Bob Dylan Nobel de Literatura

O reconhecimento de Bob Dylan como Nobel de Literatura provocou uma intensa discussão no mundo todo sobre o significado desse prêmio. Entre aqueles que aplaudiram a decisão de certa forma surpreendente, houve quem achasse que o Nobel faria melhor para a arte da literatura se entregue a um escritor não a um músico.

Houve também aqueles que para criticar a decisão tentassem diminuir a obra de Bob Dylan, mas esses merecem bem pouca consideração.

O fato é que a escolha estimulou uma enxurrada de textos sobre a obra, a carreira e a vida de Bob Dylan e também, claro, opiniões sobre o Nobel entregue ao artista.

No YouTube, fiz um vídeo para comentar o fato e, claro, deixar meu pitaco também.

Abaixo, deixo uma coletânea de links, com vários textos que li (ainda e estou lendo e aumentando a lista) e que recomendo para que as pessoas possam se aprofundar ou, para os não iniciados, que tenham uma dimensão do que representa a figura de Bob Dylan para a arte, além da discussão em torno do merecimento ou não do prêmio Nobel ao artista.

    1. Leonard Cohen: “é como dar uma medalha ao Everest por ele ser o mais alto do mundo”.
    2. 75 fatos sobre Bob Dylan.
    3. Escritor brasileiro comenta de Nova York o Nobel para Dylan.
    4. O Nobel de Dylan na visão do fã: “Eu já sabia!”
    5. Nobel de Dylan: um prêmio para a música
    6. Bob Dylan, 500 vezes mais popular em serviço de streaming
    7. Eduardo Suplicy homenageou Bob Dylan pelo Nobel:

8. Repercussão do Nobel entre escritores e Academia

9. O anúncio do Nobel a Bob Dylan

10. Por que Bob Dylan não deveria ter ganho o Nobel (em inglês)

11. Bob Dylan, Mestre da mudança (em inglês)

12. Vamos celebrar a vitória de Bob Dylan (em inglês)

A bola mais cara do mundo

Não se sabe ainda se o dono dessa relíquia, o francês Dominique Zanardi, vai decidir leiloar a bola que ele encontrou em um brechó no Reino Unido.

Em 1998, o Manchester United já ofereceu 100 mil dólares para colocar em seu museu a bola que pertenceu a um batalhão de soldados que lutaram na Primeira Guerra Mundial.

Ryszard Kapuscinsky

KapuscinskiAinda que a cidade de Pinks, onde nasceu, hoje faça parte da Bielorrússia, Kapuscinski sempre se referiu a si mesmo como polonês. Inclusive, entre as décadas de 60 e 80, trabalhando para a agência de notícias estatal da Polônia, ele teve a oportunidade de cobrir uma infinidade de conflitos, golpes de estado e revoluções na África e na América Latina que resultaram em muitos de seus livros.

Um deles, dos últimos a serem lançados antes de sua morte em 2007, chama-se A Guerra do Futebol. Apesar do nome, com referência ao embate armado entre El Salvador e Honduras no ano de 1969, a obra é uma reunião de impressionantes relatos sobre importantes acontecimentos em dezenas de países africanos e latinos entre os anos 60 e 70.

No que se refere ao título, Kapuscinsky traz a cobertura de uma guerra na América Latina entre os vizinhos Honduras e El Salvador que teve como estopim uma disputa entre os países por uma vaga para a Copa do Mundo do México em 1970. Uma rivalidade que explodiu do campo de jogo para o de batalha.

Com direito a imagens fortes do front de uma guerra furiosa e ao mesmo tempo inútil, o jornalista explica como a tensão por uma disputa de terras entre Honduras e El Salvador desaguou nas eliminatórias da Copa e acabou em um conflito armado sangrento.

Tudo começou quando agressões entre as torcidas tomaram conta dos jogos de ida, em que Honduras venceu por um a zero, e tomaram maiores proporções na partida volta, quando El Salvador fez três a zero e os jogadores hondurenhos escaparam de severas agressões  da torcida local. O terceiro jogo, o do desempate, só aconteceria na Cidade do México (El Salvador venceu por 3 a 2 e se classificou).guerra do futebol

Na realidade, o futebol foi um pretexto para um conflito que já se anunciava bem antes, quando El Salvador cobiçava as terras da vizinha Honduras que, por sua vez, exigia a retirada dos imigrantes salvadorenhos de seus territórios. No fim, a guerra terminou sem vencedor, mas com muitos mortos e dezenas de milhares de feridos. Uma atrocidade capitaneada pela irracionalidade do esporte mais popular do mundo, mas com profundas raízes socioeconômicas.

