Time do Chico Bento

Quando pequeno lia todos os gibis da Turma da Mônica.

Foram um impulso e tanto para pegar gosto pela leitura.

Imagino que para mim esta e outras histórias em quadrinhos tiveram o mesmo efeito que Harry Potter possui em algumas crianças de hoje.

Sempre soube que, igual a mim, Cascão era corinthiano.

E, claro, que o Cebolinha era torcedor do rival.

Até que na semana passada, assistindo ao programa Loucos por futebol, na ESPN Brasil, o convidado era Maurício de Sousa e o brilhante Celso Unzelte tira de sua cartola historiográfica uma edição da revista Placar em que o próprio criador e pai da são-paulina Mônica diz quais são os times de futebol de seus principais personagens.

Sim, Chico Bento, dos meus personagens favoritos é, segundo seu criador,  torcedor do São Bento de Sorocaba, clube da minha cidade natal e o primeiro time que vi atuar em campo, na mesma época em que lia histórias da Turma da Mônica.

Em uma rápida consulta ao oráculo digital, descubro que um blog de sãobentistas já fizera antes essa descoberta que tanto me encantou. Foi de lá que tirei a reprodução da imagem da edição de Placar de lá do início da década de 80.

São Bento é tradição.

Superman vs Ali: encontro de heróis

superman-vs-muhammad-ali-99eMuhammad Ali e Super-Homem já se encontraram nos quadrinhos, no início da década de 70, em uma típica história dos tempos mais ingênuos das comics. Não conta com uma complexa estrutura narrativa, nem com tramas psicológicas em que algumas obras mais recentes são pródigas. Mas o roteirista Dennis O’Neil conseguiu tornar o encontro bastante factível e, o mais importante, divertido.

A leitura feita hoje dá ao gibi um caráter de documento histórico também por retratar alguns traços daquele momento da humanidade – só para usar um termo típico das HQs.  Há, por exemplo, uma simples metáfora que traz uma mensagem clara contra a discriminação racial, luta que naquela época revelou personagens fundamentais do planeta Terra como Martin Luther King e Malcom X.

Para não se apoderarem da Terra, dois terráqueos mais fortes decidiriam no boxe quem seria o desafiante do campeão extraterrestre. Então, os alienígenas, cada qual com suas formas, cores, número de membros e de olhos, obrigam Super-Homem a subir no ringue com seu uniforme colorido porque assim seria uma maneira de diferenciá-lo de Ali. No fundo, uma singela forma de dizer que aos olhos de habitantes de outros planetas somos tão iguais que a cor da pele passa desapercebida. Um detalhe levado em conta apenas por humanos, únicos seres dados a essas frivolidades.

O discurso ia ao encontro da postura política de Ali, um notório defensor da igualdade racial e que, além de ser um herói dos ringues, também usou seus poderes – como o fato de ser uma das celebridades mais reconhecidas do mundo – para o bem das pessoas. Coragem em assumir posições que custou ao pugilista um título mundial quando recusou a convocação à Guerra do Vietnã. Depois, ele ainda se converteria ao islamismo, o que seria mais um direto nas fuças da conservadora e cristã sociedade americana.

Ali está entre os poucos esportistas na história a quebrar a barreira de grandes (e meras) celebridades para se tornarem também ativistas. E se você duvida, basta olhar para o maior ícone do futebol brasileiro. Pelé, que no gibi é retratado na plateia durante a luta entre Ali e Super-Homem por ser uma das criaturas mais conhecidas do mundo, jamais abriu mão de sua posição confortável para combater os típicos vilões da cartolagem do futebol e seus planos de dominar o mundo.

Como Ali, poucos puderam estar tão alinhados com os dilemas do Super-Homem, um cara que poderia utilizar sua superioridade para fazer qualquer coisa, mas escolhia sempre estar às voltas em encrencas interestelares sofrendo e brigando para ajudar o planeta que o adotou.  Super-Homem é um herói que atravessa os tempos exatamente por sua opção de encarar dilemas mundanos.

Por sua vez, Muhammad Ali conseguiu transpor a barreira do boxe e do esporte para ser também herói das causas dos simples mortais  e até hoje pode ser símbolo de igualdade e liberdade em tempos que o mundo cada vez mais carece de ídolos verdadeiros.

PS.: A HQ Superman Vs Muhammad Ali foi relançada em 2011 aqui no Brasil pela Editora Panini em edição especial. 

As manifestações e a máscara do “V de Vingança”

Muito se viu, um tanto se falou sobre a máscara que manifestantes usavam nas passeatas pelo país nas últimas semanas. Alguns tuiteiros mais azedos de bate-pronto já apontaram até para a banalização do acessório. Diriam: “virou clichê”.

