Marighella, protagonista de uma história que ainda ecoa

marighella - PCA contar dos últimos dois anos, nunca li tantas biografias. É verdade que nesse período muito contribuiu a onda incessante de histórias pessoais de roqueiros. Seja como for, esse é um gênero que sempre gostei. Então, posso afirmar com alguma segurança que nas melhores biografias o personagem principal morre no fim.

Escrever sobre gente viva parece  que é uma tendência relativamente nova, da biografia de entretenimento. Nada contra. Mas biografias de personagens vivos contém mais interferências e menos distanciamento. Isso se o biografado não for um Roberto Carlos, capaz até de vetar uma publicação não autorizada.

Então, se é para falar de gente que participou ativamente da História e, principalmente, de um personagem controverso, penso que o tempo é a senha para se chegar a versão mais fiel possível dos fatos.

No caso da biografia “Marighella, o guerrilheiro que incendiou o mundo”, escrita por Mário Magalhães e lançada pela Companhia das Letras, o tempo foi útil na busca, por exemplo, de fontes e documentos capazes de esclarecer alguns fatos e derrubar alguns mitos. Muitos destes consagrados por distorções involuntárias, outros por mentiras conscientes.

Além disso, mesmo que o protagonista tenha morrido há mais de 50 anos, muitos temas que perpassam a obra estão mais vivos do que nunca. Alguns, talvez, nunca morrerão. E aí está um dos méritos de uma boa biografia. Nesse caso, há ainda um toque pessoal de coincidência em uma obra que mergulha na militância política nacional e que acabei lendo justamente quando no Brasil pipocaram manifestações depois de um longo período de dormência.

Por isso, listei alguns desses assuntos recorrentes (uns mais sérios, outros nem tanto). Com mais ou menos spoilers (fica o aviso!), tento mostrar a relevância atual das quase 600 páginas que prezam pelo detalhe e acuracidade das informações, atravessando trechos dos mais conturbados da História recente do Brasil: o Estado Novo e o  início do Regime Militar.

Brasil e Argentina: A projeção de Ernesto Che Guevara é mundial e incontestavelmente maior. Tanto que até os brasileiros conhecem bem mais o argentino. Mas Carlos Marighella é, em muitos aspectos, comparável a Che. Além da oposição ferrenha ao capitalismo, é impossível negar o carisma, coragem e determinação como características comuns. Entre as diferenças, uma delas é que Marighella sempre teve como campo de atuação o seu país.

Seleção e Política: muita gente torceu contra a seleção brasileira na Copa das Confederações sob o discurso de protesto à CBF e/ou ao “governo”. Em 1970, mesmo com o uso que a ditadura fez do escrete Canarinho, Marighella torceu pela Seleção. Até porque o time de feras foi arquitetado por um treinador que era seu camarada, o comunista João Saldanha. Isso antes de Zagallo assumir com a anuência dos militares.

Fla-Flu político: a discussão política do país hoje, muitas vezes, fica restrita ao duelo PSDB-PT, como se a essência e os interesses de ambos fossem opostos. Durante a Guerra Fria, há também o erro em se reduzir a disputa apenas em capitalistas e comunistas, sem se levar em conta as inúmeras diferenças que existiam dentro de cada um desses blocos. Longe disso, o livro detalha muitos abismos ideológicos da esquerda brasileira, alguns estratégicos no combate ao inimigo comum. Também mostra quando as contradições e discrepâncias dentro das próprias militâncias emperram a engrenagem de um movimento de oposição, como foi com a Ditadura Vargas e pós-golpe de 64.

Culto a personalidade: Em “Marighella”, ficam claros certos vícios dos militantes políticos como o culto excessivo à personalidade. O exemplo mais evidente é o do Cavaleiro da Esperança, Luis Carlos Prestes, sempre impermeabilizado pelos comunistas quanto aos seus erros e defeitos. Ainda nesse tema, um dos pontos altos do livro é quando Marighella descobre que Stalin não era bem o ser humano que ele pensava ser. Atualmente, essa adoração à personalidade é visível na fúria de alguns partidários quando se crítica o ex-presidente Lula ou, na outra margem do rio, o também ex, FHC.

