Livro – A Luta, de Norman Mailer

Muhammad Ali - the fightNão seria exagero dizer que este é o livro de esporte mais bem escrito de todos os tempos. Não só pelo talento de Norman Mailer, expoente do jornalismo literário de sua geração (que, entre outros, contava com Truman Capote), mas também porque Muhammad Ali é um personagem por demais fascinante.

Politicamente falando, talvez seja ele das figuras esportivas mais influentes de todos os tempos, a ponto de me fazer arriscar até uma provocação: se Pelé tivesse metade do punch de Ali, talvez a situação do racismo no futebol hoje fosse outra.  Infelizmente, o gênio do futebol lutou sempre do lado mais poderoso. Mas essa é uma outra história.

A “luta” do título não parece apenas uma maneira de se referir ao combate entre Ali e George Foreman em 1974, no Zaire. Mais do que confrontar dois dos maiores pugilistas de todos os tempos, se opunham implicitamente  naquele momento outras forças, como o domínio branco e a autonomia dos negros.

Havia também o pacifismo que se colocava ante à Guerra do Vietnã. Muhammad Ali perdera seu título mundial quando recusou a convocação para o exército enquanto Mailer foi preso depois de protestar contra ela. As “lutas” daquele período ferviam sob fogo alto e, de alguma forma, tanto o boxeador quanto o escritor estavam lá para recuperar algo que haviam perdido.

Não bastasse o contexto político, Norman Mailer tem precisão invejável e, com punhos firmes, descreve um Ali que transcende o gênio esportivo, sem jamais ignorar os fatores decisivos do boxe: treinamento físico, preparação psicológica e a estratégia pensada e desenvolvida para que Ali pudesse lutar em igualdade contra um “Big George” 7 anos mais jovem que ele, no auge da forma física e favorito nas bolsas de apostas.

A primeira vez que me debrucei em “A Luta” foi em uma edição nacional da Companhia das Letras. Gostei tanto que adquiri um exemplar no idioma original para ler novamente (imagem).

 

Black Sabbath eterno

Foto: AP/Jonathan Short - G1
Foto: AP/Jonathan Short – G1

Apesar de ter nascido pouco tempo depois de Ozzy ser dispensado do Black Sabbath, foi à formação original do grupo e aos seus primeiros álbuns que me voltei durante a adolescência e que me abriram as portas do rock. Entre elas algumas que me levaram à insensatez de entrar em discussões com outros fanáticos por achar que Tony Iommi montou excelentes bandas com Dio e Ian Gillan, por exemplo, mas Black Sabbath só existia de verdade com Ozzy no microfone.

Aos 11 anos, comprei o CD Sabbath Bloody Sabbath, quinto álbum de estúdio da banda e até hoje aquele que ouço com mais carinho. Quase sempre de cabo a rabo.

Depois, compraria o Volume 4, outra preciosidade, até chegar à gênese do heavy metal que foram os dois primeiros: Black Sabbath, título de estreia, e o clássico seguinte, Paranoid.

Porém, confesso:  ao ler pela primeira vez a notícia sobre um novo disco com a formação original (ou ao menos 75% dela, sem o baterista Bill Ward) minha reação foi de pura desconfiança.

Aquela altura já tinha aprendido que a decadência é inevitável  até para meus heróis do rock and roll, portanto não gostaria que o Black Sabbath, minha banda do coração, a registrasse em estúdio como tantas outras clássicas e decadentes bandas fizeram ao lançar novos trabalhos.

Quando saíram as primeiras resenhas, fiz questão de não ler. Fugi da competição – que premia ninguém – para saber quem tem a opinião mais rápida sobre um novo disco liberado na rede. Às vezes, acho que já há “críticos” escrevendo sobre discos que nem serão lançados. Na era digital leva-se muito em conta a velocidade.

Felizmente, o Black Sabbath faz parte de outra época. Tony Iommi consegue ser um dos maiores nomes da guitarra mundial sem precisar tocar milhares de notas por segundo. Basta a nota certa no tempo exato. Isso faz diferença.

