Fogueteira do Maracanã

Hoje, em nota na Folha, fui informado sobre a morte da “Fogueteira do Maracanã”.

Em mais de duas décadas essa, talvez, tenha sido a terceira vez que ouvi falar dela.

A primeira delas foi também uma das mais antigas lembranças do futebol e da Seleção que guardo na memória.

Para  quem não sabe da história, foi no último jogo das Eliminatórias da Copa de 90, entre Brasil e Chile, no Maracanã.

Naquela partida, Rosenery Mello – esse é o nome da fogueteira – atirou um rojão da arquibancada que foi parar ao lado do goleiro chileno.

Na ocasião, o guarda-metas era o senhor Roberto Rojas, auxiliar que chegou até a comandar, como técnico, o time do São Paulo.

Nos momentos seguintes ao estouro, Rojas teria sacado uma navalha de suas luvas e cortado a si mesmo.

A ideia era tentar melar a partida e provocar um novo jogo para que o Chile tentasse, enfim, obter uma vaga para o Mundial. Tudo graças a essa noveleta pastelão.

Mas o que se deu foi que a farsa acabou desmascarada rapidamente e a péssima encenação rendeu ao Chile a suspensão de cinco anos do futebol profissional e o Oscar de atuação para Rojas foi ser banido do esporte para sempre.

E o Brasil levou à Copa da Itália uma das piores seleções brasileiras de todos os tempos. Dias depois da partida contra os chilenos, não me lembro ao certo, ouvi dizer que Rosenery seria capa da Playboy. E foi mesmo, em novembro de 1989.

Nunca vi as fotos. Provavelmente porque era muito novo a época e, depois disso, porque nunca mais me lembrei dela. Tenho certeza que entre ontem e hoje as buscas por essas fotos cresceram milhares de vezes.

E agora, ao ler na Folha, via Internet, sobre sua morte, “ouço falar” mais uma vez de Rosenery. Incrível como foi só bater o olho na chamada com a sua antonomásia, ” a fogueteira do Maracanã”, e no mesmo instante me remeti mentalmente a todos os fatos narrados anteriormente.

Talvez a “Fogueteira do Maracanã” seja o primeiro caso de celebridade instantânea presenciei às custas do futebol. Ainda em uma época pré-Internet.

Só fui ouvir falar dela outra vez dela mais de vinte anos depois de se tornar “famosa”, em nota fúnebre na rede.

Sinal de que o tempo não perdoa é que a internet não só cria celebridades instantâneas. Agora também as enterra.

Torcida do Liverpool canta Beatles

Há momentos em um estádio de futebol que são capazes de arrepiar até o ser humano mais indiferente à emoção. Nesse vídeo, de 1964, qualquer amante do futebol fica de pelos eriçados ao ouvir a potência das vozes da torcida inglesa cantando, no auge do Yeah-Yeah-Yeah, a linha de quatro mais genial daquele país: os Beatles.

 

Coréia do Norte na Copa do Mundo

Amanhã começa a Copa do Mundo e brasileiro que é brasileiro, diria o Zagallo, já deve estar ansioso para ver o escrete canarinho em campo.

Ainda que a estreia da Seleção só aconteça na próxima semana contra a Coréia do Norte.

Por isso, nada mais justo do que apresentar nosso primeiro adversário, um desconhecido no mundo do futebol.

E a melhor maneira de se apresentar alguém é usar como gancho a característica pela qual eles mais são conhecidos. No caso, a guerra. Ou o Exército.

Tudo começou no auge da Guerra Fria, quando a Coréia se dividiu entre um Sul capitalista e o Norte comunista.

Desde então, os coreanos setentrionais se fecharam para o mundo em regimes autoritários e dedicaram boa parte de sua energia na construção de um país militarmente desenvolvido.

Basta dizer que, atualmente, em vias de se pegar mais uma vez com os seus vizinhos do sul, o Exército norte-coreano é constituído por 1,2 milhões de pessoas.

E se você acha que isso não tem nada a ver com futebol, se engana.

A presença do militarismo é tão forte que em sua única participação em Copas, em 66 na Inglaterra, o melhor jogador do time, o senhor Pak Doo Ik, foi promovido a sargento depois da surpreendente participação.

Sim, a Coreía do Norte assustou muita gente em 66.

Alcançou às quartas de final depois de bater e eliminar a Itália por 1×0. No mata-mata, chegou a fazer 3×1 em Portugal, mas acabou eliminada com a virada (5×3) portuguesa comandada pelo craque Eusébio.

Claro que isso faz muito tempo e a Coréia do Norte é, em tese, a grande zebra no grupo do Brasil. Porém, se voltarmos outra vez ao Exército deles, veremos que disciplina e disposição não faltará.

Basta assistir a marcha dos militares norte-coreanos no vídeo abaixo durante a comemoração dos 60 anos da fundação da República em 2008.

Sem dúvida marchar no estilo norte-coreano cansa mais do que jogar uma partida de futebol.

Veja também como foi a vitória da Coréia do Norte sobre a Itália em 66.

Dunga, o chefe da seleção

Prezado Capitão,

É ruim ter que começar um texto repetindo algo. Mas é preciso dizer, antes de qualquer coisa, que concordo com a sua convocação.

Em 90%.

Lamento apenas o fato de não abrirmos mão de (pelo menos!) um volante para a entrada de um meia de criação ou outro atacante. Não cito nenhum nome para não desviar o assunto.

