Tatuagem de Wawrinka

Além de vencer o Aberto da Austrália de tênis em 26 de janeiro de 2014, o tenista suiço Stanislas Wawrinka também teve méritos ao levantar a bola para o escritor irlandês Samuel Beckett, graças a uma tatuagem em seu antebraço com uma frase do autor modernista (retirada do texto worstward ho): "Se já tentou, já falhou. Sem problemas. Tente outra vez. Falhe outra vez. Falhe melhor".
Além de vencer o Aberto da Austrália de tênis em 26 de janeiro de 2014, o tenista suiço Stanislas Wawrinka também teve méritos ao levantar a bola para o escritor irlandês Samuel Beckett, graças a uma tatuagem em seu antebraço com uma frase do autor modernista (retirada do texto worstward ho): “Se já tentou, já falhou. Sem problemas. Tente outra vez. Falhe outra vez. Falhe melhor”.

Roger Federer: figurinha da Suiça

Roger Federer figurinhaUm desvio na bola depois de um chute sempre muda sua trajetória e a leva para um lugar totalmente diferente do que seria se seu caminho original fosse mantido. Assim se deu com a carreira de Roger Federer. Por pouco, o tênis não perdeu um de seus maiores jogadores de todos os tempos para o futebol.

Alguns anos de sua infância o tenista suiço passou jogando bola com os pés, até perceber que a vitória no futebol não dependia exclusivamente de seu esforço. Como Federer nunca teve talento para perder, correu dos campos para as quadras de tênis onde conquistaria o mundo com sua técnica exuberante.

Mesmo assim, ele nunca abandonou o gosto pelo esporte de seus ídolos da Copa de 90 como Toto Schillacci e Roberto Baggio. e, mais tarde, Ronaldo, Figo e Zidane.

Federer ainda foi embaixador da Eurocopa de 2008 e é torcedor do FC Basel, time que é um dos maiores vencedores na Suiça, mas que está longe de se equiparar aos grandes clubes europeus.

Em 2012, o tenista veio até o Brasil para dar uma canja de sua, aparentemente, restrita intimidade com os movimentos do futebol em um evento promovido pela Gillette em São Paulo. Mas bastou alguns lances para começar a se ver em desvantagem contra seu oponente, o alemão Tommy Haas, e ele rapidamente correu para pegar sua raquete de volta.

 

Steve Nash: figurinha do Canadá

Steve Nash figurinhaÉ verdade que o Canadá está para o futebol como o Brasil está para a maioria das modalidades das Olimpíadas de inverno. O maior feito da seleção canadense foi se classificar para a Copa do Mundo em 1986, no México.

Talvez pela distância que a bola fica dos pés na país mais setentrional da América, Steve Nash resolveu ser armador de basquete. Sorte das quadras que puderam desfrutar do talento do jogador que atualmente defende os Lakers de Lons Angeles, mas já passou ótimos momentos por Phoenix Suns e Dallas Mavericks.

Só que Steve Nash é um ponto fora da curva e mesmo sua dedicação à bola laranja não o fizeram abandonar seu gosto pelo futebol. Tanto que é impossível negar que ali há uma certa habilidade.

Mais do que os bate-bolas que participa e organiza com outros nomes conhecidos, Steve Nash resolveu levar o futebol a sério fora dos campos e para isso se tornou um dos quatro proprietários do Vancouver Whitecaps, equipe que disputa a MLS, a Liga profissional norte-americana.

Michael Schumacher: Figurinha da Alemanha

schumacher figurinhaContando títulos mundiais, Michael Schumacher chegou onde nenhum piloto havia alcançado e escreveu em seu currículo a palavra heptacampeão.

Supercampeão de uma modalidade mundialmente badalada como a Fórmula 1, dá para arriscar que provavelmente não há nenhum alemão tão famoso e que tenha uma relação tão forte com o futebol.

Torcedor de infância do Colônia (FC Köln no original), coisa mais comum era ver todo fim de ano Schumacher batendo uma bola com outras celebridades em peladas beneficentes. Ele mesmo já afirmou gostaria de ter sido jogador profissional – não o fez por falta de categoria – e que o futebol é um de seus esportes preferidos, como o tênis , natação e o esqui que, por infelicidade, foi a causa do acidente que o mantém hospitalizado.