Inclusive, revelam as notas da imprensa, uma dos acertos do experiente produtor Rick Rubin foi deixar os tiozões à vontade no estúdio para tocar sem pressa e deixar que as músicas cumprissem seus ciclos de 5, 6 ou até mais minutos de duração.  Depois, fiz minha parte e ouvi o disco novo com calma mais de uma vez. Sensação de ótima surpresa. Diria até que “13”, como Ozzy batizou o álbum novo, chega a ser melhor do que alguns trabalhos pré-separação da banda no fim dos anos 70.

Tudo isso encerrava uma questão. Sim, eles ainda são capazes de fazer novas músicas boas! Só faltava vê-los ao vivo.

Ozzy no mesmo palco que  Tony Iommi. Sinceramente achei que nunca teria oportunidade de ver essa cena. No entanto, assistir a isso com o guitarrista passando por um tratamento de câncer e Ozzy voltando à rotina do que foi toda a sua vida – uma  reabilitação sem fim – já parecia roteiro de filme. E não é que foi mesmo?

Se não há mais a mesma energia natural de quem tem 20 ou 30 e poucos anos, nem com o gás proporcionado por otras cositas, alguns sinais nem o tempo apaga. Ao contrário, os tornam ainda mais marcantes.

A velhice deixou Ozzy com mais jeito de bruxo-alucinado. Seu carisma está intacto e ele até aprendeu a lidar melhor com a voz para não desafinar tanto durante seus berros.  Tony Iommi, em seu sobretudo preto e sem as duas pontas dos seus dedos da mão esquerda que o fizeram se reinventar enquanto  músico, mantém a pegada monstruosamente pesada em sua guitarra. É o pai da banda e tudo começou por ele. Geezer Butler, baixista e letrista, é quem dá o ritmo tranquilo,  seguro e, claro, com todo o arsenal de graves que as músicas mais sombrias da história do rock exigem. Durante as duas horas de apresentação permanece praticamente estático em um dos cantos do palco. É a cama perfeita para Iommi deitar com potentes solos.

Não há telão de alta definição, não há coreografias, não há efeitos especiais, nem pirotécnicos.  Este um luxo reservado somente para mestres capazes de reter a atenção de 70 mil pessoas apenas com música e presença de palco enquanto o espetáculo prossegue entre delírios do público extasiado e os sorrisos dos velhos roqueiros.

Definitivamente, o Black Sabbath trilhou nas sombras do rock seu caminho para a eternidade na música. E eu que cheguei por décadas atrasado pude vê-los e ouvi-los de perto.

PS.: Mais uma vez a organização de um grande evento em São Paulo foi horrorosa e indigna da apresentação de uma banda histórica como o Sabbath e completamente desrespeitosa para com um público que pagou um dos ingressos mais caros da turnê mundial da banda. Mas sobre isso prefiro não me estender por já não ter mais esperança de que alguma coisa mude para melhor ainda neste século. 

Superman vs Ali: encontro de heróis

superman-vs-muhammad-ali-99eMuhammad Ali e Super-Homem já se encontraram nos quadrinhos, no início da década de 70, em uma típica história dos tempos mais ingênuos das comics. Não conta com uma complexa estrutura narrativa, nem com tramas psicológicas em que algumas obras mais recentes são pródigas. Mas o roteirista Dennis O’Neil conseguiu tornar o encontro bastante factível e, o mais importante, divertido.

A leitura feita hoje dá ao gibi um caráter de documento histórico também por retratar alguns traços daquele momento da humanidade – só para usar um termo típico das HQs.  Há, por exemplo, uma simples metáfora que traz uma mensagem clara contra a discriminação racial, luta que naquela época revelou personagens fundamentais do planeta Terra como Martin Luther King e Malcom X.

Para não se apoderarem da Terra, dois terráqueos mais fortes decidiriam no boxe quem seria o desafiante do campeão extraterrestre. Então, os alienígenas, cada qual com suas formas, cores, número de membros e de olhos, obrigam Super-Homem a subir no ringue com seu uniforme colorido porque assim seria uma maneira de diferenciá-lo de Ali. No fundo, uma singela forma de dizer que aos olhos de habitantes de outros planetas somos tão iguais que a cor da pele passa desapercebida. Um detalhe levado em conta apenas por humanos, únicos seres dados a essas frivolidades.

