O que Camus ensina sobre o Fair Play do futebol brasileiro

CamusO escritor Albert Camus era apaixonado por futebol. No livro Futebol ao Sol e à Sombra, Eduardo Galeano, outro craque da posição e apreciador  do jogo, conta que quando chegava em casa, a avó de Camus fazia uma cuidadosa inspeção no solado do seu sapato para conferir se havia um desgaste acima do normal. Em caso positivo, era sinal de que o rapaz havia jogado bola e naquele momento poderia iniciar seu aquecimento para entrar na surra.

Mesmo sob ameaça, ele não se desligou do esporte e eternizou uma frase sobre o jogo. Certa feita, Camus teria dito: tudo que aprendi na vida sobre moral devo ao futebol. E, ao menos no que se trata do caso brasileiro, o escritor argelino (que segundo à suposição de Galeano escolheu a posição de goleiro para evitar o desgaste das solas dos sapatos) não poderia estar mais certo.

Há algum tempo, no país em que se plantando nem tudo dá certo, brotam em diferentes cantos uma daquelas discussões circunloquiais, em que tanto Pedro quanto João brigam sem razão, e que diz respeito ao Fair Play no futebol. Uma expressão que já foi concebida de maneira tortuosa, se considerarmos que o tal Jogo Justo – ou Jogo limpo, como queiram -, foi gestado pela Fifa, entidade regida por gente pouco adepta à limpeza dos próprios negócios, que cultiva o hábito de investir em discursos e medidas politicamente corretas para jogar o que há de pior no esporte que ela dirige para debaixo de um tapete em que os cartolas pisam e fingem não ver.

Na teoria o Fair Play é até legal. É um conjunto de medidas, mas que na maioria dos casos  pode ser resumido quando um time, vendo que o adversário foi prejudicado por um choque ou uma contusão, interrompa o jogo colocando a bola para fora de campo. Em resposta à nobre atitude, espera-se que o adversário, depois de ter seu atleta atendido, devolva a bola de bom grado para que, em seguida, o jogo volte ao confronto normal.

No futebol brasileiro, ultimamente presenciamos cada vez mais partidas nas quais jogadores brigam, reclamam, desabafam e se lamentam pelo não cumprimento do Fair Play. O último fim de semana foi um exemplo. Tudo porque, justiça feita às devidas exceções, os brasileiros praticam com frequência um engenhoso expediente para tirar proveito dessa prática e distorcer o intuito do Fair Play. O que tem se tornado comum é que quando um time está vencendo, seus jogadores, principalmente nos minutos finais da partida, acontecem de sofrer contusões, cãibras e súbitos mal-estares. Muitos gemem, gritam e rolam na grama esperando que a partida seja interrompida em nome do tal Fair Play. O problema é que, de tão repetida, a cena ficou manjada e quem está atrás do marcador não aceita mais se submeter um gesto cordial de colocar a bola para lateral ou devolvê-la, sob o risco de premiar a dissimulação do rival que usa o Fair Play em benefício próprio.

Verdade que essa distorção do Fair Play talvez não tenha sido inventada aqui e certamente não é exclusividade nossa, mas a persistência generalizada no ato e o costume de reclamar sobre o próprio direito ao Fair Play, isso sim me soa como algo bem brasileiro.  Voltando ao que disse Camus sobre moral e futebol, pensei se não haveria na vida um reflexo do nosso Fair Play de cada dia naquele que não paga seus impostos, mas exige do governo o manejo justo do dinheiro público. Ou daquele que reclama por seus direitos individuais, mas para na vaga de deficientes só um “pouquinho” quando está com pressa (o que pode significar sempre). Ou daquele cidadão que se derrete pela maneira gentil com que é tratado no trânsito pelos estrangeiros, mas em seu país resiste em ceder o espaço do seu carro ou alguns segundos do seu tempo para os outros.

Os exemplos são quase infinitos.  E o que aprendemos sobre nossa moral, em nosso futebol e em nossa vida, é que Fair Play bom é Fair Play que me serve.