Magic Johnson: O Anúncio

 

Crédito foto: Francis Specker/Bloomberg News
Crédito foto: Francis Specker/Bloomberg News

Meu primeiro contato com o basquete profissional norte-americano foi no fim dos anos 80, comecinho dos 90, quando era possível, muito mais no videogame do que na TV, ver as estrelas do basquete norte-americano em quadra.

Sempre tive uma simpatia gratuita por Magic Johnson e os Los Angeles Lakers, ainda que o basquete tenha sido meu segundo esporte muito mais por influência da turma do Oscar  e, principalmente, por causa da rainha Hortência que assistia defender as cores de Sorocaba em jogos eletrizantes contra outra Magic, a Paula que atuava por Piracicaba.

Mais ou menos como acontecia com a Seleção de 82, a dimensão que Earvin “Magic” Johnson representava para o basquete me era clara, mas só fui entender melhor como funcionava seu jogo, suas assistências, sua liderança, enfim, como jogava em quadra mais tarde, justamente quando ouviu-se falar mais dele no Brasil por seu anúncio público de que contraíra o vírus do HIV.

Até então, a principal referência nacional que assumira publicamente a condição de infectado pela doença fora Cazuza. Infelizmente, tanto no seu caso quanto em quase todas as pessoas de que se tinha notícia naquela época eram relatos de um fim triste, depois de uma caminhada dolorida.

Magic Johnson conseguiu percorrer outra estrada. O documentário produzido pela ESPN dos EUA no ano passado e reprisado pela ESPN Brasil nos primeiro dias de janeiro (há também uma versão legendada no YouTube) mostra exatamente essa vitoriosa trajetória, mas não sem sofrimento, do jogador. O texto é narrado pelo próprio atleta e ilustrado pelos depoimentos de quem lhe era mais próximo naqueles dias que abalaram o basquete e o mundo.

Dramas profissionais e familiares, preconceito e ciência são temas fundamentais que envolvem a doença e estão bem exemplificados pelo diretor Nelson George – que já havia feito filmes sobre o tema na HBO – para que se possa entender a evolução no tratamento e no entendimento das pessoas em relação à AIDS.

Sem falar nos toques de magia que só o esporte é capaz de acrescentar às histórias de superação.

Um exemplo ocorre durante o Jogo das Estrelas da NBA. A posição de especialistas era contundente em afirmar que o risco de contaminação em quadra eram mínimos e, elas fizeram Magic Johnson desistir da aposentadoria em 1992. Mas muitos jogadores não se conveciam – duvidavam? – de que o simples contato físico não trazia perigo. Coisa que não se deu com o maior deles.

Durante o jogo em que defendiam lados opostos, Leste contra Oeste, Michael Jordan fez questão de marcar Magic bem de perto. Cutucou, chamou para o duelo, segurou e até mandou um apertão na bunda de Magic como se aquilo fosse mais do que uma brincadeira entre amigos, mas uma forma de convencer a todos de que não havia motivos para se preocupar.

*Acessei a programação da ESPN Brasil e não encontrei um dia de reprise, ao menos na próxima semana. Mas vale a pena solicitá-la junto à emissora. Poderiam, no mínimo, colocar em todos os horários dedicados ao chatíssimo pôquer. 

Mega Sena, esporte nacional

Mauro Akin Nassor/04.10.2012/Estadão Conteúdo
Mauro Akin Nassor/04.10.2012/Estadão Conteúdo

Ganhar na loteria é o que se ouve em todo lugar. Principalmente em fim do ano em que fazer uma fé vira esporte nacional. Em 2013, informam os jornais, o prêmio está perto de R$ 220 milhões.

Grana que representa 32,2% do montante que a Caixa arrecada com as apostas e que ele espera bater em R$ 680 milhões.

Como quase todo ato político do país da Copa, a loteria tem muitas voltas e o dinheiro viaja para muitos destinos diferentes. Nestas viagens que a loteria dá, surge uma rara ocasião em  que se é possível catalogar a prática de uma expressão muito ouvida na boca de autoridades: investimento no esporte.

É importante dizer, da arrecadação com a Mega da Virada, o Comitê Olímpico Brasileiro receberá 1,7% e o Comitê Paraolímpico 0,3%.

em dinheiro vivo contam cerca de R$ 13,8 milhões estimados que não passariam nem perto dos mais de R$ 40 milhões que o Corinthians, no futebol, investiu só para contratar Alexandre Pato junto ao Milan.