Espionagem americana:obviamente não é de hoje que os EUA praticam sua arte da vigilância. Em plena Guerra Fria, o monitoramento tinha como discurso o “perigo comunista” e, como hoje, a “ameaça terrorista”. No fundo, a balela de vigiar pela “segurança pública” persiste como um meio que se encontra para exercer e preservar um controle. O livro relata episódios de agentes infiltrados nos grupos armados e há até alguns momentos sublimes em que a CIA se mostra muito mais bem informada sobre a situação dos grupos guerrilheiros do que o governo brasileiro. Mesmo que os militares sempre estivessem ao dispor em cumprir as vontades dos norte-americanos.

Igreja e política: a má fama da Igreja Católica como consequência de suas posições em relação as diferenças de gêneros, a sexualidade e aos crimes cometidos dentro da instituição contribuem para uma generalização moral dos religiosos. Mas a história da militância no Brasil lembra que, apesar de muitos padres e bispos católicos estarem ao lado dos milicos, muitos deles, como os dominicanos, enfrentaram com coragem os desmandos da ditadura. Inclusive, sofreram como poucos nas horríveis salas de torturas que, por sua vez, nunca pouparam mulheres, nem homens de batina.

Policia: em meio aos estouros de manifestações em vários locais do país,  graças às redes sociais e a imprensa ninja, algumas armações da Polícia Militar  se tornaram públicas. No livro, o autor esmiúça diversos procedimentos ilegais  dos tiras, inclusive com respaldo de órgãos da imprensa. O principal deles é a barbárie da tortura. Mas a Ditadura também foi exímia na manipulação de fatos com a falsificação de documentos, alteração da cena do crime, adulteração de depoimentos, ameaça às testemunhas, entre outros estratagemas. Os episódios de abusos da PM que acompanhamos nas últimas manifestações em diversos estados do País comprovam a influência das mais de duas décadas de regime militar no procedimento policial, ainda muito mais repressor do que protetor da sociedade. O destaque evidente do livro é a demonstração de como a polícia política do facínora  Delegado Fleury fraudou escandalosamente a cena da execução (e não de combate) de Carlos Marighella.

Volta da Ditadura Militar: algumas ideias que o atual momento de eferverscência política trouxe à tona já deveriam estar enterradas. Mas isso talvez faça parte do processo. A mais perigosa é a que prega a falácia sobre “a volta da Ditadura”. Para alguns, um regime ditatorial seria melhor do que a democracia que vivemos. Bobagem colossal. A diferença é que a corrupção existia na proporção de um país que ainda contava 90 milhões de habitantes. Basta lembrar o escândalo que foi uma Transamazônica. Só que em um regime totalitário, se alguém vai à rua se manifestar ou se um grupo se reúne para se opor às atrocidades do governo corre o risco de apanhar e ser preso. Ou pior: ser torturado e morto.

PS.: por último, é impossível, no meu caso, deixar de mencionar que Carlos Marighella era baiano, mas no estado paulista seu coração batia pelo Corinthians.

As manifestações e a máscara do “V de Vingança”

Muito se viu, um tanto se falou sobre a máscara que manifestantes usavam nas passeatas pelo país nas últimas semanas. Alguns tuiteiros mais azedos de bate-pronto já apontaram até para a banalização do acessório. Diriam: “virou clichê”.

Mas no mundo de informações rápidas, quantas coisas são repetidas sem reflexão? Quantas vezes nos deparamos com a mesma coisa sem que se saiba seu verdadeiro significado? Não seria injusto afirmar que muitos trajando a tal máscara, desconheciam totalmente sua origem. No entanto, buscarei a justa vendetta para aqueles que exibiam conscientes e orgulhoso o sorriso que surgiu bem antes que os emoticons se tornassem uma nova forma de expressão na linguagem digital. Minha lição de casa neste fim de semana foi reler a obra que levou a mania às ruas: a comic V de Vingança, do autor britânico Alan Moore.

Nâo entrarei na discussão da validade ou não de se cobrir o rosto durante uma manifestação política. Sobre isso também muita coisa já foi dita por aí. Meu objetivo é apenas tentar explicar e legitimar o “V” como um símbolo pop da indignação e, por isso, adequado à causa do momento.

O primeiro equívoco que li no Facebook, este que em breve poderá ser rebatizado como a Wikipedia universal dos equívocos, é a confusão entre a personagem “V” da  HQ e Guy Fawkes, um cara que viveu no início do século XVII e que inspirou o desenhista David Lloyd a criar a máscara do vingador anarquista. Fawkes foi um extremista católico que acabou preso porque, em um plano maluco, pretendia explodir o Parlamento inglês. Acabou delatado. Fora os traços do rosto e o uso de explosivos contra o poder, as coincidências entre as figuras terminam aí. Como me parece óbvio, no caso dos jovens manifestantes, a cultura pop exerceu muito mais influência do que a História britânica. Portanto, mantenho o foco na obra de Moore, finalizada em 1988, durante o terceiro mandato da Donzela de Ferro, defensora dos bons costumes e da moral Margaret Thatcher e que, inclusive, virou filme em 2006. Presumo que muitos conheçam a personagem apenas do cinema.