Mas no mundo de informações rápidas, quantas coisas são repetidas sem reflexão? Quantas vezes nos deparamos com a mesma coisa sem que se saiba seu verdadeiro significado? Não seria injusto afirmar que muitos trajando a tal máscara, desconheciam totalmente sua origem. No entanto, buscarei a justa vendetta para aqueles que exibiam conscientes e orgulhoso o sorriso que surgiu bem antes que os emoticons se tornassem uma nova forma de expressão na linguagem digital. Minha lição de casa neste fim de semana foi reler a obra que levou a mania às ruas: a comic V de Vingança, do autor britânico Alan Moore.

Nâo entrarei na discussão da validade ou não de se cobrir o rosto durante uma manifestação política. Sobre isso também muita coisa já foi dita por aí. Meu objetivo é apenas tentar explicar e legitimar o “V” como um símbolo pop da indignação e, por isso, adequado à causa do momento.

O primeiro equívoco que li no Facebook, este que em breve poderá ser rebatizado como a Wikipedia universal dos equívocos, é a confusão entre a personagem “V” da  HQ e Guy Fawkes, um cara que viveu no início do século XVII e que inspirou o desenhista David Lloyd a criar a máscara do vingador anarquista. Fawkes foi um extremista católico que acabou preso porque, em um plano maluco, pretendia explodir o Parlamento inglês. Acabou delatado. Fora os traços do rosto e o uso de explosivos contra o poder, as coincidências entre as figuras terminam aí. Como me parece óbvio, no caso dos jovens manifestantes, a cultura pop exerceu muito mais influência do que a História britânica. Portanto, mantenho o foco na obra de Moore, finalizada em 1988, durante o terceiro mandato da Donzela de Ferro, defensora dos bons costumes e da moral Margaret Thatcher e que, inclusive, virou filme em 2006. Presumo que muitos conheçam a personagem apenas do cinema.

Antes de transcrever um parágrafo com as aspas do autor que por si só já valeriam a indicação de leitura, peço que esqueçam as imagens de amigos posers trajando o adereço. Vou listar bons motivos para defender a máscara do “V” que, no fundo, são correlações entre nossa atual realidade e o cenário fictício da trama ambientada na Inglaterra do fim dos anos 90, sem é claro, me estender pela narrativa e estragar sua leitura posterior.

Primeiro, “V de Vingança” mostra com tinta forte a letargia do povo frente a manipulação das instituições e da informação e como um baque na estrutura inevitavelmente traz ondas de violência e, principalmente, uma horda de aproveitadores que desejam tomar as rédeas da situação. Segundo, a relação de subserviência da mídia com a versão oficial, algo que se na Turquia da praça Taksim chega a níveis catastróficos, por aqui, onde a democracia é menos centralizada, acabou fazendo a Rede Globo como a grande – e única? – vilã novelesca da trama. No Brasil, os enfoques dos principais jornais e programas de TV deram uma virada e trouxeram à baila os exageros da polícia militar somente depois que as redes sociais insistiram em desmentir o que alguns veículos classificavam apenas como “repressão aos vândalos”. Terceiro, Alan Moore, retorna a George Orwell e aponta o que o mais recente vazamento do governo Obama deixou respingar na agenda de temas públicos: a vigilância dos governos e das corporações da Internet.

A comparação também cabe na forma como a história conta, em meio a várias referências eruditas e pop, o soterramento da cultura e, principalmente, das grandes obras pelo “sistema”, aquela entidade meio abstrata que o anarquista quer destruir e que é formada basicamente por seres humanos que controlam os governos e a vida da população. Em nosso país, cabe refletir sobre esse tema: quanto tempo (e dinheiro) foi e é gasto em troca de acusações entre partidários de um governo que domou a inflação e militantes de outro que foi capaz de gerar uma sutil mobilidade social enquanto do ponto de vista educacional e cultural ambos nada ou pouco fizeram em quase vinte anos?

Por último, abro alas para que o próprio Alan Moore contextualize sua obra em um cenário fascista, em meio a crise climática – que para ele aconteceu apenas depois de uma guerra nuclear – idealizado por ele e justifique o que, em tempos de tantas menções vazias, possui um significado relevante. Não um clichê banal. E se é caso de proibir o lugar comum, afirmo sem medo sobre as palavras abaixo que qualquer semelhança com algum teor de nossa realidade não é mera coincidência:

“Estamos em 1988 (…) um jornal tablóide acalenta a ideia de campos de concentração para pessoas com AIDS. Os soldados da tropa de choque usam visores negros, bem como seus cavalos; e suas unidades móveis têm câmeras rotativas instaladas no teto. O governo expressou o desejo de erradicar a homossexualidade até mesmo como conceito abstrato. Só posso especular sobre qual minoria será alvo dos próximos ataques (…).

Paro por aqui. Apenas recordo que estamos 25 anos a frente de quando a obra foi escrita.

Acho que vocês já entenderam.