A arrecadação da Mega Sena também vai para áreas como o Fundo Penitenciário Nacional que recebe 3,14%. Acima dos 2% que somam os comitês olímpico e paraolímpico.

O Financiamento Estudantil (Fies) fica com 7,76% e o Fundo Nacional de Cultura com outros 3%.

Há ainda 13,8% destinados ao imposto de renda, 18,1%  para a Seguridade Social,10% de tarifa de administração da Caixa, 9% de comissão dos lotéricos e, finalmente, 1% para o fundo de Desenvolvimento das Loterias (FDL) que impede o esporte de segurar a lanterna nessa tabela.

Trégua de Natal

Partida de futebol documentada enter ingleses e alemães.
Partida de futebol documentada entre ingleses e alemães.

Há um famoso relato ocorrido em 1914, cinco meses após a declaração da I Guerra Mundial, contando como a chegada do Natal provocou um cessar-fogo nas trincheiras entre os inimigos mortais alemães e ingleses.

A trégua de Natal, como ficou conhecida, não foi uma declaração oficial dos países, mas um gesto que partiu dos soldados. Corpos de combatentes em terra-de-ninguém foram devolvidos, presentes trocados e, incrível, até uma partida de futebol amigável foi disputada entre germânicos e bretões.

Duro imaginar que, depois de interromper os ataques mútuos, os soldados precisassem voltar a matar uns aos outros. Inclusive, os registros dão conta de que não houve um episódio parecido durante o confronto, muito por conta da intransigência dos líderes das nações  que não aceitaram novas tréguas – nem haviam assinado aquela – e também devido aos métodos utilizados para atacar o inimigo, como gases venenosos. A destruição feroz e desumana tornava bem mais difícil novas atitudes de boa vontade entre as partes.

Pensar que depois da trégua de natal no início do século passado não houve outra narrativa na qual o espírito de humanidade tenha se sobreposto a um grande conflito dá uma sensação que o mundo tem piorado desde então.

Precisamos mais tréguas em nossas vidas.

Tite e o merecimento

Escrevo antes de Corinthians e Grêmio pela Copa do Brasil, jogo que pode dar um respiro ao trôpego segundo semestre  do time ou, mais provável, colocar fim à esperança mais próxima de alcançar a Libertadores.

Se os gaúchos, favoritos do momento, avançarem, muito mais gente clamará pela saída do também gaúcho Tite. Mesmo depois que a diretoria e o treinador garantiram a permanência até o fim do contrato, em dezembro de 2013.

Embora seja qual for o resultado dessa e das próximas partidas,  a situação do Adenor será discutida quanto mais perto estivermos do fim da temporada. Aliás, mesmo que o assunto já esteja resolvido entre técnico e diretoria, muito ainda vai se falar de Tite. Inclusive, se nada acontecer, muito se falará do técnico do Corinthians porque muito se fala de técnico no Brasil. Por isso, vou falar de Tite.

A partir da desmontagem do time campeão em 2012 e a reconstrução da equipe,  o coro pela demissão do treinador sobe o tom a cada atuação fraca.

Normal. Não é absurdo que após 3 anos – durabilidade rara para os padrões nacionais – venha a constatação de que um ciclo se encerrou e chegou a hora de partir para “outro desafio” – como manda o jargão dos que trocam de emprego. Tite sempre disse ao longo de sua passagem que três anos é um período limite.

Corriqueiro também é que alguns peçam a cabeça do professor como forma de elegê-lo único responsável pelo declínio do time. No fundo, seguem a tradição no país que determina demitir técnico sempre quando a receita começa desandar. Solução não muito eficaz, mas bem rápida para quem prefere não perder tempo em entender as situações.

Vejam, por exemplo, o caso do São Paulo.

Muricy, tricampeão brasileiro seguido, foi demitido porque não conseguia ganhar Libertadores. Torcida e dirigentes diziam que não era “técnico de mata-mata”.  Pouco tempo depois ganhou a perseguida com o Santos. Também levou um Brasileiro pelo Fluminense. Enquanto isso, o Tricolor paulista patinava em busca de um técnico que lhe trouxesse de volta as alegrias. Nada dava certo até que o São Paulo, atendendo novamente exigência da torcida (!), foi buscar… Muricy. E a coisa aos poucos parece voltar aos eixos.