Ressalto também que não sou um entusiasta de corpo e alma do futebol arte, do futebol ultraofensivo com cinco atacantes ou qualquer outro sistema para quem espera ver seis gols numa mesma partida. Não concordo com os saudosistas que pretendem ainda ver o time de 1970, ou pior, a de 58 em ação novamente (talvez por isso comparem tanto a convocação de Neymar com a de Pelé).

Admiro uma defesa técnica, com senso de cobertura, com os atacantes voltando para marcar e com saída de jogo de qualidade.

Também concordo com o cara que diz que bons ataques ganham jogos, mas boas defesas, campeonatos. E, com certeza, nunca vi em resultados uma preparação tão boa da Seleção.

Enfim, tudo isso para esclarecer que nas pesquisas de opinião sobre o trabalho do treinador da Seleção eu engordaria a minoria ao seu favor, professor.

Mas não consigo gostar da maneira pessoal (e não profissional) como o Dunga comanda a amarelinha.

E só faço essa crítica por admirar o Dunga, o capitão do tetra. O jogador raçudo que berrava e compensava a técnica com garra, mas que também sabia dar seus toques precisos e lançamentos longos de três dedos.

Uma crítica não, calma professor.

Um toque, já que torço para o Brasil ganhar como torci quando vi pela primeira vez uma taça erguida pelo Brasil por suas mãos.

Símbolo de uma liderança, que o levou ao comando da Seleção,  e que é tão indiscutível como a certeza de que a preparação  (?) da Copa de 2006 não poderia se repetir.

Mas, Dunga, você parece ter mergulhado fundo na imagem de capitão.

Quem lê, ou melhor, quem não lê por que não há notícias da Seleção, tem a sensação de que parecemos estar tentando alcançar o extremo da “preparação ideal”.

Jogadores intocáveis como soldados num bunker. Tudo hermeticamente vedado contra a possível contaminação da imprensa e dos torcedores.

Aliás, a higienização parece já ter sido iniciada na escolha dos soldados. Apenas os aria…, ou melhor, apenas aqueles que se enquadram no mais rigoroso grau de seleção jamais realizado na história das nossas seleções.

Há que se dormir cedo e escovar os dentes, pelo menos, quatro vezes ao dia.

Tudo muito certinho e sempre rodeado de discursos de auto-ajuda. Não raros, vazios de significado.

Seu mau humor ao lidar com a imprensa é tão caricato que, às vezes, parece tencioná-lo a dizer bobagens como a de que para saber se a ditadura ou a escravidão foram ruins é preciso tê-las vivido – meu Deus, vou lá tomar umas chibatadas para saber que não é legal ser escravo.

A atuação da assessoria de imprensa também demonstra a blindagem verbal. Ou seja, perguntar pode, mas só aquilo que queremos responder.

Em outras palavras, na Seleção, Dunga, você é um professor que vai muito bem em matemática, mas precisar estudar um pouco mais de humanas.

Não tem problema. Isso é coisa da inexperiência. Afinal, também é novato como comandante de um time de futebol.

Tudo muito planejado, muito sincronizado, muito marcado.

Mas que pode parecer previsível e ultrapassado, às vezes.

Com essa postura exagerada, dá até para pensar que o professor Dunga é um general diante de uma nova Guerra Fria e deseja construir um novo time científico e imbatível.

Talvez como aquele da URSS que levou um baile de Garrincha em 58 (viva os saudosistas!).

Digo tudo isso, pois tanto pelo estilo de jogo que, ao que parece, teremos na Copa, quanto pela frieza que a Seleção transmite com o isolamento e tão poucos jogadores carismáticos, cada vez mais aumenta o fosso entre a Seleção e os torcedores.

Como se já não bastasse tantos jogadores estrangeiros, nem no Brasil o torcedor consegue ficar mais perto deles.

Se futebol é tão sério quanto uma Copa faz parecer ser, diria a você, capitão, que muitas de suas atitudes como técnico contrariam traços marcantes e autênticos do futebol e do povo brasileiro. E que antes de ser um time, a Seleção é um patrimônio da humanidade (e do brasileiro) e você pode estar prestes a cometer um atentado histórico ao descaracterizar ainda mais a Seleção.

Tornar as coisas um pouco menos chatas para a torcida não quer dizer cair na esculhambação. É só uma questão de aproximar duas forças que devem estar juntas.

Devagar, comandante.

A pressão para quem está fora da Seleção, torcendo, também é grande.

Corinthians verde

Curiosa reportagem da Revista Playboy assinada por Fábio Murakawa fala de um outro Corinthians, de Cabo Verde na África. Fundado por apaixonados pelo Timão paulista, a equipe cabo-verdiana, fundada em 1987, comemora sua chegada a segunda divisão e, por completa falta de recursos (possui uma renda mensal de, aproximadamente, 375 reais), joga com um uniforme doado de cor verde. O que talvez fosse razão para a manifestações incendiosas por aqui, é, na verdade, uma manifestação deliberada de paixão.

Na reportagem, o presidente Andrés Sanchez até promete que enviará um uniforme preto e branco para os primos africanos. Torcedores convertidos principalmente pela influência da TV brasileira no país, os cabo-verdinos mostram a grandeza de um time que, na maioria das vezes, é muito mal aproveitada aqui no Brasil.