Ryszard Kapuscinsky

KapuscinskiAinda que a cidade de Pinks, onde nasceu, hoje faça parte da Bielorrússia, Kapuscinski sempre se referiu a si mesmo como polonês. Inclusive, entre as décadas de 60 e 80, trabalhando para a agência de notícias estatal da Polônia, ele teve a oportunidade de cobrir uma infinidade de conflitos, golpes de estado e revoluções na África e na América Latina que resultaram em muitos de seus livros.

Um deles, dos últimos a serem lançados antes de sua morte em 2007, chama-se A Guerra do Futebol. Apesar do nome, com referência ao embate armado entre El Salvador e Honduras no ano de 1969, a obra é uma reunião de impressionantes relatos sobre importantes acontecimentos em dezenas de países africanos e latinos entre os anos 60 e 70.

No que se refere ao título, Kapuscinsky traz a cobertura de uma guerra na América Latina entre os vizinhos Honduras e El Salvador que teve como estopim uma disputa entre os países por uma vaga para a Copa do Mundo do México em 1970. Uma rivalidade que explodiu do campo de jogo para o de batalha.

Com direito a imagens fortes do front de uma guerra furiosa e ao mesmo tempo inútil, o jornalista explica como a tensão por uma disputa de terras entre Honduras e El Salvador desaguou nas eliminatórias da Copa e acabou em um conflito armado sangrento.

Tudo começou quando agressões entre as torcidas tomaram conta dos jogos de ida, em que Honduras venceu por um a zero, e tomaram maiores proporções na partida volta, quando El Salvador fez três a zero e os jogadores hondurenhos escaparam de severas agressões  da torcida local. O terceiro jogo, o do desempate, só aconteceria na Cidade do México (El Salvador venceu por 3 a 2 e se classificou).guerra do futebol

Na realidade, o futebol foi um pretexto para um conflito que já se anunciava bem antes, quando El Salvador cobiçava as terras da vizinha Honduras que, por sua vez, exigia a retirada dos imigrantes salvadorenhos de seus territórios. No fim, a guerra terminou sem vencedor, mas com muitos mortos e dezenas de milhares de feridos. Uma atrocidade capitaneada pela irracionalidade do esporte mais popular do mundo, mas com profundas raízes socioeconômicas.

Consegui minha edição da Companhia das Letras em uma feira de livros pela metade do preço e precisei de poucos dias para atravessar todas as histórias que o autor conta com admirável profundidade histórica e domínio da narrativa. Depois de ler, é impossível não se espantar com o fato de conhecermos tão pouco os países africanos e muitos de nossos vizinhos na América Latina.

 

A inveja é oval

As redes sociais ontem só falavam Super Bowl.

Não é a primeira vez. Há anos o esporte-espetáculo dos norte-americanos contagia gente do lado de cá do Equador.

Não vou mentir. No início me incomodava.

Como país do futebol, de tantas conquistas, da bola redonda, achava que a onda do futebol americano era modinha. Americanofilia boba.

Não é.

Simplesmente porque, goste-se ou não da modalidade, os americanos fazem dela um espetáculo invejável. Com estrutura, organização e plano de marketing consistentes e, principalmente, bem planejados.

Não tenho dúvidas que seu impacto ainda será maior por aqui.

Vi muita gente, que nem é chegada em esporte algum, se embasbacar com o show do intervalo da Kate Perry.

Não escondo minha empolgação ao ver Ozzy Osbourne mandando Crazy Train na entrada dos Patriots.

Se fosse só pelo show já valeria os olhares de tanta gente.

Mas com tudo isso ainda tinha o principal, o jogo, que apresentou alternativas e emoções até o último segundo.

Coisa que há tempos já me faz varar madrugadas com a NBA.

Enquanto isso… aqui a principal emissora de TV do país faz um estardalhaço danado pra vender estaduais que estão longe de ser bem disputados há anos e, por isso, cada vez interessam menos ao torcedor.