O discurso ia ao encontro da postura política de Ali, um notório defensor da igualdade racial e que, além de ser um herói dos ringues, também usou seus poderes – como o fato de ser uma das celebridades mais reconhecidas do mundo – para o bem das pessoas. Coragem em assumir posições que custou ao pugilista um título mundial quando recusou a convocação à Guerra do Vietnã. Depois, ele ainda se converteria ao islamismo, o que seria mais um direto nas fuças da conservadora e cristã sociedade americana.

Ali está entre os poucos esportistas na história a quebrar a barreira de grandes (e meras) celebridades para se tornarem também ativistas. E se você duvida, basta olhar para o maior ícone do futebol brasileiro. Pelé, que no gibi é retratado na plateia durante a luta entre Ali e Super-Homem por ser uma das criaturas mais conhecidas do mundo, jamais abriu mão de sua posição confortável para combater os típicos vilões da cartolagem do futebol e seus planos de dominar o mundo.

Como Ali, poucos puderam estar tão alinhados com os dilemas do Super-Homem, um cara que poderia utilizar sua superioridade para fazer qualquer coisa, mas escolhia sempre estar às voltas em encrencas interestelares sofrendo e brigando para ajudar o planeta que o adotou.  Super-Homem é um herói que atravessa os tempos exatamente por sua opção de encarar dilemas mundanos.

Por sua vez, Muhammad Ali conseguiu transpor a barreira do boxe e do esporte para ser também herói das causas dos simples mortais  e até hoje pode ser símbolo de igualdade e liberdade em tempos que o mundo cada vez mais carece de ídolos verdadeiros.

PS.: A HQ Superman Vs Muhammad Ali foi relançada em 2011 aqui no Brasil pela Editora Panini em edição especial. 

Graciliano Ramos e os ecos de São Bernardo

GracilianoRamosA Flip acabou no último domingo. Mas pra mim, longe da bela cidade de Paraty, a Feira Literária serviu como impulso para reler São Benardo, obra do homenageado da vez, Graciliano Ramos.

Primeiro, pensei que daria um bom texto o que  autor acharia da Flip. Mas como desconfio se iria até lá ser recebido com aquela pompa…

No fim das contas, optei por outro exercício  divertido. Quem sabe uma receita mais saborosa do que aquelas atividades obrigatórias de vestibular que só tornam os jovens mais distantes da leitura de gênios como Graciliano Ramos, Guimarães Rosa e Machado de Assis.

Peguei uma dose de realismo fantástico, um pouco de quadrinhos de Stan Lee e adicionei ao realismo cru e ainda atual de Graciliano. De São Bernardo, obra mais política dele, tirei Paulo Honório, um protagonista nada heroico. Em seguida, imaginei se como o Capitão América, ele dormisse durante uns 80 anos e, de chofre – diria o autor – acordasse no Brasil dos dias atuais. Como ele se situaria? Quais seriam suas posições?

Primeiro, é bom contextualizar. São Bernado se desenvolve na medida em que Paulo Honório conta sua própria história e liberta a voz do autor para uma análise política e social do meio e também profundamente psicológica sobre um rico fazendeiro de origem pobre que alcançou seu único sonho: conquistar a propriedade de São Bernardo, nas Alagoas, sujando as mãos de terra, suor e sangue.

Sujar as mãos de terra significa que Paulo Honório, lá no início dos anos 30, é um fazendeiro que não possui a nobreza nas veias. Não herdou seu latifúndio, tampouco a oportunidade de estudar. Conquistou tudo com  suor e sangue. Principalmente que escorreram dos outros. É uma espécie de coronel “emergente”. De pouco vocabulário, seria incapaz de afirmar que a ética é coisa de filósofos como um dia fez Eurico Miranda, baluarte do coronelismo futebolístico brasileiro. Simplesmente porque desconhecia tal palavra. Muito menos sua prática.

