos bons costumes e da moral Margaret Thatcher e que, inclusive, virou filme em 2006. Presumo que muitos conheçam a personagem apenas do cinema.

Antes de transcrever um parágrafo com as aspas do autor que por si só já valeriam a indicação de leitura, peço que esqueçam as imagens de amigos posers trajando o adereço. Vou listar bons motivos para defender a máscara do “V” que, no fundo, são correlações entre nossa atual realidade e o cenário fictício da trama ambientada na Inglaterra do fim dos anos 90, sem é claro, me estender pela narrativa e estragar sua leitura posterior.

Primeiro, “V de Vingança” mostra com tinta forte a letargia do povo frente a manipulação das instituições e da informação e como um baque na estrutura inevitavelmente traz ondas de violência e, principalmente, uma horda de aproveitadores que desejam tomar as rédeas da situação. Segundo, a relação de subserviência da mídia com a versão oficial, algo que se na Turquia da praça Taksim chega a níveis catastróficos, por aqui, onde a democracia é menos centralizada, acabou fazendo a Rede Globo como a grande – e única? – vilã novelesca da trama. No Brasil, os enfoques dos principais jornais e programas de TV deram uma virada e trouxeram à baila os exageros da polícia militar somente depois que as redes sociais insistiram em desmentir o que alguns veículos classificavam apenas como “repressão aos vândalos”. Terceiro, Alan Moore, retorna a George Orwell e aponta o que o mais recente vazamento do governo Obama deixou respingar na agenda de temas públicos: a vigilância dos governos e das corporações da Internet.

A comparação também cabe na forma como a história conta, em meio a várias referências eruditas e pop, o soterramento da cultura e, principalmente, das grandes obras pelo “sistema”, aquela entidade meio abstrata que o anarquista quer destruir e que é formada basicamente por seres humanos que controlam os governos e a vida da população. Em nosso país, cabe refletir sobre esse tema: quanto tempo (e dinheiro) foi e é gasto em troca de acusações entre partidários de um governo que domou a inflação e militantes de outro que foi capaz de gerar uma sutil mobilidade social enquanto do ponto de vista educacional e cultural ambos nada ou pouco fizeram em quase vinte anos?

Por último, abro alas para que o próprio Alan Moore contextualize sua obra em um cenário fascista, em meio a crise climática – que para ele aconteceu apenas depois de uma guerra nuclear – idealizado por ele e justifique o que, em tempos de tantas menções vazias, possui um significado relevante. Não um clichê banal. E se é caso de proibir o lugar comum, afirmo sem medo sobre as palavras abaixo que qualquer semelhança com algum teor de nossa realidade não é mera coincidência:

“Estamos em 1988 (…) um jornal tablóide acalenta a ideia de campos de concentração para pessoas com AIDS. Os soldados da tropa de choque usam visores negros, bem como seus cavalos; e suas unidades móveis têm câmeras rotativas instaladas no teto. O governo expressou o desejo de erradicar a homossexualidade até mesmo como conceito abstrato. Só posso especular sobre qual minoria será alvo dos próximos ataques (…).

Paro por aqui. Apenas recordo que estamos 25 anos a frente de quando a obra foi escrita.

Acho que vocês já entenderam.