No primeiro jogo do time com a maior torcida do Brasil, organizados flamenguistas invadem o vestiário adversário e agridem o goleiro do Macaé. A polícia fala que foram “só” dez, mas ninguém concorda com eles.

A seleção de novatos do Brasil possui quase todos os vícios das equipes principais do futebol brasileiro e não apresenta os bons defeitos típicos dos jovens, como indisciplina tática e jogadas arrojadas. O resultado é um futebol opaco.

Que inveja da bola oval.

O que tem de bom no 7×1

7 a 1
Imagem retirada do Facebook: https://www.facebook.com/familiademocratas

7/1/2015.

Oportunidade pra lembrar com piadinha o grande fiasco do ano que passou e ainda continua a zunir em nossa memória.

A parte boa de tudo isso é que, aparentemente, o Brasil evoluiu de 1950 pra cá.

Não apenas matematicamente, com os 5 títulos mundiais que ganhamos, mas principalmente pela maneira de encarar uma derrota em casa.

Trocamos o choro, o desespero e o complexo de vira lata pela zoeira, a chacota, a pura resignação.

Não se levar tão a sério não é, necessariamente, negativo.

Outra consequência de ser atropelado pelo panzer alemão  é que não perdemos tempo criando (nem lendo sobre!) nenhuma teoria da conspiração.

Não houve suspeita de corpo mole, conversa fiada de entregar o jogo ou qualquer outra desculpa esfarrapada de quem não admite a superioridade do adversário.

Pra tirar 10 dessa lição que a Copa do Mundo em casa nos deu só falta aqueles que dirigem o esporte estudarem tudo aquilo que já foi discutido e concluído como as mais preponderantes causas da tragédia e agirem para corrigir os rumos do futebol brasileiro.

Mas aí já é pedir demais né, professor! Então, ficamos com 7 mesmo.

Sócrates

Sócrates
Imagem do meu celular

Entre os métodos de Sócrates na Grécia Antiga, está o famoso questionamento que incentivava seus alunos a pensar e refletir sobre um tema, estimulando a busca pelo conhecimento, ou a virtude, para usar o léxico do filósofo.

Quando seu Raimundo, leitor dos Diálogos de Platão e de muitas outras obras gregas, batizou seu primogênito com um do seus nomes mais marcantes não imaginava que ele seria o jogador de futebol mais original – e por que não dizer o mais filosófico – do Brasil. Sócrates desenvolveu seu próprio método para questionar todas as estâncias do mundo do futebol.

Seu legado é de uma riqueza espantosa e o livro Sócrates, do jornalista Tom Cardoso passa pela vida do craque contando (e recontando) histórias e diálogos que ajudam a entender sua personalidade pouco convencional para os padrões sociais. Ainda mais do futebol.

Como se vivesse uma missão intuitiva de ensinar, Sócrates, incentivou o questionamento dentro e fora do campo. Questionava convenções quando pedia o fim da concentração dos jogadores, questionava modelos comportamentais quando expunha livremente seus pensamentos e questionava até a lógica do esporte quando bebia sem limites e, mesmo assim, era capaz de exibir um jogo plástico, exuberante e também de resultados.

Sócrates também criou seus paradoxos, bem particulares. Um deles era capaz de colocar à frente todos times em que jogou usando a parte de trás do pé.

Sobre seu calcanhar o livro esclarece o que para mim era um mistério: Sócrates calçava 41, um pé diminuto para sua altura (1,95 m), mas um pouco maior do que algumas lendas que li e ouvi sobre sua chuteira estar numerada na casa dos trinta.

O paradoxo socrático no futebol também se estendia quando tomava decisões desprovido da razão sem, contudo, abandonar a lógica que movia seu caráter.

Sócrates, o filósofo, dizia que o conhecimento leva a virtude.

Conhecer a história desse jogador é tão importante para o pensamento do futebol brasileiro como os gregos são para a filosofia.