Apesar de deixar claro no primeiro capítulo que sua meta era fazer um livro de sua vida calcado na divisão do trabalho,  Paulo Honório não possui a sofisticação marqueteira de um empresário moderno dos nossos tempos. Não teria, por exemplo, inclinações cabalísticas para batizar  sua Fazenda São Bernardo de FSBX, nem possuía imaginação suficiente para “descobrir” campos de petróleo em meio às plantações de algodão. Mas é incrível como sua maneira brutalizada de enxergar o mundo não estaria muito distante dos dias de hoje. Méritos da obra que, assim como Vidas Secas, segue contemporânea.

Por isso, conforme Paulo Honório vai se abrindo, mais próximo vai se desenhando dos barões do século XXI. É incapaz de viver fora de seu mundo cercado, a despeito de toda riqueza que acumulou. O medo de perdê-la, misturado à inapetência pelo conhecimento, o fazem prisioneiro de sua propriedade.

Ele também é cego para aspectos não materiais. Basta dizer que quando sua futura esposa lhe pergunta se sua fazenda é bonita, ele não sabe a resposta. Apenas diz que é “regular” em sua produtividade. Passagem que lembra Ricardo Teixeira em uma entrevista à revista Piauí, quando também abre seu coração vazio e se mostra tomando champanhe de costas para os jardins de seu hotel em Zurique. Durante tantas estadias na Suíça, o cartola que reinou por mais de vinte anos na CBF também era incapaz de notar qualquer coisa fora de seu caminho para obtenção de mais poder.

Graciliano Ramos expõe com tal clareza as frações do pensamento da personagem que também não seria difícil apontar certas posições para alguns assuntos da agenda pública mais recente.

Paulo Honório não votaria contra a PEC 37. No máximo, seria daqueles que mudaria o voto na última hora. Ainda que por seu destemor destemperado, apostaria mais na primeira opção, agindo como um corrupto que não vê problema em se mostrar assim aos olhos de todos.

Paulo Honório também era incapaz de ver benefícios na educação. Tanto para os outros quanto para si mesmo. O que faria crer que jamais aprovaria a ideia de destinar lucros do petróleo para a melhoria dessa pasta. Aliás, ele é sensivelmente influenciado pela mentalidade escravista e, portanto, como algumas socialites de nossos tempos, provavelmente se escandalizaria com os direitos trabalhistas para empregadas domésticas.

E sobre manifestações? A grandeza da obra faz com que Paulo Honório não seja linear. Por isso, fica difícil apontar exatamente para qual lado o fazendeiro tiraria proveito da situação como fizeram alguns da ala mais conservadora do país. No entanto, em diversos momentos ele afirma não se interessar muito por política e também não pertencer a um partido. Mas seu discurso apartidário é desmentido por ele mesmo ao narrar a constante repressão que exercia sobre as ideais “socialistas” de seu empregado e até da esposa, além do financiamento de veículos de comunicação e políticos que facilitassem seus lucros.

Mesmo desgostando da política, é possível prever que a força das circunstâncias o faria ter uma cadeira cativa por anos no Congresso.  Aliás, a essa altura também não é preciso explicar muito, em se tratando de  questões ambientais, ele se posicionaria ao lado da bancada da serra elétrica. Não é preciso nem dizer o que Paulo Honório acharia da reforma agrária.

Nesta suposição futurista da obra de Graciliano, o que talvez mudaria fosse justamente o fim. Nos dias de hoje, é possível que seu destino fosse bem menos melancólico do que a solidão que lhe toma conta e o leva a escrever sua biografia. Com o livro publicado, não seria espantoso ver Paulo Honório tomando chá com alguns amigos em uma cadeira na ABL.

Torcida do Liverpool canta Beatles

Há momentos em um estádio de futebol que são capazes de arrepiar até o ser humano mais indiferente à emoção. Nesse vídeo, de 1964, qualquer amante do futebol fica de pelos eriçados ao ouvir a potência das vozes da torcida inglesa cantando, no auge do Yeah-Yeah-Yeah, a linha de quatro mais genial daquele país: os Beatles.