Sob outro aspecto, Guardiola fez o oposto, mas também não permaneceu no Barcelona quando precisou reformular o timaço que vencia e dava espetáculo. Para não se desgastar, mesmo sabendo que precisava fazer, optou por não mexer em algumas peças do elenco e sair em busca de oxigênio. Tite não. Ele já mexeu bastante sacando medalhões, trocando esquemas, fazendo experiências e, claro, errando. Talvez isso atenha acelerado seu prazo de validade.

Por essas e outras, não me surpreenderia se Tite saísse por decisão pessoal.

Incompreensível, no entanto, é a maneira que outra parte – uma minoria da torcida, quem sabe – fala de Tite. E é uma parte que “fala muito, fala  muito”. Parece concentrar boa parte de cornetas que já pedia a demissão do treinador em 2011, que execrava jogadores como Danilo e que é constituída por tipos que só falam de futebol na base da agressividade. Se o pecado deles fosse apenas entender pouco do esporte não seria tão ruim.

Mas no que diz respeito ao treinador, cometem vários erros. Maior deles, a ingratidão.

“Esquecem” que Tite fez pelo clube o que nenhum outro pode.  Se hoje você, corinthiano, pode sair à rua e não ouvir gracinha sobre Libertadores é muito por causa dele. Alguns justificam que o técnico é muito bem pago e, por isso, precisa ser cobrado. Argumento que nem considera técnico como pessoa, mas como um produto com preço, garantia e, pior, descartável. E ainda que Tite fosse uma máquina – às vezes ele parece um robô falando -, no mercado não há similares que façam o mesmo que ele  e que cobrem baratinho.

Claro que qualquer trabalhador assalariado precisa ser cobrado. O que não se pode é confundir cobrança com ignorância. Jogar Tite para fora do clube como bagaço da cana moída que já deu pinga é uma cretinice com a história do Corinthians e tratemento que nenhum torcedor, no seu trabalho, gostaria de receber do seu empregador.

Um clube que eternamente convive com a mancha do arrependimento de ter escorraçado Rivellino, o maior craque que já passou pelo Parque São Jorge, não se pode dar ao luxo de destruir outros ídolos.

Gostem ou não da filosofia do treinador, do seu jeito, do seu vocabulário, do seu esquema tático e até do seu apreço incondicional por uma boa defesa às vezes demasiado,  não dá para negar que funcionou. E mais. Apesar de não ser o que em mais jogos dirigiu o Corinthians (é o segundo!), é difícil não concordar com a sentença: Tite é o treinador mais vencedor da história do Corinthians.

Caso a solução encontrada pela diretoria, pelos jogadores ou até mesmo pelo próprio Tite seja encerrar sua passagem pelo clube no fim do ano, o mínimo que se espera é uma despedida digna,  de quem ganhou tudo que podia pelo clube: homenagens, discurso, plaquinha, dicionário comemorativo com as palavras que Tite inventou ou qualquer coisa que celebre sua dedicação ao clube.

Não se pode esquecer que a escola da “titebilidade” deixou heranças. A maior delas, presente em todas as conquistas, é quando ele fala sobre o “me-re-ci-men-to”.

Tite merece uma saída honrosa, de portas abertas para o futuro, tão incerto como os resultados de futebol. Ainda que, intimamente, haja um coração aqui que não esconde torcer para uma dinastia Tite, coisa jamais vista em nosso futebol, como um Alex Ferguson do bando, talvez nem tão longa, mas ao menos tão vitoriosa.

Superman vs Ali: encontro de heróis

superman-vs-muhammad-ali-99eMuhammad Ali e Super-Homem já se encontraram nos quadrinhos, no início da década de 70, em uma típica história dos tempos mais ingênuos das comics. Não conta com uma complexa estrutura narrativa, nem com tramas psicológicas em que algumas obras mais recentes são pródigas. Mas o roteirista Dennis O’Neil conseguiu tornar o encontro bastante factível e, o mais importante, divertido.

A leitura feita hoje dá ao gibi um caráter de documento histórico também por retratar alguns traços daquele momento da humanidade – só para usar um termo típico das HQs.  Há, por exemplo, uma simples metáfora que traz uma mensagem clara contra a discriminação racial, luta que naquela época revelou personagens fundamentais do planeta Terra como Martin Luther King e Malcom X.