Em uma era dominada por técnicos retranqueiros, jogadores limitados, administrações incompetentes e viciadas em beneficiar a poucos, a história deixada por Sócrates é um testamento de princípios e idealismos que precisam ser resgatados para que o futebol brasileiro recupere o que sempre teve de melhor: a alegria de jogar bola.

ALEX

Foto Arquivo Lance!: Felipe Gabriel
Foto Arquivo Lance!: Felipe Gabriel

Correr atrás da bola como se fosse um prato de comida.

A frase antiga vale para a maioria dos jogadores e não deixa de ter significado para o meia Alex, que se aposentou neste domingo e, como tantos, começou a carreira quando menino pobre.

Se o futebol realmente fosse gastronomia, poderia-se dizer que poucos chefs conseguiram unir tão bem ingredientes básicos com o refinamento da execução como fez Alex.

Alex foi o gourmet sem fricote, sem exageros, sem a manipulação marqueteira. Em toda sua carreira, Alex produziu um futebol cheio de sabor e textura, com consistência admirável.

Sua aposentadoria deixa famintos todos aqueles que olham desesperadamente no cardápio do futebol brasileiro e não encontram uma cabeça pensante. Tampouco se vê no menu um camisa 10 que saiba usar, como Alex, o filé do futebol, aquela região de dar água na boca do torcedor, situada entre o meio de campo e a entrada da área.

Quem reclamar, faz de barriga cheia. Nesses anos de bola, Alex deixou todos satisfeitos.

Roberto Gomes Bolaños

chavesQuem assistiu Chaves e Chapolin viu mais de uma vez (ou mais de dez vezes!) as referências futebolísticas do programa.

Principalmente nas brincadeira no pátio da Vila entre Chaves e Kiko, ficava explícito o gosto dos personagens pelo futebol.

Os bate-bolas foram também momentos que transpareciam o excelente trabalho dos dubladores aqui no Brasil que ajudaram a perpetuar o sucesso da série por tanto tempo. Os nomes de jogadores escolhidos na tradução ficaram marcados para fãs do programa.

Quantas crianças não brincaram imitando ser o Luís Pereira ou o Barbiroto, mesmo sem tê-los visto jogar?

Mas a relação de Roberto Gomes Bolaños com o futebol não para por aí.

Além de torcedor confesso do América do México, Bolaños chegou até a fazer um longa metragem em que vive um roupeiro da sua equipe de coração e conta com a participação de boa parte do time de atores da Vila como Carlos Villagrán (Kiko), Edgar Vivar (Seu Barriga) e Ramon Valdez (Seu Madruga).

O filme se chama El Chanfle (1979) e está disponível no YouTube.

Sinalizadores

Sou contra a elitização irrestrita no futebol.
Embora o jogo de bola tenha se tornado um negócio dos mais caros, à torcida do Corinthians, marcada no seu DNA pelas camadas mais humildes, é obrigatório que haja uma política de ingressos com preços acessíveis.

Nada disso, porém, parece ter alguma relação com o ato de se acender sinalizadores, quando é evidente que isso pode causar punição ao clube em momento decisivo do campeonato. Mesmo que como pano de fundo disso estivesse um protesto por um motivo justo, a forma e o momento escolhida passou longe do razoável porque a vontade de qualquer torcedor é ver o time vencer.

Também não sou especialista – e creio que pouca gente é – em sinalizadores para saber se aqueles acesos contra o Grêmio são inofensivos, são os mesmos que mataram tragicamente o menino boliviano.

Faltou sensibilidade – inteligência mesmo – para se escolher manifestação mais eficiente e que gerasse mais empatia.

Se há leis equivocadas (dos sinalizadores, das bandeiras e tantas outras), ótimo. Apontem-se os erros, mas que se faça de forma clara e democrática. Distribuam panfletos na entrada em vez de acender essas cacetas desses sinalizadores.

Assim como é bom desconfiar das leis que nem sempre fazem justiça, também é preciso ter dois pés atrás quando meia dúzia de indivíduos acha que pode pensar e agir do jeito que quer em nome de milhões de pessoas.

Corinthians é muito maior do que qualquer cartilha de torcedor.