Antes de transcrever um parágrafo com as aspas do autor que por si só já valeriam a indicação de leitura, peço que esqueçam as imagens de amigos posers trajando o adereço. Vou listar bons motivos para defender a máscara do “V” que, no fundo, são correlações entre nossa atual realidade e o cenário fictício da trama ambientada na Inglaterra do fim dos anos 90, sem é claro, me estender pela narrativa e estragar sua leitura posterior.

Primeiro, “V de Vingança” mostra com tinta forte a letargia do povo frente a manipulação das instituições e da informação e como um baque na estrutura inevitavelmente traz ondas de violência e, principalmente, uma horda de aproveitadores que desejam tomar as rédeas da situação. Segundo, a relação de subserviência da mídia com a versão oficial, algo que se na Turquia da praça Taksim chega a níveis catastróficos, por aqui, onde a democracia é menos centralizada, acabou fazendo a Rede Globo como a grande – e única? – vilã novelesca da trama. No Brasil, os enfoques dos principais jornais e programas de TV deram uma virada e trouxeram à baila os exageros da polícia militar somente depois que as redes sociais insistiram em desmentir o que alguns veículos classificavam apenas como “repressão aos vândalos”. Terceiro, Alan Moore, retorna a George Orwell e aponta o que o mais recente vazamento do governo Obama deixou respingar na agenda de temas públicos: a vigilância dos governos e das corporações da Internet.

A comparação também cabe na forma como a história conta, em meio a várias referências eruditas e pop, o soterramento da cultura e, principalmente, das grandes obras pelo “sistema”, aquela entidade meio abstrata que o anarquista quer destruir e que é formada basicamente por seres humanos que controlam os governos e a vida da população. Em nosso país, cabe refletir sobre esse tema: quanto tempo (e dinheiro) foi e é gasto em troca de acusações entre partidários de um governo que domou a inflação e militantes de outro que foi capaz de gerar uma sutil mobilidade social enquanto do ponto de vista educacional e cultural ambos nada ou pouco fizeram em quase vinte anos?

Por último, abro alas para que o próprio Alan Moore contextualize sua obra em um cenário fascista, em meio a crise climática – que para ele aconteceu apenas depois de uma guerra nuclear – idealizado por ele e justifique o que, em tempos de tantas menções vazias, possui um significado relevante. Não um clichê banal. E se é caso de proibir o lugar comum, afirmo sem medo sobre as palavras abaixo que qualquer semelhança com algum teor de nossa realidade não é mera coincidência:

“Estamos em 1988 (…) um jornal tablóide acalenta a ideia de campos de concentração para pessoas com AIDS. Os soldados da tropa de choque usam visores negros, bem como seus cavalos; e suas unidades móveis têm câmeras rotativas instaladas no teto. O governo expressou o desejo de erradicar a homossexualidade até mesmo como conceito abstrato. Só posso especular sobre qual minoria será alvo dos próximos ataques (…).

Paro por aqui. Apenas recordo que estamos 25 anos a frente de quando a obra foi escrita.

Acho que vocês já entenderam.

Sobre donzelas e damas de ferro.

Ouvi falar de Margaret Thatcher quando tinha uns 11 anos. Minha apresentação à líder política não foi das melhores.

Naqueles tempo, desenvolvia-me um ardoroso fã de Heavy Metal e do Iron Maiden.

Segundo lia nas revistas segmentadas da época, a Donzela de Ferro – tradução do grupo inglês e também alcunha de uma máquina de tortura medieval – e a Dama de Ferro – como era conhecida a primeira-ministra britânica – não se bicaram, a despeito das semelhanças dos nomes.

O motivo seria uma capa do single “Sanctuary” (foto), lançado em 1980, que projetava uma imagem da primeira-ministra deitada ao chão, golpeada de punhal pelo mascote Eddie após ela rasgar um cartaz que divulgava um concerto da banda. Há quem diga que a banda não simpatizava muito com o jeitão autoritário de Thatcher.

Apesar de ser facilmente encontrada hoje na web, a capa foi censurada na época.

