O último campeão francês de Roland Garros

Na última terça-feira, Jo-Wilfried Tsonga despachou o supercampeão Roger Federer das quartas-de-final com inquestionáveis 3 sets a 0.

Se chegar ao título, quebrará uma escrita de 30 anos sem que um francês fature o Grand Slam parisiense.

O último foi Yannick Noah em 1983.

Aliás, Noah é uma figura muito curiosa.

Quando estive na capital francesa, ele chamou minha atenção por uma sacada longe do esporte: sua versão de Redemption Song, de Bob Marley, que vi na TV. Era a única coisa boa em meio a coletânea de bobagens que são  a maioria das paradas de sucesso em qualquer lugar do mundo.

Não sabia que aquela figura de cabelos e nome afros havia sido um grande tenista no país da família Le Pen. Muito menos, do calibre de quem ganhou o mais importante torneio da França.

Mais: Noah, filho de um jogador de futebol camaronês, quando parou de jogar foi capitão da primeira vitória do time francês na Copa Davis e também na Fed Cup.

Depois de uma carreira de sucesso, o ex-tenista se aventurou pela música e não faz feio cantando.

Tem mais: seu filho (foto) com uma ex-miss sueca, é Joakim Noah, ala do Chicago Bulls, time eternizado na NBA por Michael Jordan.

Em 2008, Joakim foi detido nos EUA por beber na rua. Também encontraram maconha em seu bolso. Ao ser questionado pela imprensa em polvorosa, Yannick, que em outra oportunidade já admitira ter usado a erva, minimizou. Preferiu dar apoio ao jovem.

Ao contrário do célebre ator francês Gerrard Depardieu, Yannick Noah se posicionou a favor do aumento de impostos para os mais ricos na França. Segundo afirmou em entrevistas, o ex-tenista até retirou seu dinheiro da Suiça – onde não era taxado – e o levou de volta à França.

Para jornais franceses, afirmou que era preciso distribuir a renda do país.

De volta ao tênis e a 2013, Tsonga  pode ser mais um descendente de imigrantes a levar o nome da França ao topo do esporte. E por que não, trazer à memória dos mais jovens os feitos do seu antecessor Yannick Noah.

Atualização: infelizmente, Tsonga entrou pressionado como uma mola e pulou rapidinho fora da quadra depois de perder 3 sets para Ferrer. O mesmo aconteceu com o espanhol na final contra seu compatriota Rafael Nadal, o campeão dos campeões do torneio. 

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Violência sobre rodas

Há algum tempo venho matutando – e protelando – para escrever algo sobre meu gosto de pedalar. Nesse período, alguns temas vieram à mente. Pensei em falar sobre o prazer de pedalar, o sentimento de liberdade ao rodar por diferentes bairros, parques e avenidas da cidade;pensei em tratar sobre as diferenças entre criar ciclofaixas de lazer e desenvolver uma estrutura de transporte urbano para bicicletas?; ou simplesmente escrever um manifesto pelo uso das  magrelas – alguém ainda chama as bikes assim? – como prática de esporte e, ao mesmo tempo, solução para um sistema de transporte completamente falido. Dava até para fazer um textinho sobre como elas servem até para o turismo, ao menos para quem aprecia desbravar pontos famosos das cidades sem a necessidade de parar o carro em estacionamento ou passar rápido sem observar com mais atenção.Certamente há muito a se falar. Inclusive, há um assunto que preferia não escrever. Aquele que diz respeito à convivência entre bicicletas e veículos motorizados no trânsito. Uma discussão que volta e meia retorna ao mesmo ponto de partida, geralmente recomeçando com mais um caso trágico de ciclista atropelado e uma posterior divisão entre os defensores radicais dos pedais, os cicloativistas, e o cidadão comum, os quais vou levar em conta apenas os que tentam enxergar além do próprio para-brisa. O percurso é quase sempre o mesmo e, invariavelmente, chega-se pelo mesmo relativismo à constatação mais trivial: a estupidez existe atrás do volante do automóvel e também sobre o selim da bicicleta.Por essas e outras, não queria me meter nessa trilha tortuosa temendo dar voltas inúteis e soar repetitivo. Até porque como alguém que gosta mais de pedalar do que dirigir, minha inclinação natural poderia ser apontar que o local mais fácil para se encontrar um imbecil na cidade grande é dentro de um automóvel. Principalmente, se for em um desses “utilitários” grandões, que em uma cidade na qual falta espaço, certamente devem ter alguma outra coisa útil que não seja o tamanho. Nem a truculência com que alguns trafegam.Mas no último final de semana fiquei chocado. Outra vez, um ciclista foi atropelado na Avenida Paulista, onde frequentemente gosto de passear. Mas, confesso: evito pedalar ali porque não vejo condições mínimas de segurança. É verdade que dessa vez o ciclista não morreu. Mas em virtude do choque brutal contra o automóvel, seu braço foi decepado pelo impacto e acabou preso ao veículo. Sem prestar socorro á vítima, o motorista do carro fugiu e se desfez do braço jogando-o em um córrego.