Para não se apoderarem da Terra, dois terráqueos mais fortes decidiriam no boxe quem seria o desafiante do campeão extraterrestre. Então, os alienígenas, cada qual com suas formas, cores, número de membros e de olhos, obrigam Super-Homem a subir no ringue com seu uniforme colorido porque assim seria uma maneira de diferenciá-lo de Ali. No fundo, uma singela forma de dizer que aos olhos de habitantes de outros planetas somos tão iguais que a cor da pele passa desapercebida. Um detalhe levado em conta apenas por humanos, únicos seres dados a essas frivolidades.

O discurso ia ao encontro da postura política de Ali, um notório defensor da igualdade racial e que, além de ser um herói dos ringues, também usou seus poderes – como o fato de ser uma das celebridades mais reconhecidas do mundo – para o bem das pessoas. Coragem em assumir posições que custou ao pugilista um título mundial quando recusou a convocação à Guerra do Vietnã. Depois, ele ainda se converteria ao islamismo, o que seria mais um direto nas fuças da conservadora e cristã sociedade americana.

Ali está entre os poucos esportistas na história a quebrar a barreira de grandes (e meras) celebridades para se tornarem também ativistas. E se você duvida, basta olhar para o maior ícone do futebol brasileiro. Pelé, que no gibi é retratado na plateia durante a luta entre Ali e Super-Homem por ser uma das criaturas mais conhecidas do mundo, jamais abriu mão de sua posição confortável para combater os típicos vilões da cartolagem do futebol e seus planos de dominar o mundo.

Como Ali, poucos puderam estar tão alinhados com os dilemas do Super-Homem, um cara que poderia utilizar sua superioridade para fazer qualquer coisa, mas escolhia sempre estar às voltas em encrencas interestelares sofrendo e brigando para ajudar o planeta que o adotou.  Super-Homem é um herói que atravessa os tempos exatamente por sua opção de encarar dilemas mundanos.

Por sua vez, Muhammad Ali conseguiu transpor a barreira do boxe e do esporte para ser também herói das causas dos simples mortais  e até hoje pode ser símbolo de igualdade e liberdade em tempos que o mundo cada vez mais carece de ídolos verdadeiros.

PS.: A HQ Superman Vs Muhammad Ali foi relançada em 2011 aqui no Brasil pela Editora Panini em edição especial. 

Doping: contraprova de um mundo anabolizado

crédito imagem: http://www.portalsaofrancisco.com.br/
crédito imagem: http://www.portalsaofrancisco.com.br/

A primeira vez que me lembro de ter ouvido o termo “doping” foi quando Ben Johnson perdeu sua medalha de ouro após a Olimpíada de Seul, em 1988. Minha sensação é a de que escuto falar sobre esse assunto desde que comecei a acompanhar esportes.

Ao fazer a pesquisa para esse texto, descobri que o termo tem origem em uma palavra holandesa, nome de uma bebida alcoólica usada por guerreiros para aumentar a força.  E mais: os gregos antigos já utilizavam substâncias que os faziam se sentir mais fortes.

Minha percepção era correta, o doping é tão velho quanto a atividade física. Está tudo lá na página oficial da WADA (Agência Mundial Anti-Doping). Mas se ainda resta dúvidas ao leitor, tem mais: o primeiro registro de um caso de doping em uma competição oficial foi em 1904, quando Thomas Hicks venceu a maratona nos Jogos Olímpicos comendo ovo cru, administrando injeções de estricnina e doses de conhaque que ele tomou durante o percurso. A primeira punição só seria aplicada em 1928, pela Federação Internacional de Atletismo (IAAF).

Agora, em 2013, mais uma vez a IAAF entrou em ação e suspendeu Asafa Powell e Tyson Gay, ambos da elite dos 100 metros rasos, donos de recordes e marcas estupendas. Isso depois do maior escândalo da história do ciclismo culminar, além da vergonha pública, na cassação dos sete títulos da volta da França do fajuto heptacampeão Lance Armstrong.

Vemos uma overdose de notícias de atletas dopados. É verdade que para diminuir a quantidade de casos já há alguns especialistas que defendem a liberação de alguns estimulantes, segundo eles utilizados pela totalidade de atletas (nada a ver com esteroides e hormônios de crescimento). Mas a despeito dessa  ressalva, a constância dos casos de doping me levou a pensar se o mundo não vive em meio a uma filosofia dopante que contamina não só o esporte de alto rendimento. É uma linha de pensamento que deixou de ser uma via paralela, um caminho clandestino e se tornou banal. Quem sabe, dominante.