Segundo rezam os fãs do Iron Maiden, a banda ainda faria mais uma provocação na capa do álbum Killers, na qual a “Dama de Ferro” não aparece, mas é, supostamente, outra vez a vítima fatal do monstrengo Eddie.

Se há uma marca inerente ao Iron Maiden é o conservadorismo. A estrutura de suas músicas permanece a mesma ao longo do tempo. Só que a dosagem conservadora de Thatcher foi tão alta quanto o incômodo barulho que uma banda de metal devia causar aos ouvidos daquela senhora.

Não tenho mais 11 anos, o Iron Maiden não faz tantas músicas legais como na década de 80 e meus motivos para não gostar de Margaret Thatcher cresceram.

Por isso, enquanto muitos manifestam sua nostalgia, órfãos da mãe do neoliberalismo ocidental,  transcrevo abaixo um texto que condensa boa parte das coisas que me provocam repulsa à Margaret Thatcher.

Curiosamente, palavras escritas por um roqueiro: Morrissey, que, se na música tem um som bem mais suave que o metal, nas palavras tem corrosão suficiente para destituir a boa imagem da Dama de Ferro.

Thatcher: um terror sem um átomo de humanidade

O cantor Morrissey, da banda seminal dos anos 80 The Smiths, reage à notícia da morte da ex-primeira-ministra britânica Margaret Thatcher.

The Daily Beast

Thatcher é lembrada como A Dama de Ferro porque só possuía traços completamente negativos, como a teimosia persistente e a recusa de ouvir aos outros.

Cada movimento que fazia era carregado de negatividade; ela destruiu a indústria manufatureira britânica, odiava os mineiros, odiava as artes, odiava os combatentes da liberdade irlandeses e permitiu que eles morressem, odiava os ingleses pobres e não fez nada para ajudá-los, odiava o Greenpeace e ambientalistas, foi a única líder política da Europa que se opôs a uma proibição do comércio de marfim,  não tinha nenhuma sagacidade e nenhum calor a ponto de seu próprio Gabinete demiti-la. Ela deu a ordem para explodir o Belgrano, mesmo estando fora da zona de exclusão das Malvinas – e navegando em direção oposta ao das Ilhas!  Quando os jovens argentinos a bordo do Belgrano sofreram  uma morte terrível e injusta, Thatcher fez sinal de positivo  para a imprensa britânica.

De ferro? Não. Bárbara? Sim.  Ela odiava feministas apesar de ter sido em grande parte devido ao avanço do movimento de mulheres que o povo britânico permitiu-se a aceitar que um primeiro-ministro pudesse  ser do sexo feminino. Mas por causa de Thatcher, pode ser que nunca mais haja uma outra mulher no poder na política britânica. Em vez de abrir a porta para outras mulheres, ela fechou.

Thatcher só será lembrada com carinho por sentimentalistas que não sofreram sob a sua liderança, mas a maioria dos trabalhadores britânicos já a esqueceu e as pessoas da Argentina devem estar celebrando sua morte. Os fatos mostram, sem sombra de dúvida, que Thatcher era um terror sem um átomo de humanidade.
Morrissey.

PS.: Vi esse texto publicado pela primeira vez no blog O Esquerdopata.

Dois Escobares: ópio do povo está além do futebol

O filme não é novo.

Dois Escobares (Two Escobars), documentário dirigido pelos irmãos Jeff e Michael Zimbalist, chegou a ser exibido na 34ª Mostra de cinema em 2010 embora, atualmente, esteja sendo mostrado também na TV aberta pela ESPN, dentro de uma série de documentários esportivos.

Mas a sustentação da narrativa usando o tripé futebol, política e sociedade é just in time quando tanto se fala em Copa do Mundo no Brasil.

O filme mostra com primor como futebol e política se misturam ao longo da História como afluentes de um grande rio e como seus desdobramentos desembocam na sociedade. No caso do filme, uma sociedade tomada pelo narcotráfico.

Não que o uso político do futebol seja novidade. Basta dizer que a Seleção de 70 não é só um clássico pela bola que jogou, mas também pelo exemplo, muitas vezes já discutido, da exploração política que o Regime Militar fez daquela imagem de sucesso. Mas como já dito, em tempos que se discute Copa do Mundo por aqui não é necessário lembrar dos encontros e desencontros entre política e futebol.