Se não fosse mais uma produção melancólica da vida real em São Paulo, o enredo passaria sem sobressaltos por uma cena de Mad Max, um dos filmes violentos de Mel Gibson que mostra o mundo em disputa sangrenta após a devastação completa pela guerra. É o trânsito de São Paulo cada vez mais parecido com a “cúpula do trovão”, onde só um chegará vivo ao seu destino.

O carro, menos do que um meio de transporte, é cada vez mais símbolo de um plano urbanístico fracassado. Peça de um sistema de transporte em colapso. Paradoxalmente, cada vez mais confortáveis, espaçosos e conectados à tecnologia, no dia a dia duro da cidade grande os automóveis são reduzidos a meros entulhos de lata enfileirados, gerando dezenas ou centenas de milhões de horas improdutivas que contrariam a própria noção capitalista que os sustenta e os estabeleceu na cultura como símbolo de sucesso, ostentação e potência. Inclusive a sexual. Na realidade fora das propagandas, carros hoje podem ser vistos também como desperdício de tempo, de paciência e de saúde.
Mas como todo sistema de rodas e engrenagem mais complexo, a tensão na convivência do trânsito vai além da singela dicotomia carro-bicicleta. E é por isso que não adianta nenhum dos lados partir para o confronto. Como ensinou o escritor americano Stephen Crane, definitivamente não há glórias na guerra, apenas uma mancha de sangue. E nessa guerra civil do trânsito, que infelizmente parece já ter começado, as armas estão postas sobre rodas. Justamente a roda, invenção do homem que marca um dos pontos de partida em direção à civilização e ao conhecimento, se tornou o epicentro de uma discussão que gira em círculos sem chegar a uma solução. Vil ironia, é sobre as rodas que o ser humano comete suas mais estúpidas barbáries. Sobre rodas ele nega sua própria evolução.Mas como um adepto das voltas de bike (não me acostumo a grafar assim, mas vá lá), achei que poderia escrever para tentar ao menos encontrar algumas explicações. Pedalando semanalmente nos últimos anos, tenho notado alguns fatos que podem dar evidências sobre o real problema – veja bem, não é uma pesquisa, apenas percepção.Sinto que há um aumento dos motoristas de automóveis que respeitam o espaço do ciclista. Alguns até oferecem prioridade na passagem e ultrapassam com cuidado, atentando-se a uma distância segura. Sinceramente, acredito que há uma parcela que parece disposta a “aceitar” a divisão da via pública. Essa é a boa notícia.Por outro lado, nas ciclofaixas e nos parques, justamente onde há uma proposta clara de lazer, percebo um aumento considerável de ciclistas mal educados, transportando para o pedal os mesmos sintomas e vícios que já estamos calejados de ver sobre quatro rodas. Em lugares onde se poderia reinar a tranquilidade, não é difícil se deparar com um ciclista energúmeno. Para chegar sabe-se lá onde mais rápido, faz ultrapassagens e manobras arriscadas e coloca em risco seus pares. Muitas vezes ignoram até crianças em suas bicicletas com rodinhas.

Como sou também um pedestre assíduo, outras cenas desse tipo não me escapam. Ciclistas também atropelam as regras de trânsito e do bom senso ao andar em alta velocidade sobre calçadas cheias de passantes; enfrentam a contra-mão de vias principais expondo ainda mais a própria fragilidade ou, ainda, atrapalham outros ciclistas que tentam, por sua própria segurança, seguir o fluxo normal como sugere o código de trânsito. Sobre uma bicicleta, alguns ameaçam  pedestres da mesma forma que talvez fariam com outros ciclistas se estivessem em um carro.