Consegui minha edição da Companhia das Letras em uma feira de livros pela metade do preço e precisei de poucos dias para atravessar todas as histórias que o autor conta com admirável profundidade histórica e domínio da narrativa. Depois de ler, é impossível não se espantar com o fato de conhecermos tão pouco os países africanos e muitos de nossos vizinhos na América Latina.

 

A ilha – Fernando Morais

ilhaCuba não está rodeada apenas pelo esplendoroso Mar do Caribe.

Desde a Revolução, em 1959, a ilha também se viu cercada por uma polarizada (e improfícua) discussão política.

Gente que acredita que o país é um inferno na Terra porque não seguiu o capitalismo liberal é munida por uma mídia, na maioria das vezes, pautada pela posição diplomática dos EUA e que nunca fez muito esforço de ir além dos imigrantes tentando escapar do mundo socialista.

Na margem oposta estão aqueles que enxergam em Cuba um paraíso de igualdade e justiça social. Um exemplo irretocável a ser seguido pelo resto do mundo.

O livro A Ilha, de Fernando Morais, foi escrito em 1976 em uma longa viagem que o jornalista fez por lá. Resgatei meu exemplar por R$ 10,00, em um sebo no centro de São Paulo, no momento em que Barack Obama resgata os laços dos EUA com a ilha.

A despeito do tempo desde quando foi escrito até os dias de hoje, muitas questões abordadas no livro permanecem atuais e são didáticas para compreender Cuba sem o maniqueísmo que esconde as verdades e dissemina as fantasias maliciosas sobre o país.

Sem especulação, mas com depoimentos de funcionários públicos o livro mostra que é praticamente impossível negar como as liberdades individuais básicas foram tolhidas por um sistema autoritário.

A repressão do regime, o controle da mídia e a burocratização tornam alguns direitos fundamentais como mudar de emprego, viajar ou adquirir bens de consumo uma missão por vezes impossível.

No entanto, há também exemplos de realizações que deveriam deixar o povo de um gigante capitalista como o Brasil, no mínimo, curioso. O sistema de ensino e a saúde pública são lição até para os americanos.

A consciência coletiva que demonstram os médicos de Cuba quando vem ajudar o Brasil, atendendo no interior do país, ou quando vão à África tratar pacientes do Ebola, é um dos motivos de orgulho de Fidel Castro e foi cuidadosamente trabalhada desde os tempos de guerrilha na Sierra Maestra.

A gestão do esporte – principalmente enquanto Cuba recebia um generoso aporte da URSS pelo seu açúcar – também serviria como caso de estudo a cada membro do governo brasileiro responsável pelas Olimpíadas.

Destaco uma breve história sobre o boxeador Teófilo Stevenson. Campeão olímpico em Munique, recebeu oferta milionária para deixar Cuba e morar em Los Angeles. Recusou. Preferiu continuar sua vida como operário e boxeador amador.

Difícil saber o quanto o governo cubano “influenciou” uma decisão como essa, ainda mais hoje quando é possível se lembrar dos boxeadores que o governo Lula irresponsavelmente devolveu ao regime castrista.

Mas o livro também mostra que não são poucos os contentes com a situação de suas vidas em Cuba. Principalmente as pessoas que conheceram o regime anterior, quando Cuba era governada por um ditador subserviente aos desejos imperialistas dos EUA.

Certeza, saí com apenas três.

Um: quanto mais profundamente se conhece, mais difícil fica tomar posições radicais sobre as questões que envolvem Cuba.

Dois: nenhum governo que toma conta de um país por mais de cinquenta anos é digno de reverência.

Três: o embargo imposto pelo governo dos EUA é tão ou mais covarde e criminoso quanto as sanções que o governo de Fidel Castro impõe sobre seus próprios cidadãos. Para corroborar esse ponto de vista, compartilho esse artigo do ex-presidente norte-americano, Jimmy Carter, presidente na época em que Fernando Morais escreveu seu livro e que, aquela altura, já tentava sinalizar uma abordagem diferente quanto ao embargo que, é bom dizer, ainda continua, mesmo com o reatamento das relações entre os países.