Porque no caso colombiano, a seleção da país era passada de pé em pé por dois lados de uma mesma guerra: o governo tentando vender uma imagem de prosperidade e de controle da situação frente ao narcotráfico que, para usar do linguajar futebolístico, ocupava os espaços deixados pelo Estado, ganhando legitimidade e popularidade junto ao povo colombiano e, pior, quando da ausência desse Estado, dividindo o poder da força bruta e, muitas vezes, até das leis.

Nesse cenário, o roteiro tem o mérito de conectar todas esses componentes unindo duas pontas que, aparentemente, possuem apenas um sobrenome em comum: Escobar.

Um deles é o famigerado traficante Pablo Escobar que iniciou a construção de seu império nos anos 70, comandando o Cartel de Medelin que no seu auge, chegou a dominar 80% do mercado ilegal da região. Assim como o futebol colombiano em sua plenitude chegou a engasgar campeões como a Argentina, derrotada em casa por 5 a 0, Pablo Escobar aquela altura já se tornava quase um mito para uma parcela da população e seu domínio territorial do comércio de drogas certamente incomodava muitos figurões, a ponto dos EUA entrarem no jogo.

O outro Escobar – que não possui grau de parentesco com Pablo – é o zagueiro e capitão da seleção colombiana na Copa do Mundo de 1994. Um time famoso pelas figuras excêntricas como o meia Valderrama e o goleiro Higuita, mas também reconhecido por ser a equipe que jogava o melhor futebol antes do Mundial dos Estados Unidos. Fato que fez até Pelé afirmar, em um de seus palpites mais trágicos, que a Colômbia era uma das favoritas ao título naquele Mundial.

Só que  a tragédia não se deteve ao campo de jogo. Pior do que a desclassificação prematura, ainda na primeira fase, a Colômbia viu o zagueiro Andres Escobar, autor de um gol contra que acabou selando a eliminação da equipe contra os EUA, ser assassinado duas semanas depois de voltar para o seu país. Na ocasião, um território praticamente sitiado pela disputa entre as Forças Armadas, Agentes dos EUA e gangues.

Mesmo com tantos ingredientes misturados, a história só desenrola fácil porque o documentário é rico em depoimentos e imagens de jogadores, técnicos, familiares do zagueiro assassinado, políticos e até de capangas de Pablo Escobar que mostram como a instabilidade política se estendeu ao dia a dia dos jogadores e acabou se tornando o principal adversário daquela que foi a melhor equipe da história do país.

Coréia do Norte na Copa do Mundo

Amanhã começa a Copa do Mundo e brasileiro que é brasileiro, diria o Zagallo, já deve estar ansioso para ver o escrete canarinho em campo.

Ainda que a estreia da Seleção só aconteça na próxima semana contra a Coréia do Norte.

Por isso, nada mais justo do que apresentar nosso primeiro adversário, um desconhecido no mundo do futebol.

E a melhor maneira de se apresentar alguém é usar como gancho a característica pela qual eles mais são conhecidos. No caso, a guerra. Ou o Exército.

Tudo começou no auge da Guerra Fria, quando a Coréia se dividiu entre um Sul capitalista e o Norte comunista.

Desde então, os coreanos setentrionais se fecharam para o mundo em regimes autoritários e dedicaram boa parte de sua energia na construção de um país militarmente desenvolvido.

Basta dizer que, atualmente, em vias de se pegar mais uma vez com os seus vizinhos do sul, o Exército norte-coreano é constituído por 1,2 milhões de pessoas.

E se você acha que isso não tem nada a ver com futebol, se engana.

A presença do militarismo é tão forte que em sua única participação em Copas, em 66 na Inglaterra, o melhor jogador do time, o senhor Pak Doo Ik, foi promovido a sargento depois da surpreendente participação.

Sim, a Coreía do Norte assustou muita gente em 66.

Alcançou às quartas de final depois de bater e eliminar a Itália por 1×0. No mata-mata, chegou a fazer 3×1 em Portugal, mas acabou eliminada com a virada (5×3) portuguesa comandada pelo craque Eusébio.

Claro que isso faz muito tempo e a Coréia do Norte é, em tese, a grande zebra no grupo do Brasil. Porém, se voltarmos outra vez ao Exército deles, veremos que disciplina e disposição não faltará.

Basta assistir a marcha dos militares norte-coreanos no vídeo abaixo durante a comemoração dos 60 anos da fundação da República em 2008.

Sem dúvida marchar no estilo norte-coreano cansa mais do que jogar uma partida de futebol.

Veja também como foi a vitória da Coréia do Norte sobre a Itália em 66.