Ah, e a pressa e a impaciência transcorrem exatamente como no trânsito “tradicional”. Posso estar exagerando, mas até as quedas parecem aumentar desde a primeira vez que percorri uma dessas ciclofaixas e, em pouco tempo, não me estranharia se as desavenças – com ou sem palavrões, indo ou não às vias de fato,-  começassem a surgir a cada nova barbeiragem ciclística.Por isso, a ferrugem que corrói  continuamente a estrutura da convivência pacífica não está somente em quem anda de carro. Tampouco só nos ciclistas (ou nos cicloativistas). Não podemos levar adiante o tema como uma luta de classes. Admito que talvez não tenha todas as respostas para dar visão a quem dirige com olhos vendados pelo individualismo exacerbado ou simples ignorância.Só não quero ficar parado no meio da pista. Acredito que a redução de carros nas ruas tornará o sistema de transporte melhor, deverá diminuir os dados trágicos e, quem sabe, abrir espaço para um sistema de transporte menos estressante. E  muita gente também já se deu conta sobre a inviabilidade dos carros e, por isso, está tentando se adaptar a uma bicicleta – que bom! Logo, o tráfego delas tende a crescer cada vez mais e será preciso fazer esse contingente entender que ciclistas também precisam cumprir suas obrigações. Seja para não prejudicar aqueles que andam a pé, seja para ter consciência de sua fragilidade frente aos seus colegas de lata e aço e a importância do uso de certos equipamentos e do respeito a algumas regras de segurança.E nesse momento, luz amarela, sinto desapontar o leitor porque após andar todo esse caminho, posso chegar a um lugar comum. Isso porque minha conclusão é de que o caminho mais curto para civilizar nosso trânsito está de novo naquela via tão pouco cuidada da sociedade brasileira: a educação.

Quem sabe falando das diferenças dos direitos e deveres de carros, bicicletas e pedestres desde a escola infantil. Quem sabe com campanhas na Internet, na TV, nos parques, nas ciclofaixas e onde mais for necessário. Quem sabe com mais fiscalização e orientação para quem comete abusos dentro dos carros ou em cima das bicicletas.

Um bom começo já seria ver não apenas ciclistas protestando quando alguém sobre uma bicicleta é atingido. Afinal, muita gente ainda finge que um ciclista atropelado não lhe diz respeito. Todos somos vítimas de um trânsito violento e mesmo aqueles que nunca sentaram a bunda em um selim precisam se comover, se indignar e se for o caso, andar pelados juntos aos ciclistas nas ruas da cidade. Do seu lado, os ciclistas também podem começar a ensinar seus colegas sobre duas rodas como se comportar de maneira menos desorganizada nas ruas, calçadas e ciclovias.

Certamente há uma longa estrada pela frente. Só não dá mais para ver tanta gente morrendo sobre rodas e nada sair do lugar.

 

Dois Escobares: ópio do povo está além do futebol

O filme não é novo.

Dois Escobares (Two Escobars), documentário dirigido pelos irmãos Jeff e Michael Zimbalist, chegou a ser exibido na 34ª Mostra de cinema em 2010 embora, atualmente, esteja sendo mostrado também na TV aberta pela ESPN, dentro de uma série de documentários esportivos.

Mas a sustentação da narrativa usando o tripé futebol, política e sociedade é just in time quando tanto se fala em Copa do Mundo no Brasil.

O filme mostra com primor como futebol e política se misturam ao longo da História como afluentes de um grande rio e como seus desdobramentos desembocam na sociedade. No caso do filme, uma sociedade tomada pelo narcotráfico.

Não que o uso político do futebol seja novidade. Basta dizer que a Seleção de 70 não é só um clássico pela bola que jogou, mas também pelo exemplo, muitas vezes já discutido, da exploração política que o Regime Militar fez daquela imagem de sucesso. Mas como já dito, em tempos que se discute Copa do Mundo por aqui não é necessário lembrar dos encontros e desencontros entre política e futebol.

Porque no caso colombiano, a seleção da país era passada de pé em pé por dois lados de uma mesma guerra: o governo tentando vender uma imagem de prosperidade e de controle da situação frente ao narcotráfico que, para usar do linguajar futebolístico, ocupava os espaços deixados pelo Estado, ganhando legitimidade e popularidade junto ao povo colombiano e, pior, quando da ausência desse Estado, dividindo o poder da força bruta e, muitas vezes, até das leis.

Nesse cenário, o roteiro tem o mérito de conectar todas esses componentes unindo duas pontas que, aparentemente, possuem apenas um sobrenome em comum: Escobar.