Arqueologia Pop: David Letterman & REM

Momento histórico: o vídeo abaixo mostra uma apresentação do extinto REM no – esse ano – extinto programa de talk show de David Letterman em 1983.

Vocalista da banda, Michael Stipe, ainda contava seus extintos cabelos.

Segundo o jornalista Bob Sheffield, essa apresentação ajudou a impulsionar o iniciante apresentador de TV e também a banda que circulava mais nos meios alternativos do Rock.

 

Livro – A Luta, de Norman Mailer

Muhammad Ali - the fightNão seria exagero dizer que este é o livro de esporte mais bem escrito de todos os tempos. Não só pelo talento de Norman Mailer, expoente do jornalismo literário de sua geração (que, entre outros, contava com Truman Capote), mas também porque Muhammad Ali é um personagem por demais fascinante.

Politicamente falando, talvez seja ele das figuras esportivas mais influentes de todos os tempos, a ponto de me fazer arriscar até uma provocação: se Pelé tivesse metade do punch de Ali, talvez a situação do racismo no futebol hoje fosse outra.  Infelizmente, o gênio do futebol lutou sempre do lado mais poderoso. Mas essa é uma outra história.

A “luta” do título não parece apenas uma maneira de se referir ao combate entre Ali e George Foreman em 1974, no Zaire. Mais do que confrontar dois dos maiores pugilistas de todos os tempos, se opunham implicitamente  naquele momento outras forças, como o domínio branco e a autonomia dos negros.

Havia também o pacifismo que se colocava ante à Guerra do Vietnã. Muhammad Ali perdera seu título mundial quando recusou a convocação para o exército enquanto Mailer foi preso depois de protestar contra ela. As “lutas” daquele período ferviam sob fogo alto e, de alguma forma, tanto o boxeador quanto o escritor estavam lá para recuperar algo que haviam perdido.

Não bastasse o contexto político, Norman Mailer tem precisão invejável e, com punhos firmes, descreve um Ali que transcende o gênio esportivo, sem jamais ignorar os fatores decisivos do boxe: treinamento físico, preparação psicológica e a estratégia pensada e desenvolvida para que Ali pudesse lutar em igualdade contra um “Big George” 7 anos mais jovem que ele, no auge da forma física e favorito nas bolsas de apostas.

A primeira vez que me debrucei em “A Luta” foi em uma edição nacional da Companhia das Letras. Gostei tanto que adquiri um exemplar no idioma original para ler novamente (imagem).

 

Papa Francisco: Figurinha da Argentina

PapaPossivelmente a figurinha mais óbvia e obrigatória deste álbum com personalidades-não-jogadores relacionados ao futebol, seja a do Papa Francisco Bergoglio.

Literalmente um torcedor de carteirinha do San Lorenzo da Argentina, Bergoglio pode também ser considerado um pé quente. Em seu primeiro ano de papado, seu time de coração sagrou-se campeão de uma forma um tanto inesperada: na última rodada, com uma combinação de resultados e depois de passar uma parte do campeonato brigando na parte de baixo da tabela.

Aos brasileiros, alemães, espanhóis, entre outros postulantes ao título da Copa do Mundo em 2014, é bom rezar para que o Papa não dê uma ajuda aos seus compatriotas. Pensando bem, nesse caso talvez rezar não adiante.

Atualização: 14/8/2014

Se a boa vontade do Papa não foi suficiente para levar a seleção argentina ao título Mundial (ainda que o vice campeonato tenha sido uma façanha pra lá de respeitável), o San Lorenzo, seu time do coração, segue abençoado. 

Em 2014, a Taça Libertadores da América viu pela primeira vez os dois piores classificados da primeira fase chegarem à final e, pela terceira vez consecutiva – depois de Corinthians e Atlético-MG – um campeão inédito. Desnecessário dizer que foi o San Lorenzo e que, ao menos sob o ponto de vista do futebol, o Papa Francisco já pode ser canonizado. E se no fim do ano o San Lorenzo segurar o Real Madrid aí…

Conheça também outro torcedor ilustre do San Lorenzo.

 

Trégua de Natal

Partida de futebol documentada enter ingleses e alemães.
Partida de futebol documentada entre ingleses e alemães.