As frutas no supermercado estão todas dopadas com agrotóxicos. São exuberantes, redondinhas, sem marcas. E sem gosto. A mulheres da TV tem peitão, tem coxão, bocão. E, estranho, vozeirão. Tudo no aumentativo. Sintoma de consumo combinado de silicone, plástica e hormônio. É o doping estético.

As músicas também estão dopadas.  Qualquer um, até quem não gosta, é capaz de sair cantando a mais nova moda após tantas injeções de jabá nas rádios e de aparições dos mesmos artistas na TV. E os filmes? Até mesmo os mais fraquinhos, sem qualquer massa encefálica, são inflados para durar, ao menos, uma trilogia.

Já há quem diga que até as drogas vem sofrendo doping invertido. Elas já chegam ao consumidor com menos substâncias ativas. Haverá o dia em que alguém vai se drogar e passar limpo pela punição porque foi enganado pelo fornecedor.

O mundo está dopado. Não para alcançar o êxtase da vitória. Nem para expandir a consciência. Tampouco pelo nobre direito de se defender da dominação, como na história dos heróis gauleses Asterix e Obelix, que tomavam uma poção mágica para ganhar força sobrenatural capaz de derrotar os exércitos tiranos de Roma.

E se a cultura do doping permeia quase tudo, o esporte fica ainda mais órfão de reflexão.  Claro que a ninguém cabe fazer o papel da justiça. Mas como as regras de doping são um tanto obscuras, fica mais simples para a maioria da imprensa esportiva se limitar ao factual. Principalmente quando se trata de um jornalismo que mistura puro entretenimento a doses de omissão. Porque assim fica mais fácil dopar também o telespectador.

Mas será que entre tantos casos de doping  já não chegamos ao limite? Quem são os responsáveis? Treinadores profissionais? Treinadores da base? Confederações? Todos? Ninguém ainda pensou se o erro não está na formação desses atletas? Os responsáveis por jovens esportistas são capazes de ensinar que a vitória a qualquer custo do atleta é a derrota do ser humano?

As poucas respostas que ouvimos são parecidas: “contaminação cruzada” ou “culpa do suplemento alimentar”. Enganos acontecem, é claro. Mas soa no mínimo curioso tantos se imaginarmos que atletas desse nível são cercados de especialistas de todos os tipos. Inclusive, por médicos que conhecem as regras antidoping e as substâncias proibidas.

No meio de perguntas sem respostas, todos parecem beber do conformismo, sentimento tarja preta que se espalha sem controle pela sociedade. Nos bate-papos do dia a dia,  um raciocínio começa a ganhar corpo (se já não corre ao senso comum): atletas de alto rendimento participam de duas provas simultâneas: a que diz respeito a sua modalidade e  uma outra competição contra a fiscalização antidoping. Nessa linha, não se demora a chegar à conclusão: todos estão dopados. O campeão é aquele que ganha e também é hábil para escapar do exame. Sob o risco de ser tachado ingênuo, ainda prefiro não acreditar nisso.

O doping tira o tesão do esporte  e acaba com a paixão que tanta falta já faz em mundo cada vez mais pragmático. Mais brochante do que o efeito colateral que pode atingir os atletas é a perspectiva de que a única ação que se possa tomar é a conversa de sempre: aumentar o controle e a fiscalização. O próprio presidente  do COI, o belga Jacques Rogge, viu um lado positivo – e não era o teste dos velocistas – nos casos mais recentes. Salientou que os últimos flagrantes demonstram a “eficácia” do sistema de controle de doping fora da época de competições.

Como os vírus de computadores, os sistemas de segurança ou leis contra corrupção, as autoridades esportivas ficam a correr atrás do rabo em uma disputa em que a indústria da falcatrua parece estar sempre um passo a frente das medidas  de controle. Basta dizer que o método de “trocar o sangue” utilizado por Lance Armstrong é utilizado desde a década de 70.

Assim, a história de doping nunca termina. Quanto mais eficientes são os recursos da fiscalização, mais longe estamos de solucionar o problema. Afinal, na falta de se produzir seres humanos mais honestos, o mundo anabolizado prefere fingir que está saudável. E a gente prefere fingir que acredita.