Um deles é o famigerado traficante Pablo Escobar que iniciou a construção de seu império nos anos 70, comandando o Cartel de Medelin que no seu auge, chegou a dominar 80% do mercado ilegal da região. Assim como o futebol colombiano em sua plenitude chegou a engasgar campeões como a Argentina, derrotada em casa por 5 a 0, Pablo Escobar aquela altura já se tornava quase um mito para uma parcela da população e seu domínio territorial do comércio de drogas certamente incomodava muitos figurões, a ponto dos EUA entrarem no jogo.

O outro Escobar – que não possui grau de parentesco com Pablo – é o zagueiro e capitão da seleção colombiana na Copa do Mundo de 1994. Um time famoso pelas figuras excêntricas como o meia Valderrama e o goleiro Higuita, mas também reconhecido por ser a equipe que jogava o melhor futebol antes do Mundial dos Estados Unidos. Fato que fez até Pelé afirmar, em um de seus palpites mais trágicos, que a Colômbia era uma das favoritas ao título naquele Mundial.

Só que  a tragédia não se deteve ao campo de jogo. Pior do que a desclassificação prematura, ainda na primeira fase, a Colômbia viu o zagueiro Andres Escobar, autor de um gol contra que acabou selando a eliminação da equipe contra os EUA, ser assassinado duas semanas depois de voltar para o seu país. Na ocasião, um território praticamente sitiado pela disputa entre as Forças Armadas, Agentes dos EUA e gangues.

Mesmo com tantos ingredientes misturados, a história só desenrola fácil porque o documentário é rico em depoimentos e imagens de jogadores, técnicos, familiares do zagueiro assassinado, políticos e até de capangas de Pablo Escobar que mostram como a instabilidade política se estendeu ao dia a dia dos jogadores e acabou se tornando o principal adversário daquela que foi a melhor equipe da história do país.

Mike Tyson no Animal Planet

Falar sobre um programa de Mike Tyson no Animal Planet pode ser uma deixa para dezenas de piadas infames.

Para o bem de todos não farei uma sequer. O que está escrito acima é a mais pura verdade. Mike Tyson já gravou um programa para o canal dedicado aos animais que foi ao ar em março nos EUA.

O engraçado, por tão curioso, é que Mike Tyson aparecerá na televisão falando de sua maior paixão: os pombos.

No vídeo abaixo é possível até conferir o ex-campeão falando que ama alguma coisa viva e mais, pegando um pombo entre suas mãos sem esmagar o pássaro entre dedos que tantas vezes aterrissaram em cabeças alheias. Dentro e fora do tablado.

Ainda não assisti os episódios, mas vi alguns trechos na Internet. No Brasil começa em 16 de junho.

No trailer da série, Tyson conta quando brigou pela primeira vez porque um garoto arrancou a cabeça de um pombo seu.

Apesar da violência um tanto incomum contida na história, não há novidade quando se trata de eventos que podem ter moldado a personalidade explosiva de Mike Tyson.

Aliás, nada é mais comum do que ver Mike Tyson em um meio de comunicação qualquer mostrando sua faceta animalesca.

Mas se prevalecer a proposta de mostrar a dedicação do brigador com pombos de corrida  – algo que no caso dele soa até sublime -.ficarei mais animado.

Seria a primeira vez que uma câmera tenta olhar para Tyson como um ser humano.

Ode a Guga

A força do guerreiro se reconhece no campo de batalha.

Em Roland Garros, ainda desconhecido, Gustavo Kuerten desmantelou seus adversários para conquistar a primeira das três coroas e ter seu coração, instantaneamente, flechado pelos encantos de Paris.

Como o herói grego Aquiles, Guga, sozinho, fez da raquete espada para riscar sua trilha gloriosa no tênis mundial.

Ainda que o calcanhar nunca o abandonasse, seu quadril o colocou defronte ao inevitável abandono das quadras. Guga gostaria, mas não pode lutar mais. Aos 31 anos, haverá de interromper seus golpes no terreno que o consagrou.

O primeiro duelo em Roland Garros em 2008 é a caminhada para uma derrota sabida (a menos que os deuses resolvam aprontar alguma).

Exatamente como fez o herói grego na derradeira batalha em Tróia. Mas para o verdadeiro guerreiro, a vitória é detalhe frente à verdadeira graça de combater.

Nada melhor que os tempos de luta tenham um fim em seu solo favorito: O saibro. Onde ele desenhou sonhos e corações.

Guga fez para o Brasil o que nenhum guerreiro imaginou e só por isso merece um templo no esporte nacional. Talvez até haja alguém para contestar seu real valor. Não importa. O que fica é a História de suas conquistas. Na França, a odisséia de Guga terá um final feliz.