Há um famoso relato ocorrido em 1914, cinco meses após a declaração da I Guerra Mundial, contando como a chegada do Natal provocou um cessar-fogo nas trincheiras entre os inimigos mortais alemães e ingleses.

A trégua de Natal, como ficou conhecida, não foi uma declaração oficial dos países, mas um gesto que partiu dos soldados. Corpos de combatentes em terra-de-ninguém foram devolvidos, presentes trocados e, incrível, até uma partida de futebol amigável foi disputada entre germânicos e bretões.

Duro imaginar que, depois de interromper os ataques mútuos, os soldados precisassem voltar a matar uns aos outros. Inclusive, os registros dão conta de que não houve um episódio parecido durante o confronto, muito por conta da intransigência dos líderes das nações  que não aceitaram novas tréguas – nem haviam assinado aquela – e também devido aos métodos utilizados para atacar o inimigo, como gases venenosos. A destruição feroz e desumana tornava bem mais difícil novas atitudes de boa vontade entre as partes.

Pensar que depois da trégua de natal no início do século passado não houve outra narrativa na qual o espírito de humanidade tenha se sobreposto a um grande conflito dá uma sensação que o mundo tem piorado desde então.

Precisamos mais tréguas em nossas vidas.

Puskás, além do Prêmio da FIFA

Crédito Imagem:  http://www.itsnicethat.com/articles/zoran-lucic-football-posters
Crédito Imagem: http://www.itsnicethat.com/articles/zoran-lucic-football-posters

Em 13 de janeiro, a FIFA divulgará o vencedor do prêmio Puskás, criado em 2009 para premiar o golaço do ano.

Ao ver a lista dos 10 gols selecionados, fica difícil não apostar no sueco Ibrahimovic, mistura de Cirque du Soleil com futebol.

Mas quantas pessoas, por causa desse troféu, já repetiram o nome Puskás sem saber quem de fato foi ele?

Falando menos do prêmio e mais de Puskás, não é por acaso que um nome vindo de um país coadjuvante do futebol mundial tenha batizado a premiação da FIFA. Todas as referências ao “Major Galopante” – apelido que ganhou porque possuía essa patente do exército de seu país – não exitam em ressaltar o grande craque que ele foi.

É curioso também como pelo menos dois lances da história desse personagem seguem atuais.

O primeiro fato é que Puskás era húngaro e com seu país montou a seleção mais forte do início dos anos 50, campeões olímpicos em 52 e vice mundiais em 54. No entanto, questões políticas que envolviam a influência da URSS em seu país e que não agradavam ao craque, fizeram Puskás deixar sua pátria natal. Só que pela bola que tinha, não seria difícil arrumar outra pátria-mãe-adotiva. Puskas acabou se naturalizando espanhol. Na década de 60, fez no Real Madrid parceria de sucesso com argentino Di Stéfano e , como as regras da época permitiam, também jogou uma Copa do Mundo pela Espanha, o que motivou maledicências sobre o craque em seu país de origem. Tudo isso há mais de 50 anos da polêmica sobre a opção de Diego Costa, com a diferença de que hoje sua escolha se faz muito mais por questões sócio-econômicas do que políticas.

Outro ponto é que Puskás também levantava suspeitas sobre seu físico. Baixinho e gordinho, é bem provável que fosse reprovado em qualquer teste de categorias de base. Para quem viu Maradona e Ronaldo jogar e acha incrível Valter  fazer tantos gols pelo Goiás, a média de Puskás é espantosa: pela seleção da Hungria anotou 85 gols em 84 jogos. Em toda sua carreira, de acordo com o IFFHS, foram 512 gols em 528 partidas.

Inclusive, perpetua-se a lenda de que na ocasião do convite para vestir a camisa merengue, feito diretamente pelo presidente do Real Madrid, senhor Santiago Bernabeu, Puskás teria dito: “O senhor me olhou? Estou gordo!”, ao que o presidente respondeu: “isso não é problema meu, é seu!”. Ferenc Puskás acabou três vezes campeão da Liga dos Campeões pelo Real Madrid (1959, 1960 e 1966) e ficou conhecido com o apelido de Pancho, bem mais carinhoso que o outro de caráter militar.

Para saber um pouco mais da história e ver um pouco de Puskás em ação, esse vídeo da TV Real Madrid é legal (em espanhol).